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Cicatrizes Invisíveis e a Fome de Afeto
A luz clínica do consultório do Dr. Arnaldo parecia mais fria do que o normal naquela manhã de terça-feira. Emanuel, sentado entre as duas mulheres, sentia o peso do silêncio como se fosse uma de suas máquinas de tatuar pressionando continuamente o seu peito, mas sem a anestesia da arte. Sara, ao seu lado esquerdo, mantinha uma postura impecável, as unhas longas pintadas de um rosa neon tamborilando levemente sobre a bolsa de grife. À sua direita, Eduarda era o oposto: estava encolhida, as mãos pálidas entrelaçadas sobre o ventre de sete meses, os olhos fixos em um ponto qualquer do tapete cinza.
O médico pigarreou, ajustando os óculos enquanto olhava para os resultados da última ecocardiografia fetal.
— Como eu estava explicando, Emanuel, Eduarda... os exames da Ágata continuam perfeitos. Ela está se desenvolvendo como o esperado, forte e saudável — o Dr. Arnaldo fez uma pausa, mudando o foco para a pasta de Eduarda. — No entanto, em relação à Maya, o detalhamento do fluxo sanguíneo confirmou o que suspeitávamos no mês passado. A pequena tem uma cardiopatia congênita.
O ar pareceu ser sugado para fora dos pulmões de Eduarda. Ela não chorou imediatamente; em vez disso, ficou ainda menor na cadeira, como se tentasse desaparecer.
— O que isso significa exatamente, doutor? — a voz de Emanuel saiu rouca, carregada daquela autoridade prática que ele usava para mascarar o pânico.
— Significa que o coração da Maya não está bombeando o sangue da forma mais eficiente possível devido a uma pequena má-formação na válvula — explicou o médico, tentando manter um tom calmo. — Não é uma sentença, mas exigirá cuidados redobrados. Provavelmente uma intervenção cirúrgica logo após o nascimento e um acompanhamento rigoroso a partir de agora.
Eduarda soltou um som baixo, um soluço sufocado que quebrou a rigidez de Emanuel. Ele imediatamente passou o braço pelos ombros dela, puxando-a para perto.
— A culpa é minha — sussurrou ela, a voz trêmula. — É por causa do refrigerante... ou porque eu não comi direito no começo... ou porque o pai dela não a quis...
— Ei, olha para mim — Emanuel disse, segurando o rosto dela com as duas mãos, ignorando por um momento a presença do médico e de Sara. — Não ouse dizer isso. Não tem nada a ver com você. São coisas da natureza, e nós vamos resolver. Eu tenho dinheiro, tenho os melhores contatos. A Maya vai ter o melhor cirurgião do mundo se for preciso. Entendeu?
Eduarda assentiu, mas as lágrimas já lavavam seu rosto delicado. Sara, que até então observava em silêncio, inclinou-se para frente e tocou o joelho de Eduarda.
— O Emanuel está certo, Duda. A garota nem nasceu e já tem o melhor time de segurança da cidade. Ela é uma lutadora, igual à mãe dela. E se precisar de sangue, de coração novo ou de qualquer coisa, a gente compra ou a gente briga por isso. Para de chorar, senão a menina vai achar que a gente não confia nela.
A vulgaridade carinhosa de Sara, de alguma forma, trouxe um pouco de cor de volta às bochechas de Eduarda. Ela limpou o rosto com as costas das mãos, respirando fundo.
— Eu só quero que ela não sofra — murmurou a bailarina.
— Ela não vai — afirmou Emanuel, com uma finalidade que encerrou o assunto no consultório.
Ao saírem do prédio comercial na Avenida Paulista, o sol forte de meio-dia atingiu o grupo. Emanuel sentia a tensão acumulada nos ombros. Ele olhou para as duas, tentando ler o que precisavam. Sara parecia apenas faminta, mas Eduarda parecia exausta, a alma drenada pela notícia.
— Eu preciso de um hambúrguer — anunciou Eduarda de repente, sua voz saindo com uma clareza surpreendente.
Emanuel parou, olhando para ela com uma sobrancelha erguida.
— Um hambúrguer, Duda? Agora? O médico acabou de falar sobre cuidados, alimentação...
— Eu não quero salada, Emanuel — ela o interrompeu, a teimosia voltando, mas desta vez sem a manha de semanas atrás. Era uma necessidade quase desesperada. — Eu quero um hambúrguer enorme. Com muito queijo derretido, bacon, maionese temperada e aquelas batatas fritas bem gordurosas. Eu quero sentir algo que não seja esse gosto de hospital e medo.
Sara soltou uma gargalhada alta, chamando a atenção de alguns executivos que passavam.
— É assim que se fala, garota! — Sara bateu palmas. — Eu também topo. A Ágata está chutando as minhas costelas pedindo gordura trans. Emanuel, leve as suas mulheres para comer algo que preste antes que eu comece a morder o estofamento do carro.
Emanuel suspirou, mas o canto de sua boca se elevou em um sorriso contido. Ele odiava a falta de lógica nutricional, mas amava a vitalidade que aquele desejo trazia para Eduarda.
— Tudo bem. Mas vamos a um lugar de qualidade. Nada de redes de fast-food de esquina.
