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O Herdeiro do Trono e o Pequeno Usurpador

A mansão no Jardim Europa nunca esteve tão barulhenta, e Emanuel nunca esteve tão perto de um colapso nervoso. O silêncio, que outrora era a marca registrada de sua vida de tatuador renomado e homem de negócios, havia sido substituído por uma cacofonia de risadas agudas, choros de protesto e o som constante de pés pequenos correndo sobre o mármore.

Arthur, agora com um ano de idade, era a materialização de tudo o que Emanuel era, mas sem o filtro da maturidade. O menino era um pequeno furacão castanho, com a mesma mandíbula firme do pai e um olhar que já demonstrava uma determinação assustadora. Ao lado dele, Valentina, a caçula de Sara, completava o quadro com seus sete meses, sendo uma boneca loira que já sabia muito bem como usar o choro para conseguir exatamente o que queria.

Emanuel estava sentado em sua poltrona de couro no escritório, com Arthur empoleirado em seu colo. O menino segurava uma máquina de tatuagem desativada — um presente simbólico que Emanuel insistira em dar — e fingia tatuar o braço do pai com uma seriedade cômica.

— Isso mesmo, campeão. Traço firme — murmurou Emanuel, a voz suavizada pela adoração absoluta que sentia pelo filho. Arthur era sua sombra; onde Emanuel ia, o menino ia atrás, imitando seus passos e sua postura fechada.

A porta se abriu e Sara entrou, deslumbrante em um conjunto de seda verde-esmeralda que deixava claro que ela já havia recuperado seu corpo curvilíneo após o nascimento de Valentina. Atrás dela, Eduarda trazia Maya pela mão. Maya, agora com quase dois anos, mantinha sua doçura, mas seus olhos brilhavam com uma inteligência observadora.

— Emanuel, querido, seu irmão acabou de chegar com o Lucas — anunciou Sara, jogando-se no sofá e retocando o batom. — E prepare o coração, porque o seu sobrinho está em um daqueles dias em que se acha o dono do mundo.

Lucas, um menino loiro de quatro anos com uma energia inesgotável, entrou na sala como um raio. Ele era o sobrinho favorito de Emanuel, o único que tinha permissão para desarrumar os materiais de desenho do tio sem levar uma bronca monumental.

— Tio Emanuel! — gritou Lucas, correndo até o tatuador.

— E aí, garotão? — Emanuel cumprimentou, bagunçando o cabelo do sobrinho enquanto Arthur olhava para o primo com uma ponta de ciúme possessivo, apertando o braço do pai.

Lucas, no entanto, não parou em Emanuel. Ele se virou para Maya, que estava timidamente escondida atrás das pernas de Eduarda. O menino estufou o peito, colocou as mãos nos bolsos da bermuda de grife e deu um sorriso confiante.

— Tio Emanuel, eu tomei uma decisão — disse Lucas, com a solenidade de um adulto. — Eu vou casar com a Maya. Quando eu crescer, ela vai ser minha mulher.

O silêncio que se seguiu foi tão súbito que se podia ouvir o zumbido do ar-condicionado central.

Emanuel congelou. A mão que acariciava a cabeça de Arthur parou no ar. Seus olhos se estreitaram, e uma veia começou a pulsar perigosamente em sua têmpera. O amor que sentia pelo sobrinho foi momentaneamente soterrado por um instinto territorial tão primitivo que ele sentiu o sangue ferver.

— O que foi que você disse, Lucas? — a voz de Emanuel saiu baixa, perigosa, como o rosnado de um predador protegendo a toca.

— Eu vou casar com ela — repetiu Lucas, sem um pingo de medo. — Ela é bonita e a tia Duda disse que ela gosta de dinossauros. Eu tenho muitos dinossauros.

Sara soltou uma gargalhada tão alta que Valentina, no berço portátil ao lado, deu um pulinho.

— Ai, meu Deus! Emanuel, olhe a sua cara! — Sara apontou para o marido, chorando de rir. — O pequeno usurpador acabou de declarar guerra ao rei!

