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O Brilho da Discórdia e o Peso da Posse
O sol de São Paulo refletia-se de forma agressiva nas superfícies de vidro e aço da cobertura de Emanuel. Um ano havia se passado desde aquele encontro fatídico no hospital, e a dinâmica entre eles havia se consolidado em algo tão intenso quanto atípico. A casa agora era preenchida pelo som de passos vacilantes e risadas agudas; Ágata e Maya, com seus doze meses recém-completados, eram o centro gravitacional daquele pequeno universo.
Emanuel, no entanto, não estava em um de seus momentos de serenidade paternal. Ele caminhava de um lado para o outro na sala de estar, o corpo tenso sob a camiseta preta que revelava as tatuagens intrincadas em seus braços. Sara estava sentada no sofá de couro branco, lixando as unhas com uma indiferença calculada, enquanto usava um conjunto de seda que acentuava cada curva de seu corpo siliconado.
— Eu não quero ouvir desculpas, Eduarda! — a voz de Emanuel ressoou pelo ambiente, fria e cortante. — Você sabe exatamente quem é a Verônica. Você sabe que a loja dela é a maior pedra no sapato da Sara.
Eduarda estava parada perto da janela, parecendo ainda mais frágil diante da fúria dele. Ela usava um collant de ballet preto sob uma saia de tule leve, tendo acabado de chegar de um ensaio. O cabelo castanho estava preso em um coque firme, expondo a palidez de seu rosto e a doçura de seus traços que, naquele momento, estavam marcados pela mágoa.
— Eu já disse que não sabia, Emanuel! — Eduarda rebateu, a voz trêmula, mas carregada de uma teimosia que ela só demonstrava quando se sentia injustiçada. — Ela me abordou na saída da faculdade. Foi educada, disse que meu perfil era "angelical" e que seria perfeito para a nova coleção de primavera. Eu fiquei sem jeito, só disse que ia pensar!
— "Pensar" é o mesmo que dar esperança — Emanuel parou na frente dela, a estatura imponente fazendo sombra sobre a jovem. — Você deveria ter negado na hora. Você vive sob o meu teto, você é a mãe da minha filha e você sabe que a Sara é a minha prioridade. Aceitar ser o rosto da concorrência é um tapa na cara da mulher que te acolheu.
Sara soltou um risinho irônico, sem levantar os olhos da unha.
— Deixa de ser dramático, Manu. A Verônica é uma cobra, mas a Duda é sonsa demais para ser espiã dela.
— Não é questão de ser espiã, Sara! — Emanuel virou-se para a esposa, o tom de voz suavizando ligeiramente, mas ainda carregado de irritação. — É questão de lealdade. Eu te dou tudo, minto para o mundo se for preciso para te ver no topo. Não vou admitir que alguém de dentro desta casa ajude a te derrubar.
Emanuel caminhou até Sara, inclinando-se para dar um beijo possessivo em seu pescoço, um gesto de mimo e reafirmação que ele sempre fazia quando queria mostrar quem mandava em seu coração. Sara sorriu, passando a mão pelo cabelo dele, deleitando-se com a atenção exclusiva.
Eduarda sentiu uma pontada de dor no peito. Ela amava Emanuel, amava a proteção que ele oferecia, mas momentos como aquele a lembravam de que, na hierarquia daquele relacionamento, ela ainda era a peça que precisava ser moldada.
— Você está sendo injusto — Eduarda murmurou, cruzando os braços sobre o peito. — Eu nem ia aceitar. Eu só não queria ser grossa. Mas agora, sabe de uma coisa? Talvez eu devesse aceitar. Pelo menos lá eu seria tratada como uma profissional, e não como uma criança que não sabe atravessar a rua.
Emanuel virou-se para ela com uma rapidez predatória. Seus olhos injetados de raiva fixaram-se nos dela.
— Você não vai a lugar nenhum, Eduarda. Você não vai posar para aquela mulher. Eu proíbo.
— Você o quê? — Eduarda deu um passo atrás, a indignação subindo-lhe à face. — Você não é meu dono, Emanuel. Você é o pai da Maya, você é o homem que eu... que eu estou junto, mas você não manda na minha carreira!
