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O Labirinto de Vidro e o Reino do Gelo

A cobertura dos Albuquerque, que um dia fora um santuário de minimalismo e silêncio aristocrático, havia se transformado em um campo de batalha decorado com blocos de montar, bonecas de porcelana e o eco constante de risadas e choros. Dois anos haviam se passado desde a tempestade que fora a gravidez dupla de Eduarda e a gestação de Sara. O que antes era um trio harmonioso, agora era um ecossistema complexo regido por três pequenas divindades de personalidades tão distintas quanto seus pais.

Valentina, aos quase três anos, era a imagem esculpida de Sara. Com seus cachinhos loiros perfeitamente alinhados e um olhar que parecia julgar a qualidade do tecido de qualquer um que se aproximasse, ela exalava uma soberba infantil que Emanuel achava fascinante e Eduarda considerava assustadora. Valentina não brincava; ela "concedia audiências".

Já os gêmeos de Eduarda eram os polos opostos da alma humana. Amélie herdara a timidez quase etérea da mãe, movendo-se pela casa como uma sombra silenciosa, sempre agarrada a um coelhinho de pelúcia encardido. Benício, por outro lado, era o caos encarnado. Com os olhos escuros e intensos de Emanuel, ele possuía uma energia cinética que desafiava as leis da física. Onde havia perigo, lá estava Benício. Onde havia silêncio, Benício estava planejando algo.

Naquela tarde de terça-feira, Emanuel estava em seu escritório, tentando gerenciar a expansão de seus estúdios em Berlim através de uma videoconferência. Sara estava no andar de baixo, em uma reunião por telefone com seus fornecedores de tecidos. O cuidado das crianças recaía sobre Eduarda e a babá, mas a babá havia tirado trinta minutos de intervalo, e Eduarda, exausta após uma manhã de aulas na faculdade de História da Arte, sentara-se no sofá por apenas um momento para fechar os olhos.

Foi o erro fatal.

O silêncio na sala de estar era absoluto. Valentina estava sentada em sua poltrona personalizada, folheando um livro de gravuras de moda francesa com uma expressão de tédio profundo.

— Onde está o Benício? — murmurou Eduarda, despertando de seu breve cochilo com aquele sexto sentido materno que grita quando o silêncio é longo demais.

Valentina nem sequer levantou os olhos do livro.

— O plebeu foi para a cozinha com a chorona — respondeu a menina, a voz doce carregada de um desdém que ela certamente aprendera com Sara.

Eduarda levantou-se num salto, o coração já acelerando.

— Valentina, não chame seus irmãos assim. Amélie não é chorona.

— Ela estava chorando porque o Benício disse que eles iam morar no Polo Norte — Valentina deu de ombros, virando a página com delicadeza. — Eu disse que eles não tinham roupas de grife para o frio, mas eles não me escutaram.

Eduarda correu para a cozinha. O ambiente era vasto, todo em mármore branco e aço inoxidável. Estava vazio.

— Benício? Amélie? — chamou ela, a voz subindo uma oitava.

Nada. Apenas o zumbido baixo da enorme geladeira industrial de duas portas, um monstro de tecnologia alemã que Emanuel insistira em comprar porque "precisamos de espaço para as papinhas orgânicas".

Eduarda olhou em volta. A porta da despensa estava fechada. O armário sob a ilha da cozinha também. O pânico começou a subir por sua garganta, frio e cortante. Ela voltou correndo para a sala.

— Valentina, para onde exatamente eles foram?

— Para o gelo, mamãe Duda — Valentina suspirou, fechando o livro com um estalo. — Benício disse que o castelo de gelo estava aberto.

O castelo de gelo.

Eduarda sentiu as pernas fraquejarem. A geladeira. A geladeira industrial tinha portas pesadas que vedavam hermeticamente para manter a temperatura precisa. Ela correu de volta à cozinha e parou diante do eletrodoméstico de aço escovado. Seus dedos tremiam tanto que ela mal conseguiu segurar a alça.

Ao puxar a porta direita, o vapor frio saiu em uma nuvem branca. E lá, sentados na gaveta inferior de vegetais que havia sido removida e jogada no chão, estavam os dois.

