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Sombras de Veludo e a Teimosia da Bailarina
O aroma de café recém-passado e o cheiro doce do perfume de Sara preenchiam a cobertura de Emanuel naquela manhã de sábado. Sara, envolta em um robe de seda carmesim que mal escondia as curvas acentuadas e a pequena protuberância em seu ventre, estava sentada no balcão da cozinha. Ela saboreava uma salada de frutas que Emanuel fizera questão de preparar, cortando cada pedaço com uma precisão quase cirúrgica.
— Você está me mimando demais, Manu — disse Sara, soltando uma risada rouca enquanto ele depositava um beijo em seu ombro nu. — Se continuar assim, vou acabar esquecendo como se usa uma faca.
— Você está carregando meu filho, Sara — Emanuel respondeu, sua voz grave ressoando com uma autoridade carinhosa. — E, além disso, eu gosto de cuidar de você. Você sabe que eu não faço nada que não queira.
Sara virou-se, passando os braços pelo pescoço dele, as unhas longas e perfeitamente pintadas de dourado arranhando levemente a nuca do tatuador.
— Eu sei. E eu amo o seu controle. Mas você está tenso hoje. É a Duda, não é?
Emanuel suspirou, encostando a testa na dela. A racionalidade que ele tanto prezava parecia falhar sempre que o assunto era a "pequena bailarina".
— Ela está com uma ideia absurda, Sara. Cismou que, para o TCC da faculdade sobre a estética do submundo e a Belle Époque, ela precisa visitar um cabaré. Um de verdade.
Sara soltou uma gargalhada genuína, fazendo seus seios siliconados balançarem sob a seda.
— Aquela bonequinha de porcelana quer ir a um cabaré? Emanuel, isso é hilário! Ela vai desmaiar no primeiro cheiro de gim barato e suor.
— Não tem graça — Emanuel rosnou, embora um meio sorriso tenha surgido no canto de sua boca. — O pai dela, o Sr. Augusto, quase teve um derrame quando ela mencionou isso no jantar de ontem. Ele proibiu terminantemente. E, pela primeira vez, eu concordo plenamente com ele. É perigoso, é vulgar... não é lugar para ela.
— E desde quando a Eduarda obedece quando coloca uma coisa na cabeça? — Sara perguntou, arqueando uma sobrancelha loira. — Ela é manhosa, Emanuel, mas é pirracenta. Aquela carinha de anjo esconde uma teimosia que você ainda não aprendeu a lidar.
Emanuel apertou a cintura de Sara. Ele sabia que ela tinha razão. Eduarda, com sua voz suave e gestos delicados, tinha um jeito de conseguir o que queria, muitas vezes através de uma persistência silenciosa e emocionalmente exaustiva.
***
Do outro lado da cidade, no quarto decorado em tons pastéis na casa de seus pais, Eduarda bufava diante do espelho. Ela usava um par de sapatilhas de ponta, amarrando as fitas de cetim com uma força desnecessária. A raiva, nela, não se manifestava com gritos, mas com um biquinho insistente e olhos marejados de frustração.
— "Não é ambiente para uma moça", "A arte pode ser estudada em livros" — ela imitava a voz grossa do pai, falando baixinho para si mesma. — Eles não entendem. Eles acham que eu sou feita de açúcar.
Ela se levantou e tentou fazer um *arabesque*, mas o equilíbrio falhou. Sua mente estava longe, focada no "L’Étoile Noire", um clube noturno que mantinha a estética dos antigos bordéis parisienses, localizado em uma zona boêmia que Emanuel conhecia bem demais.
Eduarda sabia que Emanuel seria sua melhor chance de entrar lá com segurança, mas ele tinha sido tão irredutível quanto seu pai. Aquilo a magoava. Ela sentia que ele a via como uma criança, alguém que precisava ser guardada em uma caixa de música. E, embora ela amasse a proteção dele — amasse o jeito como ele a envolvia com seu porte grande e seguro —, ela também queria ser vista como mulher. Uma mulher que podia suportar a realidade.
— Se ninguém vai me levar... — murmurou ela, soltando o cabelo castanho do coque apertado, deixando que as ondas caíssem de forma selvagem pelas costas — ... eu vou sozinha.
A insegurança deu um soco em seu estômago, mas a pirraça foi mais forte. Ela pegou o celular e discou o número de Sara. Se havia alguém que entenderia o desejo de desafiar as regras, era ela.
— Sara? — a voz de Eduarda saiu trêmula, mas decidida.
— Oi, gracinha! O Emanuel acabou de sair para o estúdio. O que manda?
— Eu vou ao L’Étoile hoje à noite. Meu pai proibiu, o Emanuel me deu um sermão... mas eu vou. Você... você me ajuda a me vestir? Eu não quero parecer uma estudante de história da arte perdida.
