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O Eco do Chumbo no Tule Branco
A noite em São Paulo tinha um brilho gelado, refletido nas luzes de neon que cortavam a garoa fina. Emanuel estava no auge de sua expansão. Seus estúdios de tatuagem não eram mais apenas locais de arte na pele; eram centros de influência. No entanto, o sucesso trazia sombras, e a sombra mais persistente atendia pelo nome de Ricardo "Cobra" Viana, um antigo rival do submundo dos investimentos que Emanuel havia humilhado em uma negociação de terras meses atrás.
Emanuel, porém, sentia-se intocável. Ele caminhava pelo saguão do teatro municipal após a apresentação de gala de Eduarda. Ela havia sido a estrela da noite, uma visão de leveza e técnica no papel principal de *Giselle*. A plateia ainda ecoava os aplausos.
Ao lado dele, Sara chamava tanta atenção quanto a bailarina no palco. Usando um vestido dourado metálico que parecia esculpido em seu corpo, ela exibia um decote vertiginoso e joias que valiam um apartamento nos Jardins. Ela segurava o braço de Emanuel com uma posse orgulhosa.
— Ela estava divina, Manu — admitiu Sara, a voz rouca pelo champanhe. — Até eu, que não entendo nada dessa chatice de ballet, fiquei hipnotizada. A Duda tem um brilho que irrita de tão puro.
Emanuel sorriu, um gesto raro e genuíno.
— Ela é luz, Sara. E você é o sol. Eu sou apenas o homem sortudo que vive no calor de vocês duas.
Eduarda apareceu logo depois, saindo da área dos camarins. Ela ainda usava o figurino do ato final — um tutu branco imaculado, o rosto com a maquiagem carregada do palco, mas os olhos transbordando a timidez habitual. Ao ver Emanuel e Sara, um sorriso doce iluminou suas feições cansadas. Ela correu para os braços dele, esquecendo as formalidades.
— Emanuel! Você viu? Eu não errei o *grand jeté*! — exclamou ela, escondendo o rosto no peito dele, sentindo o cheiro de perfume caro e tabaco que ele exalava.
— Você foi perfeita, pequena — murmurou Emanuel, beijando o topo da cabeça dela, ignorando os olhares dos críticos ao redor. — Eu nunca tive tanto orgulho de você.
— E eu? Não ganho um abraço da minha co-esposa favorita? — brincou Sara, abrindo os braços.
Eduarda riu, abraçando Sara com cuidado para não se sujar na maquiagem da loira.
— Obrigada por vir, Sara. Eu sei que você prefere festas de arromba a teatros silenciosos.
— Por você, eu aguento até ópera alemã, querida — Sara piscou. — Agora vamos sair daqui. O Manu reservou o *Bistrot* inteiro para nós. Ágata e Maya já estão com a babá na mansão, e eu quero comemorar.
Eles caminharam em direção à saída lateral, onde o SUV blindado de Emanuel os esperava. O segurança particular, Marcos, já estava de prontidão, mas a confiança de Emanuel era sua maior fraqueza naquela noite. Ele estava distraído, olhando para Eduarda, que tagarelava sobre a técnica das outras bailarinas, e para Sara, que conferia o engajamento de suas fotos no Instagram.
O som não foi um estrondo, mas um estalo seco, abafado pelo silenciador.
— Emanuel, cuidado! — o grito de Marcos veio um segundo tarde demais.
Do outro lado da rua, um vulto em uma moto preta disparou três vezes em rápida sucessão. O alvo era Emanuel. O Cobra queria tirar o coração do império. Mas a geometria da tragédia tinha outros planos.
No momento do primeiro disparo, Eduarda havia se inclinado para frente para pegar um buquê de flores que deixara cair. O movimento a colocou exatamente na linha de fogo.
O primeiro projétil atingiu o ombro de Marcos. O segundo, porém, encontrou o alvo mais frágil.
— Duda? — a voz de Emanuel saiu como um sopro, o tempo desacelerando em uma agonia cinematográfica.
