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O Segredo de Seda e Lentes

O sol da tarde entrava pelas janelas da loja de Sara, iluminando as araras repletas de vestidos de grife e conjuntos de seda que exalavam o luxo e a ousadia de sua dona. Sara estava sentada em sua mesa de vidro, os dedos batendo impacientemente sobre a superfície, enquanto olhava para um contrato elegante que repousava diante dela. Aos cinco meses de gravidez, ela irradiava uma beleza magnética; a barriga, agora nitidamente redonda, dava-lhe uma aura de fertilidade poderosa que contrastava com sua habitual vulgaridade sofisticada.

A proposta era audaciosa: uma revista de arte e moda masculina de alto padrão queria Sara para um ensaio nu temático chamado "A Vênus Moderna". Eles queriam celebrar as curvas da gravidez, o silicone, a pele tatuada e a confiança inabalável que ela exalava. O cachê era astronômico, mas não era o dinheiro que a atraía — era o ego, a validação de que ela continuava sendo um objeto de desejo absoluto, mesmo carregando Ágata no ventre.

— Eu vou fazer — murmurou Sara para si mesma, um sorriso predatório surgindo em seus lábios perfeitamente pintados.

O problema, porém, tinha nome, sobrenome e um temperamento vulcânico: Emanuel.

Ela conhecia o homem com quem dividia a vida. Emanuel era protetor ao extremo, beirando o possessivo quando se tratava da segurança e da imagem de suas mulheres. A ideia de Sara, grávida de sua filha, expondo cada centímetro de pele para milhares de desconhecidos, faria com que ele tivesse um colapso nervoso — ou, no mínimo, que ele comprasse a revista inteira antes de chegar às bancas e proibisse Sara de sair de casa por um mês.

A porta da loja se abriu e o tilintar suave do sino anunciou a chegada de Eduarda. A jovem bailarina entrou com sua leveza habitual, vestindo um vestido de algodão azul claro e carregando sua bolsa de ballet. Ela parecia um lírio em um jardim de rosas vermelhas.

— Oi, Sara! — Eduarda disse, aproximando-se com aquele sorriso doce que sempre desarmava a loira. — O ensaio na faculdade terminou cedo e eu resolvi passar aqui. Como está a Ágata hoje?

Sara fechou o contrato rapidamente, mas não rápido o suficiente para que os olhos observadores de Eduarda não notassem o timbre da revista no topo do papel.

— A pequena está agitada, acho que vai ser jogadora de futebol e não bailarina — brincou Sara, levantando-se e dando um abraço apertado na menor. — Duda, querida... você chegou em boa hora. Eu preciso da sua ajuda. E é um segredo de vida ou morte.

Eduarda franziu a testa, a timidez dando lugar a uma expressão de preocupação intuitiva. Ela se sentou no banco de veludo à frente da mesa de Sara.

— Segredo? Você sabe que eu não sou boa em esconder coisas do Manu, Sara. Ele me olha daquele jeito sério e eu sinto que meus poros estão confessando tudo.

— Por isso mesmo você vai me ajudar — Sara disse, inclinando-se para frente, os olhos brilhando. — Eu fui convidada para posar nua. Um ensaio artístico, maravilhoso, de capa. E eu aceitei.

Eduarda arregalou os olhos castanhos, as mãos subindo à boca em um gesto de puro choque.

— Nua? Sara... o Manu vai ter um ataque cardíaco! Ele é tão... você sabe como ele é. Ele quase brigou com o vizinho só porque ele devolveu o Tobias! Imagina ele vendo você em todas as bancas do país?

— Ele não vai ver até que seja tarde demais — Sara explicou, a voz baixa e conspiratória. — O ensaio vai ser feito em um estúdio fechado neste final de semana. Emanuel vai estar em um congresso de tatuagem em Curitiba, ele viaja na sexta à noite. Eu preciso que você seja meu álibi. Se ele ligar, você diz que estamos em um spa, relaxando, sem sinal de celular.

— Sara, eu não sei... — Eduarda começou a se encolher, a insegurança tomando conta. — E se ele descobrir? Ele vai ficar furioso comigo também. Ele me trata como se eu fosse de porcelana, mas quando ele fica bravo, ele dá medo.