Houve um silêncio do outro lado da linha. Eduarda segurou o fôlego. Então, a risada de Sara preencheu o receptor.
— Ah, Duda... você vai matar o Emanuel do coração. E eu vou adorar assistir. Esteja aqui em duas horas. Vamos transformar essa bailarina em uma tentação noturna.
***
A noite caiu sobre a cidade como um manto de veludo pesado. Emanuel estava em seu estúdio principal, finalizando uma tatuagem complexa nas costas de um cliente. O som da máquina de tatuar era um zumbido constante que costumava acalmá-lo, mas seu celular não parava de vibrar.
Eram mensagens de Sara.
"Você não vai acreditar no que a sua protegida está aprontando." "Acho que você deveria passar no L’Étoile Noire por volta das onze." "Leve um casaco. Ela vai precisar de cobertura... em todos os sentidos."
Emanuel sentiu a pulsação acelerar na base do pescoço. Ele limpou a área tatuada, colocou o curativo e dispensou o cliente às pressas. O estresse, seu velho companheiro, subiu como uma maré. Ele pegou as chaves do SUV e saiu, dirigindo pelas ruas molhadas com uma urgência que beirava a imprudência.
— Eduarda, se você estiver lá... — ele murmurou, apertando o volante com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.
Quando ele chegou à frente do clube, o neon vermelho piscava, refletindo nas poças de óleo no asfalto. O lugar era conhecido por ser um refúgio de artistas, boêmios e pessoas perigosas. Emanuel entrou, sua presença imponente abrindo caminho entre a multidão. O cheiro de tabaco, perfume caro e álcool era sufocante.
Ele a viu quase imediatamente.
Eduarda estava sentada em uma mesa de canto, próxima ao palco onde uma performer de burlesco se preparava. Ela não parecia a Eduarda que ele conhecia. Sara tinha feito um trabalho impecável. Ela usava um vestido de renda preta com um forro nude que dava a ilusão de transparência, curto o suficiente para mostrar as pernas torneadas pelo ballet. O cabelo estava volumoso, e a maquiagem carregada nos olhos dava a ela um ar de mistério melancólico.
Mas, ao se aproximar, Emanuel viu a verdade. Ela estava segurando uma taça de vinho com as duas mãos, os olhos arregalados, observando tudo com uma mistura de fascínio e puro terror. Ela parecia pequena e deslocada naquele mar de decadência.
— O que você pensa que está fazendo aqui? — a voz de Emanuel cortou o ar acima da música ambiente.
Eduarda deu um pulo, quase derrubando o vinho. Ela olhou para cima e encontrou o olhar furioso e protetor de Emanuel. O medo inicial foi substituído por uma onda de teimosia. Ela empinou o queixo, fazendo aquele biquinho que ele tanto odiava amar.
— Eu estou pesquisando, Emanuel. Eu te disse. É para a faculdade.
— Pesquisando? — ele se inclinou sobre a mesa, as mãos tatuadas apoiadas na madeira, cercando-a. — Você tem ideia de quem frequenta este lugar? Você tem ideia de que seu pai está a um passo de ligar para a polícia?
— Meu pai não manda em mim! — ela rebateu, a voz subindo um tom, embora estivesse claramente à beira das lágrimas. — E você também não! Vocês me tratam como se eu fosse um objeto quebrável. Eu quero ver o mundo, Emanuel! Eu quero ver a arte onde ela é crua!
Emanuel sentiu uma pontada de culpa misturada com a raiva. Ele a puxou pelo braço, não com força, mas com uma firmeza inegável, obrigando-a a se levantar.
— Você quer ver o mundo? Ótimo. Mas você vai ver comigo. Ou com a Sara. Nunca sozinha.
— A Sara sabia que eu vinha! — Eduarda disparou, tentando se soltar. — Ela me ajudou!
Emanuel parou por um segundo, processando a informação. Sara. É claro que Sara tinha incentivado aquilo. Ela queria testar os limites dele, queria ver o circo pegar fogo. E, no fundo, ele sabia que Sara fizera isso para forçá-lo a agir, para tirar Eduarda daquela zona de conforto de "amiga de infância".
— Nós vamos conversar com a Sara depois — Emanuel disse, sua voz tornando-se perigosamente baixa. — Agora, você vem comigo.
— Não! Eu ainda não terminei minhas anotações! — Eduarda se recusou a andar, plantando os pés no chão. Ela se apoiou no peito dele, tentando empurrá-lo, mas acabou apenas se aninhando inconscientemente no calor do corpo dele. — Por favor, Manu... só mais meia hora.
