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O Peso do Silêncio e a Doçura do Caos

A segunda-feira amanheceu com o céu de São Paulo tingido de um cinza metálico, mas o interior do apartamento de Emanuel era um oásis de luxo e cores vibrantes. Sara já havia saído para a loja, deixando para trás o rastro de seu perfume importado e uma lista de instruções colada na geladeira. Emanuel, aproveitando um raro dia de folga de seus estúdios de tatuagem, encontrava-se em uma situação que desafiava qualquer um de seus impérios: ele estava sozinho com as duas crianças e Eduarda.

Eduarda estava na sala, sentada sobre os calcanhares enquanto organizava alguns tecidos que Sara deixara para ela analisar. Ela usava um vestido de malha leve, cor de pêssego, que realçava a suavidade de sua pele e a fragilidade de seus ombros. Maya, por outro lado, parecia ter acordado com a energia de um pequeno furacão.

— Não! — gritou Maya, arremessando um bloco de montar de borracha na direção da televisão de setenta polegadas.

— Maya, por favor, não jogue as coisas — pediu Eduarda, a voz mansa e visivelmente cansada.

Emanuel, que observava a cena da porta da cozinha com uma xícara de café na mão, interveio. Ele caminhou até a pequena, agachando-se com a precisão de quem lida com agulhas e detalhes minuciosos.

— Maya, olhe para mim — disse ele, a voz grave e firme. — Se você jogar mais um brinquedo, todos eles vão para o armário alto. Entendido?

A menina de um ano encarou o "tio" com olhos desafiadores. Havia algo na expressão dela que era puramente Eduarda, mas a teimosia... aquela vontade de testar limites era algo que ela parecia ter absorvido por osmose da convivência com Emanuel e Ágata. Ela pegou outro bloco, sustentou o olhar dele por três segundos e, com um sorrisinho travesso, soltou o brinquedo no chão, batendo o pé logo em seguida.

— Não quero! — exclamou a bebê, começando a chorar sem lágrimas, apenas por pirraça.

Emanuel suspirou, sentindo a tensão subir pela nuca. Ele pegou os brinquedos e, cumprindo a promessa, colocou-os fora do alcance dela. O choro de Maya escalou para um grito agudo de indignação.

— Ela está testando você, Manu — comentou Eduarda, aproximando-se e colocando a mão no ombro dele. — Sinto muito. Ela não dormiu bem esta noite.

— Não precisa se desculpar, Duda — ele se levantou, aproveitando a proximidade para sentir o calor que emanava dela. — Eu dou conta. Vá tomar seu café em paz. Eu vou levar as duas para o espaço kids do prédio.

As horas seguintes foram um teste de resistência. Maya parecia decidida a transformar o dia de Emanuel em um percurso de obstáculos. No parquinho, ela se recusava a sair do balanço; na hora do lanche, espalhou a papinha de frutas pela camisa branca de linho dele; e, finalmente, quando voltaram para o apartamento, ela decidiu que só queria ficar no colo dele, mas apenas se ele ficasse em pé e andando.

Ágata, por sua vez, observava a prima com uma mistura de tédio e superioridade, sentada no tapete brincando com suas bonecas, ocasionalmente olhando para o pai como se dissesse: "Eu avisei que ela era manhosa".

Por volta das quatro da tarde, o silêncio finalmente reinou. As duas bebês haviam sucumbido ao cansaço e dormiam no quarto de Ágata. Emanuel estava na varanda, observando o horizonte de prédios, tentando processar a exaustão física e o turbilhão emocional que o habitava.

Eduarda apareceu na porta da varanda, segurando dois copos de suco natural.

— Você sobreviveu — disse ela, com um sorriso tímido, entregando um dos copos a ele.

— Por pouco — Emanuel riu, uma risada curta e rouca. — Ela tem uma força de vontade impressionante para alguém tão pequena.

— Ela sabe quem manda aqui — Eduarda encostou-se no guarda-corpo, olhando para o lado. — Ela te ama, Manu. Às vezes acho que ela te vê mais como pai do que qualquer outra pessoa poderia ver.

Emanuel sentiu o coração falhar uma batida. Ele deixou o copo sobre a mesinha lateral e deu um passo em direção a ela. O ar entre eles parecia subitamente mais denso, carregado com as palavras que vinham sendo evitadas há meses, talvez anos.

— E você, Duda? — perguntou ele, a voz caindo para um tom perigosamente baixo. — Como você me vê?

Eduarda sentiu o rosto esquentar. Ela tentou desviar o olhar, mas Emanuel tocou seu queixo, obrigando-a a encará-lo. A vulnerabilidade nos olhos castanhos dela era quase insuportável para ele.

— Você é meu primo, Manu... Você é a pessoa que me salvou quando eu achei que o mundo tinha acabado — ela sussurrou, a voz trêmula. — Você é o marido da Sara.

— Eu sou o marido da Sara, e eu a amo. Isso nunca foi um segredo — Emanuel deu mais um passo, eliminando qualquer espaço entre eles. — Mas o que eu sinto por você... Duda, isso não cabe no rótulo de "primo". Isso me consome.

Eduarda arregalou os olhos, a respiração ficando curta.

— Manu, não... a Sara...