Sara contornou a mesa e ajoelhou-se na frente de Eduarda, pegando as mãos pequenas da bailarina nas suas.

— Duda, olhe para mim. Eu preciso disso. É sobre me sentir mulher, além de ser mãe. E você é a única pessoa no mundo em quem eu confio para me dar cobertura. Você é doce, ele nunca desconfiaria de uma mentira vinda de você. Por favor, faz isso pela sua "irmã" loira?

Eduarda olhou para Sara, vendo a determinação e a vulnerabilidade escondida sob aquela fachada de mulher fatal. Ela amava Sara, admirava sua força e a forma como ela não tinha medo de nada. E, acima de tudo, ela queria que Emanuel fosse feliz, e sabia que a felicidade dele dependia do equilíbrio entre as duas.

— Tudo bem — sussurrou Eduarda, cedendo. — Mas você tem que me prometer que vai ser tudo com muito cuidado. E que, se ele descobrir, você assume a culpa toda!

— Fechado! — Sara comemorou, puxando Eduarda para um abraço triunfante.

A sexta-feira chegou com uma tensão palpável. Emanuel estava terminando de arrumar sua mala de mão no quarto do casal. Ele parecia mais cansado do que o habitual, o estresse da expansão de seus estúdios pesando em seus ombros largos.

— Tem certeza de que vocês vão ficar bem? — perguntou ele, virando-se para Sara, que estava deitada na cama, fingindo ler uma revista de decoração. — Eu posso cancelar a viagem. O gerente pode cuidar de tudo em Curitiba.

— Nem pense nisso, Emanuel — Sara disse, firme. — Eu e a Duda já planejamos nosso "fim de semana das meninas". Vamos para aquele hotel fazenda com spa que você gosta. Massagens, hidratação e muito sono. A Ágata precisa disso.

Emanuel caminhou até a cama e sentou-se ao lado dela, a mão tatuada encontrando a barriga de Sara. Ele fechou os olhos por um momento, sentindo a conexão com a filha.

— Eu não gosto de deixar vocês sozinhas, Sara. Especialmente com a Duda sendo tão... distraída.

— Eu não sou distraída, Manu! — Eduarda apareceu na porta, vestindo um casaco de lã largo e segurando a caixa de transporte de Tobias. Ela estava nervosa, o que a tornava ainda mais manhosa. — Eu vou cuidar da Sara e da Ágata. E o Tobias vai proteger a gente.

Emanuel olhou para Eduarda e sentiu uma pontada de desconfiança. Ela estava evitando contato visual, o que geralmente significava que ela estava escondendo alguma coisa — provavelmente que tinha comprado mais sapatilhas do que o necessário ou que pretendia comer doces escondida.

— Eduarda, venha aqui — ele ordenou.

Ela se aproximou lentamente, parando entre as pernas dele enquanto ele ainda estava sentado na cama. Emanuel a puxou pela cintura, fazendo-a sentar em seu colo. Ele a encarou com aqueles olhos observadores que pareciam ler almas.

— Se acontecer qualquer coisa, qualquer enjoo da Sara ou se você se sentir insegura, você me liga na hora. Não importa se eu estiver no meio de uma convenção. Entendido?

— Sim, Manu... — ela murmurou, escondendo o rosto no pescoço dele, buscando o cheiro de sândalo e tinta que sempre a acalmava. — Vai dar tudo certo. A gente só quer descansar.

Emanuel suspirou, beijando a têmpora de Eduarda e depois os lábios de Sara.

— Eu amo vocês. Volto no domingo à noite.

Assim que a porta da cobertura se fechou e o som do elevador indicou que Emanuel havia partido, o clima no apartamento mudou instantaneamente.

— Rápido, Duda! A equipe de fotografia chega em trinta minutos — Sara gritou, saltando da cama com uma energia renovada.

— Eu ainda acho que isso vai dar errado — disse Eduarda, mas ela já estava ajudando Sara a separar os roupões e os acessórios para o ensaio.

