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Promessas sob o Véu da Mansidão
A mansão de Emanuel era um monumento à modernidade e ao conforto, mas naquela noite, o silêncio que se seguiu após a partida de Sara trazia um peso diferente. Sara havia saído para um evento de inauguração de uma nova boutique de luxo, envolta em um vestido de paetês dourados que gritava por atenção, deixando para trás o rastro de seu perfume importado e a energia vibrante que sempre ocupava todos os cantos da casa.
No andar de cima, as crianças finalmente haviam cedido ao sono. Valentina dormia em seu quarto decorado como o de uma princesa vitoriana, com um biquinho autoritário mesmo em sonhos. No quarto ao lado, os gêmeos dividiam o espaço: Benício, atravessado na cama após lutar contra o sono como um pequeno guerreiro, e Amélie, encolhida como um ovinho, abraçada ao seu coelho de pelúcia desgastado.
Eduarda fechou a porta dos gêmeos com uma suavidade quase sobrenatural. Ela caminhou pelo corredor, o tecido leve de seu robe de seda branca roçando em suas pernas. Seu coração, geralmente calmo como um lago, estava levemente agitado. Ela amava Sara. Amava a forma como a loira a protegia do mundo exterior e como não havia espaço para a mesquinharia entre elas. Mas Eduarda era, acima de tudo, mãe. E sua intuição sensível captava nuances que a racionalidade de Emanuel ou a impetuosidade de Sara ignoravam.
Ela encontrou Emanuel em seu escritório particular, um ambiente forrado de madeira escura e esboços de tatuagens complexas. Ele estava sentado atrás da mesa maciça, com os óculos de leitura caídos na ponta do nariz, analisando relatórios financeiros de seus estúdios em Londres.
— Ela finalmente foi? — Emanuel perguntou sem desviar os olhos do papel, mas um pequeno sorriso surgiu em seus lábios ao sentir a presença de Eduarda.
— Sim, a Sara já saiu — Eduarda respondeu com sua voz melodiosa e baixa. — As crianças também dormiram.
Emanuel afastou a cadeira e estendeu a mão. Eduarda caminhou até ele, deixando-se puxar para o seu colo. Ele a envolveu com a possessividade natural que lhe era característica, enterrando o rosto na curva do pescoço dela, aspirando o cheiro de lavanda e da loção de bebê que sempre emanava de sua pele.
— Você está tensa, Duda — murmurou ele, sentindo a rigidez nos ombros dela. — O que houve? Benício quebrou mais alguma coisa?
Eduarda se aninhou mais, buscando o calor do peito dele. Ela sabia como usar sua mansidão. Não era uma manipulação cruel, mas uma forma de sobrevivência emocional. Ela precisava que ele a ouvisse, e sabia que, para Emanuel, sua vulnerabilidade era o comando mais forte.
— Não é o Benício, Manu... — Ela começou, brincando com os dedos calejados dele, traçando as linhas das tatuagens que cobriam suas mãos. — É a Valentina.
Emanuel suspirou, recostando a cabeça na cadeira.
— Ela é difícil, eu sei. Sara a mima demais, e a menina nasceu com aquele gênio forte. Mas ela é só um bebê, Duda.
— Ela tem dois anos, Emanuel. E hoje, no jardim, ela tirou o brinquedo da mão da Amélie e disse que "coisas bonitas só pertencem a quem manda". Ela nem fala frases completas ainda, mas a intenção... a arrogância estava lá.
Eduarda se afastou um pouco para olhar nos olhos dele. Seus olhos castanhos estavam marejados, uma arma silenciosa que sempre desarmava o homem mais poderoso que ela conhecia.
— O Benício vai saber se defender. Ele é um furacão, ele tem a sua força e a energia da Sara. Mas a Amélie... Manu, a nossa Amélie é doce demais. Ela é sensível. Ela não sabe lutar contra alguém que quer passar por cima dela, especialmente se for a própria irmã.