Eduarda não gritou. Ela apenas cambaleou para trás, as mãos subindo instintivamente para o peito. O tule branco do seu figurino, antes imaculado, começou a ser tingido por uma mancha escarlate que se espalhava com uma velocidade aterrorizante. Ela olhou para Emanuel, os olhos grandes e expressivos cheios de uma confusão infantil, antes que suas pernas cedessem.
— NÃO! — o rugido de Emanuel rasgou a noite, um som animal, desprovido de qualquer racionalidade.
Ele a pegou antes que ela atingisse o chão. Sara, em um reflexo de puro instinto, jogou-se sobre os dois, tentando usar o próprio corpo como escudo, enquanto Marcos, mesmo ferido, revidava os disparos contra a moto que fugia em alta velocidade.
— Duda, olha para mim! Eduarda! — Emanuel gritava, as mãos grandes tentando estancar o sangue que jorrava do abdômen da jovem. — Fica comigo, porra! Respira!
— Emanuel... — a voz dela era um sussurro trêmulo, quase inaudível. — Está... está frio.
— Não, não está frio, meu amor. Eu estou aqui. Eu te seguro — ele soluçava, a máscara de controle estraçalhada. O homem que comandava estúdios pelo mundo, que intimidava rivais com um olhar, estava agora de joelhos, coberto pelo sangue da mulher que representava sua paz.
Sara estava em choque, mas sua natureza prática assumiu o controle em meio ao pânico. Ela arrancou a própria estola de pele e a pressionou contra o ferimento de Eduarda, ignorando que estava arruinando seu vestido de milhares de dólares.
— Liga para a emergência, Emanuel! Agora! — Sara gritou, sacudindo o ombro do marido. — Não fica aí parado olhando para ela morrer! Reage!
Emanuel parecia em transe, os olhos fixos no rosto pálido de Eduarda. A maquiagem de palco dela agora parecia uma máscara trágica.
— Foi o Cobra... — Emanuel rosnou, a voz vibrando com uma fúria assassina. — Eu vou matar aquele desgraçado. Eu vou queimar o mundo dele.
— Primeiro salve a nossa menina! — Sara berrou, as lágrimas escorrendo pelo rosto, borrando o rímel caro. — Duda, olha para a Sara. Lembra da Maya? A Maya precisa de você. A Ágata precisa de você. Eu preciso de você, sua bailarina teimosa! Não ouse me deixar sozinha com esse ogro!
Eduarda tentou sorrir, mas um fio de sangue escorreu pelo canto de sua boca. Seus olhos começaram a revirar, a consciência esvaindo-se junto com o calor do seu corpo.
— Eu... amo... vocês — ela murmurou, antes que sua cabeça pendesse para o lado.
— EDUARDA! — o grito de Emanuel ecoou pelas colunas de pedra do teatro, uma promessa de guerra e um pedido desesperado de misericórdia ao mesmo tempo.
Os minutos que se seguiram foram um borrão de sirenes, luzes vermelhas e azuis e o cheiro metálico de sangue impregnado no estofado do carro. Emanuel não permitiu que os paramédicos a levassem sozinhos; ele entrou na ambulância, recusando-se a soltar a mão fria de Eduarda. Sara seguiu logo atrás no SUV, dirigindo como uma louca, o rosto marcado por uma expressão que misturava terror e um ódio gélido que ela nunca soube que possuía.
No hospital, o cenário de um ano atrás se repetia, mas com uma gravidade mortal. Emanuel andava pelo corredor da ala de cirurgia, as roupas de grife encharcadas de sangue seco, parecendo um carrasco que acabara de sair de um massacre. Ele não falava. Ele não bebia água. Ele apenas olhava para as portas duplas onde Eduarda estava sendo operada.
Sara estava sentada em um banco próximo, os ombros caídos, segurando o celular com força. Ela já havia ligado para os pais de Eduarda e para a segurança da mansão para garantir que as bebês estivessem sob guarda máxima.
— Emanuel — Sara chamou baixinho.
Ele não respondeu. Seus olhos estavam fixos no nada, a mente traçando cada passo da vingança que ele executaria.
— Emanuel, olhe para mim — ela se levantou e parou na frente dele, forçando-o a focar. — Se ela não sair daquela sala... se a Duda nos deixar...
— Ela não vai — ele a cortou, a voz soando como o atrito de pedras. — Ela não tem permissão para morrer. Ela é minha. E ninguém tira o que é meu.
