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O Labirinto de Vênus e o Sabor do Proibido
O silêncio na cobertura dos Albuquerque nunca era absoluto; ele sempre vinha acompanhado do zumbido baixo do sistema de climatização e do eco de passos sobre o mármore. Mas, nos últimos três dias, o silêncio ganhara uma textura pesada, como se o próprio ar estivesse sob pressão. Emanuel não dormia. Suas olheiras eram vales profundos de cansaço e sua irritabilidade atingira um nível que fazia até os funcionários mais antigos da mansão evitarem seu olhar.
O susto com Valentina fora o estopim. Sara, em sua habitual vivacidade, sentira uma pontada aguda e um sangramento leve que quase fizera o coração de Emanuel parar. O diagnóstico de um pequeno descolamento de placenta foi acompanhado de uma ordem severa de repouso absoluto por quarenta e oito horas. Para Emanuel, aquilo foi o fim do mundo. Ele se transformara em uma sombra sobre Sara, monitorando cada respiração, cada contração involuntária, enquanto, ao mesmo tempo, mantinha um olho de falcão em Eduarda, que agora, com a confirmação dos gêmeos, era tratada como uma relíquia de cristal prestes a quebrar.
Naquela tarde, o sol de São Paulo entrava pelas janelas do chão ao teto, iluminando a sala onde Sara descansava em uma chaise-longue de veludo. Emanuel se aproximou, carregando uma sacola de uma joalheria exclusiva. Era o seu jeito de lidar com o medo: prover, presentear, marcar território com ouro e pedras preciosas.
— Para você, meu amor — disse ele, a voz rouca, entregando a caixa a Sara. — Por ter sido tão forte nesses últimos dias. Valentina é uma guerreira, igual à mãe.
Sara abriu a caixa, revelando um bracelete de ouro branco cravejado de diamantes que brilhavam como estrelas capturadas. Ela sorriu, mas não era o sorriso de uma mulher impressionada pela riqueza; era o sorriso de quem sabia exatamente como manipular o homem à sua frente.
— É lindo, Manu. Realmente deslumbrante — ela disse, deixando que ele prendesse a joia em seu pulso. — Mas diamantes não resolvem o meu problema atual. Eu me sinto uma selva, Emanuel. E a Duda também.
Emanuel franziu a testa, a proteção dando lugar à confusão.
— Do que você está falando?
— De depilação, querido — Sara declarou, sentando-se com cuidado, mas com uma autoridade renovada. — Eu estou de quatro meses, a Duda está de três. Nós estamos grávidas, não estamos mortas. Eu exijo ir à depiladora hoje. E a Duda vem comigo.
Emanuel sentiu um espasmo de ansiedade no peito. O trauma do descolamento de placenta de Valentina ainda estava fresco em sua mente como uma ferida aberta.
— Absolutamente não! — ele exclamou, a voz subindo uma oitava. — Você acabou de sair de um repouso por descolamento de placenta, Sara! O médico disse para evitar esforços, estresse... e você quer ir se submeter a cera quente e puxões? Você ficou louca?
— Não seja dramático — Sara retrucou, revirando os olhos. — Eu não vou correr uma maratona, vou apenas tirar alguns pelos. E a Duda precisa sair deste apartamento. Ela está murchando aqui dentro.
Do outro lado da sala, encolhida em uma poltrona larga que a fazia parecer ainda menor e mais delicada, Eduarda observava a cena em silêncio. Ela vestia um robe de seda rosa pálido e, em seu colo, havia uma tigela de cristal repleta de cerejas frescas, de um vermelho quase negro. Ao lado, uma lata de Coca-Cola de cereja, importada e cheia de açúcar e cafeína — algo que Emanuel proibira terminantemente desde que soubera dos gêmeos.
Eduarda levou uma cereja à boca, sentindo a explosão de doçura ácida, e deu um gole discreto na bebida proibida, aproveitando que a atenção de Emanuel estava voltada para a loira vulcânica à sua frente.
— Duda, diga a ele! — chamou Sara, notando a cumplicidade silenciosa da outra.
Emanuel girou nos calcanhares, focando seus olhos intensos em Eduarda. O olhar dele desceu da tigela de cerejas para a lata de refrigerante. Suas narinas arderam.
