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Desejos de Cereja e Temperos de Família

A tarde em São Paulo estava abafada, contrastando com a brisa fresca que Emanuel tentava manter dentro do apartamento através do sistema de climatização central. O ambiente, que geralmente exalava o cheiro de couro dos móveis caros e o perfume importado de Sara, agora tinha um aroma persistente de peixe.

Eduarda estava sentada à mesa da varanda gourmet, os olhos brilhando de uma forma que Emanuel não via há dias. À sua frente, uma travessa de salada de atum em postas, exatamente como ela desejava, mas com um detalhe: o peixe era fresco, marmorizado e tinha sido entregue por um motorista particular enviado diretamente por seu pai.

— Meu pai é incrível, Emanuel — disse Eduarda, levando uma garfada generosa à boca com um suspiro de satisfação. — Ele ligou para o fornecedor exclusivo dele e conseguiu o atum em meia hora. Ele disse que a Maya não podia passar vontade.

Emanuel, parado junto ao balcão com os braços cruzados, sentiu uma pontada de irritação que tentou mascarar com um sorriso forçado. Ele havia rodado a cidade inteira, estressado e frustrado, apenas para ser "superado" pela eficiência moderna e despojada dos pais de Eduarda.

— Fico feliz que ele tenha conseguido, Duda — respondeu Emanuel, sua voz soando um pouco mais rígida do que o pretendido. — Pelo menos você está comendo o que queria.

— Está divino — murmurou ela, agindo com aquele jeito manhoso que costumava desarmar Emanuel, mas que hoje, devido ao cansaço dele, parecia apenas ressaltar a dependência dela da aprovação e do mimo alheio.

Eduarda então esticou o braço e pegou uma lata de Coca-Cola de cereja que estava escondida atrás de um vaso de flores. O som do lacre abrindo — *tshhh* — ecoou como um gatilho para Emanuel.

— Outra, Eduarda? — questionou ele, aproximando-se e descruzando os braços. — É a terceira lata só hoje. Você sabe que o açúcar e a cafeína não fazem bem para a Maya nessa quantidade. A médica foi clara sobre moderação.

Eduarda parou a lata a centímetros dos lábios. Seus olhos grandes, que antes eram doces, ganharam um brilho de teimosia que Emanuel ainda não conhecia totalmente.

— É a única coisa que tira o gosto de ferro da minha boca, Emanuel — rebateu ela, a voz subindo um tom, perdendo a suavidade habitual. — E eu estou com calor. A Maya quer algo gelado e doce.

— A Maya quer nutrientes, não xarope de cereja — Emanuel retrucou, a praticidade assumindo o controle. Ele estendeu a mão. — Me dá a lata. Vou te trazer um suco de fruta natural ou uma água de coco.

Eduarda abraçou a lata contra o peito, protegendo-a como se fosse um tesouro, e fez um bico tão acentuado que beirava o infantil.

— Não! Eu não quero suco. Eu quero a minha Coca de cereja! — Ela bateu o pé levemente no chão, uma pirraça genuína que deixou Emanuel momentaneamente sem palavras. — Você não manda no que eu beijo. Meu pai sempre me deixa tomar o que eu quero.

Emanuel sentiu o sangue subir para o rosto. Ele lidava com estúdios internacionais, com artistas temperamentais e com a personalidade vulcânica de Sara, mas aquela resistência infantil e manhosa de Eduarda o atingiu de um jeito diferente. Ele se sentiu menos como um protetor e mais como um monitor de creche sendo desafiado.

— Eduarda, não seja ridícula — disse ele, a voz agora fria e cortante. — Eu estou tentando cuidar de você. Se você quer agir como uma criança, talvez devesse estar na casa dos seus pais, e não aqui assumindo a responsabilidade de uma mãe.

O silêncio que se seguiu foi pesado. Eduarda arregalou os olhos, as lágrimas começando a inundar suas íris castanhas. A fragilidade dela, que geralmente despertava nele um desejo de abraçá-la, agora apenas alimentava sua irritação por causa da teimosia sem sentido.

— Você é... você é um grosso! — gritou ela, a voz embargada. Ela se levantou da mesa, deixando a salada de atum pela metade, e saiu da varanda a passos rápidos, ainda segurando a lata de refrigerante como um troféu de rebeldia.

