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Ouro, Grifes e Manhas

O sábado amanheceu ensolarado, o tipo de dia que convidava a gastar. Emanuel, no entanto, preferia estar em um de seus estúdios, focado no som da máquina de tatuagem e no cheiro de antisséptico, mas ele sabia que tinha uma dívida emocional a pagar. Depois do episódio do cinema e do susto com o estado de choque de Eduarda, ele havia prometido que o final de semana seria delas. E quando se tratava de Sara e Eduarda juntas, "ser delas" geralmente envolvia o shopping mais caro da cidade e o uso ilimitado de seus cartões de crédito.

Emanuel caminhava pelo corredor de mármore polido do centro comercial, sentindo-se como um guarda-costas de luxo. De um lado, Sara exibia sua silhueta de grávida de um mês com um vestido de malha colado, saltos agulha que desafiavam a gravidade e óculos escuros que custavam o preço de uma moto popular. Do outro, Eduarda parecia uma camponesa moderna, usando um vestido de linho solto, sapatilhas de bailarina e o cabelo castanho preso em um laço de fita, segurando o braço de Emanuel com uma possessividade doce.

— Manu, olha aquela vitrine! — Sara exclamou, apontando para uma loja de grife italiana. — O herdeiro está chutando, e eu tenho certeza de que é um sinal de que ele precisa daquela bolsa de couro de avestruz.

Emanuel arqueou uma sobrancelha, olhando para a barriga ainda quase imperceptível de Sara.

— Sara, o bebê tem o tamanho de uma semente de papoula. Ele não está chutando nada, e muito menos pedindo acessórios de luxo.

— Não subestime o bom gosto genético, querido — Sara rebateu, retirando os óculos e lançando-lhe um olhar provocador. — Além disso, eu administro minha própria loja, sei o que é tendência. Aquela bolsa é um investimento.

Enquanto Sara entrava na loja com a autoridade de uma rainha, Eduarda parou na frente de uma livraria que também vendia artigos de papelaria fina e materiais para arte. Ela olhou para Emanuel com aqueles olhos grandes e expressivos, o lábio inferior projetado em um biquinho irresistível.

— Manu... — ela murmurou, a voz saindo pequena e manhosa.

— O que foi agora, pequena? — Emanuel suspirou, já sabendo o que viria.

— Eu vi um conjunto de pincéis de cerdas naturais e uns cadernos de couro para croquis... Eles são tão lindos. E eu preciso para a faculdade de História da Arte.

Emanuel olhou para a vitrine da livraria e depois para a loja onde Sara já estava dando ordens a três vendedoras. Ele se sentia entre a cruz e a espada, ou melhor, entre o luxo agressivo e a delicadeza insistente.

— Você já tem uns vinte cadernos em casa, Duda. Metade deles está em branco.

Eduarda soltou o braço dele e cruzou os próprios braços, virando o rosto com uma pirraça ensaiada.

— Aqueles são para anotações de aula. Esses novos seriam para os meus desenhos de anatomia do ballet. É diferente. Mas tudo bem, se você prefere gastar tudo com as bolsas da Sara...

Emanuel sentiu a têmpora latejar. Ele odiava quando elas entravam nesse modo de competição silenciosa, embora soubesse que, no fundo, elas se adoravam. Era apenas o jeito delas de testar o quanto ele estava disposto a mimá-las.

— Eu não disse que não ia comprar — ele cedeu, puxando-a para perto e beijando o topo de sua cabeça. — Vamos buscar a Sara e depois vamos lá.

Ao entrarem na loja de grife, encontraram Sara sentada em um divã de veludo, bebendo champanhe (que ela prontamente trocou por água com gás ao lembrar da gravidez, mas sem perder a pose) enquanto avaliava três modelos diferentes de bolsas.

— Manu, decidi que não quero a de avestruz. Quero a de couro legítimo preta, porque combina com meu humor hoje — disse ela, apontando para o balcão onde as compras já estavam sendo embaladas. — Pode passar o cartão. O preto, por favor. O limite do dourado é muito baixo para o meu padrão de vida atual.

