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O Equilíbrio Frágil Entre a Força e o Voo
A manhã na mansão de Emanuel começou com o aroma de café recém-passado e o som abafado de música clássica vindo do estúdio de dança particular que ele mandara construir para Eduarda. No entanto, o foco de Emanuel naquela hora precoce era a suíte master, onde Sara, envolta em lençóis de seda egípcia, lutava contra os enjoos matinais do segundo mês de gestação.
Emanuel sentou-se na beira da cama, segurando uma bandeja com torradas integrais e um chá de gengibre, exatamente como o médico recomendara. Ele observou a loira, que mesmo desabelada e com a expressão cansada, mantinha uma aura de autoridade. O silicone firme sob a camisola de renda e as curvas que começavam a ganhar a suavidade da maternidade eram, para ele, a visão da fertilidade e da força.
— Bebe um pouco, Sara. Vai ajudar a assentar o estômago — disse ele, a voz num tom baixo e protetor, passando a mão pelos cabelos claros dela.
— Eu odeio me sentir assim, Emanuel — Sara resmungou, sentando-se com a ajuda dele. — Parece que tem um liquidificador ligado dentro de mim. E se esse bebê puxar o seu mau humor matinal, eu estou perdida.
Emanuel soltou um riso raro, beijando a testa da mulher.
— Ele vai ter a sua determinação e a minha proteção. Agora come. Eu preciso passar no estúdio de tatuagem hoje para resolver a logística de Tóquio, mas volto para almoçar com você.
— Não se esqueça de que a Duda tem o ensaio geral hoje — Sara lembrou, dando um gole pequeno no chá e fazendo uma careta. — Ela está nervosa com aquele espetáculo de "O Quebra-Nozes". Aquela menina não come direito quando está focada. Cuida dela também, Manu.
Emanuel assentiu. Ele amava essa faceta de Sara; apesar da aparência vulgar e do jeito provocativo, ela tinha um instinto protetor quase maternal com Eduarda. Elas eram as duas metades que o mantinham inteiro.
Após mimar Sara com massagens nos pés e garantir que ela estivesse confortável para passar a manhã na loja de roupas online que administrava do notebook, Emanuel desceu para o estúdio de dança. Ele encontrou Eduarda finalizando uma sequência de giros. Ela parecia uma pluma, o corpo esguio e musculoso movendo-se com uma precisão que o deixava hipnotizado.
— Duda? — chamou ele.
A jovem parou, a respiração ofegante, os cabelos castanhos colados na testa pelo suor. Ela sorriu, aquele sorriso doce e tímido que sempre desarmava a rigidez dele.
— Oi, Manu. Já vai sair?
— Vou. Mas vim te dar um beijo antes. E para dizer que quero você alimentada. Sara me disse que você mal tocou no café.
Eduarda aproximou-se, manhosa, e abraçou a cintura dele, escondendo o rosto em seu peito. Emanuel sentiu a fragilidade dela, o contraste gritante com a exuberância de Sara.
— Estou sem fome, é o nervosismo. Hoje é o ensaio com os cabos. Eu vou ser içada na cena final, como se estivesse voando sobre o palco.
Emanuel sentiu um aperto instintivo no peito. O controle era sua zona de conforto, e a ideia de Eduarda pendurada por cabos a metros de altura o deixava inquieto.
— Tome cuidado, por favor. Se sentir que algo não está firme, desça na hora.
— Vai dar tudo certo, meu protetor — ela sussurrou, ganhando um beijo demorado no topo da cabeça.
***
O Teatro Municipal estava mergulhado em uma penumbra azulada, iluminado apenas pelos refletores que focavam no centro do palco. Eduarda sentia a adrenalina pulsar. O figurino de tule leve e cristais refletia a luz, transformando-a em uma criatura etérea. O diretor artístico gritava instruções do fosso da orquestra.
— Preparar para o içamento! Eduarda, mantenha o core firme. A transição precisa ser fluida!