O sábado foi um borrão de flashes, maquiadores e tecidos luxuosos. O ensaio estava sendo feito na própria cobertura, aproveitando a luz natural e a decoração impecável que Emanuel tanto prezava. Sara estava em seu elemento, posando nua sobre lençóis de seda preta, a pele brilhando com óleo corporal, parecendo uma deusa da fertilidade saída de um sonho erótico e artístico.

Eduarda, por outro lado, era o centro nervoso da operação. Ela ficava perto da janela, vigiando a rua, e pulava toda vez que o telefone fixo tocava.

— Sara, o Manu ligou no meu celular três vezes! — exclamou Eduarda, entrando na sala onde o fotógrafo ajustava as luzes. — Eu mandei uma mensagem dizendo que a bateria estava acabando e que o sinal no spa era péssimo. Ele vai desconfiar!

— Ele está em Curitiba, Duda, relaxa — Sara disse, mudando de pose, exibindo a curva da barriga com uma mão enquanto a outra cobria estrategicamente os seios siliconados. — Ele está ocupado com agulhas e tintas.

Mas o destino, ou talvez o instinto protetor de Emanuel, tinha outros planos.

Em Curitiba, Emanuel estava sentado em um jantar de negócios, mas sua mente não estava nos gráficos de lucro. Ele sentia uma inquietação no peito, um "aperto" que ele só sentia quando algo estava fora de lugar em seu mundo. Ele tentara ligar para Sara e o celular dava caixa postal. Eduarda respondera com mensagens curtas e evasivas, algo totalmente fora do padrão manhoso e detalhista da bailarina.

— Algum problema, Sr. Emanuel? — perguntou o sócio à mesa.

— Sim — Emanuel levantou-se, pegando o paletó. — Um problema chamado intuição. Peço desculpas, mas preciso voltar para São Paulo agora.

Ele não esperou por explicações. Pegou seu jato particular e, em menos de duas horas, estava aterrissando em Congonhas. O trajeto até a cobertura foi feito em tempo recorde. Ele não avisou que estava voltando; ele queria ver com os próprios olhos o que estava acontecendo naquele "spa".

Quando Emanuel abriu a porta da cobertura com sua chave mestra, o silêncio que ele esperava não existia. Havia vozes, o som de música ambiente e o estalo constante de equipamentos eletrônicos.

Ele caminhou pelo hall, o rosto transformando-se em uma máscara de fúria contida. Ao chegar à sala principal, a cena que encontrou congelou seu sangue.

Sara estava posada sobre o seu piano de cauda, completamente nua, coberta apenas por um véu transparente de tule que Eduarda segurava em uma das pontas para criar um efeito de movimento. O fotógrafo estava agachado, disparando cliques frenéticos.

— Mas que p*rra é essa?! — O rugido de Emanuel ecoou pelas paredes, fazendo o fotógrafo quase derrubar a câmera e Eduarda soltar o tecido, que caiu sobre o rosto de Sara.

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. O fotógrafo e sua assistente começaram a recolher o equipamento com uma velocidade impressionante, sentindo a aura assassina que emanava do dono da casa.

— Todo mundo fora. Agora! — Emanuel ordenou, a voz baixa e vibrante de raiva, o tipo de tom que fazia qualquer um obedecer sem questionar.

Em menos de dois minutos, apenas os três restaram na sala. Sara, com uma calma irritante, enrolou-se no véu de tule como se fosse uma toga romana e desceu do piano com elegância. Eduarda, no entanto, parecia que ia desmaiar a qualquer momento. Ela estava encolhida perto da janela, as mãos entrelaçadas, os olhos transbordando lágrimas de puro terror.

— Emanuel, você voltou cedo — Sara disse, caminhando em direção a ele com um sorriso desafiador. — O congresso foi tão chato assim?

Emanuel a ignorou por um segundo, seus olhos cravados em Eduarda.

— Eduarda, venha aqui.

Ela negou com a cabeça, soluçando.

— M-Manu... desculpa... a Sara queria tanto...

— Eu disse: venha aqui — ele repetiu, a voz um pouco mais suave, mas ainda carregada de autoridade.

