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Sombras no Escuro e o Preço do Orgulho

O silêncio no apartamento de luxo de Emanuel não era o tipo de silêncio que trazia paz; era uma barreira sólida, fria e intransponível. Já se passavam três dias desde que ele e Eduarda haviam tido aquela discussão homérica sobre a falta de responsabilidade dela com os horários da faculdade e os ensaios de ballet. Emanuel, sempre prático e focado no controle, não suportava o que ele chamava de "caos desnecessário". O resultado? Um gelo cortante. Ele falava o estritamente necessário com ela, focando toda a sua atenção e seu lado protetor em Sara, que agora, com a gestação avançando, demandava ainda mais cuidados.

Naquela tarde, Emanuel estava sentado no sofá, com os pés de Sara sobre seu colo. Ele massageava os tornozelos dela com uma paciência que Eduarda não recebia há dias.

— Assim está bom, loira? — perguntou ele, a voz suavizando apenas para ela.

— Está perfeito, Manu. Você tem mãos de anjo quando quer — Sara respondeu, saboreando um morango com leite condensado. Ela usava um robe de seda curto, a barriga começando a ganhar uma forma mais nítida, e o cabelo loiro preso em um coque despojado, mas ainda assim parecendo uma estrela de cinema. — Mas você sabe que a bonequinha está sofrendo ali no canto, não sabe?

Emanuel nem sequer desviou o olhar para o corredor onde Eduarda tinha acabado de passar.

— Ela precisa aprender que não pode fazer o que quer e esperar que eu resolva tudo depois. O gelo vai continuar até ela vir falar comigo como uma adulta, e não com pirraça.

Eduarda, escondida atrás da pilastra da sala de jantar, sentiu o peito apertar. O biquinho nos lábios era automático, a manha correndo em suas veias como sangue. Ela queria correr até ele, sentar no outro lado do sofá e exigir o seu quinhão de carinho, mas o orgulho da bailarina era tão forte quanto sua flexibilidade. Se ele queria ser frio, ela seria gelo puro.

— Ah, é? — sussurrou ela para si mesma, os olhos castanhos brilhando com uma determinação infantil. — Então eu vou sair. Sozinha.

Sem avisar, ela pegou sua bolsa e saiu. Emanuel ouviu o bater da porta, mas não se moveu. Ele achou que ela iria para a biblioteca ou para a casa de alguma amiga da faculdade. Mal sabia ele que a mente de Eduarda, em um misto de rebeldia e carência, a levaria para o lugar mais improvável possível.

Duas horas depois, Eduarda estava sentada na terceira fileira de um cinema quase vazio. O cheiro de pipoca amanteigada, que normalmente a confortava, agora parecia enjoativo. Ela tinha escolhido o filme mais comentado da semana, um terror psicológico sobre um palhaço sobrenatural que caçava vítimas em seus sonhos. Ela odiava terror. Ela tinha pavor de palhaços. Mas, na sua lógica distorcida de vinte anos, ver aquele filme era um ato de bravura que provaria a Emanuel que ela não precisava da proteção dele.

— Eu sou corajosa — murmurou ela, encolhendo-se na poltrona enquanto a música do filme subia de tom, tornando-se estridente e agoniante.

O que se seguiu foi um massacre sensorial. A imagem do palhaço, com dentes afiados e um sorriso que parecia rasgar o rosto, fixou-se na retina de Eduarda. A cada susto, ela sentia o coração disparar, mas se recusava a sair. Ela ficou até os créditos finais, paralisada, as mãos agarradas aos braços da poltrona até os nós dos dedos ficarem brancos.

Quando saiu do cinema, a noite já havia caído. O shopping estava silencioso, e cada sombra projetada nas paredes brancas parecia tomar a forma de um traje bufante e colorido. Eduarda caminhava rápido, a respiração curta. O choque era real. Ela sentia frio, um frio que vinha de dentro, e a sensação de estar sendo observada era constante.

Ao chegar em casa, o apartamento estava na penumbra. Emanuel e Sara provavelmente já estavam no quarto. O impulso inicial de Eduarda foi correr para o quarto de Emanuel, pular na cama entre ele e Sara e chorar até que ele a abraçasse e dissesse que os monstros não existiam. Mas então ela lembrou do olhar frio dele naquela manhã.

— Não — disse ela em um soluço baixo. — Eu não vou dar esse gostinho a ele.

