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O Labirinto de Seda e a Estrada de Terra
A mansão de Emanuel, no topo da colina mais exclusiva da cidade, ainda guardava o eco da presença de Eduarda. Fora apenas uma noite, mas para o tatuador, aquele breve período em que ela dormiu sob o seu teto, respirando o mesmo ar condicionado e caminhando descalça por seus tapetes persas, fora um vislumbre do paraíso que ele pretendia construir. O pai dela, no entanto, não facilitara. Assim que o sol raiou no dia seguinte ao incidente no cabaré, o homem apareceu no portão, com o rosto pétreo e uma autoridade que nem mesmo os milhões de Emanuel puderam dobrar. Eduarda fora levada de volta para a redoma de vidro da família, deixando Emanuel com um vazio que ele preenchia com trabalho obsessivo e presentes caros para Sara.
Meses haviam se passado. A barriga de Sara agora era uma curva proeminente e orgulhosa, abrigando a pequena Ágata que chutava com vigor. Emanuel, sentado em seu escritório, observava a esposa abrir uma caixa de veludo azul-marinho.
— Emanuel, você é impossível — Sara exclamou, retirando um colar de esmeraldas que brilhava como os olhos de uma serpente sob a luz do lustre. — Outra joia? Daqui a pouco não terei mais pescoço para carregar tanto ouro.
— Nada é demais para você, Sara — Emanuel respondeu, levantando-se para fechar o fecho da joia na nuca dela. — E Ágata merece nascer em um berço de pedras preciosas.
— Você está me mimando para compensar a falta da pequena bailarina, não está? — Sara virou-se, os lábios pintados de um carmim profundo se curvando em um sorriso cúmplice. — Eu não me importo, querido. Sei que seu coração é grande o suficiente para nós duas. Mas você soube da última? Gabriel me ligou bufando. Parece que a Duda resolveu que as figurinistas da capital não prestam.
Emanuel travou o movimento das mãos. Qualquer menção a Eduarda fazia seus sentidos entrarem em alerta máximo.
— O que ela fez agora?
— Ela cismou com uma costureira de mão cheia que mora na cidade vizinha, em um vilarejo perdido no meio do nada. Quer um figurino específico para o recital de inverno. Gabriel disse que não podia levá-la hoje porque tem uma convenção de tatuagem, e o pai dela está enterrado em reuniões.
Emanuel sentiu uma premonição ruim. Eduarda era sensível e intuitiva, mas quando se tratava de sua arte, ela possuía uma teimosia infantil que beirava a imprudência.
— Ela não seria louca de ir sozinha — Emanuel murmurou, já pegando o celular.
— Oh, você não conhece a Duda quando ela quer algo — Sara riu, sentando-se com dificuldade na poltrona de veludo. — Ela tem aquele jeito manhoso, mas por baixo do tule, existe uma gata teimosa.
Nesse exato momento, o telefone de Emanuel tocou. Era Gabriel.
— Emanuel! Cara, a Duda sumiu! — A voz do amigo estava carregada de pânico puro. — Ela pegou o carro da minha mãe e saiu. Deixou um bilhete dizendo que ia buscar o "vestido perfeito". Eu já liguei dez vezes e ela não atende! O GPS do carro dela está desligado, aquela maluca deve ter desativado para ninguém seguir!
— Eu estou indo para a sua casa agora — Emanuel rosnou, a fúria e a preocupação lutando pelo domínio de sua voz. — Avise o seu pai. Vamos rastrear o sinal do celular dela, não o do carro.
***
Duas horas depois, o cenário era de guerra fria na sala da família de Eduarda. O pai dela andava de um lado para o outro, o rosto vermelho de indignação. Gabriel estava debruçado sobre um laptop, tentando triangular o sinal do aparelho da irmã. Emanuel estava parado junto à janela, os braços cruzados, a mandíbula tão tensa que parecia prestes a quebrar.
— Ela passou da fronteira da cidade — Gabriel anunciou, a voz trêmula. — O sinal está oscilando. Ela está entrando em uma zona rural, Emanuel. No meio do mato.
— Se acontecer alguma coisa com a minha filha naquela estrada... — o pai dela começou, mas foi interrompido pelo toque estridente do celular de Gabriel.
— É ela! — Gabriel colocou no viva-voz imediatamente. — EDUARDA! Onde você está, sua maluca? Você tem noção do que está fazendo? O pai está tendo um infarto aqui!
Houve um silêncio do outro lado, seguido pelo som de vento e o barulho de pneus sobre cascalho. Então, a voz de Eduarda surgiu, doce, calma e irritantemente provocadora.
— Oi, Biel. Oi, papai. Nossa, como vocês gritam. Dá para ouvir os pulmões de vocês daqui.
