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D

Ouro, Espinhos e a Tirania do Cuidado

O sol da manhã entrava pelas enormes janelas de vidro do apartamento, refletindo-se no mármore e nos detalhes dourados da decoração que Sara tanto amava. Emanuel estava de pé junto à ilha da cozinha, o rosto fechado em uma expressão de pura irritação. Ele segurava o celular com força, verificando pela décima vez o rastreador de Eduarda. Ela havia saído para o ensaio de ballet trinta minutos antes do horário combinado para o motorista buscá-la, insistindo que queria "sentir o ar da manhã" e caminhar até a esquina. Para Emanuel, aquilo era um ato de rebeldia irresponsável e desnecessário.

— Ela faz isso de propósito, Sara — rosnou Emanuel, sem desviar os olhos da tela. — Ela sabe que eu odeio que ela ande sozinha, mesmo que seja por um quarteirão. O mundo não é um palco de dança seguro.

Sara, sentada à mesa com um robe de seda champagne que realçava seu brilho de gestante, soltou uma risadinha provocadora enquanto abria uma pequena caixa de veludo azul que Emanuel havia deixado ao lado de seu prato de frutas.

— Deixe a menina respirar, Manu. Ela só tem vinte anos e você a trata como se ela fosse feita de açúcar — Sara retirou da caixa um par de brincos de diamantes e esmeraldas, cujas pedras cintilavam sob a luz. — Oh, querido... estes são maravilhosos. Um presente para a mãe do seu herdeiro ou um suborno para eu não reclamar da sua rabugice?

— Um presente porque você merece, e porque você, ao menos, segue o protocolo de segurança — Emanuel caminhou até ela, depositando um beijo firme em seu pescoço. — Eduarda está passando dos limites com essa manha de querer independência. Se ela quer ser tratada como adulta, tem que agir como uma.

— Você está irritado porque perdeu o controle sobre os passos dela por quinze minutos — Sara provocou, colocando os brincos e admirando-se no reflexo de uma colher de prata. — Mas obrigada pelas joias. Elas combinam com o meu humor vitorioso de hoje.

A campainha tocou, interrompendo o momento. Emanuel franziu o cenho. Não esperavam ninguém tão cedo. Quando a porta se abriu, uma figura alta, loira e extremamente produzida entrou no recinto, exalando um perfume floral invasivo. Era Valéria, a mãe de Sara.

— Bom dia, meus amores! — Valéria anunciou, distribuindo beijos no ar. — Emanuel, querido, você parece cada dia mais bem-sucedido. E Sara, minha filha, essa barriguinha já está começando a aparecer? Deixe-me ver!

Sara revirou os olhos, mas aceitou o abraço da mãe. Valéria era a versão mais velha e ainda mais sem filtro de Sara. Ela olhou ao redor, notando a ausência da terceira ponta daquele triângulo.

— Onde está a pequena bailarina? — perguntou Valéria, sentando-se à mesa e servindo-se de café sem ser convidada.

— No teatro — Emanuel respondeu, a voz seca. — Fugindo das minhas recomendações, como de costume.

— Ah, a juventude... — Valéria suspirou, cruzando as pernas e ajustando a saia justa. — Mas falando em juventude e responsabilidade, Emanuel, eu estava conversando com uma amiga ginecologista ontem. Estávamos falando sobre a configuração de vocês. É tudo muito moderno, claro, mas agora com o bebê da Sara a caminho, as coisas mudam.

Emanuel arqueou uma sobrancelha, sentindo que o assunto não seria do seu agrado.

— Onde você quer chegar, Valéria?

— Bom, a Eduarda é tão... fértil, não é? — Valéria soltou um risinho afetado. — Tão jovem, tão cheia de vida. Mas seria um caos completo se ela engravidasse agora também. Imagine, dois bebês de mães diferentes ao mesmo tempo? Você ficaria louco, Emanuel. Por isso, eu acho que você deveria insistir para que ela coloque um DIU. É seguro, prático e resolve o problema por anos. Ela é muito esquecida com pílulas, eu imagino.