Emanuel soltou um suspiro pesado, passando a mão pelo cabelo curto. Ele estava no limite. A pressão de manter tudo perfeito, de equilibrar as necessidades de duas mulheres grávidas e de gerir seu império estava começando a rachar sua fachada de controle.

— Emanuel? — A voz de Sara veio do corredor, mas não era a voz vibrante e irônica de sempre. Era um som abafado e sofrido.

Ele caminhou rapidamente até o quarto principal. Sara estava sentada na beira da cama, pálida, com a mão cobrindo a boca e a outra pressionando a barriga de seis meses. O robe de seda estava desalinhado e ela parecia ter perdido toda a energia que exibia horas antes.

— O que foi, meu amor? — perguntou ele, ajoelhando-se à frente dela, a irritação com Eduarda sendo imediatamente substituída pela preocupação com a esposa.

— O enjoo... ele não passa, Emanuel — gemeu Sara, fechando os olhos com força. — Tudo me dá náusea. O cheiro desse peixe que a Eduarda está comendo... o cheiro do seu perfume... até o cheiro do ar parece errado hoje.

Emanuel pegou uma toalha úmida e fria, passando-a delicadamente na nuca de Sara.

— Vou ligar para a doutora Helena. Talvez ela precise ajustar a medicação.

— Não adianta — murmurou Sara, recostando a cabeça no ombro dele, buscando o conforto que só o corpo dele provia. — A Ágata está agitada. Ela não gosta de nada que eu como. Eu só queria que o mundo parasse de girar por cinco minutos.

Emanuel a abraçou com cuidado, sentindo o peso da responsabilidade esmagar seus ombros. Sara, a mulher forte que nunca reclamava de nada, estava vulnerável. E no quarto ao lado, Eduarda estava trancada, provavelmente chorando e bebendo o refrigerante que ele proibira.

— Eu vou cuidar de você — prometeu ele, beijando a testa suada de Sara. — Vou pedir para limparem a cozinha agora mesmo para tirar o cheiro do atum.

— Não briga com a pequena — disse Sara, mesmo em meio ao mal-estar, demonstrando aquela sua estranha e generosa empatia. — Ela é sensível, Emanuel. E você é um trator quando está estressado.

— Ela está sendo pirracenta, Sara. Tomando Coca-Cola de cereja como se fosse água.

Sara deu um sorriso fraco, quase imperceptível.

— Ela é jovem, está assustada e grávida de um homem que a largou. Ela só quer um pouco de doce na vida dela. Deixa ela ser mimada um pouco. Eu aguento o enjoo.

Emanuel olhou para Sara com admiração. Como ela conseguia ser tão pragmática e compreensiva ao mesmo tempo? Ele a ajudou a se deitar, cobrindo-a com um lençol leve e garantindo que o quarto estivesse na penumbra total.

Depois de garantir que Sara estava estável, Emanuel caminhou até o quarto de hóspedes. Ele parou diante da porta fechada e ouviu um soluço baixo. Sua irritação havia diminuído, substituída por uma culpa persistente. Ele era um homem de 25 anos, rico e poderoso, e estava perdendo a paciência com uma menina de 20 que só buscava conforto.

Ele girou a maçaneta devagar. O quarto estava escuro, exceto pela luz do abajur de leitura. Eduarda estava encolhida na cama, a manta de lã bege puxada até o queixo. A lata de Coca-Cola estava vazia sobre a mesa de cabeceira.

— Duda? — chamou ele suavemente.

Ela não respondeu, mas os ombros dela tremeram. Emanuel sentou-se na beira da cama e colocou a mão sobre o quadril dela, por cima da manta.

— Me desculpa — disse ele, a voz profunda e sincera. — Eu não deveria ter falado daquela forma sobre seus pais ou sobre você voltar para lá. Eu só... eu fico preocupado. Com você e com a Maya.

Eduarda virou-se devagar, os olhos inchados e o nariz vermelhinho.

— Você foi muito mau, Emanuel. Eu já me sinto mal por estar aqui, por não ter o pai da minha filha comigo... e você me trata como se eu fosse um fardo ou uma criança burra.

— Você não é nada disso — ele garantiu, puxando-a para que ela se sentasse. Eduarda, com seu jeito manhoso, imediatamente se arrastou para o colo dele, escondendo o rosto em seu pescoço. — Você é a minha pequena bailarina. Eu só quero que vocês duas fiquem bem

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