D
O Labirinto de Emoções e a Fuga de Tobias
O sol da tarde refletia nas janelas de vidro do amplo apartamento de Emanuel, criando padrões de luz que dançavam sobre o piso de madeira nobre. O retorno da fazenda havia sido marcado por um silêncio confortável, mas a energia na cobertura mudara drasticamente nos últimos meses. O ar agora estava impregnado com o cheiro de lavanda e óleos hidratantes, e a expectativa de uma nova vida preenchia cada canto.
Sara estava sentada na poltrona de veludo da sala, com as pernas esticadas e um semblante que misturava exaustão e uma beleza radiante. Aos quatro meses de gravidez, a barriga já era uma curva nítida e orgulhosa sob o vestido de malha justo que ela fazia questão de usar. A confirmação viera na semana anterior: seria uma menina. Ágata. O nome, escolhido por Emanuel em um momento de rara sensibilidade, parecia brilhar nos olhos de Sara toda vez que ela o pronunciava.
Emanuel entrou na sala carregando uma caixa retangular, envolta em um papel de seda preto com um laço de fita prateada. Ele se aproximou de Sara com passos firmes, mas seu olhar era suave. O estresse dos estúdios de tatuagem e dos negócios internacionais parecia evaporar quando ele estava diante dela.
— Para você — disse ele, entregando o presente. — Pela paciência com os exames desta semana e por estar carregando a nossa pequena Ágata com tanta força.
Sara sorriu, aquela expressão irônica e segura de si que Emanuel tanto amava. Ela abriu a caixa com agilidade, revelando um colar de ouro branco com um pingente de ágata bruta, lapidada de forma minimalista.
— Você está ficando perigosamente romântico, Emanuel — provocou ela, jogando o cabelo loiro para o lado para que ele pudesse fechar o fecho em seu pescoço. — Cuidado, ou as pessoas vão esquecer que você é o tatuador mais temido do mercado.
— Deixe que esqueçam — ele murmurou, beijando a nuca dela. — O que importa está dentro desta casa. Onde está a Duda?
Sara soltou um suspiro, relaxando contra o peito dele.
— No quarto, provavelmente tentando convencer o Tobias de que ele precisa de um banho a seco. Ela está empolgada com o espetáculo de final de semestre da faculdade, mas aquele gato tem sido a única coisa que a mantém no chão hoje.
Emanuel assentiu, sentindo o peso da responsabilidade aumentar. Ele era o eixo que mantinha aquelas duas mulheres em órbita. Sara, a força solar e pragmática; Eduarda, a lua sensível e emocional. E agora, Ágata, a pequena estrela que estava por vir.
— Vou vê-la — disse Emanuel, dando um último beijo na testa de Sara.
Ao caminhar pelo corredor, ele ouviu o som suave de música clássica vindo do quarto de Eduarda. Ao abrir a porta, encontrou-a sentada no chão, cercada por livros de História da Arte e sapatilhas de ponta. Tobias, o persa cinza e gordo, estava deitado sobre um livro de iconografia renascentista, parecendo um juiz severo.
Eduarda levantou o olhar. Seus olhos castanhos estavam grandes e expressivos, e ela parecia mais frágil do que o habitual.
— Manu! — Ela se levantou e correu para os braços dele, afundando o rosto em seu peito. — Eu estou tão nervosa com a coreografia. E se eu esquecer os passos na frente dos professores?
Emanuel a abraçou com força, sentindo a leveza do corpo dela. Eduarda era como um pássaro que precisava de um ninho seguro para poder voar.
— Você não vai esquecer nada, Duda. Você é a melhor bailarina daquela turma. E eu estarei lá, na primeira fila, com a Sara e a Ágata — ele disse, usando o nome da bebê para acalmá-la.
— Você acha? — ela perguntou, fazendo um beicinho manhoso, buscando a confirmação que só ele sabia dar.
— Eu tenho certeza. Agora, deixe o Tobias descansar e venha comer alguma coisa. A Sara está querendo decidir a cor do quarto da bebê e precisa da sua opinião "artística".
Eduarda sorriu, o brilho voltando aos seus olhos. Ela deu um selinho rápido em Emanuel e saiu saltitando pelo corredor. Emanuel olhou para o gato, que permanecia imóvel sobre o livro.
