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O Tempero do Sangue e a Fome de Maya

O sol da tarde filtrava-se pelas janelas do SUV blindado, criando padrões de luz sobre o rosto de Eduarda. Ela segurava Maya no colo, sentindo o peso reconfortante da filha, enquanto observava a paisagem urbana dar lugar aos bairros mais arborizados e exclusivos onde a elite de São Paulo se escondia. Ao seu lado, Emanuel mantinha uma mão firme no volante e a outra ocasionalmente buscava a mão de Sara, que ia no banco do carona, retocando o batom vermelho vibrante no espelho do quebra-sol.

— Você está tremendo, Duda — observou Sara, fechando o estojo de maquiagem com um estalo seco. Ela se virou para o banco de trás, os olhos azuis brilhando com uma mistura de diversão e empatia. — Relaxa. Meus sogros são jovens, ativos e, honestamente, muito mais tranquilos que o Emanuel. O Ricardo e a Heloísa vão surtar de alegria. Eles acham que a Ágata é a única neta, imagina quando virem essa bonequinha de porcelana que você fez.

— Eu só... eu nunca imaginei que apresentaria minha filha para a família do pai dela dessa forma — murmurou Eduarda, a voz doce e vacilante. — Meus pais ainda estão processando tudo. Eles são modernos, mas a ideia de eu morar com vocês... com você e o Emanuel... ainda soa como um roteiro de filme para eles.

Emanuel apertou o volante, os nós dos dedos ficando brancos.

— Seus pais entenderão com o tempo, Eduarda. Eu já garanti que eles terão acesso livre à mansão. Mas Maya é minha filha. E você... — Ele fez uma pausa, os olhos encontrando os dela pelo retrovisor, intensos e possessivos. — Você é minha responsabilidade agora. Meus pais precisam saber.

A chegada à casa dos pais de Emanuel foi marcada por uma suntuosidade rústica. Ricardo e Heloísa, ambos na casa dos quarenta anos e exibindo uma vitalidade invejável, já esperavam na varanda. Ricardo tinha a mesma estrutura física imponente de Emanuel, embora seu rosto fosse mais propenso a sorrisos. Heloísa era elegante, com fios prateados discretos em meio ao cabelo castanho, exalando uma aura de acolhimento.

A revelação foi um turbilhão. Houve lágrimas de Heloísa, um abraço apertado de Ricardo em Emanuel e um silêncio atônito que logo se transformou em festa. Eduarda, em sua timidez crônica, sentiu-se pequena, mas a forma como Heloísa a abraçou — sem julgamentos, apenas com gratidão — começou a derreter o gelo em seu peito.

— Uma neta! Outra princesa! — exclamou Ricardo, pegando Maya no colo. A bebê, embora tímida e escondendo o rosto no ombro do avô recém-descoberto, logo começou a observar tudo com seus olhos grandes e curiosos.

A tarde avançou para um almoço tardio. A família de Emanuel tinha raízes fortes e não abria mão de certos prazeres gastronômicos. Na mesa da varanda gourmet, o cheiro de temperos nordestinos e ervas frescas preenchia o ar. O prato principal, um pedido especial de Ricardo, era buchada de bode, preparada com rigor e tradição.

Emanuel sentou-se à cabeceira, com Ágata em uma cadeirinha alta ao seu lado. Eduarda sentou-se à direita dele, mantendo Maya no colo, enquanto Sara, do outro lado, servia-se de vinho e contava piadas sobre a última viagem que fizeram.

O problema começou quando o prato de buchada foi colocado à frente de Emanuel e Ricardo.

Maya, que até então estava distraída brincando com o fecho do vestido de Eduarda, parou subitamente. O narizinho da bebê subiu, farejando o ar. Ela virou o rosto na direção do prato do pai com uma precisão cirúrgica.

— Ela está com fome, Duda? — perguntou Heloísa, sorrindo.

— Eu dei a mamadeira antes de sairmos, mas a Maya é... ativa quando o assunto é comida — respondeu Eduarda, tentando conter a filha que começava a se impulsionar para frente.