Emanuel ficou em silêncio por um momento. Sua mente racional e controladora imediatamente processou a informação. A ideia de evitar qualquer "imprevisto" que pudesse desestabilizar a estrutura que ele tanto lutava para manter era tentadora. Ele não queria que Eduarda engravidasse agora; ela ainda era sua menina, sua paz, e ele queria que ela terminasse a faculdade antes de qualquer outra responsabilidade.

— É uma ideia a se considerar — murmurou Emanuel, mais para si mesmo do que para a sogra.

— É uma ideia invasiva e ridícula, mamãe — Sara interveio, embora seu tom fosse mais de deboche do que de indignação real. — A Duda tem pavor de agulhas e procedimentos médicos. Ela vai chorar por três dias se o Manu sugerir isso.

— É para o bem dela, Sara — insistiu Valéria. — E para a paz do Emanuel.

Nesse exato momento, a porta se abriu novamente. Eduarda entrou, parecendo um pouco ofegante, com as bochechas coradas pelo exercício e pelo frio da manhã. Ela carregava sua bolsa de ballet e um pequeno buquê de flores silvestres que comprara no caminho.

— Manu! — ela disse, correndo em direção a ele, ignorando o clima pesado. — Olhe, eu trouxe flores para a sala! E o ensaio foi maravilhoso, o professor disse que minha técnica...

Ela parou abruptamente ao notar Valéria à mesa e o olhar gélido de Emanuel.

— Oi, Valéria — cumprimentou Eduarda, timidamente. — Aconteceu alguma coisa? Por que você está me olhando assim, Manu?

Emanuel não pegou as flores. Ele apenas apontou para a cadeira vaga.

— Sente-se, Eduarda. Precisamos conversar sobre a sua saúde e o nosso futuro.

Eduarda sentou-se, o sorriso murchando instantaneamente. Ela olhou para Sara, que apenas deu de ombros enquanto admirava seus novos brincos.

— Valéria estava comentando algo muito sensato — começou Emanuel, cruzando os braços sobre o peito largo. — Com a chegada do bebê da Sara, não podemos ter surpresas. Você é jovem e, às vezes, descuidada. Decidi que o melhor para você, e para todos nós, é que você coloque um DIU.

O silêncio que se seguiu foi absoluto. Eduarda piscou, processando as palavras. O buquê de flores escorregou de suas mãos para a mesa.

— Um... o quê? — perguntou ela, a voz saindo em um fio.

— Um dispositivo intrauterino, querida — explicou Valéria, com um sorriso condescendente. — É um pequeno objeto que o médico coloca dentro de você. Assim, você não precisa se preocupar com gravidez por cinco ou dez anos. É o ideal para alguém na sua posição.

Eduarda sentiu o sangue fugir do rosto. Sua sensibilidade aflorou como uma ferida aberta. Para ela, aquilo soava como uma violação, uma tentativa de Emanuel de marcar seu corpo e controlar sua natureza mais íntima.

— Eu não quero colocar nada dentro de mim — disse Eduarda, a voz ganhando uma nota de urgência e choro. — Manu, eu tomo meu remédio todos os dias! Eu nunca esqueci!

— Você esqueceu duas vezes no mês passado, Eduarda — Emanuel rebateu, implacável. — Eu tive que te lembrar. Eu não posso gerenciar sua carreira, sua faculdade, a gravidez da Sara e ainda ter que policiar seu ciclo hormonal. O DIU é a solução lógica.

— Mas eu não sou uma máquina, Emanuel! — Eduarda levantou-se, a pirraça e a dor misturando-se em uma explosão emocional. — Eu não quero! Eu tenho medo! Eu li sobre isso, dói para colocar, e eu não quero nada estranho no meu corpo!

— Deixe de ser criança, Eduarda — Emanuel disse, sua irritação com a fuga da manhã voltando com força total. — É um procedimento simples. Eu já agendei uma consulta com o melhor especialista para amanhã à tarde. Você vai, e nós vamos resolver isso.