Emanuel caminhou até o caixa, sentindo o peso da carteira. Ele era um homem rico, muito rico, mas ver a facilidade com que Sara gastava milhares de reais em dez minutos sempre o deixava levemente atordoado. Ele entregou o cartão para a vendedora, que o recebeu com um sorriso que beirava a adoração.

— Mais alguma coisa, senhora? — perguntou a vendedora para Sara.

— Aquela echarpe de seda ali — Sara apontou. — Vai ficar linda na Duda. O tom de azul realça os olhos dela.

Eduarda, que estava timidamente olhando os sapatos, iluminou-se. Ela correu até Sara e deu-lhe um beijo na bochecha.

— Obrigada, Sara! É linda mesmo!

Emanuel observou a cena, balançando a cabeça. Esse era o mistério daquela relação. Sara podia ser vulgar, barulhenta e gastadora, mas ela cuidava de Eduarda à sua maneira. E Eduarda, com toda sua timidez, aceitava o brilho de Sara como um complemento para sua própria luz suave.

— Pronto — disse Emanuel, pegando as sacolas pesadas. — Agora a livraria.

— Ah, não, livraria é muito chato — reclamou Sara, fazendo um gesto de desdém com as unhas perfeitamente feitas. — Vamos para a loja de sapatos primeiro. Eu vi um scarpin que...

— Sara — Emanuel interrompeu, o tom de voz firme, de quem estava retomando o controle. — Nós vamos na livraria. A Duda esperou pacientemente você escolher sua bolsa.

Sara bufou, mas não discutiu. Ela sabia exatamente até onde podia esticar a corda com Emanuel antes que ele ficasse realmente irritado.

Na livraria, o ambiente era mais calmo, com cheiro de papel novo e café. Eduarda parecia ter entrado em um santuário. Ela deslizava os dedos pelos livros, escolhendo cada item com uma precisão quase religiosa. Emanuel a observava, notando como ela ficava bonita quando estava concentrada em algo que amava.

Quando chegaram ao caixa, a conta de Eduarda era uma fração da de Sara, mas a quantidade de itens era tripla. Canetas nanquim, papéis de diferentes gramaturas, livros importados sobre o Renascimento.

Eduarda parou diante de Emanuel. Ela não olhou para a vendedora, nem para a máquina de cartão. Ela simplesmente parou à frente dele, com uma expressão de expectativa pura. Lentamente, ela esticou a mãozinha aberta, a palma voltada para cima, os dedos finos e delicados levemente curvados.

— Manu... — ela chamou, num sussurro doce e exigente ao mesmo tempo.

Emanuel olhou para a mãozinha dela e depois para o rosto de anjo. Aquilo era um ritual. Eduarda raramente usava os cartões adicionais que ele lhe dera; ela preferia que ele lhe desse o dinheiro ou o cartão pessoal no momento da compra. Era uma forma de sentir que ele estava provendo diretamente para ela, uma necessidade de proteção e dependência que Emanuel, em seu íntimo, adorava satisfazer.

— Você não tem o seu cartão na bolsa, pequena? — ele provocou, apenas para ver a reação dela.

Eduarda fez uma pirraça imediata. Bateu o pé levemente no chão, balançando os ombros.

— Eu quero o seu, Manu. Dá o seu. Você disse que ia me dar o que eu quisesse hoje.

— Ela é tão previsível — comentou Sara, encostada numa prateleira de best-sellers, observando a cena com diversão. — Dá logo o cartão para a menina, Emanuel. Você sabe que ela não vai sair daqui sem esse troféu de dominação.

Emanuel soltou um riso curto e tirou a carteira do bolso de trás da calça jeans. Ele retirou o cartão negro e, em vez de entregar à vendedora, colocou-o delicadamente sobre a palma da mão de Eduarda. No momento em que o plástico tocou sua pele, ela fechou os dedos com força, um sorriso vitorioso iluminando seu rosto.