— Que carreira? — ele desdenhou, a crueldade da irritação falando mais alto. — Você é uma estudante e professora de ballet de meio período. Eu sustento você. Eu sustento seus pais. Eu dou a vida que você nunca sonhou ter. O mínimo que eu espero é que você não prejudique a Sara.
As lágrimas finalmente transbordaram dos olhos de Eduarda. Ela não era de confrontos, sua natureza era a paz e o afeto, mas a forma como Emanuel a diminuía para enaltecer Sara era um veneno lento.
— Você é um bruto — ela disse, a voz quebrada. — Eu odeio quando você fica assim. Eu odeio como você me trata como se eu fosse descartável sempre que a Sara está envolvida.
Eduarda deu as costas e correu em direção ao corredor, o som de suas sapatilhas de ponta batendo no chão de madeira parecia um eco de sua frustração. Ela entrou no quarto das bebês, onde Maya e Ágata dormiam profundamente após uma manhã de brincadeiras. O cheiro de talco e a respiração calma das filhas eram o seu único refúgio.
Na sala, o silêncio se instalou. Emanuel bufou, sentando-se ao lado de Sara e massageando as têmporas.
— Você pegou pesado, querido — Sara disse, fechando a lixa de unha e sentando-se no colo dele, passando os braços pelo seu pescoço. — A menina é manhosa, você sabe. Ela vai ficar emburrada por dias agora.
— Ela precisa aprender, Sara. Ela é muito ingênua — Emanuel suspirou, enterrando o rosto no decote da esposa, buscando o conforto familiar do perfume dela. — Eu faço tudo por você. Não suporto a ideia de ela ser usada para te atingir.
— Eu sei que você me ama, Manu — Sara ronronou, beijando o topo da cabeça dele. — E eu adoro quando você fica todo protetor e agressivo por minha causa. Mas a Eduarda é útil. Ela cuida das meninas, ela traz essa aura de "família perfeita" que a gente precisa. Não quebre o brinquedo antes da hora.
Emanuel não respondeu. Ele estava irritado, mas uma parte dele, aquela que ele tentava esconder sob a lógica e o controle, sentia o aperto no peito por ter feito Eduarda chorar. Ele a amava de uma forma diferente de Sara — era um amor que despertava seu lado mais instintivo de proteção, enquanto Sara despertava sua ambição e seu fogo.
Ele se levantou, tirando Sara de seu colo com gentileza.
— Vou falar com ela.
— Vá lá, garanhão — Sara riu, recostando-se no sofá e pegando o celular. — Mas não demore. A gente tem aquele jantar com os investidores hoje à noite e eu quero usar aquele colar de diamantes que você me deu.
Emanuel caminhou até o quarto das crianças. A luz estava baixa. Eduarda estava sentada em uma poltrona de amamentação, com Maya nos braços. A bebê havia acordado com o barulho e agora brincava com uma mecha do cabelo da mãe. Eduarda soluçava baixinho, as lágrimas caindo sobre a bochecha da filha.
Ao ver Emanuel na porta, ela virou o rosto, tentando esconder o choro.
— Saia daqui — ela sussurrou.
Emanuel ignorou o pedido. Ele entrou e fechou a porta, aproximando-se com passos lentos. Ele se ajoelhou na frente da poltrona, colocando as mãos sobre os joelhos de Eduarda.
— Duda, olha para mim.
— Não — ela respondeu, a voz carregada de birra e mágoa. — Vá ficar com a sua mulher perfeita. Vá mimar a Sara. Você já disse o que pensa de mim.
Emanuel soltou um suspiro pesado e, com uma mão, forçou delicadamente o queixo dela para que o encarasse.
— Eu fui um idiota com as palavras, eu sei. Mas eu fico cego quando sinto que algo pode ameaçar a estabilidade do que nós temos. A Sara construiu aquela loja do nada, com o meu apoio, sim, mas com o suor dela. A Verônica quer destruir isso.