Maya não era apenas ativa; ela era determinada. Ao ver Emanuel levar um pedaço da carne temperada à boca, a bebê soltou um ganido de protesto, esticando os bracinhos gordinhos com as mãos abertas, fechando e abrindo os dedos em um sinal claro de "eu quero".

— Ei, mocinha, isso não é para você — disse Emanuel, rindo baixo e afastando o prato para o centro da mesa. — É muito temperado, muito pesado. Você ainda é um brotinho.

Maya não aceitou a negativa. Ela olhou para o prato de Ricardo, que também comia com gosto, e depois voltou para o de Emanuel. Seus olhos se encheram de uma indignação cômica. Ela começou a pular no colo de Eduarda, soltando gritinhos de frustração.

— Emanuel, ela vai pular da minha mão! — avisou Eduarda, tentando segurar a pequena bailarina que parecia ter molas nas pernas.

— Ela é igualzinha a você, Manu — provocou Sara, pegando um pedaço de pão. — Teimosa e com um apetite voraz por tudo o que quer. Deixa a menina provar um tiquinho, não vai matar.

— Nem pensar, Sara. É gorduroso demais — Emanuel foi firme, voltando sua atenção para Ágata, que tentava pegar um brinquedo que caíra no chão.

Foi o erro dele. O momento de distração que Maya precisava.

Com uma agilidade que ninguém esperava de um bebê de oito meses, Maya se desvencilhou do abraço suave de Eduarda e, em um bote certeiro, avançou sobre a mesa. Sua mãozinha gordinha mergulhou direto no prato de Emanuel, agarrando um pedaço de recheio da buchada antes que qualquer um pudesse reagir.

— Maya! — Eduarda gritou, puxando a bebê de volta, mas já era tarde. Maya já estava com a mão na boca, chupando o tempero com uma expressão de triunfo absoluto, os olhos brilhando enquanto o molho sujava seu queixo delicado.

— Porra, ela pegou mesmo! — Emanuel exclamou, metade irritado, metade impressionado, tentando limpar a mão da filha com um guardanapo.

Maya, sentindo o sabor forte e picante, fez uma careta por um segundo, mas logo começou a mastigar o ar, querendo mais. Quando Emanuel tentou limpar sua boca, ela soltou um grito de raiva, fechando as mãos em punho e ficando vermelha. Ela queria a comida "de gente grande". Ela queria o prato do pai.

— Ela vai passar mal, Emanuel! Olha o tempero disso! — Eduarda estava em pânico, sua natureza sensível e protetora entrando em alerta máximo. — Ela é muito pequena para esse tipo de gordura!

— Calma, Duda, ela só lambeu um pouco — Ricardo tentou acalmar, embora estivesse rindo da audácia da neta. — Mas ela é brava, hein? Puxou o sangue do pai.

Emanuel estava tenso, segurando o pulso de Maya com delicadeza, mas firmeza, enquanto a bebê protestava ruidosamente, chutando o ar. A cena era um caos: Ágata começou a chorar pelo barulho, Sara ria alto da situação, e Eduarda sentia as lágrimas de insegurança pinçarem seus olhos.

— Eu vou preparar algo para ela — disse Eduarda, levantando-se apressadamente. — Ela está com fome de verdade, e não vai parar enquanto não comer algo saboroso.

— Eu ajudo você, querida — Heloísa levantou-se prontamente, conduzindo Eduarda para a cozinha moderna e equipada.

Na cozinha, longe do barulho da varanda, Eduarda respirou fundo. Ela se sentia observada, testada, mesmo que Heloísa fosse gentil. Ela precisava focar na filha. Maya tinha um paladar exigente, algo que Eduarda já tinha notado. Ela não gostava de papinhas insossas.

— O que você vai fazer? — perguntou Heloísa, curiosa.

— Ela ama abóbora, mas precisa de substância para esquecer aquela buchada — explicou Eduarda, já se movimentando pela cozinha com uma leveza de bailarina, encontrando os ingredientes com instinto.

Ela começou a cozinhar com rapidez. Enquanto Heloísa picava uma abóbora cabotiá pequena, Eduarda colocou uma porção mínima de macarrão tipo "cabelo de anjo" para cozinhar. Ela amassou a abóbora cozida até virar um creme aveludado, temperando-o apenas com um toque de manjericão fresco e um fio de azeite extra virgem de alta qualidade. Não era apenas uma papinha; era um molho rico, vibrante e cheiroso.

