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O Caos das Pequenas Cópias
O sol da manhã entrava pelas janelas do duplex, iluminando as partículas de poeira que dançavam no ar, mas a paz era apenas uma ilusão ótica. No centro da sala de estar, o cenário parecia ter saído de um filme de desastre artístico. O tapete persa, que Sara tanto protegia, estava agora decorado com tons vibrantes de "Rosa Choque" e "Vermelho Fatal".
Gabriela, a filha de Sara e Emanuel, sentada triunfante no meio do tapete, segurava o que restava de um batom da Chanel. Ao seu lado, Anelisse, a pequena que agora chamava Eduarda de mãe, observava a cena com olhos brilhantes de admiração, segurando um pincel de blush como se fosse um cetro real.
O grito que ecoou pelo corredor não veio de Eduarda, nem de Emanuel. Foi o grito de uma mulher que acabara de ver seu patrimônio estético ser reduzido a pó e pigmento.
— O meu estojo da edição limitada da Dior! — Sara surgiu na sala, as mãos na cabeça, os olhos loiros arregalados de puro horror. — Emanuel! Eduarda! Alguém venha ver este massacre!
Emanuel apareceu primeiro, secando as mãos em uma toalha. Ele olhou para a cena, sentindo a veia em sua têmpora pulsar. O estresse do trabalho nos estúdios já estava alto, e ver suas duas filhas — a biológica e a adotiva — cobertas de pó de arroz e sombra azul não ajudava em nada a sua pressão arterial.
— Gabriela... Anelisse... — Emanuel tentou manter a voz firme, mas o tom saiu carregado de uma exaustão perigosa. — O que vocês fizeram?
Eduarda chegou logo atrás, com um livro de História da Arte debaixo do braço. Ao ver a cena, ela não gritou. Sua reação foi levar a mão à boca, tentando esconder um sorriso nervoso que sua personalidade sensível não conseguia conter.
— Meu Deus, elas estão... coloridas — sussurrou Eduarda, aproximando-se com cautela.
— Coloridas? Eduarda, elas destruíram mais de cinco mil reais em produtos que eu nem usei ainda! — Sara apontou para Gabriela, que agora tentava passar sombra preta na bochecha de Anelisse. — E você, Gabriela! De onde você tirou a ideia de que o meu closet é um playground?
Gabriela, sentindo a agressividade na voz da mãe, não chorou. Ela herdara a audácia de Sara. Ela simplesmente cruzou os bracinhos gorduchos e fez um bico desafiador.
— Maquiagem, mamãe. Ficar linda! — exclamou a menina de dois anos, sem um pingo de remorso.
Anelisse, observando a interação, olhou para Eduarda. Ela viu que Duda estava quieta, com aquele jeito manso e um pouco retraído que sempre assumia quando Sara elevava o tom. Mas Anelisse também via os momentos em que Duda, de forma silenciosa, conseguia o que queria de Emanuel apenas sendo teimosa e manhosa.
— Mamãe... — Anelisse chamou Eduarda, apontando para o desastre. — Pintura! Igual seus livro!
— Não é igual aos meus livros, Ane — disse Eduarda, abaixando-se para limpar o rosto da menina com a barra do próprio vestido, um gesto impensado que fez Sara quase ter um segundo colapso.
— Duda! Esse vestido é de linho! — Sara exclamou, andando de um lado para o outro. — Emanuel, faça alguma coisa. Dê um castigo. Coloque ordem! Elas estão fora de controle.
Emanuel suspirou, cruzando os braços. A sua necessidade de controle estava sendo testada ao limite.
— Gabriela, para o seu quarto. Agora. Anelisse, você também.
Anelisse olhou para Emanuel. Ela percebeu a rigidez no rosto do pai, o tom de comando que ele usava nos estúdios. Mas ela não queria ir para o quarto. Ela queria continuar a brincadeira. Ela olhou para Eduarda, buscando um sinal.
