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Garras, Tutu e Hormônios

A manhã na cobertura de Emanuel não começou com o silêncio que ele tanto apreciava. O sol mal havia cruzado a linha do horizonte e o apartamento já era um campo de batalha silencioso, mas carregado de eletricidade. Emanuel estava parado na cozinha, vestindo apenas uma calça de moletom cinza, observando com incredulidade a cena diante de si.

No centro da ilha de mármore, sentado com a arrogância de um monarca, estava Tobias. O gato persa, de uma pelagem cinza tão densa que ele mais parecia uma nuvem gorda e mal-humorada, encarava Emanuel de volta. O problema não era apenas a presença do animal — que Eduarda insistia em chamar de "nosso filho" —, mas o fato de que Tobias acabara de derrubar, com uma patada lenta e deliberada, o vidro de vitaminas importadas que Sara precisava tomar por causa da gravidez.

— Eduarda! — O grito de Emanuel ecoou pelo corredor, sua voz grossa e autoritária, fruto de uma paciência que já havia se esgotado durante a madrugada de discussões sobre o ballet.

Eduarda apareceu na porta da cozinha segundos depois. Ela usava um pijama de seda rosa claro, o cabelo castanho bagunçado e os pés descalços. Ela esfregava os olhos, parecendo uma criança que acabara de ser despertada de um sonho doce.

— O que foi, Manu? Por que está gritando com ele? — Ela correu até a ilha, ignorando o olhar furioso de Emanuel, e pegou o gato no colo, enterrando o rosto nos pelos macios do animal. — Coitadinho, ele está assustado.

— Assustado? Eduarda, esse bicho é um vândalo! — Emanuel apontou para o chão, onde as cápsulas de gelatina estavam espalhadas. — Ele derrubou as vitaminas da Sara. Ele sabe que eu odeio quando ele sobe na bancada, mas ele faz de propósito. Ele é igual a você: pirracento.

Eduarda fez um biquinho, os olhos grandes e expressivos começando a brilhar com aquela umidade que sempre desarmava Emanuel, mas hoje ele estava blindado. A falta de sono e a preocupação com a logística da viagem para a fazenda o deixavam no limite.

— Você trata ele tão mal, Emanuel... — ela murmurou, a voz manhosa e carregada de uma mágoa dramática. — Ele sente a sua energia negativa. Ele só queria atenção porque você passou a manhã toda ignorando a gente para organizar aquelas malas. Você trata o meu filho como se ele fosse um estorvo.

— É um gato, Eduarda! Um gato gordo que solta pelo em tudo! — Emanuel passou a mão pelo rosto, frustrado. — E eu não estou ignorando ninguém. Estou tentando garantir que a Sara tenha tudo o que precisa na fazenda para não passar mal.

Nesse momento, Sara entrou na cozinha. Diferente de Eduarda, ela já estava "montada". Mesmo sendo cedo, ela usava um robe de cetim dourado que deixava o decote generoso à mostra, o cabelo loiro preso em um coque alto e impecável. Ela caminhou com a confiança de quem mandava no lugar, apesar da leve palidez matinal decorrente dos enjoos.

— Mas que gritaria é essa? Eu não consigo nem ter meu momento de beleza com o herdeiro em paz — Sara disse, encostando-se na parede e cruzando os braços, observando a cena com um sorriso enviesado.

— O gato da Duda jogou suas vitaminas no chão, Sara. E ela está aqui fazendo pirraça porque eu reclamei — Emanuel explicou, tentando manter o tom de voz sob controle agora que a loira estava presente.

Sara olhou para as cápsulas no chão e depois para a expressão chorosa de Eduarda. Ela não sentia ciúmes; na verdade, achava a dinâmica entre os dois divertida, quase como um espetáculo de entretenimento matinal.

— Ah, Manu, deixa de ser ranzinza — Sara disse, aproximando-se de Emanuel e passando as mãos pelas costas dele, sentindo os músculos tensos sob as tatuagens. — São só vitaminas. Você tem mais dez potes no armário. Vem aqui, me dá um beijo e para de assustar a pequena.

Emanuel relaxou por um segundo sob o toque de Sara. Ele a puxou pela cintura, colando o corpo dela ao seu com uma possessividade protetora. Ele beijou o pescoço dela, sentindo o perfume caro, e sua mão desceu instintivamente para a barriga dela, que ainda não mostrava sinais óbvios, mas que para ele já era o centro do universo.

— Você está bem? Sentiu enjoo? — ele perguntou, a voz suavizando instantaneamente.

— Um pouco, mas nada que um café da manhã maravilhoso preparado pelo meu homem não resolva — Sara provocou, piscando para ele.

Eduarda, vendo a cena, sentiu uma pontada de exclusão, não por malícia de Sara, mas por sua própria insegurança. Ela apertou Tobias contra o peito e soltou um suspiro pesado, arrastando os pés em direção à saída da cozinha.