Quando Eduarda voltou para a varanda com a tigela fumegante, o clima estava mais calmo, mas Maya ainda olhava para o prato de Emanuel com rancor infantil. Emanuel mantinha a filha presa em seu colo, tentando distraí-la com um copo de transição com água, mas a bebê o ignorava solenemente.

— Aqui, meu amor. Olha o que a mamãe fez — disse Eduarda, sentando-se à frente deles.

O cheiro do manjericão e da abóbora doce pareceu captar a atenção de Maya. Ela parou de lutar contra os braços de Emanuel e olhou para a tigela. Eduarda soprou a primeira colherada e ofereceu.

Maya abriu a boca como um passarinho faminto. Ao sentir a textura do macarrão envolvido no creme de abóbora, ela soltou um suspiro satisfeito.

— Olha só isso — comentou Sara, observando a cena. — A pequena gourmet foi domada.

Emanuel relaxou os ombros, observando Eduarda alimentar a filha. Havia uma doçura na forma como Eduarda manejava a colher, uma paciência que contrastava com a sua própria rigidez. Ele sentiu uma pontada de algo profundo no peito. Ali estava a mulher que ele desejava proteger, a mulher que trazia uma leveza necessária para a sua vida de sombras e tintas, cuidando da vida que eles haviam criado juntos.

— Ela é esfomeada, Duda. Você precisa ver a Ágata, ela come devagar, parece que está analisando cada grão — disse Emanuel, sua voz suavizando.

— A Maya é intensa — respondeu Eduarda, limpando o canto da boca da bebê. — Ela não gosta de esperar. Ela quer o que vê.

— Igual ao pai — repetiu Heloísa, sentando-se novamente. — Emanuel sempre foi assim. Quando ele queria um brinquedo, ou quando decidiu que seria tatuador... ele não descansava até conseguir.

Emanuel olhou para Sara, que lhe deu um sorriso cúmplice, e depois para Eduarda. O conflito que ele sentia — o desejo de ter as duas, a fúria pela omissão de Eduarda e o amor avassalador pela nova filha — parecia encontrar um equilíbrio momentâneo naquela mesa de família.

Maya terminou o macarrão e, finalmente satisfeita, encostou a cabeça no peito largo de Emanuel. O sono da barriga cheia começou a vencer a pequena guerreira. Emanuel a ajeitou nos braços, sentindo o calor do corpo da filha contra o seu.

— Você cozinha bem — disse ele para Eduarda, o tom de voz carregado de uma intenção que ia além do elogio culinário. — Maya tem sorte.

Eduarda corou, baixando o olhar para a tigela vazia.

— Eu só quero que ela seja feliz, Emanuel.

— Ela será — afirmou ele, com uma autoridade que não admitia réplicas. — Vocês duas serão.

Sara levantou sua taça de vinho, brindando ao ar.

— A uma família nada convencional, mas definitivamente interessante. E ao apetite da Maya, que claramente vai nos dar muito trabalho no futuro.

O restante da tarde passou entre histórias de infância de Emanuel e planos para o batizado das duas meninas. Eduarda, pela primeira vez, permitiu-se apoiar levemente o ombro no braço de Emanuel enquanto observava as filhas — a loirinha Ágata e a morena Maya — dormirem próximas uma da outra no berço portátil que Heloísa mantinha na sala.

O caos da descoberta no hospital ainda ecoava, e a ameaça de Emanuel sobre tirar a guarda de Maya ainda ardia na memória de Eduarda como uma cicatriz fresca. Mas, vendo-o ali, tão devotado e cercado por sua família, ela começou a entender que a violência dele vinha de um lugar de medo de perder o que era seu. E ela, Eduarda, agora fazia parte desse inventário de posses preciosas de Emanuel.

Ela não sabia o que o futuro reservava para aquela configuração de três adultos e duas crianças, mas enquanto o cheiro de abóbora e manjericão ainda pairava no ar e a mão de Emanuel descansava protetoramente sobre a sua, Eduarda sentiu que, talvez, pudesse aprender a dançar conforme aquela nova e complexa música.

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