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D

Oceano de Teimosia e Tinta

O sol de Angra dos Reis refletia-se nas águas cristalinas com uma intensidade que cegaria qualquer um que não estivesse usando óculos escuros de grife. No convés da lancha de luxo de Emanuel, o clima era de uma aparente tranquilidade tropical, mas, para quem conhecia a dinâmica daquele trio, a tensão fervilhava logo abaixo da superfície, como uma corrente marítima invisível.

Emanuel estava recostado em uma espreguiçadeira, observando o horizonte com seu habitual olhar calculista. Ele segurava uma taça de champanhe gelado, mas sua atenção estava voltada para Sara. A loira, usando um biquíni minúsculo de cor neon que realçava cada curva acentuada pelo silicone, reclamava do calor enquanto retocava o protetor solar com movimentos teatrais.

— Emanuel, querido, se este barco não começar a se mover para uma área com mais brisa em cinco minutos, eu juro que vou derreter e virar apenas uma poça de Chanel e indignação — provocou Sara, lançando-lhe um olhar impaciente, mas carregado de uma confiança absoluta no poder que exercia sobre ele.

Emanuel deu um meio sorriso, o tipo de expressão que reservava apenas para as provocações dela.

— O motorista já está posicionando a embarcação, Sara. Não seja dramática. E beba isso, vai ajudar a refrescar — disse ele, estendendo a taça para ela.

Ele a mimava de forma prática, atendendo aos seus caprichos materiais e tolerando sua personalidade vulcânica porque sabia que, por trás daquela fachada de mulher fatal, Sara era a âncora que mantinha seus negócios e sua imagem pública nos eixos. Ela era a força, o fogo.

Mas o seu bálsamo, a sua paz e, frequentemente, a sua maior fonte de preocupação, estava na outra ponta do barco.

Eduarda estava sentada perto da plataforma de mergulho, conversando animadamente com um dos instrutores que Emanuel contratara para a expedição. Ela usava um maiô leve, de cores claras, que a fazia parecer ainda mais jovem e delicada. Seus olhos castanhos brilhavam com uma excitação que Emanuel não via há tempos.

— Manu! — gritou ela, levantando-se e correndo em direção a ele com a leveza de uma bailarina. — O instrutor disse que as condições estão perfeitas! O recife aqui perto tem cavernas submarinas e uma visibilidade incrível. Eu quero mergulhar com cilindro, Emanuel! Agora mesmo!

Emanuel sentiu o estômago dar um nó. A imagem de Eduarda, tão frágil e propensa a se perder em seus próprios pensamentos, submersa a dez metros de profundidade com um equipamento pesado e ar limitado, disparou todos os seus alarmes de proteção.

— Nem pensar, Eduarda — respondeu ele, a voz tornando-se instantaneamente rígida. — Você pode fazer snorkeling na superfície, perto da escada, onde eu consiga te ver. Mergulho com cilindro é perigoso demais para você.

Eduarda parou abruptamente, o sorriso murchando. A insegurança tentou aparecer, mas o desejo de ver os corais de perto, algo que ela estudara em seus livros de arte sobre as formas da natureza, falou mais alto.

— Perigoso? Emanuel, tem um instrutor profissional! — Ela se aproximou, buscando proximidade física, tentando a tática da doçura. — Por favor, Manu... eu treinei na piscina, eu sei os sinais. Eu quero muito ver o fundo do mar de verdade.

— Eu disse não, Duda — Emanuel levantou-se, sua estatura imponente criando uma sombra sobre ela. — Você é distraída, se emociona fácil e pode entrar em pânico lá embaixo. Eu não vou arriscar a sua vida por causa de um capricho estético.

Sara, que observava a cena por cima dos óculos escuros, deu uma risadinha provocadora.

— Deixe a menina, Emanuel. Se ela se afogar, pelo menos vai ser uma bela estátua submarina.

— Não ajude, Sara! — Emanuel rosnou, o estresse começando a subir.

