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D

Labirinto de Seda, Tinta e Teimosia

O sol da manhã entrava pelas enormes janelas de vidro da cobertura de Emanuel, refletindo-se nas superfícies de mármore e no brilho das joias que Sara insistia em usar logo cedo. Emanuel estava sentado à cabeceira, observando Sara comer morangos com creme. Ela irradiava uma confiança vulcânica, a gravidez de quatro meses apenas acentuando sua presença dominante.

— Querido, você precisa relaxar — disse Sara, levando um morango aos lábios perfeitamente pintados. — A pequena bailarina está segura no quarto de hóspedes. Ela parece um anjo quando dorme, mesmo que tenha o temperamento de uma tempestade em copo d'água.

— Eu sei, Sara. Mas o pai dela e o Gabriel estarão aqui em dez minutos — Emanuel respondeu, ajeitando os punhos da camisa escura que escondia parte das tatuagens em seus braços. — E eles não vêm para tomar café.

— Deixe que venham — Sara sorriu, encostando-se na cadeira e acariciando a barriga onde Ágata crescia. — Eles querem proteção para ela. Você oferece o mundo. É uma conta simples.

A campainha tocou, interrompendo a paz matinal. Emanuel levantou-se, sua postura tornando-se rígida, o olhar gélido de quem comanda impérios de tinta e negócios. Quando abriu a porta, deparou-se com o pai de Eduarda — um homem que parecia ter envelhecido dez anos em uma noite — e Gabriel, que tinha olheiras profundas e uma expressão de pura derrota.

— Onde ela está, Emanuel? — perguntou o pai, entrando na sala sem esperar convite.

— Ela está descansando — Emanuel respondeu, a voz calma, mas carregada de uma autoridade inquestionável. — Sentem-se. Precisamos conversar como homens que querem o bem da Eduarda.

Sara permaneceu à mesa, observando a cena com um divertimento malicioso.

— Bom dia, cavalheiros — disse ela, a voz aveludada e irônica. — Aceitam um café ou o clima está tenso demais para cafeína?

— Sara, por favor — Gabriel murmurou, sentando-se no sofá de couro. — Emanuel, o meu pai está fora de si. A Duda nunca agiu assim. Primeiro o cabaré, depois fugir para o meio do mato...

— Ela está tentando respirar, Gabriel — Emanuel interveio, sentando-se à frente deles. — E vocês estão sufocando a menina. O que aconteceu ontem foi um grito de liberdade, por mais imprudente que tenha sido.

— Liberdade? — o pai de Eduarda explodiu, jogando uma pasta sobre a mesa de centro. — Emanuel, você é meu amigo, ou pelo menos eu achava que era. Mas olhe o que eu encontrei no histórico do computador dela hoje cedo. Eu ia levar as coisas dela para a faculdade e o laptop estava aberto.

Emanuel inclinou-se para frente. Gabriel parecia querer enfiar a cabeça na terra.

— É uma lista — disse o pai, a voz falhando por um segundo. — Uma lista de "Cabarés de Luxo e Casas de Performance Erótica" que ela planejava visitar para, e cito as palavras dela, "entender a desconstrução do movimento clássico em ambientes de transgressão". Emanuel, ela marcou cinco lugares! Ela quer ir a casas noturnas de reputação duvidosa para fazer esboços!

Sara soltou uma gargalhada sonora, quase engasgando com o suco.

— Ah, eu adoro essa garota! — exclamou Sara. — Ela tem visão, vocês precisam admitir.

— Não tem graça nenhuma, Sara! — Gabriel exclamou. — Ela é uma criança!

— Ela tem vinte anos, Gabriel — Emanuel disse, os olhos fixos no pai de Eduarda. — E é por isso que estou aqui. Vocês não conseguem mais controlá-la. Quanto mais vocês apertam, mais ela escorrega.

O pai de Eduarda suspirou, as mãos cobrindo o rosto.

— O que você sugere, Emanuel? Trancá-la em um quarto?

— Não — Emanuel disse, a voz soando como um veredito definitivo. — Eu sugiro que ela fique sob a minha guarda. Oficialmente. Eu e Eduarda estamos... começando algo.

O silêncio que se seguiu foi absoluto. Gabriel arregalou os olhos, e o pai de Eduarda levantou a cabeça lentamente.

— Você está dizendo que... você e a minha filha... — o pai começou, a voz trêmula.

— Eu amo a Sara — Emanuel disse, olhando brevemente para a esposa, que assentiu com um sorriso encorajador —, e ela é a minha esposa, a mãe da minha filha. Mas eu também amo a Eduarda. E eu vou cuidar dela. Ela terá segurança, terá financiamento para os estudos dela e, acima de tudo, terá alguém que entenda a sua arte sem tentar podá-la.

— Você quer que ela seja sua... segunda mulher? — Gabriel perguntou, incrédulo.