— Eu não vou! — Eduarda gritou, batendo a mão na mesa, o que fez as xícaras de café tilintarem. — Você não pode me obrigar! Você já controla o que eu como, as horas que eu durmo, o caminho que eu faço para o teatro... mas isso não! Meu corpo é a única coisa que eu ainda sinto que é minha!

— Eduarda, abaixe o tom — Emanuel ordenou, levantando-se também. A diferença de altura entre eles era intimidadora, mas Eduarda estava possuída por uma rebeldia desesperada.

— Não! — ela soluçou, as lágrimas escorrendo grossas. — Você deu joias para a Sara e para mim você quer dar uma cirurgia? Você está bravo porque eu caminhei dez minutos sozinha e agora quer me trancar por dentro? Eu odeio você quando você é assim!

Ela virou-se e correu para o corredor. Emanuel fez menção de ir atrás dela, mas Sara segurou seu braço.

— Deixe ela, Manu. Você passou do ponto — disse Sara, embora não houvesse muita empatia em sua voz. — Sugerir isso na frente da minha mãe foi um erro tático. A Duda é manhosa, você sabe. Ela precisa sentir que a ideia foi dela, ou que é um ato de amor, não uma ordem de serviço.

— Eu não tenho tempo para jogos psicológicos, Sara! — Emanuel exclamou, soltando-se. — Eu faço tudo por vocês! Eu sustento esse estilo de vida, eu protejo vocês de tudo! O mínimo que eu espero é cooperação!

Valéria, observando a cena com um interesse quase clínico, tomou um gole de café.

— Ela é muito instável, Emanuel. Esse é o problema das meninas criadas em estufas de ballet. Elas acham que o mundo é feito de tule e música clássica. Se você não for firme agora, ela vai te dominar pelo choro.

Emanuel não respondeu. Ele saiu da cozinha e foi até a porta do quarto de Eduarda. Estava trancada, como de costume após uma briga. Ele ouvia os soluços abafados dela lá dentro.

— Eduarda, abra esta porta — disse ele, tentando controlar a voz. — Estamos apenas tentando cuidar de você.

— Mentira! — ela gritou de volta. — Você está cuidando da sua conveniência! Vá embora, Emanuel! Vá ficar com a Sara e com a mãe dela! Elas são perfeitas e frias como você!

Emanuel sentiu uma pontada de culpa, mas sua teimosia era tão grande quanto a dela. Ele voltou para a sala, onde Sara agora provava um colar que combinava com os brincos.

— Ela vai ceder — disse Emanuel, sentando-se no sofá e massageando as têmporas. — Ela sempre cede.

— Desta vez eu não teria tanta certeza — comentou Sara, olhando-se no espelho da entrada. — Você feriu o orgulho dela, Manu. E a Duda, quando se sente encurralada, morde.

As horas passaram em um silêncio tenso. Valéria foi embora após dar mais alguns conselhos indesejados sobre decoração de berçários. Sara retirou-se para um cochilo vespertino, deixando Emanuel sozinho com seus pensamentos e seus relatórios financeiros que ele não conseguia ler.

Por volta das quatro da tarde, Eduarda saiu do quarto. Ela não chorava mais, mas seus olhos estavam vermelhos e seu rosto tinha uma palidez decidida. Ela ignorou Emanuel, que estava no sofá, e foi direto para a cozinha buscar um copo de água.

— Duda — chamou ele, a voz mais suave. — Venha aqui.

Ela não respondeu. Apenas bebeu a água e começou a caminhar de volta para o quarto. Emanuel levantou-se e interceptou-a no corredor, segurando-a suavemente pelos ombros.

— Pequena, olhe para mim.

Eduarda levantou o rosto. Não havia a manha habitual, apenas uma tristeza profunda e uma barreira de gelo.

— Você ainda vai me obrigar a ir à consulta amanhã? — perguntou ela.

— Não é obrigar, Duda. É uma necessidade — Emanuel tentou explicar, a mão subindo para acariciar o rosto dela, mas ela se esquivou.