— Obrigada, meu amor — ela disse, ficando na ponta dos pés para dar um selinho rápido nele antes de entregar o cartão para a atendente, sentindo-se a mulher mais poderosa do mundo por aqueles segundos.

Depois das compras, o cansaço começou a bater, especialmente para Sara. Eles decidiram almoçar em um restaurante de massas no terraço do shopping, um lugar reservado e com uma vista deslumbrante da cidade.

Enquanto esperavam os pratos, o clima era de descontração. Sara estava com a cabeça encostada no ombro de Emanuel, enquanto Eduarda folheava um de seus livros novos, sentada do outro lado dele, mantendo uma mão apoiada na perna do homem.

— Eu estava pensando — começou Sara, a voz mais baixa e menos irônica do que o habitual —, que precisamos começar a planejar o quarto do bebê. E eu não quero nada de azul ou rosa tradicional. Quero algo moderno, talvez cinza e dourado.

— Eu posso ajudar a pintar alguns detalhes! — sugeriu Eduarda, animada. — Posso fazer afrescos de nuvens ou anjinhos no teto.

— Anjinhos são cafonas, Duda — Sara retrucou, mas logo suavizou o tom. — Mas talvez umas estrelas minimalistas fiquem legais. Você tem mão boa para isso.

Emanuel ouvia a interação das duas, sentindo uma satisfação profunda. Muitas pessoas o julgariam, diriam que aquela configuração familiar era impossível ou imoral, mas ali, no microcosmos que ele havia criado, tudo fazia sentido. Ele precisava da vivacidade de Sara para mantê-lo alerta e da doçura de Eduarda para mantê-lo humano.

— O que foi, Manu? Por que está com essa cara de filósofo? — perguntou Sara, cutucando-o.

— Só estou pensando no quanto eu vou ter que trabalhar para sustentar o luxo de uma e os caprichos artísticos da outra — ele brincou, embora todos soubessem que ele tinha recursos para sustentar dez como elas.

— Ah, não reclama — disse Eduarda, fechando o livro e abraçando o braço dele. — Você adora que a gente gaste seu dinheiro. Faz você se sentir o grande protetor da tribo.

— Ela está ficando esperta, Emanuel — riu Sara. — Começou a ler seus instintos.

O almoço seguiu tranquilo, mas a paz durou pouco. Assim que terminaram, Eduarda viu, através da vidraça do restaurante, uma loja de artigos para ballet no andar de baixo.

— Manu! As minhas sapatilhas de ponta estão gastas! Eu preciso de um par novo para o ensaio de segunda-feira!

Emanuel fechou os olhos por um segundo, respirando fundo.

— Duda, nós já estamos com dez sacolas. Eu não tenho mais mãos para carregar nada.

— Mas é para o meu trabalho, Manu! — ela começou a chorar, ou pelo menos a fazer a expressão de choro iminente que sempre desarmava Emanuel. — Eu não posso dançar com sapatilhas velhas, eu posso me machucar. Você quer que eu quebre o tornozelo?

— Lá vem o drama — murmurou Sara, embora estivesse sorrindo por trás dos óculos escuros.

— Tudo bem, tudo bem! — Emanuel levantou as mãos em sinal de rendição. — Vamos comprar as sapatilhas. Mas depois disso, vamos para casa. Sem paradas, sem vitrines, sem "olha que coisinha fofa".

— Prometo! — Eduarda exclamou, saltitando de alegria.

Na loja de ballet, o processo foi mais demorado. Eduarda experimentava cada sapatilha, testando o equilíbrio, subindo nas pontas e fazendo piruetas curtas no meio da loja. Emanuel observava com orgulho silencioso. A fragilidade dela desaparecia quando ela dançava; ali, ela era pura técnica e força.

Sara, por outro lado, estava ficando impaciente. Ela começou a olhar as roupas de ginástica e as saias de tule.