— O Cobra tentou tirar você de nós — Sara disse, os olhos brilhando com uma frieza que rivalizava com a dele. — Ele errou o alvo. Mas ele acertou o nosso coração.
Emanuel segurou o rosto de Sara com as mãos manchadas.
— Eu vou acabar com ele, Sara. Eu vou fazer com que ele implore pela morte que ele tentou dar à Eduarda.
— Eu sei que vai — Sara colocou as mãos sobre as dele. — E eu vou te ajudar. Mas agora, você precisa rezar para qualquer deus em que você acredite. Porque aquela menina lá dentro é a única coisa que mantém o que restou da sua alma no lugar.
Horas se passaram. O silêncio do hospital era interrompido apenas pelo som rítmico dos passos de Emanuel. Quando o cirurgião finalmente saiu, o rosto exausto, Emanuel e Sara avançaram como um só bloco de tensão.
— Como ela está? — Emanuel perguntou, a voz falhando pela primeira vez.
— Foi um milagre o projétil não ter atingido a coluna — explicou o médico, retirando a máscara. — Mas houve uma hemorragia interna severa. Ela perdeu muito sangue. O estado é crítico, senhor. As próximas vinte e quatro horas serão decisivas. Ela está em coma induzido.
Emanuel sentiu o mundo oscilar. Eduarda, sua doce e manhosa Eduarda, presa a aparelhos, lutando por cada respiração porque ele não fora capaz de protegê-la.
— Eu quero vê-la — ordenou ele.
— Apenas um por vez, e por poucos minutos — o médico cedeu, vendo a periculosidade no olhar do homem à sua frente.
Emanuel entrou na UTI. O som dos monitores era o único ritmo naquele quarto estéril. Eduarda parecia ainda menor naquela cama hospitalar, cercada por tubos e fios. Ele se aproximou, sentando-se ao lado dela e pegando sua mão, que estava pálida e coberta por acessos venosos.
— Duda... — ele sussurrou, a voz quebrada pela agonia. — Me desculpe. Me desculpe por ter trazido você para o meu mundo de sombras. Você deveria estar apenas dançando. Você deveria estar segura.
Ele encostou a testa na mão dela, as lágrimas que ele segurou durante toda a noite finalmente caindo.
— Você precisa voltar. A Maya chamou por você hoje cedo. A Ágata não dorme sem ouvir sua voz. E eu... eu não sou nada sem a sua doçura para equilibrar a minha raiva. Se você voltar, eu juro, Eduarda... eu mudo tudo. Eu te dou a paz que você sempre quis.
Lá fora, Sara observava pela pequena janela de vidro. Ela não sentia ciúmes. O que ela sentia era uma solidariedade profunda e uma dor que a sufocava. Ela amava Emanuel, e sabia que uma parte dele morreria se Eduarda não acordasse. E ela também amava aquela menina castanha que havia trazido uma cor suave para a sua vida de tons neon e excessos.
Sara pegou o celular e discou um número que ela esperava nunca ter que usar.
— Alô? — a voz do outro lado era sombria.
— É a Sara. O Emanuel está ocupado sendo humano — ela disse, a voz firme como aço. — Eu quero a localização do Ricardo Viana. Agora. E não quero que ele chegue vivo ao amanhecer. O Emanuel vai querer o corpo, mas eu quero a alma.
Ela desligou o telefone e voltou a olhar para o quarto. Emanuel ainda estava lá, segurando a mão de Eduarda como se pudesse transferir sua própria vida para ela através do toque.
A noite continuava longa e fria em São Paulo. O destino de Eduarda estava nas mãos da medicina e de sua própria vontade de viver, enquanto o destino daqueles que a feriram estava sendo selado pelo ódio de um homem que não sabia perder e pela lealdade de uma mulher que não conhecia limites.
No quarto escuro, Maya e Ágata dormiam, alheias ao fato de que o mundo de seus pais havia se tornado um campo de batalha banhado em sangue e tule branco. A bailarina, em seu sono profundo, era agora o único ponto de equilíbrio em um triângulo de amor e violência que ameaçava desmoronar a qualquer momento.