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O Peso da Coroa de Plástico

A manhã na mansão de Emanuel começou com o brilho excessivo que Sara tanto apreciava. Ela descia as escadas usando um robe de seda rosa choque com plumas nos punhos, os saltos de seus chinelos de quarto estalando contra o mármore. Emanuel, já de pé e tomando seu café expresso duplo, observava a cena com um misto de cansaço e adoração. Para ele, Sara era o espetáculo necessário para tirar sua vida da monotonia dos negócios.

— Emanuel, querido, olhe o que chegou para a nossa rainha — disse Sara, jogando um catálogo de joias infantis sobre a mesa de café. — Uma tiara de diamantes verdadeiros, em escala reduzida. A Valentina precisa disso para a festa de aniversário da filha do prefeito. Ela não pode entrar naquele salão parecendo uma plebeia.

Emanuel deu um meio sorriso, puxando Sara pela cintura e depositando um beijo em seu pescoço, ignorando o cheiro forte de perfume matinal.

— Você mima demais essa menina, Sara. Ela tem dois anos. Vai acabar perdendo diamantes na caixa de areia.

— Bobagem — retrucou ela, dando um tapinha brincalhão no rosto dele. — Ela sabe o valor das coisas. Diferente daqueles seus outros dois, que se contentam com giz de cera e papel amassado.

Emanuel sentiu uma pontada de desconforto, mas não discutiu. Ele gostava de ver Sara feliz, gostava de prover os luxos que ela exigia com tanta naturalidade. Ele era o porto seguro dela, o homem que transformava seus caprichos em realidade.

Enquanto isso, no andar de cima, o clima era drasticamente diferente. Eduarda estava sentada no tapete macio do quarto de brinquedos, ajudando Amélie a montar um quebra-cabeça de animais. Benício, fiel à sua natureza de furacão, corria em círculos ao redor delas, fazendo barulhos de avião com um carrinho de madeira.

— Olhe, mamãe... o coelhinho — sussurrou Amélie, encaixando a peça com uma delicadeza que fazia o coração de Eduarda derreter.

— Muito bem, meu amor. Você é tão caprichosa — disse Eduarda, acariciando o cabelo castanho da filha.

A porta do quarto se abriu com um estrondo. Valentina entrou, vestindo um conjunto de grife que a deixava parecendo uma boneca de porcelana, mas com uma expressão que não tinha nada de angelical. Ela carregava uma boneca de edição limitada que Emanuel havia lhe dado no dia anterior.

— Sai — ordenou Valentina, parando diante do quebra-cabeça de Amélie.

Amélie olhou para cima, os olhos arregalados de surpresa.

— A gente tá brincando, Valen... — disse a pequena, com a voz trêmula.

— Meu lugar. Sai — repetiu Valentina. Ela não pediu; ela decretou.

Eduarda interveio com sua voz suave, tentando manter a paz que tanto prezava.

— Valentina, querida, tem muito espaço no tapete. Sente-se aqui com a tia Duda e a Amélie. Vamos montar o quebra-cabeça juntas.

Valentina olhou para Eduarda com um desdém que parecia assustadoramente adulto. Ela bufou, cruzou os braços e, em um movimento rápido e calculado, chutou o quebra-cabeça montado, espalhando as peças por todo o quarto.

Amélie soltou um ganido de susto. Benício parou de correr instantaneamente, olhando para a cena com os punhos cerrados, pronto para defender a irmã gêmea.

— Valen, isso foi feio! — exclamou Eduarda, levantando-se para consolar Amélie, que já começava a soluçar silenciosamente.

— Feio é você — disparou Valentina, a arrogância de dois anos brilhando em seus olhos claros. — Minha mãe disse que eu mando. Tudo é meu.

Amélie, tentando recuperar uma das peças que havia caído perto do pé de Valentina, esticou a mãozinha. Foi então que o impensável aconteceu. Valentina, com o rosto vermelho de uma raiva súbita e possessiva, levantou a mão e desferiu um tapa sonoro no rosto de Amélie, empurrando-a com força logo em seguida.

O grito de dor de Amélie ecoou pelo corredor, cortando o ar como uma navalha. Eduarda correu para pegar a filha no colo, sentindo o próprio coração disparar.

— Valentina! O que você fez? — a voz de Eduarda falhou, carregada de emoção.