— Eduarda Cristina, você pare esse carro agora e mande a sua localização! — o pai berrou, aproximando-se do aparelho.
— Não — ela respondeu, e Emanuel pôde quase ver o bico manhoso que ela estava fazendo. — Se vocês continuarem gritando comigo, eu não vou dizer onde estou. E se tentarem me rastrear, eu desligo o celular e jogo no mato. Eu só quero a minha costureira. Ela faz as pregas do tutu como ninguém.
Emanuel deu um passo à frente, sua voz saindo baixa, gélida e carregada de uma autoridade que fez o pai e o irmão de Eduarda se calarem instantaneamente.
— Eduarda. Sou eu.
Houve uma pausa do outro lado da linha. O tom de voz dela mudou imediatamente, perdendo a petulância e ganhando uma nota de hesitação.
— Emanuel? O que você está fazendo aí?
— Eu estou cuidando do que é meu, Eduarda. E agora, você é a minha prioridade. Você está em uma estrada de terra, sem sinal confiável, indo para um lugar que nem você conhece direito. Você tem cinco segundos para me dizer um ponto de referência antes que eu mobilize todos os meus seguranças para fechar cada estrada desse estado.
— Você está sendo mandão de novo — ela sussurrou, e Emanuel sentiu o coração apertar com a fragilidade na voz dela. — Eu só queria fazer algo sozinha. Todo mundo me trata como se eu fosse quebrar.
— E você vai quebrar se cair em um buraco nessa serra! — Gabriel explodiu novamente. — Duda, pelo amor de Deus!
— Viu? — ela disse, voltando ao tom provocador. — O Biel começou de novo. Tchau, gente. Quando eu achar o vestido, eu aviso.
— EDUARDA, NÃO DESLIGUE! — Emanuel gritou, mas o som de "clique" encerrou a chamada.
O silêncio que se seguiu foi aterrador.
— Ela desligou — Gabriel disse, olhando para a tela preta. — Ela realmente desligou.
Emanuel não esperou. Ele saiu da casa em passos largos, entrando em seu carro. Ele sabia para onde ela estava indo. Durante a noite que ela passara em sua casa, ela comentara sobre uma "fada das agulhas" que morava perto de uma cachoeira em uma cidade vizinha chamada Santo Antônio. Era uma informação irrelevante para qualquer um, mas Emanuel guardava cada palavra que saía da boca dela como se fosse um tesouro.
***
A estrada de terra era pior do que Emanuel imaginara. O SUV sacudia violentamente enquanto ele subia a serra, a vegetação ficando cada vez mais fechada. O sol já estava começando a baixar, lançando sombras longas e distorcidas pelas árvores.
Depois de quase quarenta minutos de busca cega, ele viu um brilho metálico entre as folhagens. Era o carro da mãe de Gabriel, parado no acostamento de uma curva acentuada. O pneu dianteiro estava estourado e a frente do veículo havia batido levemente em um barranco.
Emanuel sentiu o sangue gelar. Ele freou bruscamente, saltando do carro antes mesmo de desligar o motor.
— EDUARDA! — ele gritou, a voz ecoando pela mata silenciosa.
Não houve resposta. Ele correu até o carro dela. Estava vazio. A porta do motorista estava aberta e o celular dela estava jogado no banco, com a tela trincada.
O pânico, um sentimento que Emanuel raramente permitia que o dominasse, subiu por sua garganta. Ele olhou ao redor e viu marcas de sapatilhas no barro úmido, seguindo para uma trilha estreita que descia em direção ao som de água corrente.
Ele desceu a trilha em disparada, ignorando os galhos que arranhavam seus braços e rasgavam sua camisa de grife. No final da descida, perto de um riacho raso, ele a viu.
Eduarda estava sentada em uma pedra, com o vestido de flores sujo de lama e o rosto escondido entre os joelhos. Ela soluçava baixinho, uma figura de pura desolação e fragilidade.
— Eduarda... — ele chamou, a voz falhando pelo esforço e pela emoção.
Ela levantou o rosto, os olhos castanhos inchados de tanto chorar. Ao vê-lo, ela não correu para seus braços imediatamente. Em vez disso, ela fez um bico, as lágrimas escorrendo novamente.
— Você demorou — ela reclamou, a voz manhosa e embargada. — O pneu furou e um bicho estranho fez barulho no mato. Eu perdi o meu sapato na lama.
Emanuel soltou um suspiro que pareceu carregar todo o peso do mundo. Ele caminhou até ela, ajoelhando-se no chão úmido e segurando o rosto dela entre as mãos.