Eduarda caminhou até ele, trêmula. Emanuel a pegou pelo braço, não com força, mas com uma firmeza que a impediu de fugir. Ele a puxou para perto de si, sentindo o coração dela bater acelerado contra suas costelas.

— Você mentiu para mim, Eduarda. Você me disse que estavam em um spa. Você me ajudou a ser enganado dentro da minha própria casa.

— Não briga com ela, Emanuel! — Sara interveio, aproximando-se e colocando a mão no peito dele. — A ideia foi minha. O contrato é meu. A Duda só estava tentando me fazer feliz porque ela sabe que eu precisava disso. Ela é leal, algo que você deveria valorizar.

Emanuel soltou um riso seco, olhando para Sara com uma mistura de adoração e fúria.

— Lealdade? Vocês duas se aliaram contra mim! Sara, você está grávida! Você tem noção do risco de colocar estranhos aqui dentro, de se expor dessa forma? Se você queria fotos, eu mesmo as tiraria! Eu sou um artista, p*rra!

— Você é um controlador, isso sim! — Sara rebateu, cruzando os braços, o que fez o véu escorregar levemente. — Eu não sou sua propriedade, Emanuel. Nem a Duda. Nós somos suas mulheres, não suas prisioneiras.

Emanuel passou a mão pelo cabelo curto, tentando não explodir. Ele olhou para Eduarda, que agora chorava silenciosamente em seu peito, e para Sara, que o enfrentava com a cabeça erguida. O conflito interno era brutal: ele queria puni-las pela mentira, mas o amor possessivo que sentia por ambas o impedia de ser verdadeiramente cruel.

— Acabou — ele decretou. — O ensaio, as mentiras, tudo. Sara, você vai me dar esse contrato e eu vou cuidar dos termos de cancelamento ou de privacidade absoluta. Nenhuma foto sai desta casa sem a minha aprovação final.

— E se eu não quiser? — Sara provocou.

Emanuel deu um passo em direção a ela, sua altura a intimidando por um breve segundo.

— Então você vai descobrir que eu posso ser muito mais difícil do que um "ditador rico". Eu faço isso pela Ágata. E por você. E pela Duda, que está passando mal de nervoso por causa da sua teimosia.

Ele voltou sua atenção para Eduarda, levantando o queixo dela com o polegar.

— E você... você vai passar o resto do fim de semana de castigo comigo. Sem ballet, sem faculdade, apenas você e eu, para você aprender que mentir para mim tem consequências.

Eduarda soltou um suspiro trêmulo, a manha voltando a surgir através do medo.

— Você vai me perdoar, Manu? — ela perguntou, a voz minúscula.

— Vou. Mas vai custar caro — ele murmurou, beijando-a com uma intensidade que selava sua autoridade.

Sara observou a cena e, apesar da raiva por ter sido descoberta, sentiu uma onda de satisfação. Ela conseguira o que queria: as fotos estavam feitas, e Emanuel estava de volta, possessivo e presente como sempre. Ela se aproximou dos dois, abraçando Emanuel pelas costas e encostando a barriga em sua lombar.

— Tudo bem, grandão. Você venceu esta rodada. Mas a Ágata achou o flash maravilhoso. Ela não parou de chutar.

Emanuel relaxou os ombros, sentindo o calor das duas mulheres que eram seu céu e seu inferno. Ele suspirou, derrotado pelo afeto.

— Eu odeio vocês duas — ele mentiu, fechando os olhos enquanto as envolvia em seus braços.

— Nós também te amamos, Manu — Eduarda sussurrou, aconchegando-se.

Naquela noite, não houve spa, nem congresso, nem mais fotos. Houve apenas a reconciliação tensa e apaixonada de três pessoas que, entre mentiras e verdades, segredos e exposições, continuavam a construir um mundo onde o único juiz era o amor que sentiam uns pelos outros. E Emanuel, enquanto guardava o cartão de memória da câmera que confiscara, sabia que, no fundo, ele nunca teria o controle total sobre Sara e Eduarda — e que era exatamente por isso que ele não conseguia viver sem elas.

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