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O Peso da Coroa e os Primeiros Rivais
A mansão no Jardim Europa pulsava com uma energia nova, uma mistura de expectativa e o perfume caro de flores frescas que Sara insistia em manter em todos os vasos. O anúncio da segunda gravidez de Sara havia caído como uma bomba dourada sobre a família. Se a primeira gestação de Ágata fora um evento, a chegada de Valentina — o nome já fora escolhido por Sara antes mesmo do primeiro ultrassom — prometia ser um espetáculo de extravagância.
Sara, sentada em uma poltrona de veludo com os pés inchados apoiados em um pufe, observava Emanuel terminar de se vestir. Ele estava impecável, como sempre, mas a tensão em seus ombros revelava a preocupação com Ágata. A primogênita de Sara havia acordado com uma febre persistente e uma manha que nem mesmo os brinquedos mais caros conseguiam aplacar.
— Emanuel, querido, pegue a bolsa da Ágata. Aquela da Gucci, a de couro macio, ela gosta de morder a alça quando está irritada — ordenou Sara, ajeitando o vestido justo que já marcava a barriga de quatro meses. A gravidez não a deixara menos vulgar ou menos mandona; pelo contrário, parecia ter ampliado seu senso de direito sobre tudo e todos.
— Já peguei, Sara. O carro está esperando — Emanuel respondeu, a voz profunda e carregada de uma autoridade que ele usava para manter o caos sob controle. Ele caminhou até Eduarda, que estava no canto da sala ajudando Maya a calçar as sapatilhas. — Duda, leve a Maya ao parque. O dia está bonito e ela precisa gastar energia. Eu levo a Sara e a Ágata ao hospital para ver essa febre. Volto logo.
Eduarda levantou-se, a barriga de Arthur já pesando em seus movimentos delicados. Ela sorriu, aquele sorriso doce e sensível que era o contraponto perfeito à agressividade de Sara.
— Fique tranquilo, Emanuel. Vou cuidar da Maya. Espero que a Ágata melhore rápido.
Emanuel inclinou-se e beijou a testa de Eduarda com uma possessividade calma. Depois, olhou para Maya, que o observava com seus grandes olhos castanhos, segurando um coelhinho de pelúcia com uma força que lembrava a dele.
— Comporte-se, pequena fera. Não quero saber de você fugindo da sua mãe — disse ele, com um tom que era metade ordem, metade carinho.
Assim que a caminhonete de Emanuel cruzou os portões, Eduarda suspirou. Ela amava aquela dinâmica, mas a ausência da energia avassaladora de Sara e da presença esmagadora de Emanuel trazia um silêncio necessário.
— Vamos, Maya? Vamos ver os patos? — perguntou Eduarda, pegando a mãozinha da filha.
***
O parque estava cheio de vida. Eduarda sentou-se em um banco sob a sombra de uma paineira, observando Maya correr pela grama. A menina, agora com pouco mais de um ano, exibia uma mistura fascinante da timidez da mãe com a determinação do pai. Ela não se aproximava de outras crianças com facilidade, preferindo observar de longe, mas quando decidia que queria um brinquedo ou um espaço, ninguém a impedia.
Eduarda sentiu Arthur chutar em seu ventre e acariciou a barriga, perdida em pensamentos sobre como seria a vida com quatro crianças naquela mansão — Ágata, Maya, Arthur e, em breve, Valentina. Era um império de bebês.
De repente, ela percebeu que Maya não estava sozinha. Um menino um pouco mais velho, talvez com uns quatro anos, vestindo uma camiseta de super-herói, estava parado diante dela. Eduarda ficou alerta, mas observou em silêncio. O menino estendeu a mão e entregou algo a Maya. A menina pegou o objeto com curiosidade e, para surpresa de Eduarda, abriu um sorriso raro para um estranho.
— Maya, o que é isso, meu amor? — perguntou Eduarda, aproximando-se devagar.
Maya correu até a mãe, triunfante. Nas mãos, ela segurava um pequeno dinossauro de plástico azul e um pedaço de papel dobrado, um pouco amassado e sujo de giz de cera.
— O amiguinho deu — balbuciou Maya, apontando para o menino que agora corria de volta para uma babá que o chamava ao longe.
