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Segredos de Veludo e o Peso do Desejo

O Shopping Iguatemi fervilhava com a energia típica de um sábado à tarde. Emanuel caminhava com sua postura imponente, os braços musculosos e cobertos por tatuagens contrastando com a simplicidade de sua camiseta preta de algodão egípcio. Ao seu lado, Sara era um acontecimento. Usando um vestido justo de estampa de onça que realçava cada curva de seu corpo siliconado e a sutil elevação de sua barriga de um mês, ela atraía olhares de admiração e reprovação na mesma medida. Sara não se importava; ela adorava o choque que causava.

— Manu, olha aquele conjunto na vitrine! — Sara apontou para uma loja de lingerie de luxo, sua voz vibrante cortando o murmúrio do ambiente. — Ficaria divino na Duda, você não acha? Algo bem inocente, mas que não esconde nada.

Emanuel sentiu um aperto familiar no peito. Ele parou diante da vitrine, observando o conjunto de seda branca com rendas delicadas.

— Ela é tímida demais para isso, Sara — comentou ele, embora a imagem de Eduarda usando aquela peça tenha invadido sua mente com uma força avassaladora. — Você sabe como ela é.

— Ela é manhosa, meu amor, não morta — Sara riu, apertando o braço do marido. — Às vezes, as águas mais calmas são as mais profundas. Eu sinto que a nossa bailarina tem desejos que nem ela mesma entende ainda.

Eles continuaram caminhando, Emanuel carregando as sacolas de grife de Sara com a paciência de um homem que sabia que sua mulher merecia o mundo. Foi quando, ao virarem o corredor em direção à praça de alimentação, ele a viu.

Eduarda estava parada em frente a uma livraria, mas não olhava para os livros. Ela parecia aérea, mordendo o lábio inferior com aquele jeito nervoso que sempre fazia Emanuel querer abraçá-la e dizer que tudo ficaria bem. Ela usava um vestido de florzinhas miúdas e uma sapatilha bege, o cabelo castanho preso em um rabo de cavalo frouxo que deixava algumas mechas caírem sobre o rosto doce.

O que chamou a atenção de Emanuel, no entanto, foi a sacola de papel pardo, sem logomarca aparente, que ela apertava contra o peito como se fosse um tesouro proibido.

— Duda! — Sara gritou, acenando de forma efusiva.

Eduarda deu um sobressalto tão violento que quase derrubou a sacola. Seus olhos grandes se arregalaram ao encontrar o casal, e uma mancha carmesim subiu instantaneamente de seu pescoço até as bochechas.

— Oi... Sara. Emanuel — ela gaguejou, a voz saindo pequena e trêmula.

Emanuel se aproximou, sua sombra projetando-se sobre a figura frágil da amiga de infância. Ele sentiu o cheiro de lavanda que sempre emanava dela, um contraste gritante com o perfume doce e invasivo de Sara.

— Você está bem, pequena? — perguntou ele, a voz baixando para aquele tom protetor que reservava apenas para ela. — Parece que viu um fantasma.

— Eu... eu estou bem. Só me assustei — ela respondeu, tentando esconder a sacola atrás das costas, um movimento que não passou despercebido pelos olhos observadores de Emanuel.

— Compras de sábado? — Sara perguntou, aproximando-se com um sorriso malicioso. Ela percebeu o nervosismo da menina e, com sua intuição aguçada, soube que havia algo ali. — O que tem nessa sacola misteriosa que você está tentando esconder de nós?

— Nada! — Eduarda quase gritou, atraindo a atenção de alguns transeuntes. Ela respirou fundo, tentando recuperar a compostura. — São apenas... coisas de farmácia. Vitaminas.

Emanuel franziu o cenho. Ele conhecia Eduarda desde que ela usava fraldas. Sabia quando ela estava mentindo. A forma como seus dedos apertavam o papel pardo, o suor frio que brilhava em sua testa e a maneira como ela evitava seu olhar diziam que não eram apenas "vitaminas".

O que Emanuel não fazia ideia — e o que faria seu sangue ferver se soubesse — era que dentro daquela sacola, envolto em papel de seda, estava um vibrador de silicone premium, cor de rosa chá, que Eduarda passara horas criando coragem para comprar em uma sex shop discreta no andar superior. Ela se sentia sozinha, sentia um despertar sensorial que a assustava e, na sua inocência solitária, achou que aquilo a ajudaria a lidar com a tensão que sentia toda vez que Emanuel a tocava.