Eduarda, percebendo que Emanuel estava a um passo de ter uma síncope, aproximou-se e colocou a mão no ombro dele.

— Emanuel, calma... ele é só uma criança. É um elogio, ele gosta dela.

— Um elogio? — Emanuel levantou-se, colocando Arthur no chão com cuidado, mas seus olhos nunca deixaram Lucas. — Ele está falando da minha filha. Ninguém vai casar com a Maya. Ninguém. Nem daqui a vinte anos.

— Tio, você tá bravo? — perguntou Lucas, piscando os olhos azuis, genuinamente confuso com a reação do ídolo.

— Bravo é pouco, Lucas — Emanuel respirou fundo, tentando não explodir com uma criança de quatro anos, o que seria patético até para os seus padrões. — A Maya é pequena demais para essas bobagens. Vá brincar com seus carrinhos e esqueça essa história de casamento.

— Mas eu já dei um anel pra ela! — exclamou Lucas, orgulhoso.

Emanuel sentiu a visão escurecer.

— Que anel? Eduarda, que anel é esse?

Maya, com toda a sua inocência, estendeu a mãozinha gorda, onde um anel de plástico de uma máquina de doces brilhava em um tom de neon duvidoso.

— O anel é lindo, papai! — disse Maya, sorrindo para o primo.

Emanuel fechou os olhos e apertou a ponte do nariz. A ideia de que sua filha já estava aceitando "joias" de outros homens, mesmo que fossem sobrinhos de quatro anos, era demais para o seu sistema.

— Sara, tire o Lucas daqui antes que eu o mande de volta para a casa do meu irmão por Sedex 10 — ordenou Emanuel, a voz trêmula de frustração.

— Ah, pare de ser um ogro, Emanuel! — Sara levantou-se, pegando Lucas pela mão. — Venha, pequeno noivo, vamos deixar o seu tio ter o chilique dele em paz. Vamos para a cozinha, as crianças estão com fome.

A menção a comida mudou o foco instantaneamente. Arthur, que estava ocupado tentando morder o pé da mesa, levantou a cabeça.

— Papa! — gritou Arthur, batendo as mãos.

— O que eles querem comer? — perguntou Eduarda, tentando aliviar o clima. — Eu fiz uma sopa de legumes orgânicos hoje cedo...

— Sopa não! — gritou Lucas. — A gente quer hambúrguer! Com batata!

— Hambúgue! — repetiu Arthur, imitando o primo com perfeição, embora mal soubesse o que era um hambúrguer.

— Nada de hambúrguer — sentenciou Emanuel, tentando recuperar o controle da situação. — É gorduroso, faz mal e eles são muito pequenos para isso.

— Ah, qual é, Emanuel? — Sara cruzou os braços, a postura vulgar e desafiadora que ele tanto amava. — É sábado. Deixe as crianças serem crianças. Eu também quero um hambúrguer, com muito bacon e cheddar. E a Duda também quer, não quer, boneca?

Eduarda olhou para Emanuel, depois para os olhinhos brilhantes de Maya e Arthur.

— Bem... um pouquinho não faz mal, não é? Se a gente fizer em casa, de forma mais saudável...

— Não! — Sara interrompeu. — Nada de "saudável". Eu quero aquele da lanchonete nova, o que vem com um balde de batatas fritas.

Emanuel olhou para as três mulheres e as três crianças. Ele era um homem que comandava estúdios de tatuagem pelo mundo, que lidava com milhões de dólares e que tinha uma presença intimidadora em qualquer ambiente. Mas ali, naquela sala, ele percebeu que era o elo mais fraco da corrente.

— Tudo bem — cedeu ele, jogando as mãos para cima. — Peçam os hambúrgueres. Mas se o Arthur tiver dor de barriga à noite, é você quem vai ficar acordada com ele, Sara.

— Com prazer, querido. Eu aproveito e escolho umas joias novas online enquanto ele não dorme — Sara piscou para ele, vitoriosa.