Lá embaixo, Emanuel e Sara ouviram o grito. Emanuel largou a xícara de café, que se estilhaçou no chão, e correu escada acima com uma agilidade predatória. Sara o seguiu, reclamando que as crianças estavam "fazendo drama".

Emanuel entrou no quarto e a cena que encontrou congelou seu sangue. Amélie estava nos braços de Eduarda, com a marca vermelha dos dedos de Valentina claramente visível em sua pele alva e delicada. Eduarda chorava junto com a filha, tentando protegê-la, enquanto Benício gritava com Valentina.

Valentina, por sua vez, estava parada no meio do quarto, com o queixo erguido, sem um pingo de arrependimento.

— O que aconteceu aqui? — a voz de Emanuel saiu baixa, perigosa, como o rosnar de um animal encurralado.

— Ela bateu na Amélie, Manu! — Eduarda soluçou, mostrando o rosto da menina. — Ela bateu e empurrou do nada!

Emanuel olhou para a marca no rosto de sua filha mais nova. A promessa que fizera a Eduarda na noite anterior queimou em sua mente. Ele sentiu uma fúria que raramente permitia que viesse à tona, uma perda total de controle que o fez tremer.

— Valentina — ele disse, dando um passo à frente.

— Ela pegou meu brinquedo! — mentiu Valentina, tentando usar a tática de defesa que via a mãe usar.

— Não minta para mim! — Emanuel explodiu, o grito fazendo as paredes vibrarem.

Sara entrou no quarto logo em seguida, alheia à gravidade da situação.

— Ora, Emanuel, não grite com a menina. São crianças, elas se batem. Valentina só está defendendo o que é dela, não é, meu amor? — Sara caminhou para pegar Valentina no colo, mas Emanuel a impediu com um gesto brusco.

— Não toque nela, Sara — ordenou ele, os olhos fixos na filha loira.

— Emanuel, você está me assustando. É só um tapa, a Amélie é muito sensível, você sabe...

— É "só um tapa" porque não foi no seu rosto, Sara! — Emanuel se virou para a namorada loira com uma expressão de fúria que a fez recuar um passo. — Eu avisei. Eu avisei que não ia tolerar essa arrogância. Você está criando um monstro!

Ele voltou sua atenção para Valentina, que agora, pela primeira vez, parecia assustada com a intensidade do pai.

— Você vai para o seu quarto agora — disse Emanuel, a voz agora fria como gelo. — E você vai ficar lá. Sem brinquedos, sem televisão, sem nada. E eu vou jogar fora aquela boneca que te dei ontem. Se você não sabe conviver com seus irmãos, você não merece nada do que eu te dou.

— Emanuel, você não pode fazer isso! — protestou Sara, a voz subindo de tom. — Aquela boneca custou uma fortuna!

— Eu não dou a mínima para o dinheiro, Sara! — ele rugiu. — Eu tenho estúdios no mundo inteiro, eu tenho dinheiro para queimar, mas eu não tenho paciência para ver uma filha minha agir como uma tirana com a própria irmã!

Ele pegou Valentina pelo braço — não de forma a machucá-la, mas com uma firmeza que a menina nunca havia sentido. Ela começou a berrar, um choro estridente de frustração e raiva.

— Solta ela! Você está sendo um bruto! — Sara tentou puxar a filha, mas Emanuel se manteve firme.

— Ela precisa aprender que o mundo não gira em torno dela. E se você interferir, Sara, você vai junto com ela para o quarto. Eu cansei de passar a mão na cabeça desse comportamento vulgar e soberbo!

Emanuel levou Valentina para o quarto dela, trancando a porta por fora enquanto os gritos da menina aumentavam. Ele voltou para o quarto de brinquedos, onde o silêncio agora era apenas quebrado pelos soluços baixos de Amélie.

Sara estava parada no meio do corredor, bufando, a maquiagem impecável começando a borrar de raiva.

— Você passou dos limites, Emanuel. Ela é um bebê! Você a tratou como se ela fosse uma criminosa!

Emanuel não respondeu a Sara. Ele caminhou até Eduarda e se ajoelhou ao lado dela. Ele pegou Amélie dos braços da mãe e a aninhou em seu peito largo, beijando o topo de sua cabeça repetidamente.

— Shh... papai está aqui, pequena. Papai prometeu que ia te proteger, não prometeu? Ninguém mais vai encostar em você. Nunca mais.