Benício estava com um sorriso triunfante, abraçado a um pote de sorvete de baunilha que ele conseguira abrir. Amélie estava encolhida ao lado dele, os lábios já ficando levemente arroxeados, tremendo, mas segurando firmemente a mão do irmão. Eles haviam entrado e, de alguma forma, a porta pesada se fechara atrás deles.

— MEU DEUS! — o grito de Eduarda rasgou o ar da cobertura.

Ela avançou, arrancando as duas crianças de dentro do compartimento gelado. Amélie começou a chorar instantaneamente, um som agudo e sofrido que partiu o coração de Eduarda. Benício, contudo, soltou uma risada travessa.

— Frio, mamãe! Polo Norte! — exclamou o menino, tentando enfiar uma colher de sorvete na boca.

Eduarda os levou para o tapete da sala, envolvendo-os em mantas de lã, soluçando desesperadamente. O barulho atraiu Emanuel e Sara como um ímã.

— O que aconteceu? — Emanuel surgiu na porta, o rosto lívido, a postura de protetor já em alerta máximo.

— Eles... eles se trancaram na geladeira, Manu! — Eduarda mal conseguia falar, apertando Amélie contra o peito enquanto tentava aquecer as mãos da filha. — O Benício levou ela para lá! Eles podiam ter morrido!

Emanuel caminhou até o filho. Benício olhou para o pai, o sorriso diminuindo um pouco diante da expressão severa do tatuador. Emanuel pegou o menino no colo, verificando sua temperatura, o pulso, a respiração.

— Você tem noção do que fez, Benício? — a voz de Emanuel era um trovão contido. — Você colocou sua irmã em perigo.

— Castelo, papai! — Benício insistiu, apontando para a cozinha. — Amélie queria ver a neve.

Sara aproximou-se de Eduarda, ajoelhando-se no tapete. Ela pegou Amélie dos braços da outra mãe, verificando os sinais de hipotermia com uma praticidade fria que escondia o tremor em suas próprias mãos.

— Ela está bem, Duda. Só está gelada e assustada. Valentina, traga o chocolate quente que a babá deixou pronto.

Valentina, que observava tudo do alto de sua poltrona, levantou-se com uma lentidão deliberada.

— Eu disse que eles não tinham roupas adequadas — comentou a menina, caminhando em direção à cozinha com a elegância de uma pequena rainha. — Ninguém me ouve nesta casa.

Eduarda cobriu o rosto com as mãos, o corpo todo tremendo.

— Eu só fechei os olhos por um segundo, Manu... eu juro. Eu estava tão cansada...

Emanuel colocou Benício no chão — o menino agora parecia finalmente entender que a brincadeira não fora bem recebida — e sentou-se ao lado de Eduarda. Ele a puxou para seus braços largos, o cheiro de tinta e perfume caro tentando acalmá-la.

— A culpa não é sua, Duda. O Benício é... ele é um furacão. Eu já devia ter colocado travas eletrônicas naquela geladeira. Eu é que falhei.

— Nós falhamos — corrigiu Sara, ninando Amélie, que começava a se acalmar. — Nós criamos pequenos monstros com mentes brilhantes e nenhum senso de perigo. Benício tem o seu ímpeto, Emanuel. E Amélie tem a devoção da Duda. É uma combinação perigosa.

Emanuel olhou para o filho, que agora tentava escalar a perna de Sara para pedir desculpas à irmã.

— Ele é igual a mim — murmurou Emanuel, uma mistura de orgulho e terror em sua voz. — Ele não tem medo das sombras. Mas ele precisa aprender que as sombras podem congelar.

A babá retornou, pálida ao saber do ocorrido, e levou os gêmeos para um banho morno. Valentina seguiu o grupo, dando instruções sobre a temperatura da água como se fosse a governanta-chefe da mansão.

Eduarda, Emanuel e Sara permaneceram na sala, o silêncio retornando, mas agora carregado com a adrenalina residual.

— Eu achei que ia perder eles — sussurrou Eduarda, encostando a cabeça no ombro de Sara, que se sentara ao seu lado.

— Você não vai perder ninguém — afirmou Sara, segurando a mão de Eduarda. — Nós somos três. Se um vacila, o outro segura. Mas Emanuel, seriamente, aquela geladeira vai ganhar um cadeado de titânio hoje mesmo.

