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O Beijo Amargo do Ciúme Paterno
O jardim da mansão de Emanuel estava impecável para o churrasco de domingo. O sol de outono dourava as folhas das árvores e o cheiro de carne grelhada misturava-se ao perfume das flores que Eduarda cuidava com tanto zelo. Emanuel, vestindo uma bermuda cargo e uma camiseta preta que deixava suas tatuagens nos braços em evidência, tentava relaxar. Mas, para um homem cuja natureza era o controle absoluto, "relaxar" era uma tarefa árdua quando se tinha duas crianças de um ano e meio correndo pelo gramado.
Sara estava deslumbrante em um biquíni de grife coberto por uma saída de praia transparente e caríssima, exibindo suas curvas siliconadas com orgulho enquanto tomava uma taça de champanhe. Ela ria alto das piadas de Ricardo, um dos melhores amigos de Emanuel e sócio em alguns empreendimentos internacionais.
— Manu, você precisa soltar os ombros, cara — disse Ricardo, batendo nas costas do amigo. — O churrasco está ótimo, as crianças estão brincando. O que pode dar errado?
Emanuel estreitou os olhos, observando Maya e Ágata.
— O que pode dar errado é que a Ágata acabou de aprender a subir nas cadeiras e a Maya... a Maya está quieta demais. E quando ela fica quieta, Eduarda entra em pânico.
Eduarda, que usava um vestido de algodão branco e rasteirinhas, aproximou-se com uma bandeja de frutas cortadas. Ela parecia uma ninfa no meio do jardim, a pele suave e o olhar doce sempre atentos às filhas.
— Elas estão bem, Manu — disse Eduarda, com sua voz melodiosa e calma. — Maya está brincando com o pequeno Léo. Eles se dão tão bem.
Léo, o filho de três anos de Ricardo, era um menino enérgico e loiro que parecia ter herdado o carisma do pai. Ele e Maya estavam sentados em um tapete de atividades perto da piscina protegida.
— Eu não gosto daquele garoto perto dela — murmurou Emanuel, cruzando os braços.
Sara soltou uma gargalhada, fazendo seus cabelos loiros balançarem.
— Pelo amor de Deus, Emanuel! Ele tem três anos. Deixa de ser um homem das cavernas. A Duda tem razão, eles são fofos juntos.
Emanuel não respondeu. Ele apenas vigiava. Maya, com seu vestidinho rosa e seus cachos castanhos, segurava sua chupeta favorita, presa à roupa por um prendedor de pérolas que Sara comprara. Ela olhava para Léo com uma intensidade que Emanuel achou suspeita.
De repente, a cena que mudaria o curso da tarde aconteceu em câmera lenta para os olhos do tatuador.
Maya, com a manha típica que herdara da mãe biológica, mas com a audácia que certamente aprendera observando Sara, levou a mãozinha à boca. Com um puxão decidido, ela removeu a chupeta. Léo, curioso, inclinou a cabeça para frente. Antes que qualquer adulto pudesse intervir, Maya segurou o rosto do menino com as duas mãos gordinhas e selou seus lábios nos dele em um estalinho rápido e sonoro.
O silêncio caiu sobre o jardim como uma bigorna.
Ricardo começou a rir, uma risada que foi acompanhada pelo deleite provocado de Sara.
— Meu Deus! — exclamou Sara, batendo palmas. — Que iniciativa! Essa é a minha menina! Aprendeu direitinho a ir atrás do que quer.
Eduarda ficou vermelha, cobrindo a boca com a mão, dividida entre o choque e a ternura da cena infantil.
— Oh, Maya... que coisa mais doce — sussurrou a bailarina.
Emanuel, no entanto, parecia ter virado pedra. Seu rosto ficou pálido, depois vermelho, e as veias de seu pescoço saltaram. Para ele, aquilo não foi um "momento doce". Foi uma declaração de guerra. Foi o primeiro passo para o dia em que ele teria que afastar pretendentes com uma espingarda.