Eduarda, sentindo-se diminuída pela proteção sufocante dele e pela ironia de Sara, sentiu a teimosia borbulhar. Ela não era mais apenas a menina tímida; ela era a mãe de Anelisse, ela tinha responsabilidades, e sentia que merecia autonomia.

— Eu vou sim! — exclamou Eduarda, subitamente firme. Ela deu um passo à frente e, em um gesto que raramente usava, mas que era devastador, bateu o pé com força no convés de madeira. — Eu não sou uma criança, Emanuel! Você não é meu dono!

Emanuel sentiu o sangue ferver. Ele detestava perder o controle, especialmente na frente dos funcionários do barco.

— Eduarda, não me desafie. Eu estou tentando manter você viva!

— Você está tentando me manter em uma gaiola! — rebateu ela, a voz embargada, mas decidida. — Eu vou colocar aquele equipamento e vou mergulhar. Você querendo ou não!

Nesse momento, a pequena Anelisse, que estava sentada no tapete da cabine brincando com alguns peixinhos de borracha sob a supervisão da babá, ouviu a altercação. A menina, que tinha pouco mais de um ano e meio, era uma esponja emocional. Ela olhou para a cena: viu Eduarda com o rosto vermelho, batendo o pé e enfrentando a figura autoritária de Emanuel.

Para Anelisse, Eduarda era o sol. Se a "mamãe" estava fazendo aquilo, era porque era o certo a se fazer.

A bebê levantou-se, caminhou com seus passos rápidos e desajeitados até o centro do convés e parou exatamente ao lado de Eduarda. Com uma precisão cômica e assustadora, Anelisse cruzou os bracinhos, franziu a testa em uma imitação perfeita da expressão de Duda e bateu o pezinho gordo no chão.

— Vai sim! — gritou Anelisse, a voz aguda preenchendo o barco. — Mamãe vai! Ane vai!

Emanuel olhou para a cena e sentiu que o mundo estava girando fora de seu eixo. Ele tinha Eduarda, a personificação da doçura transformada em uma rebelde manhosamente obstinada, e Anelisse, sua pequena cópia em miniatura, ambas unidas contra ele.

— Anelisse, volte para a cabine agora — ordenou Emanuel, a voz tremendo de fúria contida.

— Não! — respondeu a bebê, batendo o pé novamente e se agarrando à perna de Eduarda. — Papai mal! Mamãe mergulha!

Sara soltou uma gargalhada tão alta que alguns pássaros levantaram voo de uma ilha próxima.

— Ah, Emanuel, você está acabado! — Sara se levantou, caminhando até eles com um gingado vitorioso. — Duas contra um. E olhe para elas, são idênticas na pirraça. Duda, você realmente está criando um monstrinho à sua imagem e semelhança.

— Eu não sou pirracenta! — protestou Eduarda, embora o bico em seus lábios provasse o contrário. — Eu só quero mergulhar!

Emanuel passou as mãos pelo cabelo, sentindo-se encurralado. O estresse acumulado dos estúdios, a responsabilidade de cuidar daquela família disfuncional e agora a rebelião aberta das duas mulheres que ele mais protegia o estavam levando ao limite.

— Isso é ridículo! — explodiu ele, a voz ecoando pela água. — Vocês duas estão agindo como se tivessem cinco anos! Eduarda, você está colocando ideias na cabeça da criança!

— Eu estou dando o exemplo de que ela deve lutar pelo que quer! — rebateu Eduarda, as lágrimas de frustração começando a cair, o que só a tornava mais manipuladora aos olhos de Emanuel, mesmo que ela não percebesse. — Por favor, Manu... confia em mim uma vez.

Anelisse, vendo as lágrimas de Eduarda, começou a chorar também, um choro alto e dramático que parecia uma sirene de navio.

— Mamãe chora! Papai mal! — berrava a menina, escondendo o rosto no maiô de Eduarda.

Emanuel olhou para o instrutor de mergulho, que tentava fingir que não estava ouvindo nada enquanto limpava uma máscara. Olhou para Sara, que estava se divertindo às suas custas. E, finalmente, olhou para as duas figuras no centro do barco.

