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D

Sombras no Nevoeiro e Raízes de Teimosia

A manhã em Paranapiacaba despertou sob o domínio de uma cerração tão espessa que as casas vizinhas pareciam meras silhuetas fantasmagóricas. O frio úmido da serra infiltrava-se pelas frestas da madeira, mas dentro da casa, o clima era aquecido pelo luxo ostensivo que acompanhava Emanuel e Sara onde quer que fossem.

Emanuel estava sentado à mesa de carvalho, o notebook aberto diante de si, mas sua atenção não estava nos lucros de seus estúdios de tatuagem em Londres ou Nova York. Seus olhos seguiam Sara, que desfilava pela cozinha com um robe de seda vermelha, bordado com rendas que pouco escondiam suas curvas generosas e o contorno firme de seus seios siliconados. Ela era um contraste vibrante contra o cinza da janela.

— Emanuel, querido, pare de olhar para essa tela e venha tomar esse café que sua tia preparou — disse Sara, a voz carregada de uma sensualidade natural enquanto se inclinava para pegar uma xícara, fazendo o robe subir perigosamente pelas coxas. — Você está tenso. Se continuar assim, vai precisar de uma massagem de duas horas antes do almoço.

— Estou apenas resolvendo uns problemas na unidade de Tóquio — mentiu ele, fechando o laptop. A verdade era que ele estava ouvindo o silêncio do andar de cima. — A Eduarda já acordou?

Sara deu um sorriso de canto, aquele sorriso de quem lê a alma do marido como se fosse um livro aberto. Ela caminhou até ele, sentando-se em seu colo com uma confiança que só ela possuía.

— Ela saiu cedo com a pequena Maya — respondeu Sara, passando os dedos pelas tatuagens no pescoço de Emanuel. — Disse que precisava de um pouco de ar fresco. E não me olhe assim, eu sei que você quer ir atrás dela.

— Ela não deveria andar por aí sozinha com a menina nesse nevoeiro — resmungou Emanuel, a mão instintivamente apertando a cintura de Sara, sentindo a pele macia sob a seda. — Paranapiacaba é traiçoeira.

— Duda é tímida, mas conhece o caminho, Manu. Deixe a menina respirar — Sara inclinou-se e deu-lhe um beijo lento, profundo, marcando o território. — Mas se isso te deixa tão inquieto, vá buscá-las. Eu vou aproveitar para organizar as araras de roupas que mandei trazer. Tenho uma coleção nova para planejar e quero a opinião da nossa bailarina sobre os tons renascentistas.

Emanuel a beijou de volta, um beijo que carregava toda a posse e o desejo que sentia por aquela mulher exuberante que o aceitava por inteiro. Mas, assim que se separaram, a inquietação voltou.

Enquanto isso, a poucos quarteirões dali, o cenário era muito menos luxuoso e muito mais melancólico. Eduarda caminhava lentamente pelo antigo cemitério da vila. O lugar, com suas lápides de pedra cobertas de musgo e cruzes de ferro retorcidas, parecia saído de um filme de época. Maya, agasalhada em um casaco de lã rosa que a fazia parecer uma pequena bolinha, segurava a mão da mãe com força, mas seus olhinhos curiosos não paravam de explorar o ambiente sombrio.

Eduarda não estava ali por morbidez. Ela se sentia atraída pela estética trágica e silenciosa do lugar; como estudante de História da Arte, a melancolia das esculturas funerárias falava diretamente à sua alma sensível. Além disso, era o único lugar onde o silêncio era absoluto.

— Olha, mamãe! — Maya apontou para uma estátua de um anjo sem asa. — O anjinho tá dodói?

— Está apenas cansado, meu amor — sussurrou Eduarda, agachando-se para ajustar o cachecol da filha. — Ele está cuidando de quem dorme aqui.

Ela sentiu um arrepio que não vinha do frio. Olhou para trás e viu uma figura alta emergindo da neblina. O coração de Eduarda deu um salto. Emanuel caminhava com passos firmes, a expressão fechada, os ombros tensos sob o casaco escuro. Ele parecia uma divindade furiosa saindo das sombras.

