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Cárcere de Veludo e a Lógica do Absurdo

O apartamento de Emanuel sempre fora um santuário de ordem e sofisticação, mas, desde que a gravidez de Sara fora confirmada, o ambiente parecia ter se transformado em um centro de operações de alta segurança. Emanuel, que já possuía uma inclinação natural para o controle, havia mergulhado em livros de pediatria, protocolos de higiene e manuais de segurança biológica. Para ele, o mundo exterior tornara-se uma massa caótica de vírus, bactérias e perigos invisíveis que ameaçavam o equilíbrio perfeito que ele mantinha com suas duas mulheres.

Naquela noite, o jantar foi servido sob uma aura de seriedade. Emanuel estava sentado à cabeceira, observando Sara comer uma salada orgânica meticulosamente higienizada e Eduarda saborear uma sopa leve. Ele limpou a garganta, o som cortando o tilintar dos talheres de prata.

— Estive pensando sobre os primeiros meses após o nascimento do bebê — começou ele, o tom de voz assumindo aquela autoridade prática que não admitia contestações. — Tomei algumas decisões para garantir a saúde da Sara e do nosso filho.

Sara levantou os olhos da salada, arqueando uma sobrancelha loira perfeitamente desenhada.

— "Decisões", Manu? No plural? Espero que uma delas envolva uma enfermeira noturna que use uniformes da Gucci.

Emanuel não sorriu.

— Estou falando sério, Sara. Nos primeiros três meses, não haverá visitas. Ninguém entra neste apartamento. Nem seus amigos, nem os Bittencourt, nem parentes distantes. Nada.

Eduarda, que até então ouvia em silêncio, assentiu com a cabeça, seus olhos castanhos brilhando com uma compreensão doce.

— Eu acho que você está certo, Manu — disse ela, a voz suave e melodiosa. — O sistema imunológico dos bebês é tão delicado... e a Sara vai precisar de paz para se recuperar. O mundo lá fora é muito barulhento e sujo.

Emanuel relaxou visivelmente os ombros, satisfeito com o apoio da sua pequena bailarina.

— Exatamente, Duda. Além disso — continuou ele, olhando fixamente para Sara —, quero que as saídas sejam reduzidas ao mínimo absoluto. Nada de eventos, nada de idas desnecessárias à loja ou ao shopping. O que precisarmos, eu mando entregar e passará por um processo de desinfecção antes de entrar. Não quero ninguém trazendo germes de fora para dentro deste santuário.

Sara soltou uma risada sarcástica, embora houvesse uma ponta de preocupação em seu olhar.

— Você quer me transformar em uma prisioneira de luxo, Emanuel? Eu sou uma mulher de negócios, não uma boneca de porcelana para ficar guardada em uma caixa de vidro.

— Você é a mãe do meu filho — rebateu ele, a rigidez voltando à sua postura. — E, por três meses, sua única prioridade é a segurança dele e a sua saúde. É uma questão de lógica.

Eduarda, sentindo a tensão subir, resolveu intervir com sua inocência característica. Ela achava a proteção de Emanuel a coisa mais romântica do mundo, um sinal de quão profundo era o amor dele por elas.

— É por isso que eu já andei pensando também, Manu — disse Eduarda, limpando os lábios com o guardanapo de linho. — Como eu vou ter que continuar indo para a faculdade de História da Arte e as aulas de ballet no teatro são diárias, eu vou estar o tempo todo na rua, pegando transporte, lidando com muita gente... seria perigoso eu ficar vindo para cá e trazendo esses germes todos para perto do bebê e da Sara.

Emanuel franziu o cenho, sem entender onde ela queria chegar.

— Onde você quer chegar com isso, Eduarda?

— Ah, é simples! — ela sorriu, com aquela manha infantil que costumava derretê-lo. — Nos primeiros meses, enquanto durar esse isolamento que você planejou, eu fico morando na casa dos meus pais. Assim eu posso cumprir meus compromissos sem colocar ninguém em risco. Meus pais são jovens, eles adoram me ter por lá, e eu venho visitar vocês... sei lá, eu fico na calçada e vocês acenam da varanda!

O silêncio que se seguiu foi tão pesado que parecia palpável. Sara parou de comer, olhando de Eduarda para Emanuel com uma expressão que misturava choque e uma diversão maliciosa. Ela sabia exatamente o que estava prestes a acontecer.

Emanuel largou o garfo. O metal bateu contra a porcelana com um estalo seco que fez Eduarda dar um pequeno sobressalto. O rosto dele, antes apenas sério, tornou-se uma máscara de fúria contida.

— Você... o quê? — perguntou ele, a voz saindo em um rosnado baixo.

— Ué, Manu... — Eduarda fez um biquinho, confusa com a reação dele. — Eu estou concordando com você! Você disse que não quer germes da rua aqui dentro. Eu sou a pessoa que mais fica na rua. Se eu morar com meus pais por um tempinho, eu protejo o bebê. É o mais lógico, não é?

Emanuel levantou-se da cadeira em um movimento brusco, as mãos espalmadas sobre a mesa.

