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O Som do Sangue e o Peso do Coração
A noite em São Paulo havia caído com uma densidade incomum, trazendo consigo uma chuva fina que embaçava as luzes dos arranha-céus. No apartamento de Emanuel, o silêncio era interrompido apenas pelo zumbido baixo do purificador de ar e pelo som rítmico da chuva contra o vidro temperado da varanda. Emanuel estava no escritório, mas sua mente não conseguia se concentrar nos esboços de uma nova série de tatuagens realistas. Seus pensamentos estavam presos no quarto ao lado, onde Eduarda se recolhera cedo, alegando cansaço.
Desde a notícia sobre a cardiopatia de Maya, um véu de melancolia parecia ter se instalado sobre a jovem bailarina. Ela estava mais quieta, mais retraída, e o brilho nos olhos que Emanuel tanto amava parecia ter sido substituído por uma névoa de incerteza.
Ele se levantou, caminhando pelo corredor com passos silenciosos. Ao passar pelo quarto principal, viu Sara deitada, absorta em um tablet, provavelmente organizando o estoque de sua loja. Ela notou a presença dele e apenas acenou com a mão, um gesto de "vá até ela" que dispensava palavras. Sara era o seu porto seguro, a mulher que entendia as engrenagens complexas de seu desejo sem questionar sua lealdade.
Emanuel parou diante da porta de Eduarda e ouviu um murmúrio. Ela estava falando ao telefone. A voz dela estava embargada, o tom baixo e trêmulo que ela usava quando estava prestes a desabar.
— Eu sei, mãe... eu sei que ele diz que vai cuidar de tudo — Eduarda dizia, e Emanuel sentiu um aperto no peito ao perceber que ela estava chorando. — Mas é diferente. A Ágata é dele. O sangue dele corre nas veias daquela bebê. A Maya... a Maya é fruto de um erro, de um homem que nem quis saber se ela tinha um coração funcionando ou não.
Emanuel congelou no corredor. A respiração dele falhou por um segundo.
— Eu tenho tanto medo, mãe — continuou Eduarda, soluçando. — Eu olho para o Emanuel e para a Sara e vejo uma família de verdade. Eu sinto que sou apenas uma visita que ficou tempo demais. E se, quando a Maya nascer e precisar de cirurgias, de remédios, de tempo... e se ele se cansar? É natural que ele ame mais a Ágata. Ela é a filha biológica dele. Eu não quero que a minha filha cresça sentindo que é o "segundo plano" de alguém.
Houve uma pausa, enquanto a mãe dela provavelmente tentava confortá-la do outro lado da linha.
— Eu já pensei nisso, mãe. Muitas vezes. Talvez fosse melhor eu terminar tudo com o Emanuel agora. Voltar para casa, morar com vocês de vez. Dói só de pensar em ficar longe dele, mas dói mais pensar no sofrimento futuro da Maya. Eu prefiro que ela não tenha um pai a ter um pai que a olhe com pena ou que a preira menos que a irmã.
Emanuel não esperou mais. A menção de que ela cogitava deixá-lo, de que ela duvidava da natureza do que ele sentia por aquela criança que ainda nem nascera, fez seu sangue ferver com uma mistura de dor e urgência. Ele abriu a porta sem bater.
Eduarda deu um salto na cama, deixando o celular cair sobre o edredom. Ela olhou para ele com os olhos arregalados, as bochechas manchadas de lágrimas, parecendo uma criança pequena pega em uma travessura triste.
— Emanuel... eu... — ela começou, a voz falhando.
— Desliga o telefone, Eduarda — disse ele, a voz soando como um trovão contido. Era o tom que ele usava quando a situação estava saindo de seu controle, rígido e inquestionável.
Ela obedeceu mecanicamente, encerrando a chamada e colocando o aparelho no criado-mudo. Emanuel entrou no quarto e fechou a porta atrás de si, encostando-se nela. Ele a observou por longos segundos, o peito subindo e descendo com a respiração pesada.
— Então é isso que você discute com a sua mãe pelas minhas costas? — perguntou ele, dando um passo em direção à cama. — Que você é uma "visita"? Que eu vou amar menos a Maya porque ela não tem o meu DNA?
Eduarda encolheu-se, puxando os joelhos contra a barriga de sete meses, um gesto instintivo de proteção.
— É a lógica, Emanuel! — gritou ela, a voz subindo de tom pela primeira vez. — A Sara é sua esposa, a Ágata é sua filha de sangue. A biologia não mente. O mundo funciona assim! Eu vejo como você olha para a barriga da Sara, com orgulho, com... com posse. E quando você olha para a minha, parece que você está vendo um problema que precisa ser consertado.
Emanuel sentiu como se tivesse levado um tapa físico. Ele se aproximou rapidamente, sentando-se na beira da cama e segurando os pulsos de Eduarda, não com força, mas com uma firmeza que a obrigava a prestar atenção.
— Você não sabe de nada sobre o que eu sinto, Eduarda. Nada. Você acha que eu sou um homem movido apenas por genética? Eu sou um artista. Eu passo a vida marcando a pele das pessoas com significados que vão muito além do sangue.
— Mas a Maya... — ela tentou interromper, mas ele não deixou.
— A Maya é sua, Eduarda. E você é minha. No momento em que eu decidi que queria você na minha vida, no momento em que eu decidi que cuidaria de você e da Sara juntas, a Maya se tornou minha responsabilidade e meu afeto. Você acha que eu rodaria a cidade atrás de um peixe, que eu brigaria com médicos, que eu passaria noites em claro estudando sobre cardiopatia congênita por "pena"?
