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Entre Rendas e Revelações

O sol da tarde entrava pelas janelas da loja de Sara, uma boutique de luxo no coração da área mais nobre da cidade. O ambiente exalava o cheiro de perfumes caros e o brilho de tecidos importados. Sara, impecável em um conjunto de seda que realçava seu busto agora mais generoso pela gravidez, observava Eduarda através do espelho.

A bailarina estava em um dos provadores, experimentando um vestido de seda champagne que Sara insistira que ela provasse. Eduarda saiu timidamente de trás da cortina, as mãos entrelaçadas à frente do corpo, sentindo-se exposta mesmo que o vestido fosse elegante.

— Sara, eu não sei... — murmurou Eduarda, olhando para o próprio reflexo. — É lindo, mas parece que estou usando algo que não me pertence. É muito... adulto.

Sara caminhou até ela com aquele rebolado confiante que sempre fazia Eduarda se sentir uma menina desajeitada. Ela parou atrás da bailarina e colocou as mãos em seus ombros, os dedos longos e as unhas douradas destacando-se contra a pele clara de Eduarda.

— Você é uma mulher, Duda. Uma mulher linda, delicada e que desperta coisas nos homens que você nem imagina — Sara disse, sua voz rouca e carregada de uma intenção que fez Eduarda estremecer. — Especialmente no Emanuel.

Eduarda baixou os olhos, o rosto esquentando instantaneamente. A menção ao nome dele, depois do incidente com a sacola no dia anterior, era como tocar em uma ferida aberta e pulsante.

— Ele é seu marido, Sara. Ele te ama. Ele vai ter um filho com você — Eduarda disse, como se estivesse tentando convencer a si mesma.

Sara soltou uma risada curta e deu a volta, parando bem na frente de Eduarda. Ela não recuou. Em vez disso, segurou o queixo da bailarina, forçando-a a olhar em seus olhos azuis decididos.

— Ele me ama, sim. E eu o amo mais do que qualquer coisa. Mas o Emanuel é um homem de excessos, Duda. Ele tem um império, ele tem poder, e ele tem um coração grande demais para uma mulher só. Especialmente quando a outra mulher é você.

Eduarda tentou desviar o olhar, mas Sara não permitiu.

— Não finja que não sente, pequena. Eu vejo como você olha para ele. Eu vejo como seu corpo reage quando ele entra na sala. E, o mais importante, eu sei o que ele sente por você. Ele me contou. Não existem segredos entre nós.

— Ele... ele contou? — o coração de Eduarda disparou.

— Contou que é encantado por você desde que você era uma pirralha de sapatilhas. Contou que quer te proteger de tudo, mas que também quer ser o primeiro a te desvendar.

Eduarda sentiu as pernas fraquejarem. A honestidade brutal de Sara era desarmante. Ela esperava gritos, tapas, ou ser expulsa da vida deles, mas o que encontrou foi uma aceitação quase perturbadora.

— Você não... você não tem raiva? — perguntou Eduarda, a voz falhando.

— Raiva? — Sara sorriu, e dessa vez foi um sorriso quase materno, misturado com uma malícia experiente. — Duda, eu quero que o Emanuel seja o homem mais feliz do mundo. E se para ele ser feliz ele precisa de nós duas, então é isso que ele vai ter. Eu não vejo você como uma ameaça. Eu vejo você como o complemento que falta na nossa vida. Eu sou o fogo, a vulgaridade que ele gosta, a administração do caos. Você é a paz, a doçura, a arte. Juntas, nós somos tudo o que ele precisa.

Sara soltou o queixo dela e começou a caminhar pela loja, fechando a porta principal e girando a chave. O clique da fechadura ecoou no silêncio da boutique.

— O Emanuel viu o que você comprou ontem, não viu? — Sara perguntou, voltando-se para ela com uma expressão predatória.

Eduarda sentiu vontade de desaparecer. Ela assentiu levemente, as lágrimas de vergonha ameaçando cair.

— Ele me contou. E sabe o que ele sentiu? Ele sentiu que está falhando com você. Ele sentiu que você está buscando em um pedaço de plástico o que ele deveria estar te dando com as mãos dele, com a boca dele.

— Sara, por favor... — Eduarda cobriu o rosto com as mãos.

— Escuta aqui, Eduarda — Sara aproximou-se novamente, sua voz agora era um sussurro autoritário. — Você é virgem, não é? Eu sei que é. Você se guarda, você tem medo. Mas o Emanuel não é um homem paciente quando decide o que quer. E ele quer você.

Sara puxou as mãos de Eduarda de seu rosto.

— Você precisa se preparar, Duda. O Emanuel é grande, ele é intenso. Ele não sabe ser metade de nada. Se você quer entrar nesse mundo conosco, se quer sentir o que é ser amada por um homem de verdade, você precisa preparar o seu corpo.

Eduarda estava paralisada. A vulgaridade de Sara era chocante, mas havia uma verdade crua ali que a atraía e a repelia ao mesmo tempo.

— O que você quer dizer com isso? — perguntou a bailarina, a respiração curta.

— Quero dizer que você precisa começar a se conhecer — Sara disse, descendo a mão pela cintura de Eduarda até o quadril. — Você precisa preparar a sua bucetinha para receber o Emanuel. Você é pequena, delicada... e ele é um tatuador rico que está acostumado a ter tudo o que deseja com força. Se você não se abrir, se não aprender a relaxar e a desejar o toque dele, você vai se assustar. E eu não quero que você tenha medo dele. Eu quero que você implore por ele, assim como eu faço.