Ela foi para o seu próprio quarto. Acendeu todas as luzes: a do teto, o abajur da escrivaninha, a luz do closet. Deitou-se na cama, mas, sempre que fechava os olhos, via o rosto pintado de branco e o balão vermelho flutuando. Ela via o palhaço no reflexo do espelho, na fresta da porta, atrás da cortina de seda.

A noite passou em um borrão de terror. Eduarda não dormiu um minuto sequer. Às seis da manhã, exausta e à beira de um colapso nervoso, ela tomou uma decisão. Ela não ficaria ali. Se Emanuel não a queria, ela iria para onde fosse acolhida sem julgamentos.

Ela arrumou uma mochila pequena, as mãos tremendo tanto que mal conseguia fechar o zíper. Saiu do quarto e deu de cara com Emanuel na cozinha, preparando um café forte. Ele estava sem camisa, exibindo as tatuagens que cobriam seus braços e peito, o rosto ainda marcado pelo sono.

— Onde você pensa que vai a essa hora, Eduarda? — perguntou ele, a voz rouca e ainda carregada daquela autoridade fria.

Ela parou, o rosto pálido e as olheiras profundas denunciando o estado emocional.

— Vou para a casa da minha irmã — respondeu ela, tentando manter a voz firme, mas falhando miseravelmente no final.

Emanuel franziu o cenho, aproximando-se. Ele notou a palidez excessiva e o jeito como ela desviava o olhar de qualquer canto escuro da sala.

— Você está péssima. O que aconteceu?

— Nada que te interesse, Emanuel. Você não está ocupado cuidando da Sara e sendo "racional"? Pois continue. Eu não preciso de você.

Ela passou por ele como um raio. Emanuel ficou parado, a caneca de café esquecida na mão. Ele sentiu uma pontada de culpa, mas o seu lado controlador ainda falava mais alto. "Ela está fazendo cena", pensou ele. "É só mais uma das pirraças dela".

Na casa da irmã, a situação não melhorou. Eduarda passou o dia encolhida no sofá, recusando-se a comer. A irmã, percebendo que algo estava muito errado, tentou conversar, mas Eduarda apenas dizia que estava cansada. No entanto, sempre que uma porta rangia ou alguém ria mais alto na rua, ela dava um pulo, os olhos arregalados de pavor.

Enquanto isso, no apartamento, o clima estava estranho. Sara, com seu instinto aguçado, percebeu que o "gelo" de Emanuel tinha passado do ponto.

— Manu, você é um idiota — disse ela, enquanto ele retocava um desenho em seu tablet.

— O quê? Por que eu sou o idiota agora? — perguntou ele, irritado.

— A Duda saiu daqui parecendo um fantasma. Eu conheço aquela menina. Ela não faz aquela cara de pavor por pirraça. Alguma coisa aconteceu. E você, com esse seu ego do tamanho dos seus estúdios, deixou ela ir embora.

— Ela precisa de espaço, Sara. E eu também.

— Ela não precisa de espaço, seu tatuador de meia-tigela! Ela precisa de colo! Se ela foi para a casa da irmã, é porque não se sente segura aqui com você a tratando como um estranho.

As palavras de Sara atingiram Emanuel como um soco. Ele largou o tablet e pegou o celular. Ligou para a irmã de Eduarda.

— Oi, é o Emanuel. A Eduarda está aí?

— Está, Emanuel, mas ela não está nada bem — a voz da cunhada era de preocupação. — Ela está trancada no quarto com todas as luzes acesas. Ela não come, não fala coisa com coisa e fica repetindo que "ele vai voltar". Que história é essa de palhaço, Emanuel?

O sangue de Emanuel gelou.

— Palhaço?

— É. Ela disse que foi ao cinema ver um tal filme de terror. Ela está em choque, Emanuel. Ela está vendo coisas.

Emanuel desligou o telefone sem se despedir. A fúria que sentia contra Eduarda por sua teimosia foi instantaneamente substituída por uma onda avassaladora de proteção. Ele se sentiu o pior homem do mundo. Como ele pôde deixá-la sair naquele estado?

— Eu vou buscar ela — disse ele para Sara, já pegando as chaves do carro.

— Vai logo! E se voltar sem ela, nem precisa entrar! — gritou Sara, embora no fundo estivesse torcendo para que ele resolvesse logo aquele desastre.

Emanuel dirigiu como um louco. Ao chegar na casa da irmã de Eduarda, ele entrou sem bater. Foi direto para o quarto de hóspedes. Quando abriu a porta, o cenário partiu seu coração.