Eles seguiram para uma hamburgueria artesanal nos Jardins, um lugar com luz baixa, sofás de couro vermelho e um ar de exclusividade que Emanuel apreciava. O clima entre eles era uma mistura estranha de melancolia pelo diagnóstico de Maya e uma união forjada pela adversidade.
Enquanto esperavam os pedidos, Eduarda mantinha a mão de Emanuel presa na sua por baixo da mesa. Ela buscava aquele contato físico como se ele fosse um cabo de aterramento para suas emoções oscilantes.
— O Biel vai surtar quando souber do coração da Maya — comentou Eduarda, a voz ficando pequena novamente. — Ele já é protetor demais. Ele vai querer que eu more dentro de uma bolha de plástico até o parto.
— Deixe o seu irmão comigo — disse Emanuel, apertando os dedos dela. — Eu falo com o Gabriel. Ele precisa entender que você precisa de apoio, não de mais pressão.
— Ele só tem medo, Emanuel — Sara interveio, bebendo um gole de seu chá gelado. — Todo homem nessa família é um controlador nato. Você, o Gabriel... vocês acham que podem consertar o mundo com as mãos. Às vezes a gente só quer comer um lanche e saber que, se tudo der errado, vocês vão estar lá para segurar o cabelo da gente enquanto a gente vomita.
Emanuel olhou para Sara, surpreso com a perspicácia dela.
— Eu não tento consertar tudo, Sara. Eu só...
— Tenta sim, querido. Mas é por isso que a gente te ama.
Os hambúrgueres chegaram, e por um momento, o silêncio dominou a mesa, interrompido apenas pelo som de satisfação de Eduarda ao morder o sanduíche. Ela comia com uma urgência que beirava o emocional, como se cada caloria fosse um escudo contra a notícia que recebera mais cedo.
— Está bom? — perguntou Emanuel, observando uma gota de maionese no canto da boca dela.
Ele esticou o polegar e limpou a mancha com uma delicadeza que fez o coração de Eduarda errar uma batida. Ela assentiu, com os olhos brilhando.
— É a melhor coisa que eu já comi.
— Engraçado — provocou Sara, dando uma mordida generosa no dela —, na semana passada o atum do seu pai era a melhor coisa do mundo. Você é uma traidora gastronômica, Duda.
Eduarda riu, um som leve e cristalino que pareceu clarear o ambiente.
— O atum era para a Maya bailarina. O hambúrguer é para a Maya lutadora.
Emanuel sentiu um nó na garganta. Ele olhou para as duas mulheres à sua frente — a exuberância loira e siliconada de Sara, que não tinha medo de nada, e a delicadeza castanha de Eduarda, que estava aprendendo a ser forte na marra. Ele percebeu, com uma clareza absoluta, que sua vida nunca seria simples, mas que ele não a trocaria por nada.
— Escutem as duas — disse Emanuel, sua voz ganhando o tom sério de quem está prestes a fazer um juramento. — Nós vamos passar por isso. A Maya vai nascer, vai operar e vai ser a criança mais mimada e saudável dessa cidade. A Ágata vai ter uma irmã para ensinar a ser rebelde, e vocês duas... vocês duas terão tudo o que eu puder dar.
Sara levantou sua caneca de chá.
— Ao nosso hospício particular.
Eduarda sorriu, encostando a cabeça no ombro de Emanuel, sentindo o cheiro familiar de sua colônia e a segurança que emanava dele.
— Ao nosso hospício — repetiu ela baixinho.
A tarde seguiu com eles planejando o quarto das bebês, agora com as modificações necessárias para os aparelhos que Maya poderia precisar. Emanuel ouvia tudo, processando custos, logística e médicos, enquanto suas mãos permaneciam ocupadas: uma acariciando o ventre de Sara e a outra entrelaçada na de Eduarda.
Lá fora, o mundo continuava seu ritmo caótico, mas dentro daquele sofá de couro vermelho, Emanuel sentia que tinha construído algo sólido. Um amor dividido em duas formas diferentes, mas igualmente intensas. Ele amava a vulgaridade e a força de Sara; ele amava a doçura e a fragilidade de Eduarda. E ele protegeria aquele equilíbrio com a mesma precisão com que cravava a agulha na pele, criando uma história que, embora complexa, era a única que ele queria viver.
Quando terminaram de comer e se preparavam para sair, Eduarda parou na porta da hamburgueria, olhando para o céu.
— Emanuel? — chamou ela.
— Sim, pequena?
— Você acha que ela vai gostar de ballet? Mesmo com o coraçãozinho dodói?
Emanuel caminhou até ela, envolvendo-a em um abraço por trás, sentindo o volume da barriga contra suas costas.
— Eu acho que ela vai ser a melhor bailarina da história da arte, Duda. Porque ela tem o coração mais valente que eu já conheci, antes mesmo de bater no mundo.
Sara parou ao lado deles, colocando os óculos de sol escuros e ajeitando o cabelo loiro.
— E se ela não quiser dançar, ela pode administrar meus negócios. Uma rainha do ballet e uma rainha do império. O mundo não está pronto para as filhas do Emanuel.
Eles caminharam em direção ao carro, uma imagem peculiar que atraía olhares, mas eles não se importavam. Entre diagnósticos difíceis e desejos de hambúrguer, eles estavam aprendendo que a família não precisava ser perfeita para ser real. Ela só precisava ser deles.