— Já estou providenciando — disse Emanuel, mexendo no celular com rapidez. — E vou contratar mais uma pessoa para ajudar no turno da tarde. A Duda não pode carregar o peso da faculdade e desses três sozinha.

Eduarda olhou para o marido, a gratidão brilhando em seus olhos castanhos.

— Eu não quero ser uma mãe ausente, Manu.

— Você não é ausente, meu amor. Você é humana — ele a beijou na testa. — E nossos filhos são... bem, eles são Albuquerque. Eles não vieram ao mundo para serem fáceis.

Mais tarde, após o jantar, a paz parecia ter sido restaurada. Valentina estava em seu quarto, organizando suas bonecas por ordem de "prestígio". Amélie dormia profundamente, exausta pelo choro. E Benício... Benício estava no colo de Emanuel, no escritório, observando o pai desenhar um novo projeto de tatuagem.

— Papai? — chamou o menino, a voz sonolenta.

— Sim, Benício.

— O castelo de gelo era muito bonito. Mas a Amélie chorou. Eu não gosto quando ela chora.

Emanuel parou o traço. Ele olhou para o pequeno rosto do filho, vendo ali o reflexo de suas próprias lutas internas. A necessidade de explorar, de desafiar limites, mas também o instinto feroz de proteger o que era seu.

— Então você nunca mais a leve para lá, entendeu? — Emanuel disse, a voz firme. — Um rei protege seu reino, Benício. Ele não o coloca dentro de uma geladeira.

O menino assentiu, bocejando, e fechou os olhos.

Na sala, Sara e Eduarda dividiam uma taça de vinho, observando a cidade através do vidro.

— Valentina disse hoje que quer começar aulas de etiqueta — comentou Sara, soltando uma risada irônica. — Ela tem dois anos e meio, Duda. Etiqueta!

— Ela é sua filha, Sara. O que você esperava? — Eduarda sorriu, sentindo o calor do vinho relaxar seus músculos tensos. — Ela já nasceu sabendo qual talher usar para o peixe.

— E os seus? Um quer explorar o Ártico na cozinha e a outra quer viver em um conto de fadas silencioso. Nós realmente montamos um circo, não foi?

— O melhor circo do mundo — concordou Eduarda.

Emanuel apareceu na porta da sala, com Benício adormecido em seus braços. Ele olhou para suas duas mulheres, as pilares de sua existência complexa e vibrante. A proteção que ele exercia sobre Sara durante a gravidez de Valentina e a possessividade que sentira por Eduarda durante a gestação dos gêmeos haviam evoluído para algo mais profundo: uma administração constante do caos amoroso.

— Eles estão todos dormindo — anunciou ele, a voz baixa.

Ele colocou Benício no berço e voltou para a sala, sentando-se entre as duas no sofá espaçoso. Sara encostou a cabeça em seu ombro esquerdo; Eduarda no direito.

— O que vamos fazer quando eles tiverem quinze anos? — perguntou Eduarda, fechando os olhos.

— Eu vou comprar uma ilha deserta e trancar todos nós lá — respondeu Emanuel, metade brincando, metade seriamente.

— Valentina não iria — disse Sara. — Não há lojas de grife em ilhas desertas.

— E Benício tentaria construir um barco com cascas de coco para fugir — completou Eduarda.

Emanuel riu, um som raro e genuíno que vibrou em seu peito.

— Então, acho que teremos apenas que sobreviver a um dia de cada vez. E começar trancando a geladeira.

Naquela noite, a cobertura dos Albuquerque finalmente encontrou a paz. O labirinto de vidro que era a vida deles continuava perigoso, cheio de reflexos e armadilhas, mas enquanto estivessem juntos, eles sabiam que poderiam encontrar a saída — ou, no caso de Benício, simplesmente quebrar as paredes e criar um novo caminho.

A soberba de Valentina, a timidez de Amélie e a energia indomável de Benício eram apenas as novas cores na tatuagem inacabada que era a história de Emanuel, Sara e Eduarda. Uma história escrita com amor, teimosia e, ocasionalmente, um pote de sorvete de baunilha no Polo Norte da cozinha.

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