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O Refúgio das Sombras e o Despertar do Campo

O ar da fazenda no interior de Minas Gerais tinha um perfume doce de terra molhada e capim fresco, um contraste absoluto com o cheiro metálico de hospital que havia impregnado a alma de Emanuel nos últimos meses. O casarão colonial dos pais dele, Ricardo e Heloísa, erguia-se imponente entre colinas verdejantes, oferecendo o isolamento que ele exigira para a recuperação de Eduarda. O sol da manhã era suave, mas Emanuel ainda agia como se qualquer brisa pudesse quebrar a mulher que ele amava.

Eduarda estava sentada em uma cadeira de balanço na varanda, observando as meninas. Maya e Ágata, agora com um ano e dois meses, eram pequenos furacões de energia. Ágata, com seus cachinhos loiros e o temperamento expansivo de Sara, tentava subir os degraus da varanda com uma determinação cega. Já Maya, com os olhos escuros e profundos de Emanuel, estava em um dia particularmente difícil, agarrada à barra do vestido de linho da mãe, soltando pequenos guinchos de insatisfação.

— Emanuel, eu estou bem, eu juro — disse Eduarda, a voz ainda um pouco mais baixa do que o normal, mas carregada de uma doçura renovada. Ela tentou se levantar para pegar Maya, que começava a choramingar. — Ela só quer um pouco de atenção.

— Sente-se, Eduarda — ordenou Emanuel, saindo de dentro da casa com duas mamadeiras e uma expressão que não admitia contestação. Ele caminhou até ela, colocando a mão em seu ombro com uma firmeza possessiva. — O médico disse que você não deve fazer esforços bruscos. A cicatriz ainda é recente, e eu não vou arriscar sua saúde porque a Maya resolveu fazer birra.

— Ela não está fazendo birra, ela está com saudade — argumentou Eduarda, fazendo um biquinho manhoso que, em outros tempos, faria Emanuel ceder imediatamente. — Ela sente que eu estive longe, Manu.

— E você esteve. Porque eu quase te perdi — ele rebateu, a voz ficando subitamente rouca. O trauma daquela noite no teatro ainda era uma ferida aberta nele, manifestando-se em um controle obsessivo sobre cada passo dela. — Maya, venha cá com o papai. Deixe a mamãe descansar.

Maya, porém, herdara a teimosia do pai. Ao ver a mão de Emanuel se estender para pegá-la, ela se encolheu e soltou um grito agudo, escondendo o rosto nas pernas de Eduarda.

— Tetê! Maman, tetê! — a bebê exigia, puxando o decote do vestido de Eduarda com as mãos gordinhas.

— Ela quer o peito, Emanuel. Ela não vai se acalmar com mamadeira agora — explicou Eduarda, olhando para ele com olhos suplicantes.

— Você está exausta, Duda. Amamentar consome sua energia — ele insistiu, a mandíbula rígida.

— Deixa a menina, Emanuel! — a voz de Sara veio do jardim, onde ela tentava, sem muito sucesso, caminhar de salto agulha pela grama alta, usando um biquíni minúsculo e uma saída de praia transparente que fazia os peões da fazenda desviarem o olhar. — Você está parecendo um carcereiro. Se a Duda quer dar o peito, deixa ela. É melhor do que ouvir esse escândalo.

Sara subiu os degraus, parando ao lado deles. Ela exalava perfume importado e autoconfiança. Apesar do susto com o atentado, Sara havia se tornado a rocha de Emanuel, cuidando da burocracia da vingança enquanto ele se afogava na culpa.

— Olhe para a Ágata, Sara — disse Emanuel, tentando mudar de assunto enquanto Eduarda, aproveitando a distração, pegava Maya no colo e começava a amamentá-la, sentindo o alívio imediato da filha. — Ela vai acabar caindo.

— A Ágata é forte, Manu. Ela tem o meu sangue — Sara deu de ombros, pegando um copo de suco de cima da mesa. — Ela precisa aprender a se virar.

Mal as palavras saíram da boca de Sara, o inevitável aconteceu. Ágata, em sua tentativa audaciosa de alcançar um vaso de flores na beirada da mureta, desequilibrou-se. O pézinho escorregou e ela caiu para trás, batendo com o bumbum e as costas no piso de pedra, soltando um choro estridente de susto e dor.

— ÁGATA! — o grito de Sara cortou o ar da fazenda. A indiferença da loira desapareceu em um microssegundo. Ela largou o copo, que se estilhaçou no chão, e correu em direção à filha, tropeçando nos próprios saltos. — Minha bebê! Ai meu Deus, ela se matou! Emanuel, faz alguma coisa!

Emanuel correu para socorrer a filha, pegando Ágata do chão antes mesmo de Sara chegar. A menina estava vermelha, berrando a plenos pulmões, mas não parecia ter nada grave além de um arranhão no cotovelo e o susto.

— Calma, Sara! Ela está bem. Foi só um tombo — Emanuel tentava acalmar a esposa, que agora estava de joelhos, as mãos trêmulas tocando o rosto da filha.

— Ela está sangrando! Olha o braço dela! — Sara estava histérica, a vulgaridade dando lugar a um desespero materno visceral. — Eu sabia que esse lugar era perigoso! Por que a gente não ficou no apartamento? Lá tem carpete! Heloísa! Traga o antisséptico!

Eduarda, mesmo com Maya mamando, tentou se levantar, preocupada com a pequena Ágata.

— Sara, respira. Ela só ralou o braço — disse Eduarda com suavidade. — Venha aqui, traga ela para perto da Maya. Elas se acalmam juntas.

— Não se mexa, Eduarda! — Emanuel gritou por cima do ombro, a voz autoritária voltando com força. — Fique sentada! Sara, pare de gritar, você está assustando a menina mais ainda.

O caos se instalou na varanda. Ricardo e Heloísa apareceram correndo, seguidos por dois cães da fazenda que começaram a latir. Heloísa pegou Ágata do colo de Emanuel, levando-a para dentro para limpar o arranhão, enquanto Sara a seguia, praguejando contra a "vida no campo" e exigindo que chamassem um helicóptero para levar a menina a um hospital na capital.

Emanuel passou a mão pelo rosto, exausto. Ele voltou-se para Eduarda, que continuava sentada, mantendo Maya protegida em seus braços. A bebê, indiferente ao drama da irmã, continuava mamando com uma determinação voraz, seus olhos fixos nos de Eduarda com uma adoração pura.

— Viu só? — Emanuel disse, aproximando-se de Eduarda e agachando-se na frente dela. — É disso que eu estou falando. O caos acontece em um segundo. Se você estivesse lá embaixo tentando pegar a Ágata, poderia ter se machucado.

— Mas eu não estava lá embaixo, Emanuel. Eu estou aqui — ela respondeu, passando a mão pelo cabelo dele, tentando suavizar as linhas de tensão em sua testa. — Você não pode nos colocar em uma redoma de vidro para sempre.

— Eu quase vi você morrer, Duda — ele suss

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