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O Aroma da Lenha e o Fogo da Mansidão

A Fazenda Vale do Sereno estava envolta em uma névoa densa e cinzenta que parecia engolir os picos das montanhas ao redor. O frio da serra era cortante, intensificado por uma chuva fina e persistente que transformava a terra em um barro escuro e pegajoso. Dentro do casarão de madeira e pedra, o silêncio era interrompido apenas pelo estalar da madeira úmida na lareira que ainda lutava para se manter acesa.

Lá fora, Emanuel estava no auge de sua fúria silenciosa. Ele vestia apenas uma calça jeans gasta e botas de couro, dispensando o casaco apesar da temperatura beirar os dez graus. Seus músculos, cobertos por tatuagens que serpenteavam pelos braços e costas, saltavam a cada movimento violento com o machado. Ele parecia um lenhador de tempos antigos, a pele brilhando com uma mistura de suor e chuva, o rosto fechado em uma máscara de rigidez.

Cada golpe na lenha era um desabafo. *Pá!* A madeira de eucalipto se partia ao meio com um som seco.

Emanuel estava furioso. E o motivo tinha nome e sobrenome: Eduarda e seu inseparável, porém problemático, gato Sortudo.

Tudo começara naquela manhã, quando Emanuel, exausto de uma semana de reuniões nos estúdios, decidira que precisavam de paz. Mas a paz durou pouco. Eduarda, em um de seus momentos de teimosia infantil e pirracenta, decidira que Sortudo precisava "explorar a natureza". O resultado? O gato entrara no escritório particular de Emanuel na fazenda e derrubara um frasco de tinta de desenho nanquim — uma relíquia importada — sobre as plantas originais da nova mansão que ele estava projetando para os três.

Eduarda, em vez de se desculpar, fizera um biquinho, abraçara o gato e dissera que Emanuel era "materialista demais" e que "o Sortudo só queria ajudar no design".

— Ele não é materialista, Duda. Ele é um homem que trabalha! — Sara gritara da cozinha, embora estivesse mais achando graça da situação do que realmente brava.

Emanuel, no entanto, não vira graça. Ele precisava de controle, e Eduarda, com sua manha e sua recusa em aceitar ordens, estava testando todos os seus limites.

— Emanuel! — A voz de Eduarda ecoou da varanda, soando pequena e manhosa. — Está frio, para com isso. Vem para dentro.

Ele não respondeu. Apenas ergueu o machado novamente e descarregou a raiva em um tronco mais grosso. A madeira lascou-se, voando pedaços para os lados.

— Manu... eu estou falando com você! — Ela insistiu, saindo para a varanda coberta. Ela usava um casaco de lã oversized que a fazia parecer ainda menor, e segurava o gato tricolor nos braços. — Você vai ficar doente e a culpa vai ser minha.

— A culpa já é sua, Eduarda — Emanuel disse, a voz saindo como um rosnado baixo, sem desviar os olhos do que estava fazendo. — Entre. Agora.

— Não entro! — Ela bateu o pé, uma pirraça típica de quem sabe que é protegida. — Você está sendo um chato por causa de um papel sujo. O Sortudo nem sabia que era importante. Não é, meu amor? — Ela beijou a cabeça do gato, que ronronava, alheio ao caos.

Emanuel cravou o machado no cepo com tanta força que a ferramenta ficou presa. Ele se virou, a chuva escorrendo pelo peito largo, os olhos escuros faiscando.

— Aquele "papel sujo" eram meses de trabalho, Eduarda. E o seu gato não é uma pessoa, é um animal que você se recusa a educar. Assim como se recusa a me ouvir quando eu digo para você não mexer nas minhas coisas.

— Você está sendo agressivo — ela disse, os olhos começando a brilhar com lágrimas prontas para cair. — Eu só queria que a gente ficasse junto. Você só pensa em trabalho.

Sara apareceu na porta da varanda, segurando uma caneca de chocolate quente, observando a cena com um sorriso enviesado. Ela adorava quando Emanuel perdia a compostura; achava-o terrivelmente sexy quando estava possesso.

— Deixa ele, Duda — Sara comentou, encostando-se no batente. — Ele está no momento "homem das cavernas". Daqui a pouco ele entra, toma um banho e a gente resolve isso na cama.

— Não vai ter "resolução" nenhuma — Emanuel retrucou, apontando o dedo para Eduarda. — Você vai pegar esse gato, vai trancá-lo na lavanderia e vai limpar a tinta do chão do meu escritório. Sem manha, Eduarda. Sem chororô.

Eduarda sentiu o lábio inferior tremer. O tom autoritário de Emanuel geralmente a fazia se derreter, mas hoje, ela queria brigar. Ela queria atenção.

— Eu não vou trancar o Sortudo! Ele tem trauma de lugares fechados, você sabe disso! — Ela deu as costas e entrou para a sala, pisando duro, deixando um rastro de pequenas gotas de chuva pelo tapete.

Emanuel soltou um palavrão baixo e voltou ao machado. Ele precisava de mais lenha. Precisava de mais cansaço para não entrar naquela casa e colocar Eduarda de castigo da maneira que sua mente possessiva estava sugerindo.