A forma como ela usou o apelido de infância, combinada com o olhar manhoso e os olhos úmidos, desarmou Emanuel completamente. Ele soltou um suspiro pesado, fechando os olhos por um momento para recuperar o controle.
— Dez minutos — ele cedeu. — E eu vou ficar sentado bem aqui.
Ele se sentou na cadeira ao lado dela, cruzando os braços. O contraste era absurdo: o homem grande, de expressão fechada e roupas escuras, protegendo a pequena bailarina vestida de renda que tentava, sem muito sucesso, parecer uma intelectual boêmia.
Eduarda, sentindo que tinha vencido a batalha, relaxou o corpo, encostando a cabeça no ombro de Emanuel.
— Obrigada — sussurrou ela. — Eu sabia que você viria me buscar.
— Você é impossível, Duda.
— Eu sou sensível — ela corrigiu, fechando os olhos e aproveitando o cheiro de tinta e sabão que emanava dele. — E eu precisava que você me visse aqui.
Emanuel não respondeu, mas sua mão, quase por instinto, subiu para acariciar o cabelo dela. Ele olhou para o palco, mas não viu as dançarinas. Ele via apenas o futuro que Sara estava desenhando para eles. Um futuro onde ele não precisaria mais se dividir.
***
Quando voltaram para a cobertura, já passava da meia-noite. Sara estava deitada no sofá da sala, lendo uma revista de moda, com os pés para cima. Ela levantou os olhos e sorriu ao ver a dupla entrar.
— Sobreviveram? — perguntou ela, fechando a revista.
Eduarda correu para Sara, jogando-se ao lado dela no sofá, a pirraça dando lugar à necessidade de afeto.
— O Emanuel foi um chato, Sara! Ele quase me carregou no colo para fora do clube.
— Eu deveria ter carregado mesmo — Emanuel disse, jogando as chaves na mesa de centro. — Sara, você perdeu o juízo? Ela poderia ter se metido em uma briga, ou coisa pior.
Sara se levantou com dificuldade, devido à leve tontura da gravidez, e caminhou até Emanuel. Ela passou as mãos pelo peito dele, acalmando a fera.
— Mas ela não se meteu, não é? Porque você estava lá. Eu sabia que você iria. E olhe para ela, Emanuel... — Sara apontou para Eduarda, que agora estava tirando os sapatos altos, parecendo exausta e doce. — Ela precisava desse gostinho de liberdade. E precisava saber que você é a âncora dela.
Emanuel olhou de Sara para Eduarda. A loira, vulcanica e prática, e a morena, suave e emocional. As duas mulheres que ocupavam cada centímetro de seus pensamentos.
— Vocês duas vão acabar comigo — ele murmurou, mas já não havia raiva em sua voz.
— Pelo contrário — Sara disse, aproximando-se de Eduarda e estendendo a mão para ajudá-la a levantar. — Nós vamos completar você. Duda, querida, você vai dormir aqui hoje. Está muito tarde para voltar para a casa dos seus pais e enfrentar o interrogatório do seu pai. Eu já liguei para sua mãe e disse que você vai passar a noite comigo estudando.
Eduarda olhou para Sara com gratidão.
— Obrigada, Sara. Você é... você é incrível.
— Eu sei, boneca. Agora vá tomar um banho e tire essa maquiagem antes que você borre meus lençóis de seda.
Eduarda caminhou em direção ao corredor dos quartos, mas parou antes de entrar. Ela olhou para Emanuel, que ainda a observava com aquela intensidade protetora.
— Boa noite, Manu — disse ela, com um sorriso tímido.
— Boa noite, pequena.
Quando ela sumiu de vista, Emanuel puxou Sara para um abraço apertado.
— Você está jogando um jogo perigoso, Sara.
— Não é um jogo, Emanuel. É a nossa vida — ela respondeu, enterrando o rosto no pescoço dele. — Eu amo você. E eu vejo como você olha para ela. Eu quero que sejamos nós três. O bebê vai precisar de todo o amor do mundo, e a Duda tem amor de sobra para dar. Ela só precisa entender que pode ser nossa.
Emanuel beijou o topo da cabeça de Sara, sentindo o peso da responsabilidade e a estranha paz que aquela ideia trazia. Ele era um homem de lógica, mas ali, entre o desejo por Sara e a adoração por Eduarda, a única lógica que importava era a do coração.
Naquela noite, sob o teto de Emanuel, o silêncio não era de segredos, mas de promessas silenciosas. Eduarda dormiu o sono dos anjos, sentindo-se, pela primeira vez, verdadeiramente vista. Sara dormiu com a certeza de quem detém o controle do destino. E Emanuel... Emanuel ficou acordado por um longo tempo, vigiando as duas, pronto para ser o muro que as protegeria de qualquer tempestade que o mundo pudesse enviar.