— Já vi que eu e o Tobias não somos bem-vindos aqui. Vamos, meu filho, vamos para o quarto onde ninguém vai gritar com a sua existência — ela disse, a voz trêmula, carregada de uma manha irresistível.

— Eduarda, volta aqui — Emanuel ordenou, mas sem a dureza de antes.

— Não! — Ela parou no corredor, virando-se apenas o suficiente para que ele visse seu rosto triste. — Você está furioso comigo porque eu quero ir ao ballet. Você está descontando no Tobias. Você é um ditador, Emanuel! Um ditador rico e tatuado que não entende a sensibilidade de uma artista!

Sara soltou uma gargalhada alta, jogando a cabeça para trás.

— "Ditador rico e tatuado"? Essa foi boa, Duda! Vou usar essa na próxima vez que ele tentar me proibir de usar salto alto.

Emanuel não achou graça. Ele caminhou até Eduarda, que recuou um passo, ainda segurando o gato. Ele a cercou contra a parede do corredor, sua estatura imponente fazendo-a parecer ainda mais delicada e esguia.

— Escuta aqui, sua bailarina teimosa — ele disse, baixando o rosto para ficar no nível do dela. — Eu não estou descontando nada no seu gato. Eu estou preocupado com você. Você passa o dia inteiro naquela faculdade, depois vai para o estúdio de ballet, ensaia até os pés sangrarem e ainda quer que eu fique calmo quando você se recusa a descansar?

Eduarda fez um biquinho, desviando o olhar.

— É a minha vida, Manu. O ballet é quem eu sou. E Giselle é... é especial. Você prometeu que íamos ao teatro hoje à noite.

— E nós vamos — ele rosnou, embora seus dedos agora estivessem acariciando a bochecha dela com uma doçura que contradizia seu tom. — Mas depois disso, você vai entrar naquele carro, vai sentar ao lado da Sara e não vai dar um pio sobre voltar para a cidade até segunda-feira. Entendido?

Eduarda olhou para ele, os olhos castanhos brilhando com uma mistura de triunfo e adoração. Ela sabia que tinha vencido.

— E o Tobias vai junto? — ela perguntou, a voz agora doce e manhosa, esfregando o nariz no ombro de Emanuel.

Emanuel fechou os olhos e encostou a testa na dela, soltando um suspiro de derrota.

— O gato vai junto. Mas se ele subir no painel do carro ou tentar morder o estofamento de couro, eu juro que ele vai voltar a pé.

— Viu, Tobias? O papai ama você, ele só é difícil — Eduarda cantarolou, dando um beijo rápido nos lábios de Emanuel antes de escapar de seus braços e correr para o quarto para começar a escolher o figurino da noite.

Emanuel ficou ali, parado no corredor, sentindo-se exausto e, ao mesmo tempo, estranhamente completo. Ele voltou para a cozinha, onde Sara já estava sentada à mesa, comendo uma torrada que ela mesma preparara.

— Você é um frouxo com ela, sabia? — Sara comentou, mastigando com elegância.

— Eu não sou frouxo. Eu só... — Emanuel parou, procurando a palavra certa enquanto começava a preparar o café forte. — Eu só quero que ela seja feliz, Sara. Da mesma forma que eu quero que você tenha tudo o que deseja.

Sara sorriu, levantando-se e indo até ele. Ela o abraçou por trás, apoiando o queixo em seu ombro.

— Eu sei, meu amor. É por isso que a gente funciona. Você cuida da gente, e a gente... bem, a gente faz você perder o juízo para você não virar um robô de negócios.

Emanuel virou-se no abraço, envolvendo Sara com seus braços fortes. Ele olhou para aquela mulher loira, vibrante, que carregava o futuro deles no ventre, e pensou na menina doce e teimosa que agora estava provavelmente espalhando sapatilhas pelo quarto.

— Vocês vão me levar à loucura antes desse bebê nascer — ele murmurou, beijando o topo da cabeça de Sara.

— Mas vai ser a loucura mais gostosa da sua vida — ela rebateu, puxando-o para um beijo profundo que selava a paz momentânea daquela manhã.

O resto do dia passou em uma correria organizada. Emanuel passou algumas horas em reuniões virtuais com seus gerentes de Tóquio e Londres, enquanto Sara administrava sua loja de roupas por telefone, dando ordens assertivas e garantindo que a nova coleção de seda fosse um sucesso. Eduarda, por sua vez, estava em seu próprio mundo, revisando notas de História da Arte e praticando alguns movimentos de alongamento na barra que Emanuel instalara para ela em um dos quartos.

À medida que a hora do espetáculo se aproximava, a tensão de Emanuel voltava a crescer. Ele não gostava de lugares lotados, e a ideia de levar uma grávida e uma bailarina emocionalmente instável para o Teatro Municipal parecia um convite ao estresse. Mas ele cumpriria sua palavra.

