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Raízes e Redenções Sob o Sol do Interior

A mansão de Emanuel no Jardim Europa, embora luxuosa, parecia pequena demais para a voltagem emocional que se acumulava entre aquelas paredes. A transição de Eduarda para a vida de Emanuel fora um turbilhão. Seus pais, surpreendentemente, não ofereceram a resistência que ela esperava. Ao conhecerem Emanuel, viram um homem de sucesso, decidido e, acima de tudo, visceralmente comprometido com o bem-estar da neta. Para um casal moderno que valorizava a segurança e a honestidade brutal, a intensidade de Emanuel foi lida como responsabilidade, não como tirania.

— Ele é um protetor, Duda — dissera seu pai, antes de vê-la partir. — Um pouco rústico, sim, mas ele não vai deixar nada faltar para você ou para a Maya.

Agora, o destino era a fazenda da família de Emanuel, um refúgio vasto no interior de São Paulo. Emanuel dirigia a caminhonete robusta, com os nós dos dedos brancos de tanto apertar o volante. Ao seu lado, Sara, com um chapéu de grife e óculos escuros gigantescos, retocava o batom carmim enquanto a música eletrônica tocava baixo no rádio. No banco de trás, Eduarda cuidava das duas bebês. Ágata e Maya, com seus oito meses, pareciam espelhos uma da outra, apesar das sutis diferenças.

— Você está muito tensa, boneca — Sara disse, virando-se para Eduarda com um sorriso que misturava deboche e acolhimento. — Os pais do Emanuel são ótimos. Eles são jovens, ativos. Não são aqueles velhos de fazenda que ficam sentados em cadeiras de balanço julgando o decote alheio. Graças a Deus, porque se fossem, eu já teria sido expulsa há anos.

Emanuel soltou um riso curto, a primeira demonstração de relaxamento desde que saíram da capital.

— Meus pais vão adorar a Maya. E vão adorar você, Eduarda. Só tente não sumir no meio das plantas, você é muito miúda.

Eduarda corou, ajeitando a manta de Maya.

— Eu só... eu nunca estive em uma situação assim. Com todos vocês.

— É a nossa situação, Duda — Emanuel afirmou, olhando-a pelo retrovisor com aquela posse silenciosa que a fazia estremecer. — Acostume-se. Minha família é sua agora.

A chegada à fazenda foi marcada pelo perfume de terra molhada e grama cortada. A casa grande era uma mistura de rústico e contemporâneo. Assim que estacionaram, dois adultos que aparentavam pouco mais de quarenta anos saíram para recebê-los. Ricardo e Helena, os pais de Emanuel, transbordavam uma energia jovial.

— Finalmente! — Helena exclamou, abraçando Emanuel e depois Sara com familiaridade. Quando seus olhos pousaram em Eduarda, que segurava Maya com timidez, o olhar da mulher suavizou. — E você deve ser a Eduarda. E essa... meu Deus, Emanuel, ela é a sua cópia!

A recepção foi calorosa, desprovida dos julgamentos que Eduarda tanto temia. Sara, com sua personalidade vibrante, logo estava contando as novidades da loja para Helena, enquanto Ricardo levava Emanuel para ver os novos cavalos. Eduarda ficou na varanda, observando as bebês em um tapete emborrachado estendido sobre o deck de madeira.

O almoço foi servido ao ar livre. Uma mesa farta, típica do interior, mas com toques refinados. Em um momento de distração, enquanto os adultos conversavam sobre os novos estúdios de tatuagem de Emanuel em Londres, o primeiro susto aconteceu.

Ágata, que estava começando a se apoiar nos móveis com uma agilidade impressionante, tentou alcançar uma flor em um vaso baixo. Em um segundo, a pequena perdeu o equilíbrio e tombou para trás, batendo a cabecinha no deck de madeira.

O choro foi imediato e agudo.

— Ágata! — Sara gritou, derrubando a taça de vinho na mesa enquanto corria para a filha.

Emanuel saltou da cadeira como se tivesse sido propelido por uma mola. Ele chegou à bebê ao mesmo tempo que Sara. A agitação foi instantânea.

