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O Batismo do Ciúme e o Peso do Sangue

A descida da serra de Paranapiacaba para São Paulo foi marcada pelo silêncio pesado de Emanuel ao volante, enquanto o rastro de neblina ficava para trás, substituído pelo cinza asfáltico da metrópole. No banco do passageiro, Sara retocava o batom vermelho vibrante, alheia à tensão do marido, ou talvez apenas acostumada a ela. No banco de trás, as cadeirinhas acomodavam Ágata e Maya, que dormiam profundamente, exaustas de um fim de semana de descobertas e birras.

O destino era a mansão dos pais de Emanuel, nos Jardins. Dona Margarida, uma matriarca que exalava elegância e rigidez, havia convocado um almoço de domingo para celebrar o retorno da família. Para Eduarda, esses eventos eram sempre um teste para seus nervos. Ela se sentia deslocada entre os cristais e a prataria polida, uma bailarina tímida que ainda se via como a "prima que precisava de ajuda".

— Você está apertando o volante com tanta força que vai acabar quebrando o couro, Manu — comentou Sara, guardando o espelho na bolsa de grife. — Relaxa. É só um almoço.

— Minha mãe sempre transforma "só um almoço" em um interrogatório — resmungou Emanuel, manobrando o carro para dentro do portão de ferro da propriedade. — E o meu irmão vai estar lá.

— O que tem o Gustavo? Ele é um amor, sempre foi o mais leve da família — Sara sorriu, saindo do carro assim que ele estacionou. — Deixe de ser rabugento.

Eduarda desceu do outro carro, conduzido por seu pai, e se aproximou de Emanuel com Maya no colo. A bebê estava manhosa, esfregando os olhinhos, o cabelo castanho bagunçado pelo sono.

— Manu, você pode pegar a bolsa da Maya? — pediu Eduarda com sua voz mansa. — Meus braços estão doendo.

Imediatamente, a expressão dura de Emanuel suavizou. Ele pegou a bolsa e, com o braço livre, envolveu a cintura de Eduarda por um breve momento, um gesto de suporte que ela aceitou sem questionar.

— Eu levo tudo, Duda. Vá entrando.

O almoço seguiu o protocolo esperado. A mesa estava impecável, e a conversa girava em torno dos negócios de Emanuel e da nova loja de Sara. Eduarda mantinha-se quieta, focada em alimentar Maya, enquanto Ágata, sentada em um cadeirão alto ao lado do pai, já começava a demonstrar sinais de impaciência. Ela queria o doce antes da salada, e sua pequena mão batia na mesa com uma insistência que lembrava o gênio do pai.

Gustavo, o irmão mais novo de Emanuel, era o oposto do tatuador. Aos vinte e dois anos, ele era um estudante de arquitetura solar, sempre com um sorriso no rosto e uma facilidade incrível para lidar com pessoas. Ele sempre teve um carinho especial por Eduarda, uma admiração silenciosa pela sua resiliência.

Depois da refeição, a família se dispersou pelo jardim de inverno. Emanuel estava em um canto, conversando com o pai sobre investimentos, mas seus olhos, como sempre, estavam rastreando Eduarda.

Gustavo se aproximou de Eduarda, que estava sentada em um banco de madeira, observando Maya brincar com uns blocos de montar no tapete.

— Ela está cada dia mais parecida com você, Duda — disse Gustavo, sentando-se ao lado dela. — Tem esse mesmo olhar de quem está enxergando poesia em tudo.

Eduarda sorriu, um pouco corada.

— Ela é mais decidida que eu, Gustavo. Acho que a convivência com a Ágata está deixando ela mais forte.

Gustavo riu e se abaixou no chão para brincar com a bebê. Ele começou a fazer caretas e a esconder o rosto atrás das mãos, o clássico "achou!". Maya gargalhava, uma risada cristalina que preenchia o ambiente. Em um momento de pura euforia, quando Gustavo a pegou nos braços e a levantou para o alto, a pequena, com o coração transbordando de alegria infantil, gritou:

— Papai! Papai!

O silêncio que se seguiu foi súbito, pelo menos na cabeça de Emanuel. Gustavo congelou por um segundo, surpreso, mas logo sorriu com ternura, beijando a bochecha da menina.