— Eduarda! — a voz dele ecoou, grave e autoritária.

— Manu? O que está fazendo aqui? — ela perguntou, a voz falhando levemente pela surpresa.

Emanuel chegou perto o suficiente para que ela pudesse ver o brilho de irritação em seus olhos. Ele ignorou a pergunta e olhou ao redor, para as tumbas e o chão úmido.

— Você perdeu o juízo? — ele perguntou, a voz baixa, mas carregada de uma fúria contida. — Trazer a Maya para um cemitério? Com esse tempo?

— Eu só queria um pouco de paz, Emanuel... — Eduarda começou, encolhendo os ombros, sentindo-se subitamente pequena diante dele. — É um lugar histórico, eu estava explicando para ela sobre as esculturas...

— É um lugar insalubre e perigoso para uma criança de um ano! — ele a interrompeu, dando um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dela. — Se ela tropeça em uma dessas pedras, ou se pega um resfriado nessa umidade... Você não pensa, Eduarda?

Eduarda sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos. Ela era sensível, mas a forma como Emanuel a tratava — como se ela fosse incapaz de cuidar da própria filha — despertava nela uma resistência infantil e teimosa.

— Eu sou a mãe dela, Emanuel! — ela rebateu, a voz subindo um tom, o que era raro. — Meus pais me apoiam, eu tenho dinheiro, eu tenho estudo. Não sou uma criança!

— Então pare de agir como uma! — ele rebateu. — Vamos embora agora.

Maya, sentindo a tensão entre os dois adultos que mais amava, decidiu que era hora de intervir da única forma que sabia. Ela soltou a mão de Eduarda, cruzou os bracinhos gordinhos sobre o peito e sentou-se bruscamente no chão de terra úmida, bem na frente de uma lápide vitoriana.

— Não vou! — gritou a pequena, fazendo um bico imenso.

— Maya, levante-se agora — ordenou Emanuel, tentando manter a calma.

— Não! — ela bateu os pés no chão, começando a chorar de forma dramática, mas sem derramar uma lágrima real, apenas emitindo sons estridentes de protesto. — Quero o anjinho! Não vou embora!

Emanuel olhou da menina para a mãe. Eduarda estava com a mesma expressão: o queixo erguido, os olhos úmidos e uma teimosia silenciosa que irradiava de seu corpo esguio. Naquele momento, ele teve um estalo de clareza.

— Meu Deus — murmurou Emanuel, passando a mão pelo rosto, a irritação dando lugar a uma percepção desconcertante. — Agora eu vejo. Eu sempre me perguntei de onde vinha essa pirraça da Maya, já que o pai dela era um covarde sem personalidade.

Ele olhou fixamente para Eduarda, que desviou o olhar, mas manteve a postura rígida.

— Ela puxou a você, Duda. Essa teimosia mansa, essa mania de se fechar e bater o pé quando o mundo não faz o que você quer. Vocês duas são iguais.

Eduarda mordeu o lábio inferior, a raiva minguando para dar lugar a uma timidez confusa.

— Eu não estou fazendo pirraça...

— Está sim — Emanuel deu um passo final, reduzindo a distância entre eles a quase nada. Ele estendeu a mão e tocou o queixo dela, forçando-a a olhar para ele. — E é por isso que eu fico louco. Porque você é tão frágil que parece que vai quebrar, mas é tão teimosa que me desafia sem dizer uma palavra.

O olhar dele suavizou, a proteção sobrepondo-se à raiva. Ele a amava. Amava o jeito que ela se apoiava nele, amava o cheiro de lavanda que ela exalava, oposto ao perfume caro e forte de Sara. Ele queria guardá-la em uma caixa de veludo, longe de cemitérios, longe de pais ausentes, longe de qualquer dor.

— Por favor — ele pediu, a voz agora um sussurro rouco. — Vamos para casa. A Sara está esperando. Ela quer falar com você sobre a loja.