Eduarda, sentindo-se pressionada pela autoridade de Emanuel e pela fúria de Sara, acabou reagindo da única forma que sabia: com uma teimosia passivo-agressiva. Ela não queria que a menina fosse castigada por uma curiosidade infantil, mesmo que o prejuízo fosse caro.
— Emanuel, elas são bebês — disse Eduarda, levantando-se com Anelisse no colo. — Não precisa falar assim com elas. Foi um acidente.
Emanuel descruzou os braços, a irritação subindo pelo pescoço.
— Um acidente que aconteceu porque você estava distraída lendo sobre o Renascimento e a Sara estava ocupada demais escolhendo sapatos! Eu sou o único que tenta manter a ordem nesta casa?
Eduarda sentiu a picada da crítica. Ela bateu o pé no chão — um gesto curto, mas audível — e virou o rosto com uma expressão de mágoa profunda.
— Eu não estava distraída. Eu estava estudando para a prova! E você está sendo grosseiro.
Anelisse, no colo de Eduarda, observou o gesto da mãe. Com uma precisão assustadora, a bebê de pouco mais de um ano esticou a perninha e imitou o gesto, batendo o pezinho no ar com uma expressão idêntica à de Eduarda.
— Papai... mal! — disparou Anelisse, apontando o dedinho para Emanuel. — Papai chato! Mal!
O silêncio caiu sobre a sala. Sara, que estava prestes a reclamar de um iluminador quebrado, parou e soltou uma gargalhada alta e debochada.
— Ah, não! Isso eu tenho que filmar. Emanuel, a sua "filha de alma" acabou de te cancelar.
Emanuel sentiu o rosto esquentar. Ser chamado de "mal" pela pequena Anelisse, a quem ele dedicava cada hora de proteção e cuidado, doeu mais do que qualquer crítica de Sara.
— Anelisse, o que você disse? — perguntou ele, a voz baixando para um tom perigosamente calmo.
— Papai mal! — repetiu a menina, agora encostando a cabeça no ombro de Eduarda, imitando a manha que Duda sempre fazia quando queria ser mimada por ele. — Mamãe... papai briga.
Eduarda, percebendo que ganhara uma aliada poderosa, abraçou a menina com mais força. Sua insegurança habitual deu lugar a uma pequena faísca de triunfo emocional.
— Viu, Emanuel? Você assustou a menina.
— Eu assustei? — Emanuel deu um passo à frente, gesticulando para o caos no tapete. — Elas destruíram a casa! E agora você está ensinando ela a ser... a ser o quê? Pirracenta?
— Eu não estou ensinando nada! — rebateu Eduarda, a voz subindo um tom, o que era raro. — Ela só sente a sua energia pesada. Você sempre quer controlar tudo, Emanuel. Até o jeito que elas brincam!
Sara, sentada no braço do sofá, observava a cena como se fosse um espetáculo de entretenimento.
— Duda, querida, eu adoro a sua coragem, mas a Anelisse realmente acabou com o meu estoque de beleza — comentou Sara, embora o tom não fosse mais de raiva, mas de diversão maldosa. — Mas concordo com uma coisa: Emanuel, você está com uma cara de quem vai ter um infarto. Relaxa. O dinheiro a gente recupera.
— Não é o dinheiro, Sara! — explodiu Emanuel, perdendo finalmente a paciência. — É o fato de que eu tento ser o pilar desta família e vocês três parecem conspirar para me transformar no vilão da história! Gabriela, eu mandei ir para o quarto!
Gabriela, vendo que a situação estava ficando séria, decidiu que era hora de usar a arma secreta que aprendera observando Eduarda e Anelisse. Ela caminhou até o pai, abraçou suas pernas com força e olhou para cima com os olhos mais doces que conseguiu fingir.
— Papai... desculpa? Gabi ama papai.
Emanuel congelou. O ódio e o estresse começaram a escorrer por seus ombros, derretendo diante da manipulação infantil mais antiga do mundo. Ele olhou para a pequena loira em seus pés e depois para a pequena morena nos braços de Eduarda.