— Duda, elas são irmãs. Elas vão se entender com o tempo — Emanuel tentou racionalizar, embora o desconforto começasse a surgir em sua expressão.
— Não, meu amor. O mundo não é justo com quem é doce. E eu tenho medo de que, nesta casa, a voz da Valentina e a presença da Sara abafem o brilho da Amélie. Eu amo a Sara, você sabe disso. Eu quero que sejamos felizes juntos para sempre. Mas eu sou a mãe da Amélie. E eu não posso permitir que ela cresça à sombra da soberba da irmã.
Eduarda deslizou do colo dele e se ajoelhou entre as pernas de Emanuel, apoiando as mãos nas coxas dele. Era uma postura de súplica, mas seus olhos mostravam uma determinação ferrenha que raramente aparecia.
— Eu preciso que você me prometa uma coisa, Emanuel. E eu não vou aceitar nada menos que a sua palavra de honra.
Emanuel sentiu o peso da seriedade dela. Ele se inclinou para frente, segurando o rosto delicado de Eduarda entre as mãos.
— Diga.
— Prometa-me que você sempre vai proteger a Amélie e o Benício da Valentina. Que você nunca vai deixar a Amélie ficar em segundo plano porque a Valentina grita mais alto ou exige mais atenção.
— Duda, eu amo todos os meus filhos igualmente... — Emanuel começou, mas ela o interrompeu com um toque suave nos lábios.
— Eu sei que ama. Mas a Valentina tem a Sara para lutar por ela. A Sara vai garantir que o mundo se curve à Valentina. Quem vai garantir que a Amélie não seja esmagada? — Uma lágrima solitária escorreu pelo rosto de Eduarda. — Prometa-me que, se um dia, por algum motivo cruel do destino, você tiver que escolher... se você tiver que quebrar o coração de uma das duas... que não será o da Amélie.
O silêncio no escritório tornou-se sufocante. Emanuel olhava para a mulher à sua frente, a personificação da fragilidade, e sentia uma onda de proteção tão avassaladora que chegava a ser dolorosa. Ele via a lógica no medo dela. Valentina era uma força da natureza, assim como Sara. Amélie era o reflexo de Eduarda: uma flor que precisava de uma estufa para não murchar sob o sol forte.
— Você está me pedindo para escolher um lado em uma guerra que nem começou — Emanuel disse, a voz rouca.
— Estou pedindo para você ser o escudo da minha filha — Eduarda sussurrou, encostando a testa nos joelhos dele. — Porque eu não suportaria ver a doçura dela ser transformada em mágoa. Prometa, Manu. Por favor.
Emanuel fechou os olhos. Ele podia ver o futuro: Valentina comandando salas, exigindo o melhor, enquanto Amélie possivelmente se retrairia, aceitando as sobras por não querer entrar em conflito. Ele não podia permitir que a paz de Eduarda fosse destruída por essa preocupação.
— Eu prometo — ele disse finalmente, a voz firme e solene como um juramento de sangue. — Eu prometo, Duda. Amélie nunca ficará atrás. Eu serei o equilíbrio. Se a Valentina tentar passar por cima dela, ela encontrará a mim no caminho. E eu nunca, jamais, deixarei o coração da nossa pequena ser quebrado se eu puder evitar.
Eduarda soltou um suspiro longo, como se um fardo imenso tivesse sido retirado de suas costas. Ela se levantou e abraçou o pescoço de Emanuel, cobrindo seu rosto de beijos gratos e manhosos.
— Obrigada, meu amor... Eu sabia que podia confiar em você. Você é o nosso porto seguro.
Emanuel a apertou contra si, sentindo a vitória dela no modo como ela se esfregava nele, buscando carinho. Ele era o mestre de um império, mas ali, naquele quarto, ele era apenas um homem rendido à doçura de uma e à intensidade de outra.
— Agora, chega de conversa triste — Emanuel disse, levantando-a nos braços com facilidade. — Você me deixou tenso com esse assunto.