— E você acha que eu faria isso de propósito? — Eduarda perguntou, os olhos grandes e úmidos fixos nos dele. — Você realmente me conhece tão pouco assim, Emanuel? Eu amo a Sara. Ela me aceitou quando ninguém mais aceitaria. Eu só... eu queria me sentir valorizada por algo que eu faço, e não apenas por ser a "segunda mulher" ou a "mãe da Maya".
Emanuel sentiu uma pontada de culpa. Ele passou o polegar pela bochecha dela, secando uma lágrima.
— Você é muito mais que isso, Eduarda. Você é a minha paz. A Sara é o meu fogo, mas você é o lugar onde eu descanso. Mas você tem que entender o meu lado. Eu sou um homem de negócios, eu vejo ameaças em todo lugar.
— Você vê ameaças até onde não tem — ela rebateu, fazendo um biquinho manhoso que ela sabia que o desarmava. — Eu não ia aceitar, Emanuel. Eu ia falar com você primeiro. Mas você já chegou gritando, me chamando de desleal.
Emanuel puxou a mão dela e beijou os nós dos dedos.
— Me desculpe. Eu vou compensar você. O que você quer? Aquele piano novo que você viu? Uma viagem para ver aquela companhia de ballet em Londres?
Eduarda desviou o olhar, sua teimosia ainda presente.
— Eu não quero presentes, Emanuel. Eu quero que você confie em mim. E quero que pare de me tratar como se eu fosse um problema para a Sara.
— Você nunca será um problema, Duda. Você é a solução para coisas que eu nem sabia que estavam erradas em mim — ele disse, a voz agora rouca e sincera.
Ele se levantou e a puxou para um abraço, tomando cuidado para não apertar Maya entre eles. Eduarda resistiu por alguns segundos, mantendo o corpo rígido, mas logo se entregou ao calor do peito dele, escondendo o rosto em seu pescoço.
— Eu ainda estou brava — ela murmurou contra a pele dele.
— Eu sei que está. E tem todo o direito — Emanuel beijou o topo da cabeça dela. — Mas você vai ligar para aquela mulher amanhã e dizer que não tem interesse. E em troca, eu vou organizar uma exposição para as suas fotos de história da arte na galeria do centro. Algo só seu. Sem o nome da Sara, sem a sombra de ninguém.
Eduarda se afastou um pouco, os olhos brilhando com uma ponta de esperança.
— Você faria isso?
— Eu faço qualquer coisa para manter minhas mulheres felizes — ele afirmou, embora soubesse que a balança sempre pesaria um pouco mais para o lado de Sara. — Agora, coloque a Maya no berço. Temos um jantar e, embora a Sara vá brilhar como sempre, eu quero que você esteja lá, ao meu lado, para me lembrar de que eu tenho o melhor dos dois mundos.
Eduarda assentiu, o coração ainda um pouco apertado, mas a necessidade de proteção e o amor que sentia por aquele homem controlador falavam mais alto. Ela colocou a bebê no berço, deu um beijo na testa de Ágata que dormia ao lado, e seguiu Emanuel para fora do quarto.
Naquela noite, no jantar luxuoso, Emanuel sentou-se entre as duas. De um lado, Sara, exuberante, falando alto, atraindo todos os olhares com seu decote profundo e suas joias caríssimas. Do outro, Eduarda, em um vestido de seda azul marinho, discreta, mas com uma beleza que fazia os homens da mesa pararem de falar sempre que ela abria a boca para comentar sobre arte.
Emanuel sentia o poder fluir por suas veias. Ele tinha a riqueza, tinha o respeito e, acima de tudo, tinha as duas mulheres que preenchiam todas as suas lacunas. Ele apertou a coxa de Sara por baixo da mesa, recebendo um olhar cúmplice e malicioso, enquanto sua outra mão buscava a de Eduarda, apertando-a com uma promessa silenciosa de que, apesar das brigas e da fúria, ele nunca a deixaria ir.
A tensão entre a ambição de Sara e a sensibilidade de Eduarda era a corda bamba onde Emanuel caminhava todos os dias. E, por enquanto, ele era o mestre do equilíbrio, mesmo que o preço fosse o choro escondido de uma e a exigência constante da outra. Para Emanuel, o amor não era uma escolha entre duas pessoas, mas a conquista de ter tudo o que desejava, custasse o que custasse.