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O Labirinto de Tinta e Sangue

A manhã na cobertura de Emanuel não trouxe a paz que a luz do sol, filtrada pelas cortinas de linho, costumava sugerir. O ar estava denso, carregado com o resíduo da briga da noite anterior e o silêncio obstinado de Eduarda. Emanuel não dormira bem. O tatuador, acostumado a traçar linhas precisas na pele de seus clientes, sentia que sua própria vida estava se tornando um borrão de incertezas.

Ele observou Sara na mesa de café da manhã. Ela estava radiante, a pele loira brilhando com a vitalidade da gestação de quatro meses. Valentina, como já haviam decidido chamar a menina, parecia dar à mãe uma aura de invencibilidade. Sara comia frutas com uma elegância desprendida, mas seus olhos azuis não perdiam um movimento de Emanuel, que andava de um lado para o outro, o celular na mão, aguardando a confirmação do horário na clínica obstétrica.

— Você vai ter um ataque cardíaco antes dos trinta se continuar assim, Manu — comentou Sara, usando o tom irônico que era sua marca registrada. — A Duda já acordou. Ela está no banho, mas avisou que não quer falar com você.

— Ela não tem que querer falar, Sara. Ela tem que entrar naquele carro — rosnou Emanuel, a voz rouca. — O que aconteceu ontem na casa da minha mãe foi um alerta. Se ela estiver negligenciando a saúde por causa dessa teimosia mística, eu não vou me perdoar.

— Você está irritado porque ela te desafiou — Sara pontuou, levando uma uva à boca. — E está morrendo de medo de que minha sogra esteja certa. Admita, você se orgulha de ter o controle de tudo, e a ideia de que a Duda escondeu uma gravidez de você — ou que você foi cego demais para não ver — está acabando com o seu ego.

Emanuel parou abruptamente. Ele olhou para a esposa, sentindo o peso daquelas palavras. Era verdade. Ele se orgulhava de ser o protetor, o homem que provia segurança e estabilidade para suas duas mulheres. Se Eduarda estivesse grávida há meses e ele, em sua obsessão por proteger Sara, tivesse ignorado os sinais na menina que dormia ao seu lado, isso o tornava falho.

A porta do corredor se abriu e Eduarda apareceu. Ela parecia uma aparição delicada, vestindo um vestido de algodão branco, solto, e os cabelos castanhos ainda úmidos, caindo em ondas sobre os ombros. Seus olhos estavam levemente inchados, e ela mantinha os braços cruzados sobre o peito, num gesto defensivo.

— Eu vou com você — disse ela, a voz pequena, mas sem a doçura habitual. — Mas só para provar que você está errado. E depois disso, eu quero que você me deixe em paz por um tempo.

Emanuel sentiu uma pontada no peito, mas apenas assentiu rigidamente.

— O carro está esperando.

O trajeto até a clínica foi um exercício de tortura silenciosa. Eduarda olhava pela janela, recusando-se a tocar na mão de Emanuel, que ele estendera por instinto no console do carro. Quando chegaram, o ambiente asséptico e o cheiro de álcool pareciam sufocá-la. Ela sempre fora sensível a hospitais, mas hoje, a náusea era quase insuportável.

O Dr. Arnaldo, um homem de meia-idade que já acompanhava Sara, os recebeu com um sorriso cordial que murchou ligeiramente ao notar a tensão entre o casal.

— Então, a pequena Eduarda resolveu fazer um check-up? — perguntou o médico, indicando a maca. — Emanuel me disse que você tem se sentido cansada e teve alguns episódios de sangramento.

— Eu estou bem, doutor — insistiu ela, deitando-se. — É só o estresse da faculdade. E a trilha que eu fiz... acho que me esforcei demais.

— Vamos ver isso.

Emanuel ficou de pé em um canto da sala, os braços cruzados, a mandíbula tão tensa que chegava a doer. Ele observou o médico realizar os exames de rotina e, finalmente, preparar o aparelho de ultrassom.

— Doutor, ela disse que menstruou na semana passada — interveio Emanuel, a voz cortante. — Isso não descarta a gravidez?

— Nem sempre, Emanuel. Sangramentos no início da gestação são mais comuns do que se imagina, e muitas vezes são confundidos com o ciclo menstrual, especialmente se a mulher tem um fluxo irregular — explicou o médico, espalhando o gel gelado sobre o ventre de Eduarda.

Eduarda estremeceu com o contato. Ela fechou os olhos, rezando para que a tela permanecesse vazia, para que ela pudesse manter sua pequena rebeldia intacta. Mas, assim que o transdutor tocou sua pele, um som rítmico e acelerado preencheu a sala.

*Tum-tum, tum-tum, tum-tum.*

Emanuel deu um passo à frente, os olhos fixos no monitor. Eduarda abriu os olhos, o fôlego escapando de seus pulmões.