Quando finalmente ficaram prontos, Emanuel sentiu o impacto de sua escolha de vida. Sara estava deslumbrante em um vestido de veludo azul-escuro, justo o suficiente para destacar suas curvas e o início da barriga, com joias que brilhavam tanto quanto seu sorriso provocante. Eduarda era o oposto: usava um vestido de tule e renda em tom de champanhe, o cabelo preso em um coque clássico com alguns fios soltos, parecendo uma fada que acabara de descer de um pedestal de porcelana.

— Estamos prontas, ditador — Sara anunciou, ajustando o batom vermelho no espelho do hall.

— O Tobias já está com a comida e a água? — Eduarda perguntou, preocupada, segurando a mão de Emanuel com seus dedos finos e frios de ansiedade.

— Sim, Duda. E seus pais prometeram passar aqui mais tarde para ver se o "seu filho" não incendiou a casa — Emanuel respondeu, pegando as chaves e guiando as duas para o elevador privativo.

No carro, o silêncio era preenchido apenas pela música clássica que Eduarda insistira em colocar. Emanuel dirigia com atenção redobrada, os olhos alternando entre o trânsito de São Paulo e o retrovisor, onde via Sara retocando a maquiagem e Eduarda olhando pela janela com uma expressão de puro encantamento.

Ao chegarem ao Teatro Municipal, a presença deles não passou despercebida. Emanuel, com seu terno sob medida que mal escondia as tatuagens subindo pelo pescoço, caminhava entre as duas mulheres mais bonitas da noite. Ele mantinha um braço ao redor da cintura de Sara, guiando-a com cuidado pelos degraus, enquanto a outra mão segurava firmemente a de Eduarda, que parecia flutuar ao seu lado.

O camarote privativo era um refúgio de luxo. Sara acomodou-se em uma cadeira estofada, soltando um suspiro de alívio ao descansar as pernas. Eduarda correu para o parapeito, os olhos brilhando ao ver a orquestra afinando os instrumentos abaixo.

— Obrigada, Manu — ela sussurrou, voltando-se para ele. — Significa muito para mim que você esteja aqui.

Emanuel sentou-se entre as duas, sentindo-se finalmente em paz.

— Só aproveite o espetáculo, Duda. E você, Sara, se sentir qualquer desconforto, me avise na hora.

— Relaxa, papai — Sara disse, pegando a mão dele e colocando-a sobre sua coxa. — Eu estou ótima. Só aproveite a vista.

Quando as luzes se apagaram e a música de Adolphe Adam começou a preencher o teatro, Emanuel observou Eduarda. Ela estava hipnotizada, seus lábios se movendo levemente como se ela estivesse contando os tempos da dança. De vez em quando, ela se inclinava e sussurrava para Sara sobre a técnica dos bailarinos, e Sara ouvia com uma atenção genuína, achando graça na paixão da mais nova.

Naquele momento, cercado pela cultura que Eduarda amava e pela força que Sara representava, Emanuel entendeu que seu papel de protetor não era apenas sobre segurança física ou financeira. Era sobre sustentar os sonhos delas, mesmo quando eles pareciam pirraça ou extravagância.

O espetáculo foi um sucesso, mas para Emanuel, a melhor parte foi o final, quando Eduarda se virou para ele com o rosto banhado em lágrimas de emoção, e Sara, com um olhar cúmplice, limpou as bochechas da menina.

— Foi lindo, não foi? — Eduarda perguntou, a voz sumindo.

— Foi perfeito, pequena — Sara respondeu por ele, dando um beijo na testa de Eduarda.

— Agora — Emanuel disse, levantando-se e estendendo as mãos para ambas —, para a fazenda. O carro já está esperando lá embaixo.

A viagem para o interior foi tranquila. No banco de trás, Eduarda acabou pegando no sono, com a cabeça apoiada no ombro de Sara. A loira, por sua vez, acariciava o cabelo da bailarina enquanto olhava para a estrada, compartilhando um silêncio confortável com Emanuel.

Ao chegarem na fazenda, o ar puro e o som dos grilos substituíram o caos da cidade. Emanuel carregou Eduarda, que estava em um estado de sonolência profunda, até o quarto principal, onde uma cama imensa os esperava. Sara seguiu-os, já se desfazendo das joias e do vestido com a praticidade de quem estava em casa.

Depois de acomodar as duas, Emanuel foi até a varanda por um momento. Ele olhou para as estrelas, sentindo o peso do dia finalmente deixar seus ombros. Ele sabia que amanhã haveria mais discussões sobre o que Sara poderia comer, mais manhas de Eduarda sobre querer ensaiar na sala de estar e, provavelmente, o gato Tobias encontraria uma forma de segui-los ou de causar algum problema à distância.

Mas, ao voltar para o quarto e ver as duas mulheres dormindo pacificamente — Sara com a mão protetora sobre o ventre e Eduarda encolhida como um feto, exalando inocência —, Emanuel soube que não trocaria aquele caos por nenhuma paz no mundo. Ele se deitou entre elas, o guardião de um império construído sobre o amor, a paciência e a eterna teimosia de suas duas rainhas.

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