Os técnicos de palco prenderam os ganchos discretos no arnês escondido sob o collant de Eduarda. Ela respirou fundo, buscando a paz que Emanuel sempre lhe proporcionava mentalmente. A música subiu, um crescendo de violinos que marcava o ápice da peça.
Lentamente, os pés de Eduarda deixaram o chão de madeira. Ela começou a subir, executando movimentos leves com os braços, simulando um voo celestial. Estava a cerca de quatro metros de altura quando o som seco de metal estalando ecoou pelo teatro vazio.
— A corda! — alguém gritou nos bastidores.
Em uma fração de segundo, o equilíbrio de Eduarda foi desfeito. Um dos cabos de segurança cedeu, fazendo com que o corpo da bailarina pendesse violentamente para o lado antes que o segundo cabo também perdesse a tensão. Eduarda caiu.
O impacto não foi direto no chão, pois as cortinas laterais amorteceram parte da queda, mas ela atingiu o tablado com um baque surdo que paralisou todos os presentes.
— Eduarda! — O diretor correu para o palco, seguido por paramédicos que sempre ficavam de prontidão nos ensaios gerais.
Eduarda estava caída de lado, o rosto pálido contrastando com o brilho do figurino. Ela sentia uma dor aguda no tornozelo e uma queimação nas costelas, mas, enquanto os paramédicos se aproximavam para imobilizá-la, sua mente não estava na dor física.
— A corda... — ela murmurou, a voz fraca, mas urgente.
— Não se mexa, Duda. Fique calma — disse o médico, começando a verificar seus sinais vitais.
— A corda... — ela repetiu, tentando se sentar, sendo impedida pelas mãos firmes dos socorristas. — A produção... eles vão conseguir arrumar a corda a tempo? O espetáculo é amanhã. Eles precisam consertar o mecanismo.
— Você acabou de cair de quatro metros de altura e sua preocupação é o mecanismo de içamento? — O diretor perguntou, incrédulo, enquanto ligava para o contato de emergência: Emanuel.
***
Quando Emanuel entrou no hospital, ele parecia um furacão de tensão controlada. Sara estava ao seu lado, usando um vestido vermelho justo e saltos altos, a expressão de deboche habitual substituída por uma máscara de preocupação genuína. Emanuel não falou com a recepção; ele simplesmente caminhou em direção à área de observação, sua presença rica e poderosa abrindo caminhos.
Ao entrar no box onde Eduarda estava, ele a viu: pequena, pálida, com o tornozelo enfaixado e alguns arranhões no braço fino.
— Eduarda! — A voz de Emanuel saiu rouca, uma mistura de alívio e fúria contida.
Ele se aproximou da cama e, ignorando os protocolos, pegou a mão dela com força, como se precisasse se certificar de que ela ainda era feita de carne e osso.
— O que você estava pensando? Eu disse para ter cuidado! — Ele explodiu, o medo transvestido de autoridade. — Você poderia ter morrido, ou ficado paralítica! Chega de ballet por este ano. Você vai ficar em casa, sob minha supervisão e a da Sara.
Sara se aproximou pelo outro lado, passando a mão pelo rosto de Eduarda.
— Calma, Manu. Não assusta a menina mais do que ela já deve estar. Duda, querida, você deu um susto na gente. Como está se sentindo? O bebê até chutou de nervoso, eu acho.
Eduarda olhou para os dois, os olhos castanhos cheios de lágrimas, mas não de dor.
— Manu... Sara... eu estou bem. O médico disse que foi um milagre, só uma entorse leve e hematomas. Mas vocês não entendem...
— O que não entendemos? — Emanuel perguntou, estreitando os olhos. — Que você quase se matou por causa de uma dança?
— Não é só uma dança! É o meu espetáculo! — Eduarda disse, recuperando um pouco da voz, a pirraça e a determinação brilhando em seu olhar. — Eu preciso que você use seus contatos, Emanuel. Ligue para o teatro. Eles disseram que o cabo rompeu por fadiga do material. A produção precisa arrumar isso até amanhã à noite. Eu vou fazer o espetáculo.