— Ela bateu a cabeça, Emanuel! Olha aqui, está ficando vermelho! — Sara estava pálida, a máscara de mulher fatal caindo para dar lugar a uma mãe desesperada e impulsiva.

— Calma, Sara! Deixa eu ver — Emanuel disse, a voz firme, embora suas mãos tremessem levemente. Ele pegou Ágata no colo, examinando o local do impacto com a precisão de quem estava acostumado a lidar com crises, mas o brilho de pânico em seus olhos era inegável.

Eduarda, que assistia à cena com o coração na boca, sentiu uma onda de empatia. Ela conhecia aquela dor. Levantou-se instintivamente e caminhou até eles.

— O gelo — Eduarda disse baixinho, tocando o braço de Emanuel. — Eu trago um pano com gelo. Ela está bem, Emanuel. O choro é forte porque ela se assustou.

Sara olhou para Eduarda, os olhos marejados.

— Você acha? Ela é tão pequena...

— Ela está ótima — Helena interveio, aproximando-se com a autoridade de quem já criou filhos. — Crianças caem, Sara. Emanuel caía dez vezes por dia e olhem o tamanho desse homem agora.

Aos poucos, o choro de Ágata diminuiu para soluços manhosos no colo do pai. Emanuel suspirou, encostando a testa na da filha, o corpo relaxando visivelmente. Ele olhou para Eduarda, um agradecimento mudo passando entre eles pela calma que ela trouxe ao momento.

No entanto, a paz durou pouco. Enquanto o drama de Ágata se desenrolava, Maya, a pequena observadora, aproveitou o caos para fazer sua própria incursão.

Eduarda percebeu o silêncio vindo do lado da mesa e se virou. Maya estava sentada no chão, com um pote de plástico grande, cheio de batatas fritas caseiras, que Ricardo havia deixado na beirada da mesa baixa. A bebê estava com as duas mãos mergulhadas no pote, a boca já brilhando de óleo e sal.

— Maya! Não, meu amor, isso não! — Eduarda exclamou, correndo até a filha.

Emanuel, ainda com Ágata no colo, aproximou-se rindo da cena, mas sua expressão mudou quando viu a quantidade de sal que a menina estava ingerindo.

— Ei, mocinha, isso não é para você — Emanuel disse, entregando Ágata para Sara e agachando-se ao lado de Maya. — Dá aqui o pote para o papai.

Ele tentou puxar o recipiente com delicadeza, mas Maya, que herdara a teimosia e a determinação do pai, agarrou as bordas do pote com uma força surpreendente. Ela olhou para Emanuel com os olhos semicerrados, um desafio claro em sua expressão de bebê.

— Maya, solta — Emanuel insistiu, aumentando um pouco a pressão.

No momento em que o pote começou a ceder, Maya abriu a boca e soltou um grito de protesto que ecoou por toda a fazenda. Não era um choro de dor, era um grito de pura indignação e fúria possessiva.

— Meu Deus, que pulmões! — Ricardo deu risada, cruzando os braços. — Essa aí é sua filha mesmo, Emanuel. Não aceita que tirem o que é dela.

— Maya, por favor, você vai passar mal — Eduarda tentava intervir, mas a bebê se encolheu sobre o pote, abraçando-o como se fosse um tesouro sagrado, soltando pequenos rosnados manhosos sempre que Emanuel tentava se aproximar.

Emanuel parou, olhando para a pequena criatura à sua frente. A irritação que ele sentira nos últimos dias, a fúria por ter perdido oito meses daquela personalidade, pareceu se transformar em algo novo. Ele soltou uma gargalhada genuína, profunda, que surpreendeu a todos.

— Tudo bem, você venceu essa rodada, pequena fera — ele disse, sentando-se no chão ao lado dela. — Mas só mais uma, e depois o papai vai trocar isso por uma fruta.

Ele olhou para Eduarda, que ainda estava preocupada, e estendeu a mão para ela.

— Venha aqui, Duda. Sente-se conosco.