Eduarda estava sentada no meio da cama, enrolada em três cobertores, apesar do calor. Todas as luzes estavam acesas, incluindo a lanterna do celular que ela segurava com força. Ela olhava fixamente para o canto do teto, os lábios tremendo.

— Duda... — chamou ele, a voz carregada de dor.

Ela deu um grito curto e se encolheu ainda mais.

— Não chega perto! Não olha para ele!

— Sou eu, pequena. É o Manu — ele se aproximou lentamente, como se estivesse lidando com um animal ferido. — Não tem ninguém aqui além de mim.

Eduarda focou os olhos nele. Por um momento, a pirraça e o orgulho brilharam, mas foram rapidamente sufocados pelo terror.

— Você... você me deu um gelo — soluçou ela, as lágrimas finalmente caindo. — Você me deixou sozinha.

— Eu sei, meu amor. Eu fui um idiota. Um completo idiota — ele sentou-se na cama e, desta vez, não permitiu que ela se afastasse. Puxou-a para o seu colo, envolvendo-a com seus braços fortes, cobrindo-a com seu corpo como se fosse um escudo. — Eu sinto muito. Eu nunca mais vou deixar você sozinha, nem que você faça a maior pirraça do mundo.

Eduarda enterrou o rosto no pescoço dele, chorando compulsivamente.

— O palhaço... ele estava no cinema, Manu. Ele era horrível. Ele ia me pegar porque eu estava sozinha.

— Ninguém vai te pegar. Eu mato qualquer palhaço que chegar perto de você — ele sussurrou, beijando as têmporas dela, sentindo a tensão começar a deixar os músculos dela. — Eu estou aqui. Eu sou o seu porto, lembra?

Ele ficou ali, balançando-a suavemente, por quase uma hora. Aos poucos, a respiração dela foi se acalmando. O pavor irracional que o filme tinha causado começava a ser dissipado pela presença física e protetora de Emanuel.

— Vamos para casa? — perguntou ele, limpando o rosto dela com os polegares. — A Sara está preocupada. Ela até me xingou por sua causa.

Eduarda deu um sorriso minúsculo, ainda manhoso.

— Ela xingou?

— Muito. Disse que eu sou um ogro. E ela tem razão.

— Você é um ogro — concordou ela, apertando a camisa dele. — Mas é o meu ogro.

Emanuel a carregou até o carro, não permitindo que ela desse um passo sequer. Durante todo o trajeto de volta, ele manteve uma mão firme sobre a coxa dela, garantindo que ela sentisse sua presença.

Quando chegaram ao apartamento, Sara estava esperando na porta, com os braços cruzados sobre a barriga.

— Olha só quem resolveu aparecer — disse Sara, mas sua voz não tinha veneno. Ela se aproximou e passou a mão no cabelo de Eduarda. — Você está horrível, bonequinha. O que passou na sua cabeça de ir ver filme de terror? Você não aguenta nem comercial de filme de suspense!

— Eu queria ser corajosa — murmurou Eduarda, escondendo-se atrás de Emanuel.

— Pois ser corajosa é saber a hora de pedir um abraço, sua boba — Sara disse, puxando-a para um abraço rápido e desajeitado por causa da barriga. — Agora, vai tomar um banho. O Manu vai fazer aquele chocolate quente que você gosta e nós vamos dormir todos juntos na cama grande.

Emanuel olhou para Sara, surpreso.

— Todos juntos?

— Sim, Emanuel. Ela está em choque e eu estou grávida e carente. Você vai ficar no meio e servir de travesseiro para as duas. É o mínimo que você pode fazer depois do gelo que deu nela.

Emanuel não reclamou. Naquela noite, a luz do quarto principal ficou acesa, mas Eduarda não precisou olhar para as sombras. Ela tinha o braço de Emanuel em volta da sua cintura e a mão de Sara segurando a sua.

— Manu? — sussurrou Eduarda, quase pegando no sono.

— Oi, pequena.

— Se eu ver um palhaço amanhã... você tatua um balão vermelho no braço só para eu saber que você o capturou?

Emanuel riu baixo, um som vibrante que trouxe o conforto final que ela precisava.

— Eu tatuo o que você quiser, Duda. Mas agora, durma. Eu estou vigiando.

E ali, entre a loira exuberante que carregava seu filho e a bailarina sensível que carregava seu coração, Emanuel entendeu que seu papel de protetor nunca teria fim, e que o equilíbrio daquela família residia justamente na aceitação de que, às vezes, a lógica precisava se curvar diante de um chocolate quente e de um pedido manhoso de proteção.

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