— O que é isso, Eduarda? — ele perguntou, a voz baixíssima, o que era sempre um sinal de perigo iminente.
Eduarda congelou com a cereja entre os lábios. Ela olhou para ele com aqueles olhos grandes e castanhos, tentando usar a manha que sempre funcionava.
— São só cerejas, Manu... — ela sussurrou, a voz trêmula.
— E a Coca-Cola? Eu falei que o açúcar e a cafeína não fazem bem para o Benício e para a Amélie. Eu comprei os sucos naturais, as águas alcalinas...
— Eu estava com desejo! — Eduarda explodiu subitamente, a teimosia que nascera na trilha voltando com força total. — Eu sinto um gosto de metal na boca o dia inteiro, Emanuel! A única coisa que tira é isso. E eu não sou uma criança!
— Você está carregando dois bebês! — ele gritou, aproximando-se dela, a presença física dominando o espaço. — Dois! Se algo acontecer com eles porque você quis tomar refrigerante de cereja, eu...
— Você o quê? — Sara interveio, levantando-se e caminhando até eles com a graça de uma leoa. — Vai castigá-la? Vai nos trancar no porão? Emanuel, olhe para você. Você está à beira de um colapso nervoso. Nós vamos à depiladora. Agora. E você vai nos levar, vai esperar na porta como um bom cão de guarda e depois vai nos trazer de volta para jantar.
Emanuel passou as mãos pelo cabelo curto, sentindo-se encurralado entre a lógica da proteção e a vontade indomável das duas mulheres que amava. Ele olhou para Sara, exuberante e desafiadora, e para Eduarda, que agora chorava silenciosamente enquanto comia mais uma cereja, uma imagem de fragilidade e rebeldia.
— Se você sentir uma pontada, Sara... se você tiver um tontura, Eduarda... — ele começou, a voz falhando sob o peso da ansiedade.
— Nós ficaremos bem, Manu — disse Eduarda, levantando-se e caminhando até ele. Ela abraçou sua cintura, escondendo o rosto em seu peito. — Por favor. Eu me sinto presa. Eu preciso sentir o sol, mesmo que seja só o trajeto até o salão.
O toque de Eduarda, como sempre, agiu como um sedativo. Emanuel fechou os olhos, sentindo o calor do corpo dela e o cheiro doce das cerejas que emanava de seus lábios. Ele a abraçou com força, talvez força demais, um gesto possessivo que dizia mais do que mil palavras.
— Tudo bem — ele cedeu, a voz abafada nos cabelos dela. — Mas eu entro no salão. Vou ficar na sala de espera. E nada de cera quente demais. Eu vou falar com a esteticista.
Sara soltou uma gargalhada sonora e vitoriosa.
— Você vai deixá-la apavorada, querido. Mas se isso te faz sentir no controle, que seja. Duda, vá trocar de roupa. Coloque algo fácil de tirar.
Meia hora depois, o trio saiu da cobertura. Emanuel dirigia o SUV blindado como se estivesse transportando ogivas nucleares. Cada buraco na pista era motivo para um xingamento baixo e um olhar pelo retrovisor para garantir que as duas estavam bem.
No banco de trás, a dinâmica entre Sara e Eduarda era de uma harmonia fascinante. Sara segurava a mão de Eduarda, comentando sobre como a pele da menina estava mudando com a gravidez dos gêmeos.
— Você vai ver, Duda. Daqui a pouco, Benício vai começar a chutar o seu diafragma e você vai odiar o Emanuel por ter feito isso com você — brincou Sara, piscando para o espelho.
— Eu já o odeio um pouquinho hoje — murmurou Eduarda, embora o olhar que ela lançava para a nuca de Emanuel fosse carregado de uma adoração profunda e carente.
Ao chegarem ao salão de estética de luxo nos Jardins, o clima de tensão não diminuiu. Emanuel desceu primeiro, abrindo a porta para as duas como se estivesse em um evento de gala, mas seus olhos escaneavam o perímetro em busca de qualquer ameaça imaginária.
— Boa tarde, temos horário para Sara e Eduarda — anunciou Emanuel na recepção, sua voz de comando fazendo a recepcionista empertigar-se na cadeira.