Eduarda obedeceu, sentando-se no gramado entre Emanuel e a filha. Sara, já com Ágata calma em seus braços, aproximou-se e sentou-se do outro lado, formando um círculo incomum, mas estranhamente harmonioso.

— Sabe — Sara começou, pegando uma batata do pote de Maya, o que rendeu outro olhar feio da bebê —, eu achei que essa viagem seria um desastre. Mas olha só para nós. Uma grande família disfuncional e rica.

— Não é disfuncional se todos sabem o seu lugar — Emanuel afirmou, sua voz recuperando a autoridade, mas sem a crueza de antes. — E o lugar de vocês é comigo. Sempre.

Helena e Ricardo observavam a cena da varanda, trocando olhares cúmplices. Eles viam o que Emanuel ainda estava tentando processar: o equilíbrio. Sara era a chama, a força que o desafiava e o mantinha alerta. Eduarda era o porto, a suavidade que ele precisava para não se perder na própria rigidez. E as duas bebês eram a âncora que unia aqueles mundos tão distintos.

A tarde caiu sobre a fazenda com uma luz dourada e suave. Emanuel levou Eduarda para caminhar perto do lago enquanto Sara tirava uma soneca com as meninas no quarto climatizado.

— Você ainda está com raiva de mim? — Eduarda perguntou, a voz quase sumindo com o barulho dos grilos.

Emanuel parou de caminhar e a virou para ele. O sol poente destacava as tatuagens em seus braços e a seriedade em seu rosto.

— Eu estou furioso pelo tempo perdido, Eduarda. Isso não vai passar rápido. Cada vez que vejo a Maya fazer algo novo, penso que eu deveria estar lá para ver a primeira vez.

Eduarda baixou os olhos, sentindo a culpa pesar, mas Emanuel segurou seu queixo, forçando-a a olhá-lo.

— Mas — ele continuou, a voz mais baixa — ver você com ela, ver como você a protegeu e como você é doce com a Ágata também... isso torna impossível manter a raiva acesa o tempo todo. Eu quero que você confie em mim. Eu sei que sou difícil. Eu sei que a Sara é... bem, a Sara. Mas nós vamos cuidar de você.

— Eu nunca quis tirar ela de você por maldade, Emanuel. Eu só tinha medo de não caber na sua vida.

— Você não precisa caber, Eduarda. Eu abro o espaço que for necessário. Você é minha, assim como a Sara é minha. E a Maya... a Maya é a prova de que aquela noite não foi um erro. Foi o começo.

Ele a puxou para um abraço firme. Eduarda se apoiou nele, sentindo a segurança que o pai dela havia mencionado. Era uma dinâmica estranha, sim. Ela teria que aprender a lidar com a exuberância vulgar e leal de Sara, com o controle férreo de Emanuel e com a nova realidade de ser mãe dentro de um império.

Mas, enquanto Maya dormia lá dentro, sonhando talvez com potes de batata frita, e Ágata descansava do seu pequeno susto, Eduarda sentiu que, pela primeira vez, não precisava mais fugir. A fúria de Emanuel era apenas a outra face do seu amor possessivo, e naquela fazenda, sob o olhar dos pais dele, ela finalmente entendeu que a sua fragilidade tinha encontrado a força que precisava para florescer.

— Vamos voltar — Emanuel disse, beijando o topo da cabeça dela. — Sara vai acordar logo e vai reclamar se não tivermos encomendado o jantar. E eu não quero que ela comece a ensinar a Maya a ser tão mandona quanto ela antes da hora.

Eduarda riu, um som leve que pareceu clarear o resto de tensão que havia no ar.

— Acho que é tarde demais para isso, Emanuel. A Maya já nasceu mandona.

— É — ele sorriu, um sorriso raro e aberto. — Ela é definitivamente uma de nós.

E, caminhando de volta para a casa grande, de mãos dadas com o homem que um dia a apavorou e agora a reivindicava, Eduarda aceitou que a paz não significava a ausência de conflito, mas sim a certeza de que, no final do dia, ela tinha um lugar para onde voltar. Um lugar onde era amada, desejada e, acima de tudo, protegida.

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