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O Resgate no Asfalto e a Rendição do Tatuador

O céu de São Paulo estava tingido por um tom grafite opressivo, prenunciando uma tempestade de verão daquelas que paralisam a metrópole. Emanuel dirigia seu SUV blindado com a expressão tensa, os dedos tatuados batucando impacientes no volante de couro. Ao seu lado, Sara, radiante em seu quinto mês de gestação, retocava o batom vermelho vibrante, alheia ao trânsito caótico. No banco de trás, Eduarda, cuja barriga de quatro meses já começava a desenhar uma curva suave sob o vestido de algodão azul-bebê, olhava fixamente pela janela, com aquele ar melancólico e observador que Emanuel tanto adorava e, às vezes, temia.

— Manu, acelera esse tanque! — exclamou Sara, guardando o espelho na bolsa de grife. — A inauguração da nova ala do estúdio é em uma hora e eu não pretendo chegar lá parecendo que vim de ônibus.

— O trânsito não colabora, Sara — respondeu Emanuel, a voz grave e contida. — E não chame meu carro de tanque.

— É um tanque de luxo, querido. E você adora — ela piscou para ele, virando-se para o banco de trás. — Não é, Duda? Diga para esse homem que ele está sendo um ranzinza.

Eduarda não respondeu de imediato. Seus olhos castanhos estavam arregalados, focados em algo na calçada, perto de um bueiro entupido por folhas secas.

— Manu, para o carro — sussurrou ela, a voz trêmula.

— O quê? Duda, estamos no meio da avenida — Emanuel franziu o cenho, olhando pelo retrovisor.

— Para o carro agora! — Eduarda elevou o tom, algo raro nela, e seus olhos se encheram de lágrimas instantaneamente. — Eu ouvi! Eu juro que ouvi!

Emanuel, movido pelo instinto de proteção quase irracional que sentia pela bailarina, jogou o carro para o acostamento de forma brusca, ignorando as buzinas furiosas atrás de si. Antes que ele pudesse perguntar o que estava acontecendo, Eduarda já havia aberto a porta e corrido em direção à sarjeta.

— Mas o que deu nessa menina? — Sara perguntou, arqueando uma sobrancelha perfeitamente desenhada. — Ela vai sujar o vestido novo.

Emanuel saiu do carro, o coração acelerado. Ele encontrou Eduarda ajoelhada no asfalto sujo, encostada na grade de ferro de um bueiro.

— Manu, ele está lá embaixo! — ela soluçou, apontando para a escuridão da galeria pluvial. — É um gatinho. Ele está chorando, está com medo. A chuva vai começar e ele vai se afogar!

Emanuel inclinou-se e, de fato, ouviu um miado agudo e desesperado vindo das profundezas da estrutura. Ele suspirou, passando a mão pelo cabelo curto, sentindo o estresse acumular na base da nuca.

— Duda, meu amor, nós chamamos o corpo de bombeiros ou o controle de animais. Não podemos fazer nada aqui.

— Não! — Eduarda agarrou a mão tatuada de Emanuel, os olhos grandes e manhosos implorando com uma força que o desarmava completamente. — Eles vão demorar. Olha as nuvens, Manu! Vai desabar o mundo a qualquer minuto. Você é forte, você consegue tirar essa grade. Por favor, faz isso por mim... pelos nossos bebês.

Emanuel olhou para a grade pesada e depois para a roupa que usava: uma camisa de linho italiana e calças sob medida. Ele era um tatuador renomado, um empresário rico, um homem que prezava pelo controle e pela imagem. Entrar em um bueiro estava fora de cogitação.

— Nem pensar, Eduarda. É perigoso, é imundo e...

— Emanuel — a voz de Sara soou atrás dele. Ela havia saído do carro e caminhava com a elegância de uma pantera, apesar da barriga saliente. — Olha para a cara dela. Se você não tirar esse bicho daí, ela vai chorar até o dia do parto. E você sabe que eu não aguento ela choramingando no meu ouvido.

Emanuel olhou de uma para a outra. Sara tinha aquele sorriso provocador, desafiando sua masculinidade e sua lógica. Eduarda era a imagem da vulnerabilidade, com o biquinho nos lábios e as mãos trêmulas.

— Vocês duas vão acabar comigo — resmungou ele, começando a tirar o relógio caro e a camisa, revelando o torso coberto por obras de arte em tinta preta e cinza.

— Isso! — Eduarda bateu palmas, limpando as lágrimas. — Eu sabia que você era um herói.

