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Sombras e Sussurros no Sertão
O asfalto da cidade havia ficado para trás, substituído pela terra batida e pelo cheiro inebriante de capim úmido e lenha queimada. A fazenda da família de Emanuel, uma propriedade centenária incrustada entre montanhas suaves, era o único lugar onde o ritmo frenético do império das tatuagens parecia não ter poder. Ali, o tempo corria devagar, ditado pelo sol e pelo vento.
Emanuel estacionou a caminhonete preta diante do casarão colonial. O silêncio da noite era quebrado apenas pelo coaxar dos sapos e pelo som distante de risadas vindas do grande terreiro de pedra atrás da casa.
— Finalmente — suspirou Sara, ajeitando o corpo no banco do passageiro. — Se eu ficasse mais dez minutos sentada nesse carro, a Ágata ia começar a protestar com chutes na minha bexiga.
Emanuel desceu do carro e deu a volta para abrir a porta para ela. Sua mão, grande e marcada por traços pretos e precisos, encontrou a cintura da loira com o cuidado de quem carrega um cristal.
— Você está pálida, Sara. O ar da serra é bom, mas você precisa de uma cama macia e doze horas de sono — ele disse, o tom de voz grave carregado daquela proteção obsessiva que se intensificara no quinto mês de gestação.
Do banco de trás, Eduarda saltou com a leveza de quem não sentia o peso do mundo. Ela usava um vestido longo de linho branco e um cardigã de tricô, os cabelos castanhos presos em uma trança frouxa que caía sobre o ombro. Seus olhos brilhavam com uma excitação quase infantil.
— Manu, escuta! — Ela apontou para o fundo da casa. — Estão todos lá! Meus pais, seus tios... o cheiro de café e bolo de milho está chegando aqui.
— Vamos logo, Duda — disse Sara, sorrindo para a empolgação da mais nova. — Antes que o seu "pai" resolva que a gente tem que ir direto para o quarto.
Eles caminharam até o terreiro, onde uma grande fogueira estalava, lançando faíscas alaranjadas contra o céu coalhado de estrelas. Os pais de Eduarda, um casal jovem e vibrante que mantinha uma relação de amizade profunda com Emanuel, estavam sentados em cadeiras de vime junto aos tios dele, velhos contadores de causos com rostos sulcados pelo tempo.
— Chegaram os nossos meninos! — exclamou o pai de Eduarda, levantando-se para abraçar a filha e apertar a mão de Emanuel.
A recepção foi calorosa, cheia de risos e perguntas sobre a gravidez de Sara. Emanuel, porém, permanecia alerta. Seus olhos não saíam de Sara, que agora aceitava uma caneca de chá de erva-doce, nem de Eduarda, que já se acomodara em um banquinho de madeira aos pés de um dos tios de Emanuel, com o olhar fixo e atento.
— ...e dizem que, nas noites de lua nova, o tropel do cavalo sem cavaleiro ainda ecoa no vale do Rio das Almas — contava o Tio Bento, com a voz rouca e misteriosa. — Quem olha pela fresta da janela, vê apenas um rastro de fogo na neblina.
Eduarda soltou um ganido baixo de deleite, abraçando os próprios joelhos. Ela amava histórias de terror, lendas rurais e o mistério que cercava o folclore daquela região. Para a sensível bailarina, aquelas narrativas eram como coreografias de sombras que alimentavam sua imaginação.
Uma hora se passou, e depois outra. O frio da madrugada começou a descer da montanha, e Sara soltou um bocejo longo, apoiando a cabeça no ombro de Emanuel.
— Chega para mim — murmurou a loira. — Meu corpo está pedindo arrego e a Ágata resolveu fazer uma sessão de ginástica rítmica nas minhas costelas.
Emanuel assentiu imediatamente. Ele se levantou, estendendo a mão para ajudar Sara.
— Vamos entrar. O sereno está ficando forte e você precisa descansar, Sara.
Ele então olhou para Eduarda, esperando que ela se levantasse também. Mas a jovem não se moveu. Ela estava hipnotizada por uma nova história que o pai dela começara a contar sobre a "Mulher de Branco da Curva do S".
— Duda, vamos — chamou Emanuel, a voz firme.
— Ah, não, Manu... só mais essa! — pediu ela, fazendo aquele biquinho que sempre precedia uma crise de manha. — O papai está contando a parte da capela abandonada. Eu quero saber o que aconteceu com o sacristão!