Emanuel soltou a mão dela, afastando-se um passo, incrédulo.
— Você não vai a lugar nenhum além da nossa cama, onde eu vou cuidar de você 24 horas por dia. Você não tem condições de pisar num palco, quanto mais de ser içada de novo.
— Eu vou fazer o espetáculo — Eduarda repetiu, a voz manhosa sumindo para dar lugar a uma teimosia que raramente mostrava. — Se eu não for içada, a história perde o sentido. Manu, por favor... é a minha vida. Se você me ama, você vai garantir que aquele palco esteja seguro para mim amanhã.
Emanuel olhou para Sara, buscando apoio, mas a loira deu de ombros, soltando um suspiro irônico.
— Não olha para mim, Manu. Você sabe como ela é quando coloca uma coisa na cabeça. E, sinceramente? Se ela ficar em casa choramingando porque perdeu a estreia, vai ser muito pior para os meus nervos e para a minha gravidez.
— Vocês duas enlouqueceram — Emanuel murmurou, massageando as têmporas. — Sara, você deveria estar do meu lado nisso! Ela caiu!
— E ela levantou, não levantou? — Sara rebateu, cruzando os braços sobre o peito. — Ela é bailarina, Emanuel. Elas são feitas de aço por dentro, mesmo que pareçam de cristal por fora. Em vez de gritar com ela, por que você não usa esse seu dinheiro e esse seu controle obsessivo para contratar a melhor equipe de engenharia cênica da cidade para revisar aqueles cabos em doze horas?
Emanuel olhou para Eduarda, que o observava com uma expressão suplicante, os lábios trêmulos. Ele era o protetor, o homem que queria trancá-las em uma redoma de ouro para que nada as atingisse. Mas ali, naquele quarto de hospital, ele percebeu que proteger Eduarda não significava impedi-la de voar, mas sim garantir que o céu fosse seguro para ela.
Ele suspirou, a derrota estampada em seus ombros largos.
— Eu vou fazer as ligações — ele cedeu, a voz grave. — Mas com uma condição: o melhor ortopedista da cidade vai te avaliar amanhã à tarde. Se ele disser "não", é "não". E eu vou estar nos bastidores. Se eu vir um centímetro de cabo vibrando errado, eu mesmo subo lá e te tiro de cena. Entendido?
Eduarda abriu um sorriso radiante, ignorando a dor no tornozelo, e estendeu os braços para ele. Emanuel se inclinou, abraçando-a com uma delicadeza extrema, temendo quebrá-la.
— Obrigada, Manu. Eu sabia que você ia entender.
— Eu não entendo — ele resmungou contra o pescoço dela. — Eu só amo vocês demais para conseguir dizer não.
Sara aproximou-se e sentou-se na beirada da cama, pegando um dos chocolates que o vizinho — para desgosto de Emanuel — tinha mandado entregar no hospital assim que soube do acidente.
— Ótimo. Agora que o drama acabou, Duda, me dá um pedaço desse chocolate suíço. O desejo voltou com tudo depois desse susto. E Emanuel, para de fazer essa cara de quem vai matar alguém. Aproveita que a sua bailarina é dura na queda e vai resolver o problema dos cabos.
Emanuel olhou para as duas mulheres de sua vida. Uma grávida e comendo chocolates de outro homem com a maior naturalidade do mundo; a outra, ferida e planejando voltar a voar em menos de 24 horas. Ele era um homem rico, poderoso e temido no mundo das tatuagens e dos negócios, mas ali, naquele pequeno quarto, ele sabia quem realmente mandava.
— Eu vou — disse ele, dando um último beijo em Eduarda e um olhar de advertência carinhosa para Sara. — Mas se eu descobrir que o vizinho mandou flores também, eu vou ter uma conversa séria com ele.
— Vai logo, Emanuel! — As duas disseram em coro, rindo enquanto ele saía do quarto, já com o celular na mão, pronto para mover o mundo para garantir que a felicidade de suas mulheres permanecesse intacta, mesmo que isso custasse sua sanidade.