— Manu, olha essa saia de tule preta. Se eu usar com um espartilho e uma bota, fica um visual bem rock n' roll para a loja, não acha?

— Sara, você está grávida. Espartilhos não são uma boa ideia — Emanuel lembrou, com seu pragmatismo habitual.

— Só por uns meses, querido. Depois eu volto ao meu corpo de modelo. Vou levar a saia.

No caixa, a cena se repetiu. Eduarda parou na frente de Emanuel, esticou a mãozinha e esperou. Dessa vez, Emanuel decidiu brincar um pouco mais. Ele pegou a mão dela e a beijou, mas não entregou o cartão.

— E o que eu ganho em troca por ser o seu banco particular hoje? — ele perguntou, com um brilho malicioso nos olhos.

Eduarda corou, ficando da cor das sapatilhas rosa que estava comprando. Ela olhou para os lados, vendo que Sara estava distraída com uma vendedora.

— Eu... eu deixo você escolher o filme hoje à noite. E não vou reclamar se for de ação ou guerra — ela sussurrou, aproximando-se do ouvido dele. — E faço aquela massagem nas suas costas que você gosta.

Emanuel sorriu, satisfeito. Ele tirou o cartão e o entregou para ela.

— Negócio fechado.

Ao saírem do shopping, Emanuel estava carregado de sacolas, os braços doendo, mas com uma sensação de dever cumprido. Ele ajudou as duas a entrarem no carro, acomodando as compras no porta-malas com a precisão de quem joga Tetris.

No caminho de volta, o silêncio se instalou, mas era um silêncio confortável. Sara acabou pegando no sono, com a cabeça pendida para o lado, a mão protegendo instintivamente a barriga. Eduarda, no banco de trás, olhava as fotos que tirara de seus novos materiais de arte, ocasionalmente esticando a mão para tocar o ombro de Emanuel, apenas para garantir que ele ainda estava ali.

Ao chegarem em casa, Emanuel descarregou tudo na sala. O apartamento, amplo e moderno, logo ficou bagunçado com papéis de seda, caixas e sacolas de grife.

— Estou exausta — declarou Sara, jogando-se no sofá e chutando os saltos para longe. — Ser rica cansa demais. Duda, vai buscar uma água para mim? Com gelo e limão.

Eduarda, que normalmente faria uma pirraça por ser mandada, estava de tão bom humor que obedeceu sem questionar. Ela trouxe a água para Sara e um café para Emanuel.

— Aqui, Manu. Do jeito que você gosta, sem açúcar e bem quente.

Ele aceitou a xícara, sentando-se na poltrona diante das duas.

— Vocês duas vão me levar à falência — ele disse, embora o sorriso em seu rosto dissesse o contrário.

— Dinheiro foi feito para circular, Emanuel — Sara disse, fechando os olhos. — E nós somos excelentes agentes circuladoras.

— E nós fazemos você feliz — completou Eduarda, sentando-se no chão, apoiando a cabeça nos joelhos de Emanuel. — Admite. Você adora quando a gente pede as coisas para você.

Emanuel passou a mão pelos cabelos de Eduarda e, com a outra, alcançou a mão de Sara no sofá. Ele olhou para as duas — a força e a doçura, o fogo e a água — e soube que, apesar do estresse, das contas astronômicas e das pirraças constantes, ele não mudaria absolutamente nada.

— É — ele confessou em voz baixa. — Eu adoro. Mas amanhã, ninguém sai de casa. É dia de documentário e descanso.

— E massagem! — lembraram as duas em coro, fazendo-o rir.

Naquela noite, enquanto a lua subia sobre a cidade, o apartamento de Emanuel era um refúgio de paz. Entre sacolas de luxo e sapatilhas de ballet, ele encontrava o equilíbrio de sua vida, protegendo suas mulheres e sendo, por sua vez, protegido pelo amor incondicional e peculiar que as duas nutriam por ele. O caos estava controlado, pelo menos até a próxima visita ao shopping.

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