Eduarda deu uma risadinha tímida, escondendo o rosto em seu ombro.
— Eu posso te ajudar a relaxar... — ela murmurou com aquele jeito inocente que ele sabia ser apenas a superfície de uma paixão profunda.
Enquanto ele a carregava em direção ao quarto, Emanuel não pôde deixar de pensar na complexidade daquela família. Sara voltaria em algumas horas, cheia de histórias e exigindo sua atenção com beijos vorazes e risadas altas. Valentina acordaria no dia seguinte exigindo seu café da manhã como uma rainha. Mas, naquele momento, no silêncio da noite, era a promessa feita a Eduarda que ecoava em sua mente.
Ele protegeria a todos, sim. Mas ele agora tinha uma missão clara: garantir que a suavidade de Amélie sobrevivesse em um mundo feito de espinhos e loiras siliconadas.
Horas mais tarde, o som da porta da frente se abrindo anunciou o retorno de Sara. Emanuel estava deitado, com Eduarda dormindo profundamente em seus braços, um contraste perfeito de paz. Sara entrou no quarto, jogando os sapatos caros em um canto e desabando na beira da cama.
— Aquela festa foi um tédio total — Sara reclamou em um sussurro alto, começando a puxar o zíper do vestido. — Só gente querendo aparecer. Devia ter ficado aqui com vocês.
Emanuel estendeu a mão livre e tocou a perna de Sara, puxando-a para mais perto.
— Você está bem? — ele perguntou em voz baixa para não acordar Eduarda.
— Estou ótima. Só com saudade do meu homem e da minha boneca — Sara disse, inclinando-se para beijar Emanuel e depois depositando um beijo rápido na testa de Eduarda. — Ela já apagou?
— Sim. Tivemos uma noite longa.
Sara olhou para Eduarda com uma expressão de carinho quase maternal, apesar de terem a mesma idade.
— Ela é tão miúda, Manu. Às vezes eu sinto que tenho que proteger ela e os gêmeos do resto do mundo. Até da Valentina, que já está ficando impossível.
Emanuel arqueou uma sobrancelha, surpreso pela coincidência de pensamentos.
— Você percebeu isso também?
— Claro que percebi, querido. Eu sou vulgar, não sou cega — Sara riu baixinho, retirando as joias. — Valentina tem o meu sangue. Ela vai ser uma predadora. E a Amélie... bem, a Amélie é um anjinho. Eu não quero que minha filha seja uma tirana, Emanuel. Quero que ela seja forte, mas não cruel.
Emanuel relaxou contra os travesseiros. O medo de Eduarda, embora fundado, talvez encontrasse um aliado inesperado na própria Sara.
— A Duda estava preocupada com isso hoje — Emanuel confessou.
Sara parou o que estava fazendo e olhou fixamente para ele, um brilho de compreensão em seus olhos azuis pintados.
— Ela tem razão de estar. E você prometeu proteger os bebês dela, não prometeu?
— Prometi.
— Ótimo — Sara disse, terminando de se despir e deslizando para o outro lado da cama, completando o trio que desafiava qualquer convenção social. — Porque se você não protegesse, eu mesma teria que dar um corretivo na Valentina. Ninguém pisa na Duda ou nos gêmeos. Nem mesmo a minha própria miniatura.
Emanuel sorriu, fechando os olhos enquanto sentia o calor das duas mulheres que amava. A arrogância de Valentina, a timidez de Amélie, a energia de Benício... tudo aquilo era o caos que ele escolhera. E, sob o teto daquela mansão, ele faria o impossível para que nenhuma chama apagasse a outra, mantendo o equilíbrio delicado entre o fogo e a água, entre a seda e a tinta.
A noite seguiu, e no berço daquela família atípica, as promessas foram seladas no silêncio, garantindo que, pelo menos ali, o amor sempre teria a última palavra, independentemente de quem gritasse mais alto.