— Eduarda, já passa da meia-noite — Emanuel deu um passo em direção a ela, a aura de controle começando a se manifestar. — Você passou o dia viajando, está cansada e amanhã temos que acordar cedo para caminhar até a cachoeira. Para dentro. Agora.
Eduarda cruzou os braços sobre o peito, uma expressão de teimosia pura transformando seus traços doces.
— Eu não estou com sono! — rebateu ela, a voz subindo um tom, típica de quando resolvia fazer pirraça. — Eu sou adulta, Emanuel. Posso ficar aqui ouvindo histórias com meus pais e seus tios. Vocês podem ir, eu fico.
Emanuel sentiu o maxilar travar. Ele odiava ser contestado, especialmente na frente da família, e especialmente quando sua intenção era puramente zelar pelo bem-estar delas.
— Você não vai ficar aqui fora no frio, sozinha, enquanto eu e a Sara estamos lá dentro — ele disse, os olhos escuros faiscando. — Não seja infantil, Eduarda.
— Eu não sou infantil! — exclamou ela, levantando-se, mas mantendo a postura de resistência. — Você é que quer controlar cada minuto do meu tempo. A Sara precisa descansar porque está grávida, mas eu estou perfeitamente bem. Eu quero ficar aqui! Pai, diz para ele que eu posso ficar.
O pai de Eduarda riu, tentando apaziguar os ânimos.
— Calma, Emanuel. Ela está em casa, entre família. Deixe a menina ouvir mais um pouco, depois eu a levo para dentro.
— Não — a palavra de Emanuel foi cortante. — Nós somos um grupo. Se um vai, todos vão. Eu não vou conseguir dormir sabendo que ela está aqui fora se expondo ao frio e ficando com a cabeça cheia dessas bobagens de assombração para depois ter pesadelo e me acordar no meio da noite.
Eduarda bateu o pé no chão, os olhos marejados de frustração.
— Você é um chato! Um mandão! Eu não vou!
Sara, percebendo que a situação estava escalando para uma briga desnecessária, interveio. Ela colocou a mão no braço de Emanuel, sentindo a tensão nos músculos dele.
— Emanuel, querido, respira — disse ela, com sua voz aveludada e irônica. — Deixa a pequena bailarina se assustar um pouco. Se ela tiver pesadelo, o problema é seu, que vai ter que acalentar ela enquanto eu durmo o sono dos justos. Mas ficar aqui brigando com ela no meio do terreiro é pior.
— Eu não vou ceder a caprichos, Sara — rosnou Emanuel, embora a pressão do toque dela o fizesse baixar um pouco a guarda.
— Não é capricho, é pirraça! — Eduarda exclamou, aproveitando a brecha. — E eu vou fazer pirraça sim! Eu quero ouvir sobre a assombração!
Emanuel olhou para a figura esguia de Eduarda, envolta no cardigã, parecendo tão frágil e, ao mesmo tempo, tão inabalável em sua teimosia. A irritação dele era um reflexo do cansaço, mas também daquela necessidade visceral de ter as duas sob seu campo de visão, seguras e protegidas.
— Tudo bem — disse Emanuel, sua voz soando como um trovão baixo. — Você quer ficar? Fique. Mas não ouse me chamar se ficar com medo de ir até o quarto sozinha depois.
Ele se virou, pegando Sara pela mão e guiando-a em direção à casa sem olhar para trás. Eduarda soltou um suspiro de vitória, sentando-se novamente no banco, embora o brilho nos olhos tivesse diminuído um pouco ao ver as costas largas de Emanuel desaparecendo na penumbra da varanda.
— Ele ficou bravo de verdade, não foi? — perguntou ela ao pai, a voz agora pequena e manhosa.
— Ele te ama, Duda — respondeu o pai, acariciando o cabelo da filha. — E você sabe que ele tem esse jeito de querer carregar o mundo nas costas. Mas agora, continue... onde estávamos?
Lá dentro, no quarto de mobília rústica e cheiro de cera de abelha, Emanuel ajudava Sara a se trocar. Ele estava em silêncio, seus movimentos bruscos revelando a fúria contida.
— Você vai ter um derrame se continuar bufando desse jeito — comentou Sara, jogando-se nos travesseiros de penas. — Ela é só uma menina querendo um pouco de liberdade, Manu.
