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A Menina e a Manteiga: O Caos em Família
A manhã na fazenda amanheceu com aquele brilho dourado que só o interior proporciona, mas dentro da casa grande, o clima era uma mistura de luxo absoluto e caos doméstico. Emanuel, já de pé desde as seis da manhã para conferir os negócios por videoconferência, estava agora sentado na cabeceira da mesa de café da manhã. Ao seu lado, Sara parecia uma visão saída de uma revista de moda, mesmo em ambiente rural. Ela usava um robe de seda rosa choque com plumas nos punhos, e suas unhas longas e impecáveis tamborilavam no tampo de madeira.
— Emanuel, querido, eu vi uma bolsa de edição limitada da Hermès e simplesmente senti que ela tem a minha personalidade — comentou Sara, esticando a perna para que ele pudesse ver a sandália de grife que ela insistia em usar dentro de casa. — Você não acha que eu mereço um presente por ter sido tão compreensiva com essa mudança súbita para o campo?
Emanuel desviou os olhos do tablet e olhou para a mulher loira. Ele sabia que Sara usava a vulgaridade e o consumo como uma forma de marcar território, mas ele também a amava justamente por essa autoconfiança inabalável.
— Compre o que quiser, Sara. Use o cartão black. Se te faz feliz, eu não me importo com o preço — disse ele, inclinando-se para dar um beijo possessivo no pescoço dela, sentindo o perfume doce e forte que ela exalava.
— Você é um homem de bom gosto, meu amor — Sara ronronou, vitoriosa, enquanto já começava a digitar no celular.
Enquanto Emanuel mimava Sara com sua fortuna e atenção, no andar de cima, a atmosfera era bem diferente. Eduarda estava sentada em uma poltrona de amamentação, tentando alimentar Maya. A bebê, que já tinha oito meses e quatro dentinhos frontais afiados como navalhas, estava em um dia particularmente inquieto.
— Vamos, Maya, só mais um pouco... — sussurrou Eduarda, com a voz doce e cansada.
Em um movimento brusco, Maya, irritada por querer explorar o quarto em vez de comer, fechou a mandíbula com força no bico do peito de Eduarda. O grito de dor da jovem professora de ballet ecoou pelo corredor.
— Ai! Maya! Não, meu amor! — Eduarda se encolheu, as lágrimas brotando instantaneamente nos olhos sensíveis. Ela soltou a bebê com cuidado, mas a dor era lancinante. O bico do peito estava latejando, ferido pela mordida certeira da filha.
Maya, longe de parecer arrependida, olhou para a mãe com aqueles olhos escuros e intensos herdados de Emanuel e soltou um gritinho de satisfação, batendo as mãos gordinhas nas pernas.
— Você é igualzinha ao seu pai... impaciente e bruta — murmurou Eduarda, limpando o rosto e tentando ajeitar o sutiã de amamentação com as mãos trêmulas.
Sentindo-se vencida pela energia da filha, Eduarda desceu com ela no colo. Maya logo foi colocada no chão da sala de jantar, onde Ágata já brincava com alguns cubos coloridos sob a supervisão de Helena, a mãe de Emanuel.
— Ela me mordeu de novo, Helena — desabafou Eduarda, sentando-se à mesa com um suspiro, aceitando a xícara de chá que a sogra lhe oferecia.
— O temperamento dessa menina é algo sério — comentou Helena, observando a neta. — Ela tem uma força que não é comum para a idade dela. Emanuel era assim, mas Maya parece ter um fogo extra.
A conversa seguiu por alguns minutos, até que o silêncio se instalou. E, em uma casa com bebês, o silêncio é sempre um sinal de perigo.
Emanuel e Sara tinham saído para o jardim para discutir a reforma de um dos estúdios. Helena e Eduarda, distraídas com o planejamento do batizado, não perceberam que Maya havia decidido que a sala de brinquedos era pequena demais para suas ambições. Com uma agilidade de quem parecia ter molas nos joelhos, Maya engatinhou velozmente em direção à cozinha da fazenda, sendo seguida, como uma sombra fiel, pela pequena e curiosa Ágata.