— Fique de olho nela, seu vândalo — resmungou Emanuel, embora houvesse um traço de afeição em sua voz.
A paz, no entanto, durou pouco.
Duas horas depois, o apartamento foi atingido por um grito que fez o coração de Emanuel disparar. Ele estava no escritório, revisando o projeto de uma nova galeria, quando o som agudo e desesperado de Eduarda ecoou pela cobertura.
— EMANUEL! SARA! ELE SUMIU!
Emanuel correu para a sala, encontrando Eduarda parada junto à porta da área de serviço, que estava entreaberta. Ela estava pálida, as mãos tremendo, e as lágrimas já escorriam livremente por seu rosto delicado.
— O que foi, Duda? O que aconteceu? — perguntou Sara, levantando-se com dificuldade da poltrona, a mão instintivamente protegendo a barriga.
— O Tobias! — soluçou Eduarda, a voz falhando. — A porta da lavanderia ficou aberta enquanto o rapaz da manutenção saía... Eu procurei em tudo, Manu! Debaixo das camas, atrás dos sofás, nos armários... Ele não está aqui! Ele fugiu!
Emanuel sentiu uma onda de irritação misturada com preocupação. Ele sabia o que aquele gato significava para Eduarda. Para ela, Tobias não era apenas um animal de estimação; era seu porto seguro, seu companheiro de estudos e sua fonte de conforto emocional.
— Calma, Eduarda. Ele deve estar no corredor ou em algum andar abaixo — tentou mediar Emanuel, sua voz assumindo o tom prático de quem resolve crises.
— Não! — ela gritou, entrando em um estado de calamidade. — Ele nunca sai! Ele tem medo de altura, de barulho... Ele deve estar aterrorizado! E se ele caiu da sacada? E se alguém pegou ele? Emanuel, faça alguma coisa!
Eduarda caiu de joelhos no chão, escondendo o rosto nas mãos, o corpo sacudido por soluços convulsivos. Era a imagem da fragilidade absoluta. Sara se aproximou e sentou-se no chão ao lado dela, ignorando o desconforto da gravidez, e a puxou para um abraço.
— Shh, pequena. Nós vamos achar ele. Emanuel vai revirar este prédio de cabeça para baixo, não vai, Manu? — Sara olhou para ele com um olhar que era uma ordem clara.
— Vou chamar a segurança e olhar as câmeras agora mesmo — disse Emanuel, já pegando o celular. — Eduarda, olhe para mim. Respire. Eu vou trazer o Tobias de volta. Eu prometo.
As próximas duas horas foram um pesadelo de ansiedade. Emanuel percorreu as escadas de incêndio, falou com todos os porteiros e revirou o estacionamento. Eduarda permanecia na sala, recusando-se a beber água ou a se sentar, caminhando de um lado para o outro com uma sapatilha velha de Tobias nas mãos, como se fosse um talismã. Sara tentava acalmá-la, mas até ela estava começando a ficar tensa com o estado emocional da mais nova.
— Ele se foi, Sara... — choramingava Eduarda, a voz já rouca de tanto chorar. — Eu sou uma péssima mãe de gato. Eu devia ter prestado atenção na porta.
— Pare com isso, Duda — disse Sara, firme. — Foi um acidente. E aquele gato é gordo demais para ir muito longe. Ele deve estar escondido em algum canto escuro esperando o jantar.
De repente, a campainha tocou.
Eduarda saltou em direção à porta, mas Emanuel, que acabara de retornar do elevador com uma expressão frustrada, foi mais rápido. Ele abriu a porta, preparado para enfrentar mais um segurança com notícias negativas.
No entanto, parado no corredor, estava um homem que Emanuel nunca vira antes. Ele era alto, com ombros largos e uma postura atlética, vestindo uma camiseta de algodão simples que marcava braços bem definidos. O rosto era simétrico e atraente, com uma barba curta e bem cuidada. E, nos braços dele, enrolado como uma bola de pelos cinza descontente, estava Tobias.
— Tobias! — O grito de Eduarda foi um misto de alívio e adoração.
Ela se lançou para a frente, mas Emanuel colocou o braço na frente dela, protegendo-a por instinto, enquanto avaliava o estranho.
— Boa noite — disse o homem, sua voz era profunda e calma, com um leve sorriso que parecia iluminar o corredor. — Eu sou o vizinho do 22B, acabei de me mudar. Encontrei este pequeno explorador tentando entrar no meu apartamento quando eu estava trazendo algumas caixas.