— Não, pequena. Sou o tio Guga. Tio! — corrigiu ele, com suavidade.

— Tio Guga! — repetiu Maya, voltando a brincar com os blocos como se nada tivesse acontecido.

Dona Margarida, que passava com uma bandeja de café, soltou um risinho discreto.

— Coisas de criança. Eles chamam qualquer um que lhes dê atenção de pai ou mãe nessa fase.

Ninguém na sala deu importância. Sara continuou folheando uma revista de moda, e os pais de Emanuel voltaram ao assunto anterior. Mas para Emanuel, o mundo havia parado.

Ele sentiu o sangue ferver, uma queimação que subiu do estômago até a garganta. Ver Maya nos braços do irmão, ouvindo aquela palavra que ele tanto ansiava ouvir dela, mas que o sangue e a circunstância lhe negavam, foi como um soco. Ele sempre se viu como o pai de Maya. Ele pagava as contas, ele segurava a mão de Eduarda nas madrugadas de febre, ele era o porto seguro. Gustavo era apenas... o tio legal que aparecia de vez em quando.

Emanuel caminhou até eles, seus passos pesados e a aura tão carregada que Eduarda sentiu o ar esfriar.

— Dá ela aqui, Gustavo — disse Emanuel, a voz tão ríspida que era quase um rosnado.

Gustavo olhou para cima, confuso.

— Calma, cara. A gente só está brincando.

— Eu disse para dar ela aqui — Emanuel praticamente arrancou a menina dos braços do irmão.

Maya, assustada com o movimento brusco, começou a chorar. Ágata, percebendo a tensão e sentindo-se ignorada no meio do drama, decidiu que era sua hora de brilhar. Ela se jogou no chão, chutando o ar e gritando por um brinquedo que estava do outro lado da sala.

— Eu quero o urso! Agora! — berrava Ágata, sua voz competindo com o choro de Maya.

O caos se instalou. Eduarda levantou-se rapidamente, tentando pegar Maya de Emanuel.

— Manu, o que deu em você? Você está assustando ela! — Eduarda disse, a voz trêmula de ansiedade.

— Ela não tem que chamar ninguém de pai, Eduarda. Especialmente quem não faz nada por ela — Emanuel disparou, os olhos fixos nos dela, transbordando uma mágoa que Eduarda não conseguia processar.

Sara, percebendo que a situação ia escalar para algo que Dona Margarida não toleraria, levantou-se com a elegância de uma pantera. Ela caminhou até o marido e colocou a mão firme em seu braço tatuado.

— Emanuel. Chega. Você está sendo ridículo e está passando vergonha na frente da sua mãe. Entregue a Maya para a Duda. Agora.

Emanuel respirou fundo, as narinas dilatadas. Ele olhou para Sara e viu nela o espelho de sua própria irracionalidade. Lentamente, ele entregou a bebê para Eduarda, que se afastou imediatamente, buscando refúgio perto da mãe.

— Eu vou para o escritório — disse Emanuel, virando as costas para todos.

— Não, você não vai — Sara disse, num tom que não aceitava discussões. — Você vai levar a Ágata para o jardim e vai acalmá-la. Ela é sua filha, Emanuel. E ela está agindo exatamente como você: gritando porque quer atenção e não sabe como pedir.

Emanuel olhou para Ágata, que ainda estava no chão, vermelha de tanto gritar. Ele sentiu uma pontada de culpa. Sara estava certa. Ele estava descontando suas frustrações em todos ao redor porque uma criança de um ano tivera um lapso linguístico.

Ele pegou Ágata no colo. A menina, sentindo a força do pai, minguou o choro para soluços baixos.

— Vamos lá fora, Ágata. Vamos ver os peixes — murmurou ele, saindo para o jardim sem olhar para trás.

Sara suspirou e virou-se para Eduarda, que ainda abraçava Maya, tentando acalmá-la. Gustavo estava de pé, desconfortável, limpando a calça.

— Desculpe por isso, Guga — disse Sara, com um sorriso cínico. — Meu marido tem a inteligência emocional de uma porta quando o assunto é quem ele ama.