— Vocês são impossíveis — murmurou ele, passando a mão pelo rosto.
Anelisse, percebendo a mudança de guarda, soltou-se de Eduarda e correu para Emanuel, agarrando-se à outra perna dele.
— Papai... mal não? — perguntou ela, com a voz miúda e manhosa.
Emanuel suspirou, derrotado. Ele se abaixou, pegando uma em cada braço.
— Não, o papai não é mal. O papai só está cansado. Mas vocês duas vão ajudar a mamãe Sara e a mamãe Duda a limpar essa bagunça.
— Ah, nem pensar! — Sara levantou-se num salto. — Minhas mãos não tocam em pó de maquiagem barata... quer dizer, destruída. Emanuel, você e a Duda que resolvam. Eu vou sair para comprar tudo novo. E vou usar o seu cartão, já que você é o "papai provedor".
Sara piscou para Emanuel, deu um beijo rápido na bochecha de Gabriela e um aceno para Eduarda.
— Tente não deixar ele explodir, Duda. Ele fica horrível com rugas de preocupação.
Quando Sara saiu, o silêncio retornou, mas desta vez era um silêncio mais leve. Emanuel colocou as meninas no chão, que imediatamente voltaram a brincar com os restos de embalagens, desta vez sob a vigilância dele.
Eduarda aproximou-se lentamente, sentando-se no chão ao lado dele. Ela ainda mantinha aquele ar um pouco quieto, a postura esguia e delicada encolhida.
— Desculpe por ter batido o pé — sussurrou ela, tocando o braço dele. — Eu sei que você se esforça por nós.
Emanuel olhou para ela, vendo a doçura que o acalmava mesmo no meio do caos. Ele a puxou para perto, deixando que ela se apoiasse em seu ombro.
— Você é muito manhosa, Duda. E o pior é que a Anelisse está aprendendo tudo. Se ela crescer com a sua teimosia silenciosa e a audácia da Sara, eu estou perdido. Vou passar o resto da vida sendo o "papai mal" que faz tudo o que vocês querem.
Eduarda soltou uma risadinha, escondendo o rosto no pescoço dele.
— Você já faz tudo o que a gente quer, Manu. Só não gosta de admitir.
Anelisse, vendo os dois abraçados, engatinhou até eles e tentou se enfiar no meio do abraço.
— Família! — gritou a menina, feliz.
Emanuel olhou para o tapete arruinado, para a maquiagem espalhada e para as três mulheres de sua vida — a loira furacão que acabara de sair, a morena doce ao seu lado e a pequena que era a mistura de tudo o que ele precisava proteger.
— É — disse ele, beijando o topo da cabeça de Anelisse. — Uma família muito, muito complicada.
— Papai chato? — Anelisse perguntou de repente, com um brilho travesso nos olhos.
Emanuel fingiu uma expressão de choque.
— O quê? De novo isso?
— Papai... amado! — corrigiu a menina, rindo e jogando os braços para cima, enquanto Gabriela começava a aplaudir.
Eduarda olhou para Emanuel e percebeu que, apesar do estresse, da rigidez e da mania de controle, ele nunca estivera tão feliz. O tatuador renomado, o homem de negócios, o protetor implacável... todos eles se curvavam diante da pirraça de uma criança e da doçura de uma mulher que sabia exatamente como desarmá-lo.
— Amanhã eu contrato alguém para limpar o tapete — disse Emanuel, relaxando finalmente. — Hoje, acho que vou apenas aceitar que perdi a batalha.
— Você perdeu a batalha, Manu — disse Eduarda, dando-lhe um beijo casto nos lábios —, mas ganhou o reino inteiro.
E naquele duplex luxuoso, cercado por restos de Chanel e Dior, o tatuador entendeu que a arte mais difícil que ele já tivera que dominar não estava na pele de seus clientes, mas na paciência necessária para criar duas meninas que tinham as melhores — e as mais irritantes — qualidades das mulheres que ele amava.