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Desejos, Apetites e o Peso da Promessa

A luz da manhã filtrava-se pelas cortinas de linho do apartamento luxuoso de Emanuel, criando padrões lineares sobre o tapete persa. Um mês havia se passado desde a viagem a Paranapiacaba, e o que antes era uma tensão silenciosa e velada havia se transformado em uma rotina peculiar, porém harmoniosa à sua maneira. Emanuel, com sua natureza controladora e protetora, havia finalmente cedido ao que seu coração ditava: ele agora vivia um relacionamento que desafiava as convenções sociais, mas que trazia a paz que ele tanto almejava.

Ele amava Sara. O amor por ela era visceral, construído sobre anos de cumplicidade, luxo e uma honestidade brutal que poucas pessoas entenderiam. E ele estava perdidamente encantado por Eduarda. O sentimento por ela era diferente — era uma necessidade de cuidar, de proteger aquela fragilidade que o desarmava. Para Emanuel, ter as duas não era uma escolha entre opostos, mas a unificação de dois lados de sua própria alma.

Sara, com sua barriga de seis meses agora bem proeminente, desfilava pelo apartamento usando um robe de seda magenta que deixava pouco para a imaginação. Ela era a personificação da confiança.

— Emanuel, querido — chamou ela, sua voz ecoando da cozinha gourmet. — A Ágata decidiu que hoje ela é uma apreciadora da alta gastronomia. Eu não vou aceitar nada menos que um salmão grelhado com crosta de gergelim. E veja bem, eu quero aquele ponto rosado no meio, nem um segundo a mais de fogo.

Emanuel, que estava sentado no escritório revisando os lucros mensais de seus estúdios de tatuagem, levantou o olhar e sorriu. Ele adorava a exigência de Sara; era familiar, era o terreno que ele sabia dominar.

— Eu já pedi ao fornecedor, Sara. O peixe chega em trinta minutos — respondeu ele, levantando-se e caminhando até ela. Ele a abraçou por trás, as mãos grandes espalmando-se sobre o ventre dela. — Algo mais para a minha rainha?

— Talvez uma massagem nos pés mais tarde — ela ronronou, virando-se nos braços dele e selando os lábios com um beijo confiante, marcado pelo seu eterno batom vibrante. — E a pequena bailarina? Como ela está hoje?

Eduarda estava sentada no sofá da sala, com um livro de História da Arte repousando sobre as pernas. Ela estava em sua fase mais "manhosa" da gravidez. A barriga de seis meses de Maya parecia pesar mais em seu corpo esguio, e a timidez natural dela havia dado lugar a uma carência doce que Emanuel não conseguia ignorar.

— Eu... eu também estou com fome — murmurou Eduarda, fechando o livro devagar. Ela olhou para Emanuel com aqueles olhos grandes e expressivos, que pareciam sempre pedir permissão para existir. — Mas eu não quero salmão.

Emanuel se aproximou dela, deixando Sara no balcão da cozinha. Ele se ajoelhou à frente de Eduarda, a postura protetora assumindo o controle instantaneamente.

— O que você quer, Duda? Peça o que quiser.

— Eu queria... — ela hesitou, mordendo o lábio inferior, um gesto que Emanuel achava terrivelmente adorável. — Eu queria salada de atum. Mas com batatas rústicas. Bem crocantes e com bastante alecrim.

Emanuel franziu levemente a testa. O salmão era fácil; ele tinha contatos com os melhores mercados de peixes finos da cidade. Mas atum fresco, de qualidade, para uma salada específica, exigiria um pouco mais de esforço naquele horário de domingo.

— Atum e batatas rústicas — repetiu ele, memorizando o pedido como se fosse uma ordem de estado. — Vou providenciar agora mesmo.

— Tem que ser atum em postas, Emanuel — acrescentou ela, a voz ficando um pouco mais chorosa, a flutuação hormonal evidente. — Não pode ser de lata. O cheiro do de lata me dá enjoo. E as batatas... eu quero que elas tenham aquele sal grosso por cima.

— Vai ter, pequena. Eu prometo.

Emanuel pegou as chaves do carro e o celular. Sara, observando a cena com um sorriso divertido, cruzou os braços sobre os seios siliconados.