Eduarda abriu o papel. Era um desenho rudimentar de dois bonecos de palito e um coração torto, com algo escrito em letras garrafais e trêmulas: *"PARA A MENINA BONITA"*.
Eduarda não conseguiu conter um riso baixo. Era o primeiro "pretendente" de sua filha. Ela guardou a cartinha na bolsa, achando a situação adorável e inocente. Mal sabia ela que a reação de Emanuel seria tudo, menos adorável.
***
O final da tarde trouxe Emanuel e Sara de volta. Ágata estava medicada e já dormia no colo da mãe, a febre cedendo. Emanuel parecia exausto, mas seu olhar imediatamente buscou Eduarda e Maya assim que entrou na sala.
— Como foi no parque? — perguntou ele, afrouxando a gravata e sentando-se no sofá pesado.
— Foi ótimo. Maya se divertiu muito — respondeu Eduarda, sentando-se ao lado dele. — Ela até fez um amigo.
Emanuel arqueou uma sobrancelha, o instinto protetor disparando instantaneamente.
— Um amigo? Que tipo de amigo?
Eduarda, sem perceber o perigo, abriu a bolsa e tirou o dinossauro de plástico e a cartinha.
— Um menininho muito fofo deu isso para ela. Veja, ele até escreveu uma cartinha. "Para a menina bonita". Não é uma graça?
O silêncio que se seguiu foi denso. Emanuel pegou o pedaço de papel como se fosse um documento de alta traição. Seus olhos percorreram o desenho do coração e a caligrafia infantil. O rosto dele, geralmente sereno e fechado, contorceu-se em uma expressão de pura irritação.
— Uma graça? — a voz de Emanuel saiu rouca, vibrante de uma fúria contida que fez Eduarda encolher os ombros. — Quem era esse moleque? Onde estava a babá dele? Como ele se aproximou da minha filha sem ninguém impedir?
Sara, que acabara de descer após colocar Ágata no berço, aproximou-se e viu a cartinha sobre a mesa. Ela soltou uma gargalhada alta e estridente, encostando-se no ombro de Emanuel.
— Ora, Emanuel! A nossa Maya já está partindo corações! Olhe só, ela mal saiu das fraldas e já ganha presentes. Ela puxou a mim, com certeza. Homens não resistem a uma mulher decidida.
— Ela tem um ano, Sara! — Emanuel rugiu, levantando-se com o papel na mão. — Ela não tem que ter amigos, muito menos "pretendentes" que dão dinossauros de plástico! Onde está esse brinquedo? Eu vou jogar isso no lixo.
— Emanuel, pare com isso! — disse Eduarda, tentando não rir da reação exagerada dele, embora seu coração estivesse acelerado pela intensidade do marido. — Foi apenas uma criança brincando. Foi um gesto inocente.
— Inocente hoje, um problema amanhã — Emanuel retrucou, andando de um lado para o outro. Ele parecia um leão enjaulado. — Eu pago segurança para essa casa, pago motorista, e você permite que um estranho entregue mensagens para a minha filha no meio do parque? E se fosse um sequestrador? E se fosse um... um aproveitador?
— Um aproveitador de quatro anos, querido? — Sara ironizou, servindo-se de uma taça de água mineral gelada. — Você está sendo ridículo. Mas eu confesso que adoro ver você assim, todo protetor. Fica muito sexy quando está furioso por causa de fraldas e desenhos de giz de cera.
Emanuel parou diante de Eduarda, os olhos escuros brilhando com uma possessividade que ela conhecia bem. Era a mesma expressão que ele tinha quando a encontrou no estúdio de ballet, a mesma expressão que ele usava para marcar seu território sobre ela e Sara.
— Eu não quero saber de meninos perto dela, Eduarda. Entendeu? — ele disse, apontando para o papel. — Amanhã você vai ao parque em um horário diferente. E se aquele moleque aparecer de novo, você o afasta.
Eduarda mordeu o lábio inferior, a vontade de rir lutando contra a sua natureza submissa.
— Emanuel, você está sendo um pouco violento com as palavras... é só uma criança.
— Eu sou o pai dela! — ele exclamou, batendo a mão na mesa, embora com cuidado para não assustar Maya, que brincava no tapete alheia ao drama. — O meu trabalho é proteger o que é meu. E a Maya é minha. Ninguém toca, ninguém dá presente, ninguém escreve coraçãozinho.