A cozinha estava vazia, pois as funcionárias estavam na despensa organizando as compras. Maya viu os armários baixos, pintados de um branco imaculado, e seus olhos brilharam. Ela puxou o primeiro puxador. Estava aberto.
— Bu! — exclamou Maya para Ágata, que observava tudo com os olhos arregalados.
O que se seguiu foi uma demolição sistemática. Maya começou a puxar tudo o que alcançava. Potes de plástico voaram pelo chão, colheres de pau foram arremessadas e panos de prato foram arrastados como troféus. Ágata, incentivada pela "irmã", começou a bater as colheres nas panelas, criando uma sinfonia metálica.
No meio da bagunça, Maya encontrou o que considerou o grande prêmio: um pote de manteiga de garrafa, deixado sobre o balcão baixo para amolecer, que acabou caindo no chão com o impacto da abertura das portas. O pote abriu.
Quando Eduarda e Helena entraram na cozinha, atraídas pelo barulho de panelas, a cena era digna de um filme de comédia, ou de terror, dependendo do ponto de vista.
Maya estava sentada no meio de uma poça de manteiga amarela e brilhante. Ela tinha as mãos mergulhadas no pote e o rosto completamente besuntado. O cabelo castanho, que Eduarda sempre tentava manter arrumado, estava grudado na testa com gordura. Maya estava comendo a manteiga pura, com punhados generosos, e, com a generosidade de uma líder, estava tentando enfiar uma mão cheia de manteiga na boca de Ágata.
— Não, Maya! Pelo amor de Deus! — gritou Eduarda, correndo para o meio da gordura, escorregando levemente e quase caindo.
— Minha nossa senhora! — Helena colocou as mãos na cabeça. — Elas destruíram a cozinha em cinco minutos!
Emanuel e Sara entraram logo em seguida, atraídos pelos gritos. Sara parou na porta, olhando para o chão engordurado e para as bebês lambuzadas.
— Gente, que nojo! — Sara exclamou, embora não conseguisse segurar o riso. — Emanuel, olha a sua filha. Ela parece um frango pronto para ir ao forno de tanta gordura.
Emanuel atravessou a cozinha, ignorando a bagunça. Ele pegou Maya pelo tronco, levantando a menina que escorregava entre seus dedos de tão untada.
— Você é uma bagunceira profissional, não é? — Emanuel disse, a voz carregada de uma mistura de irritação e orgulho secreto. — Olha o estado dessa cozinha, Eduarda! Como você deixou isso acontecer?
— Eu estava conversando com a sua mãe! — Eduarda respondeu, tentando limpar Ágata, que agora também estava começando a chorar por causa da confusão. — Ela é rápida demais, Emanuel!
— Ela é um furacão — disse Helena, aproximando-se com uma expressão séria. — Emanuel, essa menina não está normal. É muita agitação, muita força, muita... coisa. Ela precisa de um benzimento.
Emanuel arqueou uma sobrancelha, cético.
— Mãe, por favor, não comece com essas superstições de fazenda. Ela é só uma criança com energia.
— Não é superstição, é proteção — interveio a tia de Emanuel, Zuleica, que acabara de chegar e observava o desastre. — Maya está com o que chamamos de "quebranto". Ela é bonita demais, chama atenção demais. Muita gente olhou para essa menina com cobiça e espanto. O corpo dela está carregado.
Sara, cruzando os braços e ajeitando o cabelo loiro, deu de ombros.
— Olha, eu não acredito muito nessas coisas, mas se tirar essa vontade dela de morder e destruir as coisas, eu sou a primeira a apoiar. Ela quase arrancou um pedaço do bico do peito da Duda hoje.
Emanuel olhou para Eduarda, que parecia exausta e ainda sentia a dor da mordida. O instinto protetor dele falou mais alto.
— Se isso vai acalmar a menina e dar um pouco de paz para a Eduarda, que seja. Mas eu não quero rituais estranhos dentro da minha casa.
— Não será aqui — disse Helena, decidida. — Vamos levar ela na Dona Dita, na vila vizinha. Ela é a melhor benzedeira da região. Zuleica e eu vamos levá-la agora mesmo.
Eduarda olhou para Emanuel, buscando aprovação. Ela era tímida e tinha medo de confrontar a sogra, mas também tinha medo de deixar a filha ir para um lugar desconhecido.