Eduarda sentiu um calor úmido entre as pernas. As palavras de Sara eram como agulhas de tatuagem, marcando sua mente.

— Eu... eu não sei como fazer isso — confessou Eduarda, a voz quase inaudível.

Sara sorriu de forma triunfante. Ela foi até uma gaveta de veludo atrás do balcão e tirou um pequeno frasco de óleo essencial e uma lingerie de renda preta, tão pequena que parecia um fio.

— Eu vou te ensinar. Nós vamos fazer isso juntas. Eu vou te mostrar como se tocar, como pensar nele enquanto faz isso. E quando o Emanuel chegar hoje à noite no estúdio, e você estiver lá esperando por ele... ele não vai encontrar uma menina assustada. Ele vai encontrar a mulher que ele sempre sonhou em possuir.

— Você vai estar lá? — Eduarda perguntou, seus olhos buscando os de Sara.

— Eu sempre estarei lá, Duda. Eu vou assistir, eu vou participar, eu vou cuidar de você depois. Nós somos uma família agora. Eu, você, o Emanuel e esse bebê.

Sara pegou a mão de Eduarda e a levou até sua própria barriga, onde a vida crescia.

— Você vai nos ajudar a cuidar dele, não vai? E nós vamos cuidar de você.

Eduarda sentiu a firmeza da barriga de Sara e, por um momento, toda a insegurança e o medo pareceram dissipar-se. Ela olhou para aquela mulher loira, siliconada, que o mundo chamaria de vulgar, e viu uma generosidade que nunca encontrara em ninguém. Sara estava oferecendo a ela o seu próprio marido, o seu próprio lar, o seu próprio coração.

— Eu quero — sussurrou Eduarda. — Eu quero o Emanuel. Eu quero você.

— Ótimo — Sara disse, puxando-a para um abraço apertado, o cheiro de perfume e poder envolvendo a bailarina. — Agora, tire esse vestido. Vamos começar a sua lição. O Emanuel chega em três horas, e eu quero que você esteja pronta para ele.

***

Horas mais tarde, o estúdio de tatuagem de Emanuel estava mergulhado em uma penumbra avermelhada. Ele tinha acabado de dispensar o último assistente e estava limpando suas máquinas, o pensamento fixo na conversa que tivera com Sara por telefone. Ela dissera que tinha uma surpresa para ele.

Emanuel estava exausto, mas a tensão em seu corpo era de expectativa, não de cansaço. Ele ouviu o barulho da porta da frente se abrindo e o som de saltos altos. Sara.

Mas, junto com o som dos saltos, havia o silêncio de passos leves, quase imperceptíveis.

Ele se virou e sentiu o ar escapar de seus pulmões.

Sara estava lá, encostada no batente da porta, usando um casaco de pele falso e nada por baixo, o sorriso provocante de sempre nos lábios. Mas ao lado dela, segurando sua mão, estava Eduarda.

A bailarina usava a lingerie de renda preta que Sara lhe dera, coberta apenas por um robe de seda transparente. Seus cabelos castanhos estavam soltos, e seus olhos, embora ainda carregados de uma timidez inerente, tinham um brilho de determinação que Emanuel nunca vira.

— Eu trouxe um presente para você, Manu — Sara disse, sua voz ecoando no estúdio vazio. — A Duda tem algo para te contar.

Emanuel caminhou até elas, cada passo pesado e carregado de uma masculinidade primitiva. Ele parou na frente de Eduarda, sua altura fazendo-a parecer ainda mais frágil. Ele levantou a mão e tocou o rosto dela, o polegar roçando os lábios trêmulos.

— Pequena... — ele murmurou, a voz rouca de desejo.

— Eu... eu me preparei para você, Emanuel — Eduarda disse, as palavras saindo em um fôlego só, exatamente como Sara a ensinara. — Eu não quero mais ter medo. Eu quero ser sua. De vocês dois.

Emanuel olhou para Sara, que apenas assentiu, um brilho de orgulho nos olhos. Ele então voltou sua atenção para Eduarda, puxando-a pela cintura para colar seus corpos. Ele podia sentir o coração dela batendo como o de um pássaro engaiolado contra seu peito tatuado.

— Você não tem ideia do que está pedindo, Duda — Emanuel rosnou, enterrando o rosto no pescoço dela. — Se eu começar, eu não vou parar. Eu vou marcar você. Eu vou fazer de você minha de um jeito que ninguém mais poderá tocar.

— É o que eu quero — ela respondeu, envolvendo o pescoço dele com os braços, buscando a proteção e o fogo que só ele emanava.

Sara aproximou-se por trás de Emanuel, abraçando-o e colocando as mãos sobre as dele, que ainda seguravam Eduarda.

— Ela está pronta, Manu. Eu ensinei a ela como te desejar. Agora, mostre a ela por que você é o dono deste império.

Emanuel não precisou de mais nenhum incentivo. Ele pegou Eduarda no colo, a leveza dela facilitando o movimento, e caminhou em direção à maca de couro onde costumava criar suas obras de arte. Mas naquela noite, a arte não seria feita com tinta e agulhas. Seria feita com pele, suor e a união de três almas que decidiram que o amor não precisava seguir as regras do mundo, desde que seguisse as regras do desejo que os consumia.

Eduarda olhou para Sara, que se posicionou ao lado deles, e depois para Emanuel, que a olhava como se ela fosse a coisa mais preciosa e profana que ele já tivera a audição de tocar. E ali, no silêncio do estúdio, a bailarina finalmente entendeu que sua fragilidade era sua maior força, e que nos braços daquele homem e sob o olhar daquela mulher, ela finalmente encontrara o seu lugar.

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