— Você é a criatura mais teimosa e imprudente que eu já conheci — ele disse, a testa encostada na dela. — Você quase me matou de susto. Seu pai e seu irmão estão prontos para te trancar em uma torre.
— Eu só queria a costureira... — ela soluçou, agarrando-se à camisa dele. — Eu queria ser independente, Emanuel. Mas a estrada é tão grande e eu sou tão pequena.
— Você nunca está sozinha, Duda. Eu já te disse isso.
Ele a pegou no colo, levantando-a como se ela não pesasse nada. Eduarda escondeu o rosto no pescoço dele, aspirando o cheiro de sândalo e adrenalina que emanava de Emanuel.
— Você vai me levar para casa? — ela perguntou, a voz sumindo. — O papai vai me matar.
— Eu vou te levar para um lugar seguro — Emanuel respondeu, o olhar endurecendo. — Mas primeiro, vou ligar para eles e dizer que você está comigo. E depois, você vai ter que lidar com as consequências de ter fugido de mim.
***
De volta ao SUV, com o aquecedor ligado e Eduarda enrolada no paletó de Emanuel, o silêncio era denso. Ele já havia avisado Gabriel e o pai, enfrentando os gritos de alívio e fúria de ambos com uma calma gélida. Ele garantiu que cuidaria dela naquela noite e que a levaria de volta no dia seguinte. Ninguém ousou contestar.
— Emanuel? — ela chamou, baixinho, enquanto ele dirigia de volta para a capital.
— Sim.
— A Sara vai ficar brava?
Emanuel olhou para ela pelo canto do olho. Eduarda parecia uma criança perdida, apesar de seus vinte anos e de sua inteligência acadêmica.
— A Sara está preocupada com você, Duda. Ela gosta de você. E ela sabe que eu não teria paz enquanto não te encontrasse.
— Eu não quero ser um problema entre vocês — ela sussurrou, fechando os olhos.
— Você não é um problema. Você é a peça que faltava no nosso quebra-cabeça — Emanuel disse, estendendo a mão e apertando a dela. — Mas não pense que essa sua aventura vai passar em branco. Você me deve explicações, e eu vou querer cada detalhe dessa sua teimosia.
Eduarda não respondeu. Ela adormeceu sob o calor do casaco dele, exausta pelas emoções do dia.
Emanuel dirigia pela noite, sentindo uma satisfação sombria. O susto fora grande, mas o resultado fora perfeito. Ele provara, mais uma vez, que era o único capaz de encontrá-la e protegê-la quando o mundo se tornava grande demais para ela.
Ao chegar em sua cobertura, Sara os esperava na porta, usando um robe de seda e exibindo o colar de esmeraldas que ele lhe dera mais cedo.
— Veja só o que o vento trouxe — Sara disse, observando Emanuel carregar a bailarina adormecida para dentro. — Ela parece um anjo sujo de terra.
— Ela tentou fugir, Sara — Emanuel disse, colocando Eduarda cuidadosamente no sofá da sala. — Mas ela esqueceu que todos os caminhos dela levam a mim.
Sara aproximou-se, acariciando o cabelo castanho de Eduarda com uma delicadeza quase materna, mas com um brilho de posse nos olhos.
— Ela é adorável em sua rebeldia — Sara comentou. — Mas agora que ela está aqui, Emanuel... acho que não deveríamos deixá-la sair tão cedo. Ágata precisa de companhia, e eu preciso de alguém para me ajudar a escolher os sapatinhos de balé da nossa filha.
Emanuel olhou para as duas mulheres de sua vida. A loira siliconada e exuberante que era seu porto seguro, e a castanha sensível e manhosa que era sua obsessão. Ele sentia-se completo.
— Ela não vai a lugar nenhum — Emanuel afirmou, cobrindo Eduarda com uma manta de cashmere. — Amanhã eu resolvo com o pai dela. Se ele quer que ela esteja segura, ela ficará aqui. Onde eu possa vê-la. Onde eu possa controlá-la.
Eduarda se mexeu no sono, murmurando algo sobre "plumas e agulhas". Ela não sabia, mas sua pequena fuga para a cidade vizinha havia selado seu destino de forma definitiva. No labirinto de seda e desejos de Emanuel, não havia mapas que levassem para fora. Havia apenas o abraço protetor e sufocante de um homem que amava demais e de uma mulher que não se importava em compartilhar o seu trono, contanto que o reino estivesse sempre em paz e sob seu comando.
A noite caiu sobre a cobertura, silenciosa e absoluta. Emanuel sentou-se entre as duas, uma mão na barriga de Sara e a outra acariciando o pé descalço de Eduarda. Ele era o rei de um império de tintas e segredos, e finalmente, todas as suas joias estavam guardadas em seu cofre de vidro.