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O Caos Adocicado de Domingo

A mansão de Emanuel, que outrora fora um santuário de silêncio interrompido apenas pela música clássica de Eduarda ou pelas risadas vibrantes de Sara, agora tinha uma trilha sonora fixa: o som de pequenos pés batendo no chão e o balbucio constante de duas personalidades tão distintas quanto as de suas mães. Um ano se passara desde o nascimento de Maya e Ágata, e a vida de Emanuel nunca fora tão caótica, cara e, surpreendentemente, completa.

Naquela tarde de domingo, o sol entrava pelas grandes janelas da sala de jantar, iluminando a cena que faria qualquer homem menos resiliente do que Emanuel implorar por uma hora de paz em seu estúdio de tatuagem.

Emanuel estava sentado à cabeceira, tentando aproveitar um raro momento de indulgência: um hambúrguer artesanal suculento, transbordando queijo cheddar e bacon, que ele mesmo pedira como recompensa por uma semana exaustiva gerindo seus estúdios ao redor do mundo. Ao seu lado, no cadeirão alto, estava Maya.

Maya era a cópia fiel de Eduarda. Tinha os mesmos olhos castanhos expressivos e úmidos, o cabelo fino e escuro que Sara insistia em prender com laços de fita, e uma sensibilidade que a fazia chorar se alguém falasse um tom acima do normal. Mas, naquele momento, Maya não estava chorando de tristeza. Ela estava fazendo pirraça.

— Papá! — gritou a pequena, esticando as mãozinhas gordinhas em direção ao sanduíche do pai.

— Não, Maya. Isso não é para você. É muito pesado. Olha aqui a sua frutinha — Emanuel disse, tentando manter a voz firme, mas falhando miseravelmente diante do biquinho que a filha formava.

— Papá! Dá! — Maya insistiu, e quando percebeu que Emanuel levava o hambúrguer à boca, ela soltou um guincho agudo, batendo as mãos na bandeja do cadeirão.

Eduarda, que terminara de se arrumar para uma aula de ballet infantil que daria mais tarde, entrou na sala e suspirou ao ver a cena. Ela usava um coque perfeito e um vestido leve, exalando aquela aura de paz que sempre acalmava Emanuel.

— Ela está fazendo isso desde que o cheiro subiu, Manu — disse Eduarda, aproximando-se e beijando a têmpora de Emanuel antes de tentar oferecer uma colher de purê de maçã para a filha. — Vamos, meu amor, come a maçãzinha que a mamãe fez.

Maya olhou para a colher, depois para o hambúrguer, e então para Eduarda. Com um movimento rápido e deliberadamente manhoso, ela empurrou a mão da mãe, fazendo a colher cair no chão.

— Não! Papá! — A menina começou a soluçar, mas eram lágrimas secas, puramente teatrais. Ela sabia exatamente como manipular o coração protetor de Emanuel.

— Veja o que você fez, Eduarda. Agora ela está chateada — Emanuel resmungou, embora soubesse que a culpa não era da esposa. Sua natureza protetora se estendia às filhas de forma avassaladora, e ele odiava ver Maya em qualquer tipo de conflito, mesmo que fosse por um pedaço de pão.

— Eu não fiz nada, Emanuel! Ela é quem está querendo comer o que não deve — Eduarda rebateu, sentindo-se um pouco magoada. — Você a mima demais. Se ela continuar assim, não vai comer nada saudável.

Enquanto o drama de Maya se desenrolava, do outro lado da mesa, Sara lidava com Ágata. Se Maya era a doçura de Eduarda, Ágata era a tempestade de Sara. Loira, com olhos atentos e uma energia inesgotável, a pequena Ágata não estava interessada no hambúrguer do pai. Ela estava interessada em exercer sua vontade.

Sara, usando um conjunto de seda chamativo mesmo dentro de casa, tentava enfiar uma colher de papinha de legumes na boca da filha.

— Ágata, abre esse bocão. É cenoura, você gosta de cenoura! — Sara comandou, a voz carregada daquela autoridade impaciente que usava na loja de roupas.

Ágata apenas trancou os dentes e balançou a cabeça negativamente, um sorriso travesso cruzando seu rosto.

— Não! — disse a bebê, com uma clareza impressionante para a idade.

— Como assim "não"? — Sara riu, embora estivesse ficando frustrada. — Emanuel, olha a sua filha. Ela decidiu que vai viver de luz hoje.

Emanuel olhou de uma para a outra. De um lado, Maya choramingava de forma manhosa, encostando a cabeça no ombro dele e apontando para o hambúrguer com um olhar de "fui abandonada". Do outro, Ágata desafiava Sara abertamente, jogando a papinha para longe com um tapa certeiro.

— É o temperamento de vocês — Emanuel disse, limpando os dedos e pegando Maya no colo, o que só a incentivou a tentar morder o embrulho do sanduíche. — A Maya é sensível e pirracenta como a Duda quando está magoada, e a Ágata é teimosa e mandona como você, Sara.

— Ei! Eu não sou mandona, eu sou assertiva — Sara corrigiu, limpando um pingo de papinha de seu vestido caro com um suspiro irritado. — E a Duda não é pirracenta, ela é... bom, ela é manhosa mesmo.

Eduarda sentou-se na cadeira vaga, observando a interação. Ela sentia a tensão crescer em Emanuel. Ele tentava controlar a situação, mas bebês não seguiam a lógica de seus estúdios de tatuagem.