Ao ouvir o nome de Sara, Eduarda relaxou. Sara era sua âncora de realidade, a mulher que a tratava com uma bondade prática e sem julgamentos.

— Tudo bem — cedeu Eduarda.

Emanuel abaixou-se e pegou Maya no colo. A menina, percebendo que tinha vencido a batalha de atenção, parou o choro instantaneamente e agarrou-se ao pescoço dele, escondendo o rosto em seu ombro.

— Viu só? — Emanuel disse para Eduarda enquanto caminhavam de volta para a vila. — Uma pirracenta e a outra manhosa. Como eu devo lidar com vocês duas?

— Você gosta disso — respondeu Eduarda baixinho, arriscando um pequeno sorriso. — Gosta de ter o controle.

Emanuel não respondeu, mas o aperto de sua mão no braço dela, guiando-a pelo caminho nebuloso, era resposta suficiente.

Quando chegaram à casa, o cenário era de pura efervescência. Sara havia transformado a sala de estar em um showroom improvisado. Havia vestidos de seda, blusas de couro fino e acessórios dourados espalhados pelos sofás. Ágata estava sentada no meio de um monte de tecidos, brincando com um carretel de linha dourada.

— Finalmente! — exclamou Sara, levantando-se de trás de uma arara. Ela usava óculos de leitura de grife e segurava um tablet. — Eu já estava pronta para mandar a cavalaria atrás de vocês. Duda, venha aqui. Preciso que você veja essas estampas. Emanuel me disse que você é um gênio com iconografia religiosa e renascentista.

Eduarda aproximou-se, sentindo-se imediatamente acolhida pela energia vibrante de Sara.

— Eu não sou um gênio, Sara... só estudo muito.

— Modéstia é para quem não tem talento, querida. E você tem de sobra — Sara passou o braço pelos ombros de Eduarda, puxando-a para perto. — Olhe para essas cores. Quero algo que transmita essa sua aura de "santa profana". Delicado, mas com força. O que você acha?

Emanuel ficou parado na entrada da sala, observando as duas. Ágata e Maya agora brincavam juntas no tapete, a disputa pela boneca de porcelana esquecida em favor de pedaços de seda colorida que Sara jogara para elas.

Ver as duas mulheres de sua vida ali, juntas e em harmonia, trazia-lhe uma satisfação que nenhum império financeiro poderia proporcionar. Sara, com sua vulgaridade sofisticada, sua inteligência administrativa e sua falta de ciúmes, era o sol em torno do qual ele orbitava. Eduarda, com sua timidez, sua cultura e sua necessidade de proteção, era a lua que acalmava suas marés mais violentas.

— Emanuel, não fique aí parado como uma estátua de museu — provocou Sara, sem tirar os olhos do tablet enquanto discutia um padrão de estampa com Eduarda. — Vá abrir aquele vinho que custou uma fortuna. Hoje à noite temos muito o que planejar.

— O que você está planejando agora, Sara? — perguntou ele, caminhando em direção à adega climatizada que ele mesmo trouxera para a casa de campo.

— O nosso futuro, querido — respondeu ela com um piscar de olhos cúmplice. — Um futuro onde ninguém precisa ficar sozinho no nevoeiro.

Eduarda olhou de Sara para Emanuel. Ela ainda não entendia completamente a profundidade do que estava acontecendo, mas sentia que o vazio deixado pelo abandono do pai de Maya estava sendo preenchido por algo muito mais sólido e complexo.

Naquela tarde, enquanto a neblina de Paranapiacaba se tornava ainda mais densa lá fora, dentro da casa as linhas entre família, desejo e proteção se tornavam cada vez mais tênues. Emanuel serviu o vinho, Sara liderou a conversa com sua risada alta, e Eduarda, pela primeira vez, permitiu-se não apenas ser protegida, mas pertencer.

A teimosia de Maya e a manha de Eduarda haviam encontrado, enfim, o porto seguro no controle protetor de Emanuel e na liberdade audaciosa de Sara. E, no silêncio da serra, o império de Emanuel parecia, finalmente, completo.

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