— O que... o que foi isso? — a voz de Emanuel saiu num rosnado baixo.
Ele caminhou em direção às crianças com passos pesados. Maya, ao ver o pai se aproximar, deu um sorriso radiante, ainda segurando a chupeta na mão.
— Papá! — gritou ela, feliz da vida.
— Maya! — Emanuel exclamou, pegando a menina no colo com uma urgência desnecessária. — Você não pode fazer isso! O que você tem na cabeça? E você, garoto, fique longe dela!
Ricardo, ainda rindo, pegou Léo no colo.
— Calma, Manu! Foi só um selinho de criança. Eles não sabem nem o que estão fazendo.
— Ele sabe! Olhe para ele, ele está sorrindo! — Emanuel apontou para o menino, que realmente parecia muito satisfeito. — Eduarda, você viu isso? Você vai deixar ela virar uma... uma...
— Uma o quê, Emanuel? — Sara interrompeu, aproximando-se com os olhos semicerrados e um sorriso desafiador. — Uma mulher decidida? Uma mulher que beija quem quer? Cuidado com o que vai dizer.
Emanuel sentiu a pressão subir. Ele olhou para Eduarda, buscando o apoio da sua metade mais sensível e obediente.
— Duda, diga a ela que isso é errado. Ela é um bebê!
Eduarda aproximou-se, tocando o braço de Emanuel com carinho, tentando baixar a temperatura do marido.
— Manu, querido, foi apenas uma brincadeira. Ela viu você me beijando, ou beijando a Sara. Ela está imitando o que vê de amor em casa. Não seja tão rígido.
— Não é imitação, é falta de vigilância! — Emanuel retrucou, a voz subindo de tom. — A partir de hoje, Maya não brinca mais com meninos sem que eu esteja a menos de um metro de distância.
Maya, percebendo que o clima não estava mais festivo e que o pai estava brigando — e pior, que ele a estava afastando do seu novo "amigo" —, começou a se contorcer no colo dele.
— Léo! Dá! — exigiu a menina, esticando os braços para o garoto.
— Não, Maya. Léo não. Vamos entrar e lavar essa boca — Emanuel disse, firme.
A pequena bailarina em formação não aceitou a ordem. Ela inflou as bochechas, seus olhos castanhos se encheram de lágrimas e ela soltou o grito que Emanuel mais temia.
— Papá mal! Papá mal! — gritou Maya, batendo com as mãozinhas no peito dele.
Emanuel sentiu como se tivesse levado um soco no estômago. Ele, o protetor, o homem que movia montanhas para garantir que elas tivessem o melhor chocolate, o melhor ballet e a melhor vida, estava sendo chamado de "mal".
— Eu não sou mal, Maya. Eu estou te protegendo — ele tentou argumentar, a voz agora vacilante.
— Mal! — Maya repetiu, começando a chorar de forma manhosa, escondendo o rosto no pescoço de Emanuel, mas apenas para limpar as lágrimas e logo depois olhar para ele com um beicinho de puro desprezo infantil.
Sara soltou uma gargalhada estrondosa, recostando-se na espreguiçadeira.
— Tomou, Emanuel? A criança tem mais bom senso que você. Ela quer o namoradinho dela e você está sendo o vilão da Disney.
— Ela não tem namorado! — Emanuel rugiu, mas a fúria estava perdendo espaço para a mágoa de ser rejeitado pela filha.
Eduarda pegou Maya do colo de Emanuel. A menina imediatamente se acalmou nos braços da mãe, embora ainda lançasse olhares de "pirraça" para o pai.
— Vem, meu amor. Vamos limpar esse rostinho — disse Eduarda, lançando um olhar de reprovação para Emanuel. — Você exagerou, Manu. Ela é sensível, você sabe disso. Agora ela vai ficar te ignorando o resto do dia.
— Eu só estava cuidando dela! — Emanuel exclamou para o nada, já que Eduarda e Maya se afastavam em direção à casa.