— Vá com elas, Duda — ordenou Emanuel, com firmeza. — Eu fico aqui com a Sara e a Ágata. Aproveite e tome um banho nessa menina antes de sair, ou ela vai escorregar das mãos da benzedeira.
Após um banho demorado que exigiu muito sabão para remover a manteiga, Eduarda, Helena e Zuleica partiram para a vila. A casa de Dona Dita era uma construção simples, cercada por vasos de arruda e guiné. O cheiro de ervas queimadas pairava no ar.
Dona Dita, uma senhora de pele curtida pelo sol e olhos que pareciam enxergar a alma, recebeu o grupo em silêncio. Ela olhou para Maya, que estava estranhamente quieta no colo de Eduarda, observando a velha com uma intensidade incomum.
— Traga a pequena aqui — disse a benzedeira, com uma voz que parecia um sussurro do vento.
Eduarda colocou Maya em um banquinho de madeira. Dona Dita pegou um ramo de arruda e começou a passá-lo ao redor do corpo da bebê, murmurando orações antigas.
— O olho é gordo, mas o sangue é forte — dizia Dona Dita. — Tem muita força acumulada nesse corpinho. Muita herança de quem quer mandar no mundo.
À medida que a benzedeira continuava o ritual, Maya começou a bocejar profundamente. O ramo de arruda, que antes estava verde e viçoso, começou a murchar visivelmente nas mãos da senhora, como se estivesse absorvendo uma carga pesada.
— Pronto — disse Dona Dita, guardando o ramo seco. — Ela vai dormir agora. E você, mãe — ela olhou diretamente para Eduarda —, precisa ser firme. Ela sente a sua doçura e abusa dela. Ela precisa saber que o amor também tem limites.
Eduarda assentiu, sentindo um arrepio percorrer sua espinha.
Na volta para a fazenda, Maya realmente apagou. O sono era pesado e tranquilo, algo que não acontecia há dias.
Quando chegaram, a casa estava mais calma. Emanuel estava na varanda, bebendo um uísque e observando o horizonte. Sara estava deitada em uma espreguiçadeira ao lado dele, lendo uma revista de fofocas e comentando sobre a vida das celebridades.
— E então? — perguntou Emanuel, levantando-se quando viu Eduarda entrar com a bebê adormecida.
— Ela descarregou — respondeu Helena, parecendo satisfeita. — Dona Dita disse que ela tem muita força de vontade, Emanuel. Igual ao pai.
Emanuel pegou a filha do colo de Eduarda. O peso da bebê em seus braços, o cheiro de sabonete infantil misturado com o leve aroma de arruda, fez seu coração amolecer. Ele olhou para Eduarda, vendo o cansaço em seus olhos castanhos.
— Vá descansar, Duda. Eu cuido dela agora — disse ele, o tom de voz suavizando.
— E eu? — perguntou Sara, levantando-se e caminhando até eles, abraçando o braço livre de Emanuel. — Eu também quero atenção. Esse papo de benzedeira me deixou entediada.
Emanuel sorriu, puxando Sara para perto e mantendo Eduarda ao seu lado com um olhar que prometia proteção a ambas.
— Vocês terão toda a atenção do mundo. Mas primeiro, vamos garantir que a nossa pequena terrorista não acorde querendo comer o armário de novo.
— Se ela tentar, eu mesma dou um corretivo nela — brincou Sara, embora todos soubessem que ela era a primeira a mimar as meninas com roupas caras e brinquedos barulhentos.
Eduarda encostou a cabeça no ombro de Emanuel, sentindo a tensão deixar seu corpo. A dinâmica daquela família era estranha, cheia de contrastes entre a vulgaridade luxuosa de Sara e a sua própria timidez delicada, sob o controle absoluto de um homem que não aceitava menos do que tudo. Mas, enquanto caminhavam para dentro da casa, com as bebês finalmente em paz, ela sentiu que, apesar das mordidas e da manteiga espalhada pela cozinha, aquele caos era o seu lar. E, sob a proteção de Emanuel, ela finalmente estava aprendendo a não ter medo das tempestades que a vida, e sua filha, insistiam em criar.