— Sim, Sr. Albuquerque. A esteticista já as aguarda.
— Eu vou acompanhar — declarou ele.
— Senhor, a área de depilação é reservada para...
— Eu não me importo com as regras do salão — Emanuel cortou, a autoridade fria voltando. — Minhas esposas estão em gestações de risco. Eu não saio do lado delas.
Sara apenas deu de ombros, achando a situação divertida, enquanto Eduarda corava violentamente, a timidez lutando contra a necessidade de estar perto dele.
A sala de estética era ampla, com luzes suaves e um aroma de lavanda. Sara foi a primeira a se acomodar na maca, enquanto Eduarda sentou-se em uma poltrona ao lado, esperando sua vez. Emanuel ficou de pé, encostado na parede, os braços cruzados sobre o peito tatuado, observando cada movimento da profissional como se ela estivesse manuseando um bisturi em uma cirurgia de coração aberto.
— A temperatura da cera, por favor — exigiu ele quando a mulher se aproximou de Sara.
— Está morna, senhor. Testamos na pele antes...
— Teste de novo. Na minha frente.
Sara bufou, mas deixou que o ritual de controle de Emanuel seguisse. Enquanto a loira passava pelo procedimento com uma indiferença impressionante, Eduarda sentia o coração acelerar. A gravidez a deixara mais sensível à dor, mas também a qualquer tipo de estímulo. A ideia de ser tocada, de ter a pele exposta diante de Emanuel, mesmo em um contexto clínico, a deixava em um estado de agitação que ela mal conseguia esconder.
Quando chegou a vez de Eduarda, Emanuel se aproximou da maca. Ele pegou a mão dela, os dedos entrelaçados com força.
— Se doer, você me fala. Nós paramos na hora — ele disse, o tom de voz suavizando apenas para ela.
— Está tudo bem, Manu... — ela sussurrou, sentindo a umidade nos olhos.
A esteticista começou o trabalho nas pernas de Eduarda. A cada puxão, a jovem soltava um gemido baixo, o que fazia Emanuel rosnar de impaciência e preocupação.
— Você está machucando ela! — ele acusou, dando um passo à frente.
— Emanuel, pare! — Sara interveio da outra poltrona, onde agora retocava o batom. — É apenas depilação. Duda, respire. Pense no Benício e na Amélie.
Eduarda fechou os olhos, tentando se concentrar na respiração. Mas a presença de Emanuel era avassaladora. O cheiro dele, a pressão de sua mão, a forma como ele a olhava — como se ela fosse a coisa mais preciosa e frágil do mundo — criava um curto-circuito em seus sentidos. A dor da depilação se misturava a uma necessidade emocional de ser acolhida, de ser mimada, de ser dele.
Ao final da sessão, Eduarda estava exausta, mas com a pele macia e o espírito levemente mais calmo. Emanuel, por outro lado, parecia ter envelhecido dez anos. Ele pagou a conta sem nem olhar para o valor e conduziu as duas de volta ao carro.
No trajeto de volta, o silêncio era mais leve. Sara estava satisfeita por ter vencido a queda de braço, e Eduarda estava perdida em seus próprios pensamentos, a mão repousando sobre o ventre que começava a dar sinais de uma curvatura suave.
— Eu quero jantar comida japonesa — anunciou Sara. — Mas sem peixe cru para nós, infelizmente. Quero aqueles combinados quentes e muito shimeji.
— Eu vou pedir — disse Emanuel, já pegando o celular. — E Eduarda, nada de refrigerante de cereja no jantar. Você vai tomar o suco de clorofila que o nutricionista mandou.
Eduarda fez um biquinho, a manha voltando com força total.
— Mas Manu... o suco tem gosto de grama.
— Grama faz bem para os bebês — ele retrucou, mas o canto de sua boca se curvou em um esboço quase imperceptível de sorriso. — E se você tomar tudo, talvez eu deixe você comer um pouco do meu sorvete de sobremesa.
— De chocolate belga? — ela perguntou, os olhos brilhando.
— De chocolate belga.