A fragilidade de Eduarda era a sua maior força. Ele não conseguia vê-la chorar sem sentir que falhara em sua missão de ser o seu porto seguro. E a pirraça de Anelisse era o lembrete constante de que ele agora tinha duas vidas para governar com o coração, não apenas com a lógica.

— Chega! — gritou Emanuel, fazendo o choro de Anelisse diminuir para soluços. — Silêncio!

Ele caminhou até o instrutor de mergulho.

— Qual é o plano de mergulho? — perguntou ele, o tom profissional e rígido.

— Seria um mergulho de batismo, senhor. Profundidade máxima de cinco metros, eu seguro a mão dela o tempo todo. É totalmente seguro.

Emanuel voltou-se para Eduarda. Ele a pegou pelos ombros, forçando-a a olhar nos seus olhos.

— Você vai fazer o batismo. Cinco metros. Se você soltar a mão do instrutor por um segundo, ou se eu perceber qualquer sinal de pânico lá de cima, eu pulo na água e te tiro de lá pelos cabelos. Entendido?

Eduarda iluminou-se instantaneamente. O sorriso que surgiu em seu rosto foi tão radiante que Emanuel sentiu sua raiva evaporar, substituída por aquela exaustão afetuosa que só ela lhe causava.

— Obrigada, Manu! Eu prometo, eu vou ser perfeita!

Anelisse, sentindo a mudança de clima, parou de chorar e começou a bater palminhas.

— Mamãe peixinho!

Emanuel suspirou, pegando a bebê no colo e sentindo o cheiro de protetor solar infantil.

— E você, mocinha, não aprenda essas táticas com a sua mãe. Bater o pé não vai funcionar com o papai sempre, ouviu?

Anelisse apenas sorriu e puxou a orelha de Emanuel, um gesto de carinho que ele aceitou com uma resignação silenciosa.

Enquanto Eduarda se equipava com a ajuda do instrutor, Sara se aproximou de Emanuel, encostando o corpo curvilíneo no braço dele.

— Você é muito mole, sabia? — sussurrou ela, com um tom de voz que misturava deboche e uma ponta de admiração. — Se fosse eu querendo mergulhar com tubarões, você provavelmente me daria a faca e diria para eu não manchar o barco de sangue.

— Você sabe se cuidar sozinha, Sara — respondeu Emanuel, observando Eduarda colocar a máscara. — Ela... ela precisa que eu seja os olhos dela.

— Ela precisa que você a deixe respirar, Emanuel. Mesmo que seja através de um cilindro de oxigênio — Sara olhou para Eduarda, que agora pulava na água com um grito de alegria. — Veja só. Ela não parece nem um pouco frágil agora.

Emanuel observou a silhueta de Eduarda sumir sob a superfície azul. Ele ficou ali, parado na borda, o guardião atento, o homem rico e poderoso que tinha o mundo aos seus pés, mas cujo coração estava submerso a cinco metros de profundidade, seguindo uma bailarina que decidira trocar as sapatilhas por nadadeiras.

Anelisse ficou ao seu lado, debruçada no guarda-corpo, gritando "Mamãe!" para as bolhas que subiam.

— Ela vai ficar bem, Manu — disse Sara, colocando a mão sobre a dele. — E se não ficar, eu mesma pulo lá para dar uma lição naquele instrutor.

Emanuel deu um riso curto e seco. Naquele barco, cercado pela beleza de Angra e pelo caos de suas mulheres, ele entendeu que o controle era uma ilusão. Ele podia tatuar o que quisesse na pele do mundo, mas na alma daquela família, quem ditava as regras, entre um bater de pés e um sorriso manhoso, eram as pequenas cópias de amor que ele aceitara proteger.

A paz finalmente reinou no convés, mas Emanuel sabia que era temporária. Logo Eduarda voltaria com histórias de peixes coloridos, Sara exigiria um jantar em um restaurante caríssimo na costa, e Anelisse provavelmente bateria o pé novamente porque queria o sorvete que ele proibira. E ele, o tatuador implacável, faria exatamente o que elas queriam, odiando e amando cada segundo daquela doce e barulhenta derrota.

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