— Você vai virar um motorista de delivery particular, querido — brincou ela. — Mas aproveite. Se a Maya quer atum, o papai Emanuel vai buscar até no fundo do oceano.

Emanuel saiu, determinado. A primeira parte foi simples: o salmão chegou na porta do prédio em tempo recorde, entregue por um mensageiro de confiança. Ele deixou o peixe com a cozinheira da casa e partiu em busca do desejo de Eduarda.

Duas horas se passaram.

O mercado central estava fechado para reformas. O empório de luxo onde ele costumava comprar peixes frescos havia tido um problema no carregamento de atum. Emanuel rodou três bairros diferentes, sentindo o estresse começar a subir pela nuca. Ele era um homem prático, acostumado a resolver problemas com um telefonema ou um cheque, mas a escassez de atum fresco naquele domingo específico parecia uma piada de mau gosto do destino.

Quando finalmente encontrou um lugar que tinha o produto, o peixe não parecia fresco o suficiente para os padrões de segurança que ele exigia para Eduarda. Ele não arriscaria a saúde dela ou de Maya por nada.

Frustrado, ele acabou comprando o melhor que pôde encontrar em uma boutique de pescados distante, além de todos os ingredientes para as batatas rústicas perfeitas.

Quando Emanuel retornou ao apartamento, o cheiro do salmão de Sara já impregnava o ar, delicioso e sofisticado. Sara estava sentada à mesa, saboreando seu prato com elegância, usando os talheres de prata como se estivesse em um banquete real.

— Demorou, hein? — disse ela, limpando o canto da boca. — A Ágata já está satisfeita. Agora falta a sua outra protegida.

Emanuel foi direto para a cozinha, onde Eduarda o esperava sentada em um banco alto, com uma expressão de expectativa que beirava a ansiedade.

— Conseguiu? — perguntou ela, as mãos entrelaçadas sobre a barriga.

Emanuel colocou as sacolas sobre a bancada.

— Eduarda, eu consegui o atum, mas... não era o melhor. Eu trouxe um filé de Saint Peter fresquíssimo que o fornecedor garantiu ser melhor para a salada, ou podemos fazer as batatas rústicas com um acompanhamento diferente. O atum que encontrei não estava bom o suficiente para você comer grávida.

O rosto de Eduarda mudou instantaneamente. Os cantos dos lábios caíram e um "bico" pronunciado formou-se em seu rosto. Seus olhos começaram a brilhar com lágrimas contidas.

— Mas eu queria atum, Emanuel — disse ela, a voz falhando, carregada de uma manha que era puramente emocional. — Eu passei a manhã toda pensando no gosto do atum com as batatas. A Maya queria o atum.

— Eu sei, meu anjo, mas eu me preocupo com a sua saúde — explicou ele, aproximando-se para tentar tocá-la, mas ela se encolheu levemente no banco, numa demonstração passiva de desapontamento.

— Você conseguiu o salmão da Sara tão rápido — murmurou ela, olhando para o chão. — Para ela é sempre tudo perfeito.

Aquilo atingiu Emanuel como um soco. Ele odiava quando Eduarda se sentia em segundo plano, mesmo que ele fizesse de tudo para que isso não acontecesse. Sara, percebendo o clima pesado, levantou-se e caminhou até a cozinha, balançando os quadris com sua confiança habitual.

— Ah, para com isso, Duda! — disse Sara, sem um pingo de malícia, mas com sua franqueza característica. — O Emanuel rodou a cidade inteira por causa desse seu peixe. Ele está exausto. Se ele diz que o atum estava ruim, é porque estava. Você quer ficar doente? Quer que a Maya passe mal?

Eduarda fungou, limpando uma lágrima que escapou.

— Não... claro que não.

— Então para de bico e deixa ele cozinhar esse outro peixe para você — continuou Sara, aproximando-se de Eduarda e, surpreendentemente, colocando a mão sobre o ombro da menina. — E se você quiser, eu divido um pedaço do meu salmão com você enquanto as batatas ficam prontas. O que acha?

Eduarda olhou para Sara, desarmada pela atitude da loira. Sara não a via como rival, e essa segurança era algo que Eduarda ainda estava tentando processar.

— Desculpa, Emanuel — disse Eduarda, a voz baixinha. — Eu estou sendo boba. É que... às vezes eu sinto que tudo é tão difícil.