— Eu percebi — Gustavo respondeu, olhando para a porta por onde o irmão saíra. — Ele é muito protetor com a Duda e a pequena, não é?

— Você não tem ideia — Sara respondeu, caminhando até Eduarda. — Duda, querida, não leve a sério. O Emanuel é um idiota possessivo, mas você sabe que ele morreria por essa menina.

— Eu sei, Sara... mas ele não precisava falar assim com o Gustavo — Eduarda limpou uma lágrima que teimava em cair. — Eu me sinto... sufocada às vezes.

Sara tocou o rosto de Eduarda, um carinho que misturava proteção e uma intenção mais profunda.

— É porque ele te ama, sua boba. E ele não sabe onde colocar esse amor, já que você é a "prima" e ele é o "homem casado". Mas não se preocupe. Eu vou colocar os parafusos dele no lugar. Vá para o quarto de hóspedes, dê um banho na Maya e descanse um pouco.

Eduarda assentiu e subiu as escadas, sentindo o peso do olhar de Sara em suas costas.

No jardim, Emanuel sentou-se na borda da fonte de carpas. Ágata estava agora quieta, observando os peixes coloridos nadarem. O silêncio da tarde só era quebrado pelo som da água.

— Papai tá triste? — perguntou Ágata, tocando a mão tatuada de Emanuel.

Emanuel olhou para a filha. A semelhança era assustadora. Não apenas física, mas na alma. Aquela intensidade, aquela possessividade.

— O papai só é um pouco burro às vezes, Ágata — respondeu ele, puxando a menina para um abraço apertado.

— A Maya chamou o tio de papai — disse Ágata, com a honestidade brutal das crianças. — Eu não chamo. Você é meu papai.

— Eu sei, meu amor. Eu sei.

Ele ficou ali por um longo tempo, até que a sombra de Sara se projetou sobre a água. Ela se sentou ao lado dele, o vestido justo subindo pelas coxas, a postura de quem detinha todo o controle da situação.

— Você sabe que ela não fez por mal — disse Sara, acendendo um cigarro fino.

— Eu sei.

— E você sabe que o Gustavo não tem culpa de ser simpático.

— Eu sei também.

— Então por que esse show, Emanuel? Você quer a Eduarda? Você quer a Maya como sua? — Sara tragou o cigarro, soltando a fumaça lentamente. — Porque se você quiser, nós vamos ter. Mas você tem que parar de agir como um animal ferido e começar a agir como o homem que eu escolhi.

Emanuel olhou para a esposa.

— Você não se importa mesmo, não é? De dividir?

Sara riu, uma risada rouca e magnética.

— Emanuel, eu sou a dona da porra toda. Eu tenho você, eu tenho o dinheiro, eu tenho a minha loja. A Eduarda não tira nada de mim. Ela soma. Ela traz a doçura que falta em mim e a paz que falta em você. Por que eu seria contra ter mais uma pessoa para amar e ser amada por nós?

Ela se inclinou e sussurrou no ouvido dele:

— Mas se você assustar a menina de novo ou fizer a Duda chorar, eu mesma te coloco para fora de casa. Estamos entendidos?

Emanuel sentiu um calafrio de excitação e respeito.

— Estamos.

— Ótimo. Agora apague esse cigarro para mim, pegue nossa filha e vamos entrar. Temos um plano de vida para construir, e ele começa com você pedindo desculpas ao seu irmão e sendo o "primo" perfeito até que ela não consiga mais viver sem você.

Emanuel levantou-se, sentindo o peso no peito diminuir. Ele olhou para a janela do andar de cima, onde sabia que Eduarda estava. Ele seria o que ela precisasse. O primo, o protetor, o provedor. E, eventualmente, o único homem que Maya chamaria de pai sem precisar voltar atrás na palavra.

A birra de Ágata passara, o ciúme de Emanuel fora domado pela lógica implacável de Sara, e no coração de São Paulo, entre o luxo e as aparências, uma nova e inusitada configuração familiar começava a criar raízes, tão profundas e permanentes quanto a tinta nas mãos de Emanuel. Ele queria as duas. E com Sara ao seu lado, ele sabia que teria.

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