— Eu quero que ela seja feliz e segura — Emanuel corrigiu. — E, neste momento, o único lugar onde ela está segura é aqui, comigo e com a Sara.

— Isso é loucura — o pai murmurou, mas havia uma nota de hesitação em sua voz. Ele sabia do poder de Emanuel. Sabia que, nas mãos dele, Eduarda nunca passaria necessidade ou perigo real.

Nesse momento, Eduarda apareceu no topo da escada. Ela usava um dos robes de seda de Sara, que ficava enorme em seu corpo esguio, e tinha o cabelo castanho preso em um coque bagunçado. Ela desceu os degraus lentamente, com um bico enorme no rosto e os braços cruzados.

— Eu ouvi tudo — disse ela, parando no último degrau. — E eu não sou uma "banana" para ser disputada.

— Duda, por favor — começou Gabriel, levantando-se.

— Não, Biel! — Ela bateu o pé, a expressão manhosa e teimosa voltando com força total. — O papai mexeu no meu computador! Isso é violação de privacidade! Aquela lista era para o meu TCC sobre a estética do corpo marginalizado!

— Eduarda, são bordéis! — o pai gritou, levantando-se também. — Você quase me deu uma síncope!

— São locais de performance! — ela retrucou, o lábio inferior tremendo. — E se o Emanuel não tivesse me buscado ontem, eu teria chegado na costureira e provado que sou independente!

Emanuel levantou-se e caminhou até ela. A diferença de altura era intimidadora, mas o toque dele, quando pousou a mão na cintura dela, foi de uma suavidade extrema.

— Chega de discussões — disse Emanuel, olhando para o pai e para o irmão dela. — A decisão está tomada. Eduarda vai passar a semana aqui. Vamos formalizar o nosso relacionamento. Vocês podem vir visitá-la, mas a segurança dela agora é minha responsabilidade.

O pai de Eduarda olhou para a filha, depois para Emanuel e, por fim, para Sara, que parecia a rainha de todo aquele arranjo. Ele viu a proteção obsessiva nos olhos de Emanuel e a aceitação na postura de Sara.

— Se você encostar um dedo nela de forma que ela não queira, Emanuel... — o pai começou, mas a ameaça morreu na garganta.

— Eu daria a minha vida por ela, você sabe disso — Emanuel respondeu com uma sinceridade cortante.

Gabriel, vendo que a batalha estava perdida e que, de certa forma, sua irmã estaria em um palácio de ouro, apenas suspirou.

— Juízo, Duda. Por favor. E apague aquela lista do computador.

— Não apago! — ela exclamou, fazendo o bico crescer ainda mais. — O Emanuel vai me levar para visitar esses lugares com segurança, não vai, Emanuel?

Emanuel olhou para a bailarina manhosa em seus braços e depois para a lista de cabarés sobre a mesa.

— Vamos conversar sobre isso, Diamante Negro — ele disse, usando o apelido da noite anterior, o que a fez corar instantaneamente.

Depois que o pai e o irmão saíram, ainda atordoados, a cobertura voltou ao seu silêncio luxuoso. Sara aproximou-se de Eduarda e ajeitou a gola do robe de seda na menina.

— Bem-vinda à família, querida — disse Sara, dando um beijo na bochecha dela. — Agora, tire esse bico do rosto. Emanuel comprou três pares de sapatilhas de ponta novas para você e estão no quarto.

Eduarda olhou para Emanuel, a raiva da discussão sendo substituída pela carência que sempre a levava de volta para ele.

— Três pares? — ela perguntou, a voz ficando doce e manhosa.

— E um conjunto de pincéis novos para seus esboços — Emanuel completou, puxando-a para um abraço apertado. — Mas a lista de cabarés... essa nós vamos revisar juntos. Eu decido quais são seguros para os seus olhos.

— Você é muito mandão — ela murmurou contra o peito dele, mas suas mãos o apertaram com força.

— E você é muito teimosa — ele respondeu, beijando o topo da cabeça dela.

Sara observava os dois, sentindo-se satisfeita. O império de Emanuel estava completo. Ele tinha a força e a lealdade dela, e agora tinha a delicadeza e a obsessão de Eduarda. Entre joias, tintas de tatuagem e sapatilhas de balé, a vida deles se tornava um labirinto onde só existia uma regra: ninguém escapava do amor de Emanuel.

— Emanuel? — Eduarda chamou, olhando para ele com olhos brilhantes.

— O que foi, pequena?

— Eu ainda quero ver as plumas.

Emanuel soltou uma risada baixa e possessiva.

— Você terá todas as plumas do mundo, Duda. Mas apenas as que eu colocar no seu caminho.

E assim, sob o sol da manhã, o triângulo se fechou. A loira, o tatuador e a bailarina, unidos por um laço que o mundo jamais entenderia, mas que para eles, era a única forma de perfeição possível.

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