— Você acha que eu vou deixar você sair desta casa? — ele exclamou, a voz subindo de tom pela primeira vez naquela noite. — Você acha que eu vou permitir que você more em outro lugar, longe dos meus olhos, enquanto eu estou tentando manter minha família unida e segura?

— Mas Manu... — Eduarda começou, os olhos começando a marejar diante da agressividade dele. — Eu tenho faculdade... eu tenho o ballet... eu sou professora das crianças pequenas também...

— Pois você vai trancar a faculdade! — Emanuel vociferou, começando a andar de um lado para o outro na sala de jantar. — E o ballet? Você pratica aqui! Eu mando instalar uma barra e espelhos em um dos quartos. Você não vai a lugar nenhum, Eduarda! Você não vai morar com seus pais, você não vai se expor a riscos e, acima de tudo, você não vai me deixar!

Eduarda piscou, as lágrimas agora escorrendo livremente. Ela olhou para Sara em busca de socorro, mas a loira apenas observava, fascinada pelo colapso do controle de Emanuel.

— Você está sendo doido, Emanuel! — Eduarda gritou de volta, sua pirraça despertando diante da imposição dele. — Eu não posso simplesmente parar a minha vida! Eu tenho vinte anos! Eu amo o ballet, eu amo meus estudos! Eu estava sendo legal, estava tentando ajudar no seu plano de higiene maluco!

— "Plano maluco"? — Emanuel parou na frente dela, sua altura e porte físico projetando uma sombra intimidadora sobre a figura esguia da bailarina. — Eu estou tentando salvar vidas aqui! E você me vem com essa ideia absurda de abandono? Você acha que eu sou o quê? Um caixa eletrônico que você visita quando quer? Você mora aqui! Você é minha!

— Eu não sou um objeto seu! — Eduarda levantou-se também, batendo o pé no chão com força. — Eu sou uma pessoa! E se você não quer germes, e eu sou um "vetor de germes", a solução é eu sair! Você é completamente contraditório! Você é doido, Emanuel! Doido!

— Eu sou o homem que cuida de você! — ele rebateu, segurando-a pelos ombros, não com força para machucar, mas com uma possessividade que beirava o desespero. — Se for preciso, eu contrato os professores para virem aqui. Eu compro o teatro! Mas você não sai deste apartamento por três meses se for para morar em outro lugar. Você entendeu?

Sara, sentindo que as coisas estavam escalando para um nível perigoso, resolveu intervir, mas do seu jeito provocador.

— Calma lá, garanhão. Se você comprar o teatro, eu quero uma porcentagem das bilheterias — ela disse, levantando-se e caminhando até o casal. — Mas, Manu, querido... você tem que admitir que a lógica da Duda faz sentido dentro da sua própria loucura. Se ninguém entra e ninguém sai, e ela precisa sair...

— Ela não precisa! — Emanuel cortou, olhando para Sara com olhos injetados. — Nada é mais importante do que nós estarmos juntos aqui. Eu não vou ter um filho e ficar longe da Eduarda. Eu não vou dormir sem saber que as duas estão seguras sob o meu teto!

Eduarda soltou-se do aperto dele, recuando até a parede. Ela estava em choque. Para sua mente sensível e intuitiva, a reação de Emanuel não parecia apenas proteção; parecia uma obsessão que ela não conseguia compreender.

— Você quer me trancar? É isso? — perguntou ela, a voz falhando em um soluço. — Você quer que eu seja como a Sara, que não tem compromissos fora de casa? Mas eu não sou ela! Eu sou a Eduarda! Eu preciso dançar!

— Você vai dançar para mim! — Emanuel exclamou, a racionalidade agora completamente perdida no turbilhão de seu estresse acumulado. — Eu te dou tudo, Eduarda! Eu te dou as melhores sapatilhas, o melhor chão, o melhor público! Mas eu não vou deixar você ir para a casa dos seus pais como se eu fosse um estranho na sua vida!

— Você é um doido! — Eduarda gritou novamente, as mãos nos ouvidos. — Eu vou para o meu quarto! E não quero falar com você!

Ela correu pelo corredor, o som de seus passos leves sendo substituído pelo estrondo da porta batendo. Emanuel ficou parado no meio da sala, a respiração ofegante, as mãos tremendo levemente.

Sara aproximou-se dele, cruzando os braços sobre a barriga.

— Você pegou pesado, Manu. Realmente pesado.

— Ela queria ir embora, Sara... — ele murmurou, a voz agora carregada de uma exaustão súbita. — Ela falou com tanta naturalidade, como se viver longe de mim fosse a coisa mais fácil do mundo.

— Para ela, era um sacrifício pela saúde do bebê — explicou Sara, suavizando o tom. — Ela é uma criança em muitos aspectos, Emanuel. Ela viu o seu medo de germes e tentou resolver o problema da forma mais drástica. Ela não estava te abandonando, estava te obedecendo... do jeito torto dela.

Emanuel passou as mãos pelo rosto, sentindo o peso da responsabilidade esmagar seus ombros.