Sara aproximou-se e passou a mão pelo peito de Emanuel, sentindo a batida acelerada do coração dele.
— Calma, meu tatuador favorito. Você vai ter um infarto antes da Valentina nascer. Imagine quando forem as três? Ágata, Maya e Valentina... você vai ter que contratar um exército para cercar a escola delas.
Emanuel olhou para Sara, e o pensamento de três filhas sendo perseguidas por "meninos fofos" pareceu drenar a cor de seu rosto por um segundo.
— Eu vou construir um muro — murmurou ele, sentando-se novamente, a irritação ainda pulsando em suas veias.
Eduarda aproximou-se dele e colocou a mão sobre a dele, que ainda apertava a cartinha.
— Emanuel, olhe para mim — pediu ela, com sua voz suave que sempre conseguia furar a armadura dele. — Você ama a Maya. E ela te ama. Ninguém vai tirar o lugar do papai. Mas você precisa relaxar. Ela vai crescer.
— Não se eu puder evitar — ele respondeu, puxando Eduarda para o seu colo, ignorando o peso da barriga dela. Ele a abraçou com força, escondendo o rosto no pescoço dela. — Eu odeio a ideia de não ter controle sobre o que acontece com elas. Eu odeio que o mundo ache que pode tocar no que eu construí.
Sara sentou-se do outro lado, abraçando o braço de Emanuel. A dinâmica estava ali, completa: a força dele, a audácia de Sara e a paz de Eduarda.
— Você não controla o mundo, Emanuel — disse Sara, com uma sinceridade rara. — Mas você controla esta casa. E aqui, nós somos suas. O resto é apenas barulho.
Emanuel respirou fundo, o cheiro de Eduarda e a presença vibrante de Sara acalmando seus nervos. Ele olhou para o dinossauro azul no chão.
— Eu ainda vou jogar esse brinquedo fora — ele avisou.
— Não vai não — disse Eduarda, com uma coragem súbita. — Maya gostou dele. Vai ficar na caixa de brinquedos.
Emanuel olhou para Eduarda, surpreso com a pequena rebelião. Ele viu o brilho divertido nos olhos dela e a expressão de "eu não tenho medo de você" no rosto de Sara.
— Vocês duas estão se unindo contra mim — acusou ele, mas o tom já não era de fúria, e sim de uma resignação cansada.
— Sempre, querido — respondeu Sara, dando um beijo na bochecha dele. — Agora, pare de agir como um senhor de engenho do século passado e vamos jantar. Eu estou grávida, a Valentina está com fome e eu quero comer algo que custe muito caro para compensar o meu estresse no hospital.
Emanuel levantou-se, ajudando Eduarda a ficar de pé. Ele pegou a cartinha de giz de cera e, em vez de rasgá-la, guardou-a na gaveta da mesa de centro, trancando-a.
— Vou guardar isso como evidência — disse ele, seriamente.
Eduarda soltou uma risadinha abafada, cobrindo a boca com a mão.
— Evidência de quê, Emanuel?
— De que eu preciso aumentar a segurança no parque — ele respondeu, saindo da sala com a postura rígida de quem acabara de declarar guerra a todos os meninos de quatro anos da cidade de São Paulo.
Eduarda olhou para Sara, e as duas compartilharam um momento de riso silencioso. Viver com Emanuel era caminhar em uma corda bamba entre o luxo absoluto e a possessividade extrema, mas enquanto caminhavam para a sala de jantar, Eduarda sentiu que, apesar da fúria dele por causa de um dinossauro de plástico, não havia lugar no mundo onde se sentisse mais segura.
Emanuel podia ser um homem difícil, controlador e, às vezes, um pouco violento em suas reações, mas ele era o sol em torno do qual o mundo delas girava. E se ele queria declarar guerra ao jardim de infância para proteger suas filhas, elas estariam lá para rir dele, acalmá-lo e, no final da noite, lembrá-lo de que ele já havia conquistado tudo o que realmente importava.
Afinal, na mansão de Emanuel, o amor era soberano, mesmo que viesse acompanhado de um muro alto e de uma vigilância constante contra cartinhas de giz de cera.