Eduarda desviou o olhar, as lágrimas voltando a cair silenciosamente.
— Eu tenho medo, Emanuel. O pai dela a abandonou. Por que você seria diferente?
Emanuel soltou os pulsos dela e, com uma mão, forçou seu queixo para cima, obrigando-a a encarar seus olhos escuros e intensos.
— Porque eu não sou aquele moleque covarde. E porque eu amo você, sua bailarina teimosa. Eu amo a sua doçura, a sua manha e até essa insegurança que me dá vontade de te trancar em um cofre. E se eu amo você, eu amo o que vem de você. O coração da Maya pode ter um problema de válvula, mas o meu coração tem espaço suficiente para ela e para a Ágata sem fazer distinção de quem veio de onde.
Eduarda soluçou, escondendo o rosto nas mãos.
— Eu pensei que... se eu fosse embora agora, a dor seria menor depois.
— Se você for embora agora, você destrói a mim e à Sara — disse ele, a voz suavizando, mas mantendo a intensidade. — Sara gosta de você, Eduarda. Ela quer que essa família funcione. E eu? Eu não consigo imaginar acordar e não ter você aqui para eu cuidar. Você acha que eu sou forte o tempo todo, mas a sua fragilidade é o que me mantém humano. Se você sair por aquela porta, você leva a melhor parte de mim.
Ele a puxou para seus braços, e Eduarda desabou contra o peito dele, chorando copiosamente, soltando todo o medo e a angústia que vinha acumulando desde o diagnóstico. Emanuel a embalou, beijando o topo de sua cabeça, sentindo o calor do corpo dela contra o seu.
— Nunca mais — sussurrou ele perto do ouvido dela — diga que a Maya é menos. Nunca mais diga que você vai me deixar. Eu sou um homem controlador, Eduarda. E eu não vou deixar você fugir da felicidade que eu estou tentando construir para nós.
Depois de alguns minutos, o choro dela diminuiu para pequenos soluços espasmódicos. Ela se afastou um pouco, olhando para ele com os olhos vermelhos.
— Você promete? Promete que ela vai ter o mesmo amor? Que ela não vai se sentir sobrando quando a Ágata estiver nos seus braços?
Emanuel sorriu de canto, um gesto raro e cheio de uma promessa silenciosa.
— Eu prometo que vou ter dois braços, Eduarda. Um para cada uma. E se faltar braço, eu dou um jeito. Eu sou rico, lembra? Eu compro uma poltrona maior.
Eduarda deu uma risadinha fraca, limpando o nariz com a manga do pijama de flanela.
— Você é muito convencido.
— Sou prático — corrigiu ele. — Agora, deite-se. Você precisa descansar. O estresse faz mal para a pequena lutadora.
Ele a ajudou a se acomodar entre os travesseiros, cobrindo-a com cuidado. Antes de sair, ele sentiu a mão de Eduarda segurar a sua.
— Emanuel?
— Sim?
— A Sara... ela sabe que eu sou assim? Tão insegura?
Nesse momento, a porta do quarto se abriu fresta e a cabeça loira de Sara apareceu. Ela estava usando um par de óculos de leitura e segurava uma xícara de chá.
— Eu sei de tudo, bonequinha — disse Sara, entrando no quarto com sua confiança inabalável. — Eu estava ouvindo atrás da porta, óbvio. Não temos segredos aqui, esqueceu?
Eduarda corou violentamente.
— Sara!
— Ah, não me venha com "Sara!" — a loira caminhou até a cama e sentou-se do outro lado, entregando a xícara para Eduarda. — Beba isso. É erva-doce. E escute bem: se você tentar fugir de novo, eu mesma vou atrás de você e te trago de volta pelos cabelos castanhos. O Emanuel é um chato controlador, mas ele é o nosso chato. E a Ágata vai precisar da Maya para ter alguém com quem reclamar de nós dois no futuro. Você quer tirar isso da sua filha?
Eduarda olhou de Sara para Emanuel, sentindo uma onda de pertencimento que nunca havia experimentado antes. Não era uma família tradicional, não era o que ela havia planejado quando entrou na faculdade de História da Arte, mas era real. Era sólida.
— Eu não vou a lugar nenhum — prometeu Eduarda, a voz agora firme.
— Ótimo — disse Emanuel, levantando-se. — Porque amanhã cedo temos consulta com o cardiologista pediátrico para traçar o plano de parto. E eu não aceito atrasos.
Sara revirou os olhos, sorrindo para Eduarda.
— Viu? Um trator. Mas um trator que nos ama.
Emanuel apagou a luz principal, deixando apenas o abajur aceso. Ele deu um beijo na testa de cada uma e saiu do quarto, sentindo o peso em seu peito finalmente diminuir. Ele sabia que os desafios com a saúde de Maya seriam grandes, e que a insegurança de Eduarda voltaria em ondas, mas ele estava pronto.
Ele caminhou até a varanda e olhou para a chuva que agora diminuía. O sangue podia definir a biologia, mas a vontade — a vontade de um homem de proteger o que amava — era o que definia o destino. E Emanuel já havia decidido o dele. Ele teria as duas mulheres, teria as duas filhas, e transformaria aquele apartamento em um império onde o medo não teria permissão para entrar.
Dentro do quarto, Eduarda adormeceu segurando a mão de Sara, que permaneceu ali até ter certeza de que a "pequena bailarina" estava em paz. A configuração era complexa, as cicatrizes eram invisíveis, mas o afeto era a tinta que agora escrevia a história de todos eles. E Emanuel, o mestre das agulhas, garantiria que cada traço fosse permanente.