Emanuel agarrou as barras de ferro da grade. Seus músculos se retesaram, as veias dos braços saltando enquanto ele aplicava uma força bruta. Com um rangido metálico e um esforço que o fez rosnar, a grade cedeu, revelando o buraco escuro e úmido.

— Eu não acredito que vou fazer isso — disse ele, olhando para a escuridão fétida.

— Vai logo, Manu! — Sara incentivou, pegando o celular para filmar. — Isso vai ser ótimo para o seu marketing de "homem durão com coração de manteiga".

Emanuel desceu. O cheiro de esgoto e terra molhada o atingiu em cheio. Ele teve que se agachar, sentindo a umidade penetrar em suas calças caras. Lá no fundo, um par de olhos amarelos brilhava. O gatinho, um filhote tricolor e trêmulo, estava encolhido em um canto de concreto.

— Vem aqui, coisa feia — murmurou Emanuel, tentando suavizar a voz.

O animal, percebendo a presença humana, tentou fugir, entrando mais fundo na tubulação. Emanuel teve que se arrastar, sujando os braços e o peito de lama.

— Manu? Você está bem? — a voz de Eduarda ecoou lá de cima, soando preocupada.

— Estou ótimo, Duda! Nunca estive melhor! — ironizou ele, sentindo uma gota de água suja cair em sua testa.

Depois de alguns minutos de perseguição silenciosa e alguns arranhões nos dedos, Emanuel conseguiu encurralar o pequeno animal. Ele o pegou com firmeza, sentindo o coraçãozinho do gato batendo frenético contra sua palma.

— Peguei — gritou ele.

Ao sair do bueiro, Emanuel era a imagem do caos. Sujo de lama da cintura para cima, com respingos de água cinzenta no rosto e o cabelo bagunçado. Mas, ao entregar o gatinho nos braços de uma Eduarda radiante, toda a sua irritação evaporou.

— Ah, Manu! Ele é lindo! — Eduarda abraçou o gato contra o peito, sem se importar com a sujeira que passava para seu vestido azul. — Obrigada, obrigada, obrigada!

Ela se inclinou e beijou o rosto sujo de Emanuel, um beijo doce e cheio de adoração.

— Você é o homem mais maravilhoso do mundo — sussurrou ela.

Sara se aproximou, guardando o celular e passando a mão pelo peito sujo do marido, traçando o contorno de uma tatuagem de águia.

— Você está um horror, querido — disse ela, o olhar brilhando com uma mistura de desejo e diversão. — Mas confesso que esse visual "sobrevivente do esgoto" tem o seu charme. Deu até vontade de te levar para o provador da loja agora mesmo.

Emanuel soltou uma risada curta, passando o braço pela cintura de Sara e puxando Eduarda para perto com o outro braço.

— Eu só quero um banho. E que esse gato não destrua o estofamento do meu carro.

— Ele vai se chamar Sortudo — decretou Eduarda, aninhada no ombro de Emanuel. — E ele vai morar conosco.

— Mais um para a conta — suspirou Emanuel, mas no fundo, ele sentia uma paz estranha.

A chuva finalmente começou a cair, lavando um pouco da lama de sua pele enquanto eles caminhavam de volta para o SUV. Emanuel olhou para as duas mulheres de sua vida — a loira exuberante que o desafiava a ser mais e a morena delicada que o ensinava a sentir mais. Ele era um homem rico, poderoso e controlado, mas ali, sob a chuva de São Paulo, ele percebeu que seu verdadeiro império não era feito de estúdios ou dinheiro, mas daquele caos emocional e vibrante que as duas criavam ao seu redor.

— Manu? — chamou Eduarda, já dentro do carro, secando o gatinho com um lenço de papel.

— Sim, pequena?

— Você pode passar em um drive-thru? Eu estou doida para comer um espetinho de carne... e o Sortudo deve estar com fome.

Emanuel olhou para Sara, que apenas deu de ombros, sorrindo.

— Você ouviu a futura mãe dos seus filhos, Emanuel. Espetinhos para todos.

Ele ligou o motor, sentindo o cheiro de chuva e de vida nova. O tatuador durão estava rendido, e ele não trocaria aquele bueiro por nenhum trono no mundo.

— Tudo bem — disse ele, engatando a marcha. — Espetinhos por conta do herói do esgoto.

— E depois — Sara sussurrou no ouvido dele, a voz carregada de promessas — eu e a Duda vamos cuidar muito bem desse herói cansado.

Emanuel sorriu, acelerando o carro. O trânsito ainda era um caos, a chuva era forte, mas dentro daquele blindado, o mundo era perfeito.

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