— Bem — disse o Dr. Arnaldo, com uma nota de surpresa na voz —, parece que a intuição da sua mãe é infalível, Emanuel. Eduarda, você não está apenas grávida. Você está com aproximadamente doze semanas. Três meses.

O silêncio que se seguiu foi absoluto, quebrado apenas pelo som dos batimentos cardíacos. Eduarda sentiu o mundo girar. Três meses. Ela estava grávida durante todo o tempo em que brigaram, durante a trilha, durante as noites em que ele a segurou nos braços sem saber que havia uma vida — ou vidas — ali.

— Esperem — o médico franziu a testa, movendo o transdutor com mais cuidado. — O que temos aqui... Emanuel, veja.

Na tela granulada, não havia apenas uma forma. Havia duas. Distintas, separadas por uma membrana fina, mas pulsando com a mesma intensidade.

— Gêmeos — sussurrou o médico. — Um menino e uma menina. Parabéns, vocês vão ter um casal.

Eduarda soltou um soluço sufocado, levando as mãos à boca. *Amélie e Benício.* Os nomes que ecoavam em sua mente não eram loucura, eram um chamado. Ela sentiu uma onda repentina de calor percorrer seu corpo, uma mistura de alívio, medo e uma estranha, avassaladora, excitação física.

Emanuel, no entanto, não parecia comemorar. Seu rosto estava lívido. A cor fugira de suas bochechas, deixando apenas as tatuagens no pescoço e nos braços como marcas de cor em sua pele pálida.

— Doze semanas? — a voz de Emanuel saiu baixa, perigosa. — Ela está grávida de gêmeos há três meses e ninguém notou? Ela fez uma trilha perigosa! Ela se arrastou por espinhos! Ela quase não comeu!

— Emanuel, acalme-se — pediu o médico. — Os bebês parecem perfeitamente saudáveis. O sangramento que ela teve provavelmente foi um descolamento pequeno que já se resolveu. Ela teve sorte.

— Sorte? — Emanuel explodiu, virando-se para Eduarda, que agora chorava abertamente. — Você foi irresponsável, Eduarda! Você poderia ter matado nossos filhos por causa dessa sua mania de querer provar independência!

— Eu não sabia! — gritou ela de volta, sentando-se na maca, a vulnerabilidade dando lugar a uma súbita e estranha coragem. — Eu tive sangue! Eu achei que era o meu corpo sendo normal! Você quer me culpar por não ser um médico? Por não ter o controle absoluto sobre a biologia?

— Eu sou o pai! Eu deveria saber! — Emanuel bateu com a mão na parede, o som ecoando. Ele estava furioso com ela, mas a fúria maior era direcionada a si mesmo. Ele, o grande protetor, falhara na tarefa mais básica.

O Dr. Arnaldo interveio, pedindo que Emanuel saísse da sala para que ele pudesse terminar as orientações com Eduarda. O tatuador saiu pisando fundo, deixando o rastro de sua colônia amadeirada e de sua raiva no ar.

Minutos depois, Eduarda saiu da sala de exames. Ela se sentia diferente. Havia uma nova consciência em seu corpo, um peso doce e uma sensibilidade que parecia ter sido ligada em voltagem máxima. Ao ver Emanuel encostado na parede do corredor, a expressão sombria e os olhos fixos no chão, ela sentiu uma onda de desejo que a pegou de surpresa. Era o hormônio, era o alívio, era a necessidade de ser tocada pelo homem que agora, mais do que nunca, era o centro de seu universo.

Ela caminhou até ele, manhosa, e tocou seu braço.

— Manu... — sussurrou ela, tentando encontrar os olhos dele.

Ele se afastou do toque dela como se tivesse sido queimado.

— Não encosta em mim, Eduarda. Eu estou com tanta raiva de você agora que não consigo nem olhar para o seu rosto sem querer te trancar em um quarto e jogar a chave fora.

— Você está sendo injusto — disse ela, fazendo um biquinho, a voz ganhando aquele tom dengoso que costumava desarmá-lo. — Eu estou carregando seus filhos. Dois de uma vez. Você não devia estar feliz?

— Eu estou aterrorizado — retrucou ele, finalmente olhando para ela. Seus olhos estavam injetados. — E estou furioso porque você colocou a vida deles em risco. E estou furioso comigo mesmo por ter sido um idiota cego.

— Então me perdoa... — ela se aproximou mais, ignorando a rigidez dele, e colou o corpo ao dele. Seus seios, agora confirmadamente mais sensíveis pela gravidez, pressionaram-se contra o peito firme de Emanuel. — Eu estou me sentindo tão... estranha, Manu. Meu corpo está pegando fogo.