Eduarda passou por baixo do braço de Emanuel, as lágrimas ainda brilhando nas bochechas, e pegou o gato dos braços do homem. Tobias soltou um miado baixo de reclamação, mas se aninhou imediatamente no pescoço dela.
— Oh, meu Deus! Muito obrigada! — disse Eduarda, a voz falhando de emoção. — Eu achei que nunca mais ia ver ele. Você salvou a vida dele... a minha vida!
O vizinho riu suavemente, um som rico que fez Sara levantar uma sobrancelha, observando a cena da sala.
— Não foi nada. Ele parece ser muito amado. Eu sou o Rafael, a propósito.
Emanuel deu um passo à frente, sua presença preenchendo o batente da porta. Ele não sentia ciúmes de Eduarda no sentido tradicional, mas sua natureza protetora e territorialista estava em alerta máximo. Ele não gostava da forma como o tal Rafael olhava para a gratidão exagerada de Eduarda.
— Obrigado, Rafael — disse Emanuel, o tom de voz seco e finalizador. — Nós estávamos realmente preocupados. Agradecemos a vizinhança.
Rafael percebeu a barreira invisível que Emanuel erguera. Ele assentiu com a cabeça, mantendo o sorriso educado.
— Sem problemas. Se o pequeno fugir de novo, já sabe onde procurar. Boa noite a todos.
Assim que a porta se fechou, Eduarda desabou no sofá com Tobias, cobrindo o gato de beijos e pedidos de desculpas manhosos. O clima de calamidade se dissipou, dando lugar a um alívio exaustivo.
— Você viu, Manu? — disse Eduarda, entre um beijo e outro no gato. — Ele é um herói! E ele é tão legal... e bonito, não acharam?
Sara soltou uma risadinha, voltando para sua poltrona.
— Ele é um colírio para os olhos, com certeza. Mas acho que o nosso "ditador" aqui não gostou muito do brilho nos olhos do vizinho.
Emanuel bufou, cruzando os braços.
— Eu só não confio em vizinhos "bonitões" que aparecem convenientemente com gatos perdidos. Eduarda, da próxima vez, segure esse bicho com mais força.
Eduarda se levantou, ainda segurando Tobias, e caminhou até Emanuel. Ela se inclinou e encostou a cabeça no ombro dele, a manha voltando com força total agora que o perigo passara.
— Não fica bravo, Manu... Você é o meu único herói de verdade. O vizinho só deu uma ajudinha.
Emanuel relaxou os ombros, passando o braço pela cintura dela e puxando-a para perto. Ele olhou para Sara, que observava os dois com um sorriso doce e satisfeito. A dinâmica estava restaurada.
— Tudo bem, sua pirracenta — murmurou Emanuel. — Mas agora, chega de drama por hoje. Sara precisa descansar, você precisa estudar e eu preciso de um uísque.
— E a Ágata precisa de paz — completou Sara, acariciando a barriga. — Ela chutou o tempo todo enquanto você gritava, Duda. Acho que ela já sabe que a tia bailarina é um pouco dramática.
Eduarda riu, aproximando-se de Sara e encostando a orelha na barriga da loira, enquanto Tobias tentava escapar de seu colo.
— Desculpa, Ágata. A tia promete ser mais calma. Mas o Tobias é seu primo, a gente tinha que salvar ele.
Naquela noite, a cobertura voltou ao seu equilíbrio peculiar. Emanuel, sentado entre as duas mulheres, sentia o peso do colar no pescoço de Sara e a suavidade da cabeça de Eduarda em seu colo. O susto com Tobias fora apenas mais um lembrete de quão frágeis e preciosas eram as vidas que ele jurara proteger.
Enquanto as luzes da cidade brilhavam lá fora, ele sabia que, independentemente de vizinhos bonitões, dramas de faculdade ou os desafios da gravidez, aquele era o seu mundo. Um mundo onde a vulgaridade confiante de Sara e a timidez manhosa de Eduarda se fundiam em algo que ele chamava de lar. E, no silêncio da noite, ele fez uma promessa silenciosa à pequena Ágata: ela cresceria cercada por esse amor caótico, protegido por um homem que faria qualquer coisa para manter suas rainhas seguras.