Enquanto Sara e Eduarda saíam para organizar o pedido, Emanuel ficou sozinho no escritório com os dois meninos e Maya. Lucas voltou a se aproximar de Maya, sussurrando algo sobre um Tiranossauro Rex, e a menina riu, uma risada cristalina que aqueceu o coração de Emanuel e, ao mesmo tempo, o fez querer construir um muro de dez metros ao redor da filha.

Arthur, percebendo que o pai estava distraído, agarrou a perna de Emanuel.

— Papai... gá! — pediu o menino, apontando para a máquina de tatuar.

Emanuel pegou o filho no colo, sentindo o peso sólido do seu herdeiro.

— É, Arthur... você vai ter muito trabalho para proteger suas irmãs desses aproveitadores — murmurou Emanuel, lançando um olhar de soslaio para Lucas. — A começar pelo seu primo.

— Eu ouvi isso, tio! — gritou Lucas da porta. — Eu vou ser um bom marido!

Emanuel soltou um suspiro pesado, sentando-se na poltrona com Arthur.

— Você não vai ser nada, seu moleque.

Meia hora depois, a sala de jantar estava um caos controlado. Caixas de hambúrgueres abertas, o cheiro de fritura impregnando as cortinas de seda, e as crianças lambuzadas de ketchup. Sara comia com uma volúpia que só ela possuía, enquanto Eduarda cortava pequenos pedaços de carne para Maya e Arthur, garantindo que eles não se engasgassem.

Emanuel observava a cena de longe, com seu próprio hambúrguer intocado no prato. Ele olhou para Eduarda, tão doce e dedicada, e depois para Sara, tão vibrante e indomável. Ele amava as duas com uma intensidade que beirava a obsessão. E olhou para os filhos, a extensão de tudo o que ele era.

Arthur, com o rosto sujo de molho, olhou para o pai e estendeu uma batata frita.

— Papa, dá!

Emanuel pegou a batata e a comeu, sentindo um sorriso raro surgir em seus lábios.

— Sabe, Emanuel — começou Sara, limpando a boca com um guardanapo de linho —, você reclama, mas essa bagunça é a sua cara. Um tatuador rico com duas mulheres, quatro filhos e um sobrinho que quer roubar a sua filha. Se isso não for um império, eu não sei o que é.

— É um hospício, isso sim — corrigiu Emanuel, embora seus olhos estivessem brilhando.

Eduarda aproximou-se e tocou sua mão.

— É o nosso hospício, Emanuel. E você não trocaria isso por nada no mundo.

— Não trocaria — admitiu ele, apertando a mão de Eduarda e olhando para Sara, que lhe mandou um beijo soprado.

Naquele momento, enquanto Lucas tentava ensinar Maya a comer batata com mostarda e Arthur tentava escalar a cadeira para chegar mais perto do pai, Emanuel aceitou que sua vida nunca mais seria calma. A fúria que sentira mais cedo pelo sobrinho ainda estava lá, guardada em um canto de sua alma protetora, mas o amor que preenchia a sala era maior.

Ele era o rei daquele império disfuncional, e mesmo que tivesse que lidar com pretendentes de quatro anos e rebeliões de hambúrguer, ele faria tudo de novo. Porque no final do dia, sob o teto daquela mansão, ele tinha exatamente o que sempre quis: o controle absoluto de um coração que batia em seis ritmos diferentes, todos sincronizados com o dele.

— Lucas — chamou Emanuel, a voz voltando ao tom firme.

— Oi, tio?

— Se eu vir esse anel de plástico no dedo da Maya amanhã, eu vou tatuar uma aranha na sua testa enquanto você dorme.

Lucas arregalou os olhos e, pela primeira vez, pareceu considerar a ameaça. Sara e Eduarda caíram na risada, e a noite seguiu entre batatas fritas, ameaças vazias de um pai ciumento e a certeza de que, naquela família, o caos era a única regra que todos aceitavam seguir.

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