Emanuel sentiu a reação imediata de seu próprio corpo ao calor dela, mas a raiva agia como um freio de mão puxado. Ele a segurou pelos ombros, não com carinho, mas com uma firmeza que beirava a aspereza.

— Pare com isso. Não tente usar isso para fugir da conversa que vamos ter em casa.

— Eu não estou fugindo — ela murmurou, a mão descendo para a cintura dele, os dedos arranhando levemente o tecido da camisa social cara. — Eu só quero você. Agora.

— Eduarda, chega! — ele a afastou, a voz subindo de tom, atraindo olhares de algumas pessoas na recepção. — Nós vamos para casa. E você vai ficar de repouso absoluto até eu decidir o que fazer com essa situação.

O caminho de volta foi ainda pior. Emanuel dirigia em silêncio absoluto, a tensão emanando dele em ondas. Eduarda, no banco do passageiro, sentia-se um turbilhão. A notícia dos gêmeos, Amélie e Benício, já estava enraizada em seu coração, mas a rejeição momentânea de Emanuel a deixava em um estado de carência extrema. Ela queria o mimo que ele dava a Sara, queria a proteção exagerada, mas também queria o homem possessivo e intenso que ele era.

Ao chegarem na cobertura, Sara os esperava ansiosa.

— E então? — perguntou ela, levantando-se do sofá.

— Gêmeos — disse Emanuel, sem parar, indo direto para o escritório e batendo a porta.

Sara arregalou os olhos e olhou para Eduarda, que desabou no sofá, chorando e rindo ao mesmo tempo.

— Um menino e uma menina, Sara. Amélie e Benício.

— Oh, meu Deus! Duda! — Sara correu para abraçá-la. — Eu sabia! Eu disse àquele brutamontes que era algo grande. Mas por que ele está com aquela cara de quem vai matar alguém?

— Ele está furioso porque eu não sabia, porque eu fiz a trilha... — Eduarda soluçou. — E ele não quer me tocar. Sara, eu estou com tanto desejo que dói. Eu sinto que vou explodir se ele não me abraçar.

Sara deu uma risada curta, acariciando o cabelo da amiga.

— Gravidez faz isso com a gente, querida. Com a Valentina, eu quase ataquei o entregador de pizza na primeira semana. Mas o Manu... ele está sofrendo um golpe no ego. Ele acha que falhou como o "macho alfa" da casa por não ter percebido que você estava gerando a continuação da linhagem dele.

— O que eu faço? — perguntou Eduarda, limpando as lágrimas, os olhos brilhando com uma nova determinação.

— Deixe ele remoer um pouco. Homens como o Emanuel precisam sentir que estão no comando antes de cederem. Mas não se preocupe, pequena. Ele te ama. E agora que ele sabe que tem dois bebês aí dentro, ele vai ser dez vezes pior do que é comigo. Você vai implorar por um minuto de paz.

Eduarda olhou para a porta fechada do escritório. Ela sentia a pulsação em seu ventre, o segredo que não era mais segredo. Amélie e Benício estavam lá, frutos de um amor complexo e de uma noite de entrega total. Ela sabia que a batalha com Emanuel estava apenas começando. Ele tentaria controlar cada passo dela, cada caloria que ela ingerisse, cada pensamento.

Mas, enquanto passava a mão pela barriga ainda lisa, Eduarda sorriu. Ela não era mais apenas a menina tímida e manhosa. Ela era a mãe de gêmeos, a mulher que carregava o futuro de Emanuel Albuquerque. E se ele achava que poderia manter sua raiva por muito tempo diante da necessidade dela, ele não conhecia o poder de uma mulher que acabara de descobrir sua própria força — e sua própria fome.

— Ele vai sair daquele escritório, Sara — afirmou Eduarda, a voz agora firme, embora carregada de uma promessa sensual. — E quando ele sair, ele vai descobrir que não é o único que manda nesta casa.

Sara sorriu, uma expressão de pura cumplicidade.

— É assim que se fala, Duda. Bem-vinda ao clube das grávidas dos Albuquerque. O caos nunca foi tão divertido.

Enquanto isso, dentro do escritório, Emanuel encarava a parede, as mãos trêmulas. Ele abriu uma gaveta e tirou um esboço que fizera há semanas, sem saber por quê. Eram dois nomes entrelaçados em ramos de flores e espinhos. *Amélie e Benício.* A bruxa. A trilha. O sangue. Tudo parecia convergir para aquele momento. Ele estava com raiva, sim. Estava apavorado, com certeza. Mas, acima de tudo, ele sentia um instinto de posse tão avassalador que o assustava. Eduarda era dele. Os bebês eram dele. E ele moveria o céu e a terra para garantir que nada, nem a própria teimosia dela, os ferisse novamente.

A tempestade estava longe de acabar, mas o centro do furacão tinha nomes, rostos e um destino que nenhum deles poderia mais evitar.

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