— Se você me obrigar a fazer isso, Emanuel... se você usar o seu dinheiro e o seu poder para invadir o meu corpo desse jeito... eu nunca mais vou deixar você me tocar.

A ameaça, dita com uma voz tão calma e desprovida de pirraça, atingiu Emanuel como um tiro. Ele a olhou, chocado. O sexo e o afeto físico eram a linguagem principal entre eles, a forma como ele a acalmava e como ela se sentia protegida.

— Você está me chantageando? — perguntou ele, a voz falhando.

— Não. Estou estabelecendo um limite — Eduarda disse, os olhos castanhos fixos nos dele. — Você já tem o controle de tudo, Manu. Você tem a Sara grávida, você tem seus estúdios, você tem esta casa. Deixe-me ter a mim mesma. Se eu engravidar, a culpa será minha e eu arcarei com as consequências. Mas não me trate como um animal de estimação que precisa ser castrado para não dar trabalho.

Ela se soltou e entrou no quarto, fechando a porta sem batê-la, o que foi ainda mais impactante para Emanuel do que qualquer estrondo.

Ele voltou para a sala e encontrou Sara observando-os da porta do quarto dela.

— E então? — perguntou Sara. — O "grande protetor" venceu a batalha?

Emanuel sentou-se pesadamente, escondendo o rosto nas mãos.

— Eu cancelei a consulta — sussurrou ele.

Sara deu um sorriso de lado, aproximando-se e sentando-se ao lado dele.

— Sábia decisão. Você pode ser o dono do mundo, Manu, mas naquele coraçãozinho de bailarina, você é apenas um convidado. E convidados que tentam mudar os móveis de lugar acabam sendo expulsos.

— Eu só queria que tudo fosse seguro, Sara — confessou ele, a exaustão transparecendo. — Eu sinto que estou equilibrando pratos de cristal em meio a um furacão.

— O furacão é você, querido — Sara disse, encostando a cabeça no ombro dele. — A Duda e eu somos apenas as brisas que tentam te refrescar. Agora, vá buscar aquelas flores que ela deixou na mesa e leve para ela. E peça desculpas. De verdade.

Emanuel levantou-se, pegou o buquê de flores silvestres que já começava a murchar e caminhou até o quarto de Eduarda. Ele não bateu. Apenas abriu a porta e a encontrou sentada na janela, olhando para o céu cinzento.

— Duda? — ele chamou.

Ela não se virou.

— Eu cancelei o médico — disse ele, aproximando-se e colocando as flores no colo dela. — Você tem razão. Eu passei do ponto. O estresse da gravidez da Sara e a minha necessidade de ter tudo sob controle me fizeram esquecer que você não é um projeto, é a minha Duda.

Eduarda olhou para as flores e depois para ele. A barreira de gelo começou a derreter, e a manha familiar voltou a brilhar em seus olhos.

— Você foi muito mau, Manu — soluçou ela, esticando os braços para ele. — Você e a Valéria me fizeram sentir um objeto.

— Eu sei, pequena. Eu sinto muito — ele a puxou para um abraço apertado, sentindo o corpo esguio dela relaxar contra o seu. — Eu vou conversar com a Valéria. Ela não tem o direito de interferir na nossa dinâmica.

— E você não vai mais ficar irritado porque eu caminhei dez minutos? — ela perguntou, fazendo um biquinho contra o peito dele.

Emanuel suspirou, o instinto protetor lutando para permanecer calado.

— Vou tentar. Mas você tem que me prometer que vai levar o celular e atender quando eu ligar.

— Prometo — ela sorriu, a vitória brilhando em seu rosto.

Naquela noite, o trio jantou em paz. Sara exibia seus novos diamantes, Eduarda exibia seu triunfo sobre a vontade de Emanuel, e Emanuel... Emanuel apenas observava as duas, entendendo que, naquele império que ele construíra, ele era o rei apenas no papel. Na realidade, ele era o servo daquelas duas mulheres que, entre joias e flores, manhas e ironias, o mantinham exatamente onde ele queria estar: preso em um laço de amor que nenhuma lógica ou DIU poderia jamais controlar.

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