Eduarda olhava para Emanuel com uma mistura de choque e alívio. Ela nunca o vira perder o controle daquela forma, especialmente com Valentina, que sempre fora a "protegida" dos luxos de Sara. Ela sentiu que ele tinha sido duro demais, que o grito e a punição foram severos para uma criança de dois anos. No entanto, ela permaneceu em silêncio.

Eduarda não diria uma palavra contra ele. Ela via o rosto de Amélie, via a marca vermelha que começava a escurecer, e sabia que, se Emanuel não tivesse intervindo daquela forma drástica, o ciclo de abuso emocional e físico de Valentina nunca terminaria. Ela se apoiou no ombro dele, buscando conforto na força daquele homem que, embora estivesse em frangalhos por dentro, agia como a muralha que ela precisava.

— Você está bem, Duda? — ele perguntou, a voz suavizando apenas para ela.

— Sim... — ela sussurrou. — Só estou assustada.

Sara, percebendo que perdera aquela batalha, deu um grito de frustração e saiu batendo os saltos, indo se trancar em seu próprio quarto, provavelmente para ligar para suas amigas e reclamar da "grosseria" de Emanuel.

Emanuel permaneceu ali, no chão do quarto de brinquedos, com os gêmeos de Eduarda agarrados a ele. Benício segurava sua mão, e Amélie escondia o rosto em seu pescoço.

— Eu não queria ter gritado — confessou Emanuel para Eduarda, a voz carregada de um arrependimento amargo. — Mas eu não posso deixar que a Valentina cresça achando que pode esmagar os outros. Eu não posso deixar que ela seja como a Sara em seus piores dias.

— Eu sei, Manu — disse Eduarda, acariciando o braço dele. — Você fez o que achou certo para proteger a Amélie. Eu... eu agradeço por isso.

— Eu vou conversar com a Sara mais tarde — ele continuou, fechando os olhos por um momento. — Ela precisa entender que, nesta casa, não existe "minha filha" e "seus filhos". Existe uma família. E se ela não conseguir ensinar respeito à Valentina, eu terei que ser o vilão da história quantas vezes forem necessárias.

Eduarda sentiu uma pontada de tristeza por Valentina. A menina era apenas um reflexo do que recebia. Mas, ao olhar para Amélie, que agora começava a se acalmar sob a proteção do pai, Eduarda soube que sua lealdade estaria sempre com Emanuel. Ela sabia que ele a amava, e que aquele ato de fúria era, na verdade, a maior prova de amor e proteção que ele poderia dar a ela e aos seus filhos.

— Vamos descer — disse Emanuel, levantando-se com Amélie ainda no colo. — Vamos fazer um chocolate quente para o Benício e para a Amélie. E depois, eu vou trabalhar em um desenho novo para você, Duda. Algo leve.

Enquanto desciam as escadas, a casa parecia mais silenciosa, mas também mais pesada. A dinâmica entre as duas mulheres e Emanuel havia sofrido um abalo tectônico. Sara estava furiosa, Valentina estava em choque, e Eduarda estava imersa em sua gratidão silenciosa.

Emanuel, no centro de tudo, sentia o peso de suas escolhas. Ele amava Sara por sua vivacidade, mas temia sua influência. Ele amava Eduarda por sua paz, e sentia a necessidade visceral de ser seu cavaleiro. Naquela manhã, ele escolhera o escudo em vez da espada, e embora o preço tivesse sido a harmonia superficial da casa, ele sabia que, para manter a felicidade de suas duas mulheres, ele precisava, acima de tudo, ser o juiz daquele império de vidro e tinta.

— Manu? — chamou Eduarda, quando já estavam na cozinha.

— Sim, meu anjo?

— Você acha que a Sara vai nos perdoar?

Emanuel olhou para a porta do andar de cima, onde o silêncio de Sara era quase tão barulhento quanto seus gritos.

— A Sara gosta de poder, Duda. Mas ela também gosta de luxo. Ela vai ficar brava por uns dias, vai gastar alguns milhares de dólares no meu cartão para se vingar, e depois vai voltar a agir como se nada tivesse acontecido. Mas a lição para a Valentina... essa eu vou garantir que fique.

Ele colocou Amélie na cadeira alta e deu um beijo na testa de Eduarda. Naquele momento, ele era apenas um pai e um homem tentando equilibrar dois mundos impossíveis, torcendo para que as rachaduras que ele mesmo criara não fizessem a estrutura toda desabar sobre suas cabeças.

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