Emanuel suspirou, o estresse evaporando para dar lugar a uma ternura avassaladora. Ele a puxou para um abraço cuidadoso, beijando o topo de sua cabeça castanha.

— Você não é boba. Você está carregando uma vida, e eu estou aqui para garantir que nada falte para vocês duas. Vou fazer as batatas agora. As melhores que você já comeu.

Ele passou a hora seguinte na cozinha. Emanuel, o tatuador rico e renomado, cortava batatas com precisão cirúrgica, temperando-as com alecrim fresco, alho esmagado e o sal grosso que ela havia pedido. Ele selou o peixe branco com maestria, montando um prato que parecia ter saído de uma revista de culinária.

Quando ele serviu Eduarda, o sorriso que ela deu foi o pagamento que ele precisava. Ela comeu devagar, saboreando cada pedaço da batata crocante, enquanto Sara se sentava ao lado dela, contando histórias engraçadas sobre os clientes extravagantes que apareciam em sua loja de roupas.

Emanuel observava as duas da cabeceira da mesa. O contraste era fascinante. Sara, loira, exuberante, com sua risada alta e seus gestos largos. Eduarda, morena, delicada, com seu jeito contido e sua doçura melancólica. Ambas carregando suas filhas, ambas sob sua proteção.

— O Gabriel ligou — comentou Sara, entre um gole de água e outro. — Ele quer saber se vamos para a casa de praia no próximo fim de semana. Ele está naquela fase de "irmão protetor chato" de novo, perguntando se a Eduarda está descansando o suficiente.

Eduarda corou.

— O Biel se preocupa demais. Ele ainda não aceitou totalmente que... bem, que as coisas são assim.

Emanuel endureceu o maxilar por um segundo. A relação com Gabriel era o ponto mais sensível de toda aquela estrutura. Gabriel era seu melhor amigo, mas a superproteção dele em relação a Eduarda muitas vezes colidia com o desejo de Emanuel de tê-la sob suas próprias asas.

— Ele vai ter que aceitar — disse Emanuel, sua voz assumindo aquele tom de autoridade que não admitia réplicas. — Eu cuido de você melhor do que qualquer outra pessoa poderia, Eduarda. Ele sabe disso.

— Ele sabe — concordou ela, buscando a mão de Emanuel por cima da mesa. — Ele só tem medo que eu sofra de novo. Como foi com o pai da Maya.

Emanuel apertou a mão dela com firmeza.

— Eu não sou aquele homem. Eu nunca vou abandonar você. Nem a Sara.

Sara deu um tapinha na mão de Emanuel.

— Credo, Emanuel, que clima pesado! Estamos comendo. Duda, querida, esquece o seu irmão por um minuto. Depois do almoço, eu quero te mostrar umas roupinhas que chegaram na loja. Coisas de algodão egípcio, super macias, perfeitas para a Maya.

O clima relaxou novamente. Eduarda, agora satisfeita pela comida e pelo carinho, encostou a cabeça no ombro de Emanuel.

— Obrigada pelas batatas, Emanuel. Estavam perfeitas.

— Eu faria tudo de novo — respondeu ele, e era a mais pura verdade.

Mais tarde, enquanto as duas mulheres descansavam — Sara tirando um cochilo de beleza no quarto principal e Eduarda lendo no quarto de hóspedes que Emanuel já havia transformado em um refúgio para ela —, Emanuel ficou sozinho na varanda, observando a cidade.

Ele sabia que o mundo lá fora olharia para aquela configuração com julgamento. Um homem, duas mulheres grávidas, uma casa cheia de desejos e necessidades conflitantes. Mas, enquanto ele via Sara feliz e Eduarda protegida, a lógica do mundo não importava.

Ele tinha o controle. Ele tinha o amor. E, acima de tudo, ele tinha a determinação de manter aquele equilíbrio, não importa quantas cidades ele tivesse que rodar atrás de um atum fresco ou quanta resistência tivesse que enfrentar de Gabriel.

Afinal, para Emanuel, a felicidade não era uma linha reta, mas um desenho complexo e detalhado, exatamente como a arte que ele eternizava na pele das pessoas. E aquela família era a sua obra-prima mais importante.

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