— Manu, dá ela aqui — Eduarda pediu, estendendo os braços para Maya. — Você precisa comer e ela precisa entender que tem limites.

— Ela só quer um pedacinho, Eduarda. Olha como ela está tremendo — Emanuel disse, exagerando a situação. — Talvez se eu der só um pedacinho do pão...

— Nem pense nisso! — Sara e Eduarda disseram em uníssono.

Emanuel bufou, sentindo-se encurralado. Ele colocou Maya de volta no cadeirão, mas a menina, percebendo que perdera o colo do pai, iniciou um choro legítimo e ruidoso. Ágata, vendo a irmã chorar, decidiu que era o momento perfeito para se juntar ao coro, não por tristeza, mas por pura competição de volume.

— Ótimo, concerto para dois pulmões — Sara ironizou, levantando-se. — Eu vou buscar as mamadeiras. Talvez o leite as cale por dez minutos.

— Eu ajudo você — disse Eduarda, também se levantando. Ela sabia que Emanuel precisava de um minuto para respirar sem ser solicitado por três mulheres diferentes ao mesmo tempo.

Quando as duas saíram para a cozinha, Emanuel ficou sozinho com as filhas. Ele olhou para o seu hambúrguer, agora frio, e depois para as duas pequenas criaturas que eram o centro de seu universo. Maya o olhava com aqueles olhos grandes de Eduarda, cheios de uma expectativa silenciosa. Ágata o encarava com o desafio de Sara, como se perguntasse qual seria o seu próximo passo.

— Vocês vão acabar comigo antes dos trinta, sabiam? — ele sussurrou para as bebês.

Ele pegou um pedaço minúsculo de pão, apenas a parte macia de cima, sem molho ou carne, e ofereceu a Maya. A menina parou de chorar instantaneamente, pegou o pedacinho com os dedos pequenos e o colocou na boca com uma expressão de triunfo absoluto.

Ágata, vendo a injustiça, bateu na mesa.

— Eu! — exigiu a loirinha.

Emanuel suspirou e deu um pedaço igual para Ágata. A paz reinou por exatos trinta segundos, até que Sara e Eduarda voltaram.

— Emanuel! Você deu pão para elas? — Eduarda perguntou, cruzando os braços.

— Era só um pedacinho, Duda. Elas estavam sofrendo — ele tentou se justificar, voltando à sua postura rígida e defensiva.

— Elas não estavam sofrendo, elas estavam te manipulando! — Sara riu, entregando a mamadeira para Ágata, que a pegou com voracidade. — Você é um molenga com essas meninas, Manu. Onde está aquele homem que intimida todo mundo com um olhar?

— Ele ficou lá fora, no portão da mansão — Eduarda comentou, sentando-se e pegando Maya para dar a mamadeira. — Aqui dentro, ele é apenas o refém das filhas.

Emanuel finalmente deu uma mordida no seu hambúrguer frio. Ele olhou para Sara, que agora brincava com os cachos de Ágata, e para Eduarda, que ninava Maya enquanto a bebê mamava tranquilamente. O estresse da birra, a sujeira de papinha no chão e a comida fria... nada disso importava.

— Eu não sou refém — Emanuel disse, a voz recuperando a autoridade, embora o brilho nos olhos o traísse. — Eu sou o protetor. E se o preço da paz é um pedaço de pão, eu pago.

— Você paga qualquer preço por nós, a gente sabe — Sara disse, lançando-lhe um olhar cúmplice, aquele olhar que lembrava a Emanuel por que ele precisava das duas para ser feliz. — Mas amanhã, você vai limpar o chão da cozinha quando a Ágata decidir que a janta é para ser pintada na parede.

Eduarda riu, encostando a cabeça no ombro de Sara. As duas mulheres se olharam com um carinho genuíno. A gravidez de Sara e a delicadeza de Eduarda haviam criado um laço inquebrável, e as bebês eram a prova viva de que aquele arranjo, por mais incomum que fosse para o mundo, era a perfeição para eles.

— Amanhã eu tenho estúdio — Emanuel esquivou-se rapidamente.

— Ah, não! Amanhã é dia de folga do tatuador rico — Eduarda provocou, manhosa. — E eu tenho ensaio. A Sara tem reunião na loja. Você fica com as meninas.

Emanuel olhou para Maya, que já fechava os olhos, e para Ágata, que tentava tirar o laço do próprio cabelo. Ele sabia que o dia seguinte seria uma batalha de vontades, trocas de fraldas e, provavelmente, mais pirraças por comida.

— Tudo bem — ele cedeu, sentindo o peso da responsabilidade e o calor do amor que preenchia aquela sala. — Mas se a Maya chorar porque quer meu café, a culpa vai ser da criação da Eduarda. E se a Ágata tentar mandar em mim, eu vou dizer que ela puxou a Sara.

— Justo — Sara concordou, pegando o último pedaço de bacon do prato de Emanuel antes que ele pudesse protestar. — Agora termina de comer, "papai protetor". Você vai precisar de energia.

A tarde seguiu com o sol baixando no horizonte, as bebês finalmente adormecendo no colo de suas mães, e Emanuel observando as três — as quatro — mulheres que dominavam sua vida com uma mistura de cansaço e gratidão absoluta. O chocolate do vizinho ficara no passado, as brigas por ciúmes nunca existiram, e ali, entre o hambúrguer frio e o leite morno, Emanuel encontrava a única forma de controle que realmente importava: o controle de saber que, não importa o caos, ele sempre teria para onde voltar.

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