— Vitaminas, hein? — Sara deu um passo à frente, sua presença vibrante cercando Eduarda. — Você sabe que eu sou formada em administração e entendo de logística, Duda. Essa sacola não parece conter frascos de plástico. Parece algo... mais sólido.

— Sara, deixe a menina em paz — Emanuel interveio, embora sua curiosidade estivesse no limite. Ele colocou a mão no ombro de Eduarda, sentindo-a tremer sob seu toque. — Duda, se você está com algum problema ou se precisa de algo que não quer contar aos seus pais, sabe que pode falar comigo.

Eduarda olhou para Emanuel, e por um segundo, a vulnerabilidade em seus olhos foi quase insuportável para ele. Ela queria se apoiar nele, queria contar que se sentia confusa, que o amava de um jeito que não era de "irmão", mas o segredo na sacola era vergonhoso demais para sua mente sensível e católica.

— Não é nada, Manu. Eu juro — ela sussurrou, a voz embargada. — Eu só... eu preciso ir. Meus pais estão me esperando para o jantar.

— Nós te levamos — Emanuel afirmou, não sendo um pedido, mas uma ordem disfarçada de cuidado.

— Não precisa! Eu vim de metrô, é rápido — ela tentou recuar.

— De jeito nenhum — Sara interveio, passando o braço pelos ombros de Eduarda. — Você vai conosco no carro novo do Manu. Ele dirige como um motorista de luxo e eu quero fofocar um pouco mais.

Sem saída, Eduarda se viu sendo conduzida pelo shopping. Emanuel caminhava logo atrás, os olhos fixos na nuca dela e na maldita sacola parda. Seu instinto protetor estava em alerta máximo. Ele era um homem prático e racional, mas aquela situação estava fugindo de seu controle. O que Eduarda poderia estar escondendo? Seria algo relacionado a algum rapaz da faculdade? A ideia de outro homem tocando ou presenteando Eduarda fez a mandíbula de Emanuel travar.

Ao chegarem ao estacionamento, Emanuel abriu a porta do SUV para as duas. Sara sentou-se na frente, e Eduarda, ainda abraçada à sacola, acomodou-se no banco de trás. Durante o trajeto, Sara não parou de falar sobre a loja de roupas, sobre os enjoos matinais e sobre como Emanuel estava sendo um "pai babão" antes mesmo do bebê nascer.

— Você não faz ideia, Duda — Sara disse, virando-se para trás enquanto Emanuel manobrava o carro no trânsito. — Ele já comprou três tipos diferentes de berços eletrônicos. O Manu quer controlar até o batimento cardíaco da criança.

Eduarda forçou um sorriso, sentindo uma pontada de tristeza. Ela amava Sara, admirava sua força e a forma como ela não tinha filtros, mas ver a felicidade do casal às vezes era como um espinho em seu coração.

— Ele só quer o melhor para vocês — Eduarda disse baixinho.

Emanuel olhou pelo retrovisor e encontrou os olhos dela.

— Eu quero o melhor para quem eu amo, Duda. Isso inclui você.

O clima no carro mudou instantaneamente. A declaração de Emanuel foi carregada de um peso emocional que fez Eduarda baixar o olhar. Sara, percebendo a tensão, apenas sorriu e voltou a olhar para a estrada. Ela não sentia ciúmes; ela sentia satisfação. Ver Emanuel tão ligado a Eduarda era exatamente o que ela queria.

Quando finalmente pararam em frente à casa de Eduarda, uma residência charmosa em um bairro nobre, a bailarina sentiu um alívio imediato.

— Obrigada pela carona — ela disse, abrindo a porta com pressa.

— Espere, pequena — Emanuel saiu do carro e deu a volta para ajudá-la.

Ao sair, Eduarda se desequilibrou levemente com a alça da sapatilha, e a sacola parda escorregou de suas mãos, caindo no tapete do carro. O papel se rasgou na lateral com o impacto.

Emanuel se abaixou rapidamente para pegar. Por um breve segundo, através do rasgo no papel pardo, ele viu um vislumbre de algo rosa, com uma textura acetinada e um formato que sua mente de homem experiente identificou em um milésimo de segundo.