— A Sara sabe — ele a interrompeu, a mão agora acariciando a face delicada dela. — Eu contei para ela. Não existem mentiras entre nós. E ela não se importa, Duda. Ela quer que eu seja feliz, e ela sabe que a minha felicidade só é completa se você estiver nela. Não como uma visita, não como um favor... mas como parte de nós.

— Eu não entendo... — Eduarda balançou a cabeça, confusa. — Como ela pode não se importar? Eu não sou como ela, Manu. Eu não sou forte, eu não sou... marcante. Eu sou só eu.

— E é exatamente por ser "só você" que eu te quero — Emanuel aproximou o rosto do dela, a testa encostada na dela. — Eu amo a força da Sara, a presença dela que incendeia qualquer lugar. Mas eu preciso da sua paz. Eu preciso do seu jeito manhoso, da sua delicadeza, da forma como você cuida da Maya e como você olha para o mundo. Eu quero cuidar de você, Eduarda. Eu quero ser o homem que você chama quando tem medo, e o homem que te faz perder o fôlego quando está segura.

Eduarda sentiu as lágrimas transbordarem. Era o que ela sempre desejara no fundo de sua alma, mas que nunca se permitira admitir nem para si mesma. O medo da rejeição, o medo de destruir a família, o medo de não ser o suficiente.

— Eu tenho tanto medo, Manu — ela confessou, a voz quebrada.

— Você não precisa ter medo — ele disse, a voz cheia de uma promessa inabalável. — Eu protejo você. A Sara protege você. Nós somos uma fortaleza, Duda. Só falta você aceitar entrar.

Emanuel não esperou por uma resposta verbal. Ele inclinou a cabeça e selou os lábios nos dela. Foi um beijo que começou com uma suavidade quase reverente, um encontro de almas que esperavam por aquele momento há uma eternidade. Eduarda soltou um suspiro contra a boca dele, suas mãos subindo timidamente para agarrar a frente da camisa dele, buscando estabilidade.

O beijo aprofundou-se, tornando-se mais urgente, mais faminto. Havia o gosto do suco de laranja, o cheiro de lavanda dela e a intensidade bruta dele. Emanuel a puxou para mais perto, sentindo o corpo esguio e macio da bailarina contra o seu, um encaixe que parecia ter sido desenhado pelo destino.

Quando se separaram, ambos estavam arfantes. Eduarda tinha as bochechas coradas e os lábios inchados, os olhos brilhando com uma mistura de choque e desejo.

— O que vamos fazer agora? — perguntou ela, a voz ainda instável.

— Agora — Emanuel sorriu, limpando uma lágrima do rosto dela com o polegar —, nós vamos esperar a Sara chegar. Vamos jantar, vamos cuidar das meninas e vamos começar a entender como essa nova vida vai funcionar. Sem pressa, Duda. No seu tempo.

Nesse exato momento, um choro estridente vindo do quarto cortou o momento romântico. Era Maya, acordando de sua soneca e, fiel ao seu comportamento do dia, exigindo atenção imediata.

— Acho que a sua pequena patroa acordou — comentou Emanuel, soltando um suspiro bem-humorado.

— Ela tem um <i>timing</i> terrível — riu Eduarda, sentindo-se mais leve do que nunca.

— Ou um <i>timing</i> perfeito — Emanuel a acompanhou até o interior do apartamento. — Ela só quer garantir que eu não esqueça quem é que realmente manda nesta casa.

Ao entrarem no quarto, Maya estava sentada no berço, com o cabelo todo arrepiado e os braços estendidos. Assim que viu Emanuel, ela parou de chorar e soltou um gritinho de alegria.

— Manu! Colo!

Emanuel a pegou, sentindo o peso familiar da criança em seus braços. Ele olhou para Eduarda, que observava a cena com um olhar de pura adoração, e depois para Ágata, que começava a despertar no berço ao lado.

A vida de Emanuel era um caos de responsabilidades, negócios milionários e agora, uma configuração amorosa que a maioria das pessoas jamais compreenderia. Mas, enquanto ele segurava Maya e estendia a mão para ajudar Eduarda a pegar Ágata, ele percebeu que nunca estivera tão em paz.

A porta da frente se abriu com o som característico dos saltos altos de Sara batendo no mármore.

— Cheguei, família! — a voz dela ecoou, vibrante e cheia de vida. — E espero que alguém tenha feito o favor de colocar o champanhe no gelo, porque eu tive um dia maravilhoso e quero comemorar!

Emanuel trocou um olhar cúmplice com Eduarda. O nevoeiro de Paranapiacaba ficara para trás, mas a união que nascera lá estava apenas começando a florescer sob o sol de uma nova realidade.

— Estamos na cozinha, Sara! — gritou Emanuel, caminhando com as bebês, enquanto Eduarda o seguia, sentindo que, pela primeira vez na vida, não precisava mais se esconder nas sombras da própria timidez.

A mesa estava posta, não apenas para o jantar, mas para um futuro onde o amor não tinha limites, e onde a vulgaridade de Sara, a proteção de Emanuel e a doçura de Eduarda formavam o alicerce de algo indestrutível. E Maya, no colo de Emanuel, deu um tapinha no rosto dele e sorriu, como se soubesse que, finalmente, tudo estava exatamente onde deveria estar.

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