— Eu não consigo, Sara. Eu não consigo imaginar este lugar sem ela. Eu não consigo imaginar você passando por um pós-parto sem a doçura dela para equilibrar o ambiente. E eu não consigo imaginar minha vida sem ter o controle de que vocês duas estão bem.

— O seu problema é que você quer controlar o vento, Manu — Sara disse, tocando o rosto dele com carinho. — A Duda é como o vento. Ela é leve, ela flutua, mas se você tentar trancá-la em uma garrafa, ela para de soprar. Vá falar com ela. Mas sem gritos. E sem ameaçar comprar teatros.

Emanuel respirou fundo, tentando recuperar a compostura. Ele caminhou até o quarto de Eduarda. A porta estava trancada, como ele esperava.

— Duda? — chamou ele, a voz agora baixa, o tom de "empresário implacável" substituído pelo de um homem vulnerável. — Pequena, abra a porta. Por favor.

— Vá embora, Emanuel! — a voz dela veio embargada. — Vá planejar sua prisão domiciliar sozinho!

— Eu não quero te prender — ele disse, encostando a testa na madeira da porta. — Eu só... eu tive medo. Quando você disse que ia morar com seus pais, meu mundo girou. Eu não sou eu mesmo se você não estiver aqui. Eu não sou completo sem você e a Sara juntas comigo.

Houve um longo silêncio. Emanuel esperou, o coração batendo forte. Finalmente, ouviu o clique da fechadura. A porta abriu apenas alguns centímetros. Eduarda estava lá, com o rosto inchado, abraçada a um urso de pelúcia que ele lhe dera no aniversário de vinte anos.

— Você me assustou — sussurrou ela. — Você parecia outra pessoa. Um monstro.

— Eu sinto muito — ele entrou no quarto, sentando-se na beirada da cama. — Eu estou sob muita pressão. A segurança de vocês, os estúdios, o bebê... eu sinto que se eu falhar em um detalhe, tudo desmorona. E a ideia de você longe de mim pareceu a maior falha de todas.

Eduarda aproximou-se devagar, sentando-se ao lado dele, mas mantendo uma pequena distância.

— Mas Manu, como vamos fazer? Eu não posso parar minha faculdade. Meus pais esperam que eu me forme. E o ballet... se eu parar por três meses, meu corpo perde a técnica. Eu levo anos para recuperar.

Emanuel puxou-a para o seu colo, e desta vez ela não resistiu, afundando a cabeça em seu pescoço.

— Nós vamos encontrar um meio termo — ele prometeu, embora sua mente ainda estivesse gritando por isolamento total. — Talvez você possa ir e voltar de carro particular, direto para o teatro e para a faculdade. Eu contrato uma equipe para higienizar o carro todos os dias. E quando você chegar, teremos um protocolo de entrada... banho imediato, roupas direto para a lavanderia.

Eduarda olhou para ele, uma pequena risada escapando entre os soluços.

— Você é realmente doido por limpeza, não é?

— Eu sou doido por você — ele corrigiu, beijando-lhe a testa. — E por aquela loira barulhenta lá na sala. Eu só quero que todos sobrevivamos a isso com saúde.

— E você não vai me obrigar a trancar a faculdade? — ela perguntou, fazendo um biquinho manhoso, testando os limites dele agora que a paz voltara.

Emanuel hesitou. A ideia de Eduarda em um campus universitário cheio de pessoas gripadas e ambientes mal ventilados o aterrorizava.

— Vamos ver como as coisas estarão quando o bebê nascer — disse ele, tentando ser diplomático. — Se houver qualquer surto de alguma coisa, você para. Combinado?

— Combinado — ela cedeu, apertando o braço dele. — Mas eu ainda acho que você é doido.

— Eu também acho — Sara disse, aparecendo no batente da porta, segurando um pote de sorvete. — Mas é o nosso doido rico. Agora, saiam desse clima de enterro. O bebê quer açúcar e eu quero saber quem vai fazer massagem nos meus pés hoje, já que o "chefe de segurança" está ocupado pedindo desculpas.

Emanuel sorriu, sentindo a tensão finalmente se dissipar. Ele levantou-se, carregando Eduarda no colo como se ela não pesasse nada, e a levou para a sala.

— Eu faço a massagem — disse ele, acomodando Eduarda no sofá e ajoelhando-se diante de Sara. — Mas amanhã, eu vou encomendar aqueles purificadores de ar industriais para todos os cômodos.

Eduarda e Sara trocaram um olhar de cumplicidade e reviraram os olhos ao mesmo tempo. Emanuel podia ser controlador, irracional e, às vezes, completamente paranoico, mas era o amor dele — aquele amor protetor, feroz e inabalável — que mantinha o mundo delas girando. E, no fundo, elas não o trocariam por nenhuma liberdade solitária.

Naquela noite, enquanto Emanuel massageava os pés de Sara e Eduarda lia um livro de arte apoiada em seu ombro, o apartamento exalava uma paz frágil, mas real. O futuro com o bebê trazia incertezas e medos, mas, entre a manha de uma e a exuberância da outra, Emanuel sabia que, contanto que as mantivesse por perto, ele teria força para enfrentar qualquer germe — real ou imaginário — que ousasse cruzar seu caminho.

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