Ao chegarem em casa, o ambiente parecia ter finalmente encontrado um equilíbrio. Sara foi para o quarto se trocar, enquanto Eduarda se sentou no balcão da cozinha, observando Emanuel organizar os pratos que chegavam pelo delivery. Ele se movia com uma eficiência silenciosa, mas sua atenção estava dividida. Ele não parava de olhar para Eduarda, como se estivesse tentando decifrar o que se passava naquela mente jovem e obstinada.
— Você ainda está bravo comigo? — perguntou ela, a voz suave, quase um sussurro.
Emanuel parou o que estava fazendo e caminhou até ela. Ele se posicionou entre as pernas dela, as mãos repousando nos quadris de Eduarda.
— Eu não estou bravo, Duda. Eu estou apavorado. Vocês duas são a minha vida. Valentina, Benício, Amélie... é muita responsabilidade. Eu sinto que se eu piscar, algo ruim pode acontecer.
— Nada vai acontecer, Manu — ela disse, passando os braços pelo pescoço dele. — Nós somos fortes. Eu sou forte. A trilha me mostrou isso. E a bruxa... ela disse que eu encontraria o meu caminho. Talvez o meu caminho seja ser a mãe desses dois pequenos e enfrentar você de vez em quando para não enlouquecer.
Emanuel soltou um suspiro pesado, encostando a testa na dela.
— Você é a minha perdição, Eduarda. A Sara me desafia com lógica e fogo, mas você... você me desarma com essa doçura teimosa.
Ele a beijou, um beijo que começou casto e protetor, mas que logo se aprofundou, carregado com o desejo reprimido dos últimos dias. Eduarda respondeu com uma intensidade que o surpreendeu, as mãos puxando o cabelo dele, o corpo buscando o contato que a gravidez tornara uma necessidade física quase dolorosa.
— Comam logo! — a voz de Sara ecoou do corredor, interrompendo o momento. — Se Valentina ficar com fome, ela vai começar a chutar a minha placenta de novo e eu vou culpar vocês dois!
Eles se separaram, rindo baixo. O jantar foi uma celebração silenciosa da vida que crescia em dobro. Eduarda tomou seu suco de "grama" sob o olhar vigilante de Emanuel, mas ganhou sua recompensa de chocolate belga logo depois.
Mais tarde, quando a lua já estava alta e Sara já dormia profundamente na suíte principal, Emanuel encontrou Eduarda na varanda, olhando para as luzes da cidade. Ele a abraçou por trás, as mãos espalmadas sobre o ventre dela.
— Você sentiu? — ele perguntou, a voz baixa contra o ouvido dela.
— O quê?
— O futuro.
Eduarda sorriu, encostando a cabeça no ombro dele. Ela ainda sentia o gosto da Coca-Cola de cereja na memória e a maciez da pele recém-depilada, mas acima de tudo, sentia a segurança de estar nos braços do homem que, apesar de controlador e muitas vezes insuportável, era o seu porto seguro.
— Amélie e Benício estão calmos agora — ela sussurrou. — Acho que eles gostaram do sorvete.
— Eles vão gostar de tudo o que eu der a eles — Emanuel afirmou, o tom possessivo retornando. — E eu vou dar o mundo a eles, Eduarda. Mas você... você vai ter que aprender a seguir as regras de vez em quando.
— Veremos, Manu — ela provocou, virando-se nos braços dele com um brilho travesso nos olhos. — Veremos.
Naquela noite, o labirinto de tinta e sangue que era a vida de Emanuel Albuquerque parecia um pouco menos complicado. Ele tinha Sara, a sua rainha de fogo; tinha Eduarda, a sua princesa de seda; e tinha três vidas a caminho para proteger. O medo ainda estava lá, uma sombra constante, mas enquanto ele pudesse sentir o batimento cardíaco daquelas mulheres contra o seu peito, ele sabia que poderia enfrentar qualquer bruxa, qualquer trilha e qualquer descolamento de placenta que o destino resolvesse lançar em seu caminho.
O segredo de Eduarda agora era um tesouro compartilhado, e embora a batalha pelo controle continuasse, a harmonia do trio era, no final das contas, a única lei que realmente importava naquela cobertura acima das nuvens de São Paulo.