O mundo pareceu parar. Emanuel segurou o objeto por fora da sacola, sentindo o formato cilíndrico e a rigidez do aparelho. Seus olhos subiram para Eduarda, que estava paralisada, o rosto agora de uma palidez cadavérica.

— Emanuel... — ela sussurrou, o nome saindo como um suspiro de agonia.

Ele não disse nada por alguns segundos. O choque inicial de ver aquele objeto nas mãos da "sua" pequena e pura bailarina foi substituído por uma onda de calor que ele não soube explicar. Não era raiva. Era uma descoberta eletrizante. Eduarda, a menina que ele protegia do mundo, tinha desejos. Desejos que ela tentava satisfazer sozinha.

— Tome cuidado, Duda — Emanuel disse, sua voz agora mais profunda, quase um rosnado contido. Ele entregou a sacola a ela, fechando o rasgo com a mão grande. — O papel está rasgado. Não deixe seus pais verem o que tem dentro.

Eduarda pegou a sacola, as mãos tremendo tanto que ela quase a deixou cair novamente. Ela não conseguia olhar para ele. Sem dizer uma palavra, ela se virou e correu para dentro de casa, fechando a porta principal com um baque surdo.

Emanuel ficou parado na calçada por um momento, a respiração pesada. Ele sentia o sangue pulsar em suas têmporas. A imagem de Eduarda usando aquilo, deitada em sua cama de solteira, gemendo baixinho o nome de alguém — ou talvez o dele —, incendiou seus pensamentos de uma forma que ele nunca permitira antes.

Ele voltou para o carro e fechou a porta com força. Sara o observava com um sorriso enigmático, as pernas cruzadas, exibindo as coxas fartas.

— Então? — Sara perguntou, a voz carregada de ironia. — Eram vitaminas, Manu?

Emanuel colocou as mãos no volante, apertando-o até os nós dos dedos ficarem brancos.

— Não. Não eram vitaminas.

Sara soltou uma risada alta e deliciada, jogando a cabeça para trás.

— Eu te disse! Aquela menina é um vulcão escondido sob uma camada de gelo. E agora, o que o meu tatuador controlador vai fazer a respeito?

Emanuel olhou para a esposa. O desejo que sentia por Sara era sólido, carnal e seguro. Mas o que ele sentia por Eduarda agora ganhara uma nova camada. Não era mais apenas proteção; era uma necessidade de ser ele o responsável por aquele prazer que ela buscava em um objeto de silicone.

— Eu vou dar a ela o que ela realmente precisa, Sara — Emanuel disse, engatando a marcha e saindo com o carro de forma agressiva. — Ela não vai precisar de brinquedos se estiver conosco.

Sara inclinou-se e beijou o rosto de Emanuel, a mão descendo para a coxa dele.

— É exatamente isso que eu quero ouvir. Ela é nossa, Manu. Ela só ainda não sabe.

Enquanto o SUV se afastava, Eduarda estava encostada atrás da porta de sua casa, o coração batendo tão forte que ela achava que ia desmaiar. Ela olhou para a sacola rasgada no chão e começou a chorar silenciosamente. Não era de tristeza, mas de uma confusão avassaladora. Emanuel vira. Ele sabia. E o jeito que ele a olhou... não foi com nojo. Foi com algo muito mais perigoso.

Ela subiu para o quarto, jogou a sacola em um canto e deitou-se na cama, abraçando o travesseiro. O cheiro de Emanuel ainda parecia estar em sua pele. Naquela noite, a bailarina não sonhou com palcos ou sapatilhas. Ela sonhou com mãos grandes e tatuadas que a guiavam para um mundo onde o medo não existia, e onde Sara e Emanuel eram os únicos que podiam acalmar o fogo que começava a queimar em seu peito.

Longe dali, no estúdio de tatuagem que ainda mantinha uma luz acesa, Emanuel desenhava. Mas não eram flores ou formas geométricas. Ele desenhava o contorno de um corpo feminino delicado, envolto em rendas pretas, com olhos que imploravam por algo que só ele poderia dar. A racionalidade de Emanuel estava perdendo a batalha para o desejo triplo que agora consumia sua alma. Ele queria sua esposa, queria seu filho e queria a bailarina. E, pela primeira vez em sua vida de controle absoluto, ele estava disposto a quebrar todas as regras para ter os três.

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