Meia hora depois, o frio tornou-se insuportável até para ele. Emanuel recolheu uma braçada de lenha e entrou pelos fundos. O calor da casa o atingiu, mas o clima tenso permanecia. Ele deixou a lenha perto da lareira e seguiu direto para o banho.

A água quente batia em seus ombros tensos, lavando o suor e a lama. Ele tentava racionalizar. Eduarda era jovem, era sensível, estava grávida de seis meses de gêmeos... mas, porra, ela era teimosa.

Quando saiu do banheiro, apenas com uma toalha enrolada na cintura, encontrou Eduarda sentada na cama dele e de Sara. Ela não estava mais com o gato. Estava encolhida, abraçando os próprios joelhos, com o olhar perdido.

— Onde está o animal? — ele perguntou, a voz ainda dura.

— A Sara levou ele para a cozinha — ela respondeu sem olhar para ele. — Eu limpei o chão, Emanuel. E tentei salvar os papéis, mas a tinta borrou tudo.

Ele suspirou, sentindo a raiva começar a ser substituída por aquela proteção automática que ela sempre despertava. Ele se aproximou da cama, sentando-se ao lado dela. O cheiro de lavanda dela misturava-se ao cheiro de sândalo de sua própria pele.

— Duda, eu não fico bravo porque quero ser chato — ele começou, tentando manter a voz firme. — Eu fico bravo porque você não tem limites. Você acha que tudo é uma brincadeira, que o mundo gira em torno das suas vontades e das vontades desse gato.

— Mas eu só queria que você visse que eu me importo com o que você faz... — ela virou o rosto para ele, e Emanuel viu que ela estava realmente chorando agora. — Eu me sinto inútil aqui na fazenda. Você e a Sara cuidam de tudo, e eu sou só a "grávida delicada". Eu queria ajudar no projeto.

Emanuel fechou os olhos por um segundo. A insegurança de Eduarda era seu ponto fraco.

— Você ajuda sendo quem você é, Eduarda. Você é a paz dessa casa. Mas destruir meu trabalho não é ajudar.

— Desculpa — ela sussurrou, aproximando-se dele, buscando o calor de seu corpo. Ela encostou a cabeça no ombro molhado dele. — Você ainda está bravo?

— Estou. Muito bravo.

Eduarda subiu no colo dele, as pernas envolvendo sua cintura, a barriga de seis meses pressionando o abdômen dele. Ela começou a beijar o pescoço de Emanuel, as mãos pequenas traçando as tatuagens em seus ombros.

— E o que eu posso fazer para você desculpar a sua bailarina manhosa? — ela perguntou, a voz agora carregada de uma sensualidade inocente que era a sua maior arma.

Emanuel segurou a cintura dela com força, os dedos cravando-se na carne macia.

— Você vai ficar quieta. Vai parar de pirraça. E vai aceitar que, nesta casa, quem dá as ordens sou eu. Entendeu?

— Sim, senhor... — ela murmurou, beijando o queixo dele.

A porta do quarto se abriu e Sara entrou, usando um robe de seda vermelho que deixava pouco para a imaginação. Ela olhou para os dois e sorriu, fechando a porta com um clique sugestivo.

— Vejo que a paz está sendo selada — disse Sara, caminhando até a cama. — O Sortudo está dormindo no cesto dele, e eu acho que nós três temos assuntos pendentes. O frio lá fora está ótimo para ficar aqui dentro, não acham?

Emanuel olhou de Sara para Eduarda. A fúria desaparecera completamente, substituída por um desejo possessivo que o consumia. Ele tinha a loira siliconada e vulgar que o desafiava, e a morena sensível e manhosa que o acalmava.

— Duda ainda está de castigo — Emanuel disse, embora suas mãos estivessem começando a despir a camisola dela.

— Oh, eu adoro castigos — Sara riu, subindo na cama e sentando-se atrás de Emanuel, começando a massagear seus ombros. — Especialmente quando a Duda é a culpada. Ela precisa aprender a ser uma boa menina, não é, Manu?

Eduarda gemeu baixinho quando Emanuel a deitou no colchão, seu corpo grande cobrindo o dela. Ela olhou para Sara, buscando cumplicidade, e encontrou o olhar predatório da outra mulher.

— Eu vou ser boa — prometeu Eduarda, os olhos fixos em Emanuel. — Eu juro.

— Veremos — Emanuel rosnou, antes de calar a boca dela com um beijo que não tinha nada de gentil.

Lá fora, a tempestade desabava sobre a fazenda, o vento uivando entre as árvores e a chuva lavando a terra. Mas dentro daquele quarto, o calor era absoluto. O aroma da lenha queimando na lareira da sala subia pelo corredor, misturando-se ao perfume das duas mulheres que Emanuel amava. Entre a fúria do machado e a mansidão do toque, ele sabia que, por mais que Eduarda o irritasse com sua pirraça, e por mais que Sortudo destruísse seus projetos, ele nunca trocaria aquele caos por nenhuma paz no mundo.

Ele era o dono daquela fazenda, o dono daquelas vidas, e enquanto a chuva caía, ele se certificava de que cada uma delas soubesse exatamente a quem pertencia. Eduarda, em sua manha infinita, entregava-se ao castigo que tanto buscara, enquanto Sara, a estrategista do prazer, guiava a dança que os mantinha unidos, transformando a raiva de Emanuel na mais pura e visceral forma de devoção.

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