— Liberdade é uma coisa, falta de juízo é outra — ele rebateu, tirando a camisa e revelando a vasta coleção de tatuagens que cobria seu peito e braços. — Ela sabe que eu me preocupo. Ela faz isso para me testar.
— E você cai no teste todas as vezes — Sara riu, fechando os olhos. — Vem deitar. Deixa ela ser pirracenta. Daqui a pouco o frio aperta e ela entra correndo.
Emanuel deitou-se ao lado de Sara, puxando o edredom pesado sobre eles. Ele tentou relaxar, mas seus ouvidos estavam sintonizados em qualquer som vindo do terreiro. Dez minutos se passaram. Vinte minutos.
De repente, um grito agudo cortou o silêncio da noite, seguido pelo som de passos rápidos correndo sobre as pedras do terreiro.
Emanuel sentou-se na cama em um reflexo, o coração martelando contra as costelas. Antes que ele pudesse se levantar, a porta do quarto se abriu com estrondo e uma figura branca e trêmula se lançou sobre a cama, mergulhando entre ele e Sara.
Era Eduarda. Ela estava gelada, os olhos arregalados e a respiração ofegante.
— Manu! Manu! — ela soluçava, escondendo o rosto no peito nu dele. — Tinha... tinha alguma coisa no pomar! Um vulto... e um barulho de corrente arrastando! O Tio Bento disse que era o capataz fantasma!
Emanuel sentiu a raiva evaporar, substituída por aquela familiar e exasperante mistura de proteção e triunfo. Ele envolveu Eduarda com os braços, sentindo-a tremer como um passarinho.
— Ah, é mesmo? — disse ele, a voz agora carregada de um sarcasmo paternal. — Pensei que você fosse a adulta independente que não tinha medo de histórias de terror.
— Não brinca comigo! — ela reclamou, a voz abafada pelo peito dele, as mãos apertando os ombros tatuados com força. — Estava escuro... e o vento fez um barulho horrível! Me protege, Manu... por favor.
Sara, despertada pelo alvoroço, soltou uma gargalhada preguiçosa, esticando o braço para acariciar as costas de Eduarda.
— Eu avisei, não avisei? A pequena bailarina não aguenta dez minutos de assombração sertaneja.
— Cala a boca, Sara! — Eduarda choramingou, embora estivesse se aconchegando cada vez mais no calor de Emanuel.
Emanuel suspirou, deitando-se novamente e puxando as duas para perto de si. De um lado, Sara, a mulher forte e grávida que era sua âncora; do outro, Eduarda, a menina-mulher sensível que era sua alegria e seu maior desafio.
— Você é uma pirracenta incorrigível, Eduarda — ele murmurou, beijando o topo da cabeça dela. — E você está gelada. Se pegar um resfriado, eu vou te dar xarope de guaco amargo o fim de semana inteiro.
— Eu não me importo... só não me solta — ela pediu, a voz voltando ao tom manhoso que ele tanto conhecia. — O vulto era muito grande, Manu.
— Era apenas o vento nas bananeiras, Duda — ele explicou com paciência, embora soubesse que não adiantaria. — Mas agora você está segura. Ninguém entra neste quarto sem passar por mim.
O silêncio voltou a reinar no casarão, apenas quebrado pela respiração ritmada dos três. Emanuel sentia o peso suave de Eduarda de um lado e o calor reconfortante de Sara e da pequena Ágata do outro. Ele sabia que sua vida era um equilíbrio constante entre o controle e o caos, entre a proteção e a permissão.
— Manu? — a voz de Eduarda surgiu no escuro, quase um sussurro.
— O que foi agora?
— Amanhã... você vai comigo até o pomar ver se não tem nenhuma corrente lá?
Emanuel sorriu no escuro, fechando os olhos e sentindo-se, finalmente, em paz.
— Vou, Duda. Eu vou. Agora durma.
Naquela noite, sob o céu estrelado da fazenda, o tatuador que dominava o mundo exterior rendeu-se mais uma vez às suas duas rainhas. Entre o medo de fantasmas e a realidade do amor, ele entendeu que ser o protetor delas não era sobre evitar que tivessem medo, mas sobre ser o lugar para onde elas sempre correriam quando o medo chegasse. E, enquanto o fogo no terreiro se transformava em cinzas, Emanuel adormeceu, guardando o sono da loira que carregava seu futuro e da bailarina que mantinha sua alma eternamente jovem.