Ele se virou para Sara, esperando algum conforto, mas a loira apenas terminou seu champanhe e piscou para ele.
— Se eu fosse você, Manu, começava a praticar o desapego. Se ela for metade do que eu fui com a idade dela, aquele menino é só o primeiro de uma longa lista que vai te fazer ter um infarto antes dos quarenta.
Emanuel sentiu o mundo girar. Ele olhou para Ricardo, que tentava disfarçar o riso enquanto brincava com Léo na grama.
— Isso não vai ficar assim — Emanuel resmungou, pegando o celular.
— O que você vai fazer? — perguntou Sara, curiosa.
— Vou ligar para a segurança. Quero câmeras novas no jardim. E vou pesquisar sobre escolas de freiras.
— Você não teria coragem — Sara desafiou.
— Tente me impedir.
Emanuel caminhou em direção à casa, o coração ainda acelerado. Ele entrou na sala e viu Eduarda sentada no sofá, com Maya no colo. A menina comia um pedaço de chocolate — provavelmente um dos suíços que o vizinho continuava enviando periodicamente e que Emanuel, por puro cansaço, parara de confiscar.
— Maya? — chamou ele, a voz doce, tentando uma reconciliação.
A menina olhou para ele, mastigou o chocolate devagar, deu as costas e abraçou o pescoço de Eduarda.
— Papá mal — sussurrou a pequena, com a voz abafada.
Emanuel fechou os olhos e encostou a testa no batente da porta. Ele era um dos homens mais poderosos e temidos em seu meio, mas ali, diante de uma bebê de dezoito meses e um pedaço de chocolate, ele sabia que tinha perdido a batalha.
Eduarda olhou para ele por cima do ombro, um sorriso leve e compreensivo surgindo em seus lábios.
— Deixe ela, Manu. Amanhã ela esquece.
— Ela não vai esquecer, Duda. Ela me chamou de mal. Ela beijou um estranho e me chamou de mal.
Sara entrou na sala logo atrás, passando a mão pelas costas de Emanuel de forma provocativa.
— Relaxa, maridão. Se serve de consolo, a Ágata acabou de morder o braço do Léo porque ele tentou pegar o brinquedo dela. Pelo menos uma das suas filhas sabe como manter os homens sob controle através da dor.
Emanuel olhou para o jardim e viu Ágata marchando triunfante com um caminhão de plástico, enquanto o pequeno Léo choramingava ao lado do pai.
— Ótimo — suspirou Emanuel, sentando-se na poltrona e cobrindo o rosto com as mãos. — Uma beija os inimigos e a outra os canibaliza. Eu realmente não tenho chance nenhuma nesta casa.
Eduarda levantou-se e levou Maya até ele. A menina, vendo a derrota no rosto do pai, finalmente cedeu. Ela esticou a mão suja de chocolate e tocou a bochecha de Emanuel.
— Papá... — disse ela, baixinho.
Emanuel abriu os olhos e sorriu, pegando a mãozinha dela e beijando-a, ignorando a sujeira de cacau.
— Eu te amo, sua pirracenta. Mas o Léo ainda está proibido de entrar aqui por um mês.
— Dois meses — corrigiu Sara, sentando-se no braço da poltrona. — Só para ele aprender que as mulheres desta família custam caro e exigem muito esforço.
Eduarda riu, encostando a cabeça no ombro de Emanuel. O equilíbrio fora restaurado, pelo menos até a próxima crise de ciúmes ou o próximo desejo de gravidez — que, embora Sara não tivesse contado ainda, parecia estar dando sinais de volta com uma vontade súbita de comer picles com sorvete de baunilha.
Emanuel suspirou, sentindo o calor das suas três mulheres ao redor. O controle era uma ilusão, ele sabia disso agora. Mas enquanto ele tivesse o amor manhoso de Eduarda, a força explosiva de Sara e a inocência astuta de suas filhas, ele estava disposto a ser o "papai mal" quantas vezes fosse necessário para manter aquele mundo perfeito girando.