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Entre a Pólvora e o Veludo

Emanuel observava Sara com uma atenção que beirava a adoração técnica. Ela estava sentada diante da penteadeira de mármore, espalhando um creme caro sobre o colo, onde o decote generoso de sua camisola de seda terminava. O sol da manhã entrava pelas cortinas de linho, iluminando o loiro platinado de seus cabelos e a curvatura suave de sua barriga de três meses. Ágata estava ali, crescendo em um ambiente de luxo e proteção absoluta.

— Você precisa de mais alguma coisa, Sara? — perguntou Emanuel, aproximando-se e depositando um beijo no ombro dela, sentindo o cheiro de baunilha e produtos de beleza. — Mandei entregarem aquelas joias que você viu no catálogo da Tiffany. Devem chegar à tarde na sua loja.

Sara sorriu, aquele sorriso cheio de dentes e confiança que Emanuel tanto amava. Ela se virou, passando as mãos pelo rosto dele, sentindo a barba por fazer.

— Você me mima demais, querido. Mas eu mereço, não é? Carregar uma herdeira dá trabalho — ela brincou, a voz tingida por aquele tom vulgar e magnético que era sua marca registrada. — E quanto à nossa pequena bailarina? Ela ainda está fugindo de você?

A expressão de Emanuel endureceu levemente.

— Ela é arisca. Tentei abordá-la na faculdade ontem, mas ela saiu praticamente correndo quando me viu estacionar. Eduarda não entende que, quanto mais ela foge, mais eu sinto necessidade de cercá-la.

Sara soltou uma risada curta, ajustando o silicone sob o tecido fino.

— Deixe ela correr um pouco, Emanuel. O cansaço vai trazê-la para os seus braços mais rápido do que a força bruta. Ela é sensível, você disse. Pessoas sensíveis precisam de um porto seguro quando o mundo desaba. E o mundo dela... bem, ele é bem frágil, não é?

Emanuel assentiu, mas o som de passos pesados no corredor interrompeu o momento. A porta do quarto foi aberta sem cerimônia por Ricardo, o pai de Emanuel. O velho estava pálido, com um curativo volumoso sob a camisa de botões, mas seus olhos queimavam com a mesma teimosia que o filho herdara.

— Pai, o que você está fazendo de pé? — Emanuel levantou-se abruptamente, a voz carregada de autoridade e preocupação. — O médico disse repouso absoluto por mais duas semanas. O tiro quase pegou sua artéria!

— Médicos são pagos para serem covardes, Emanuel — rosnou Ricardo, a voz rouca. — Eu não vou ficar trancado nesta casa enquanto aquele desgraçado do Lorenzo respira o mesmo ar que eu. Eu soube que ele voltou de viagem. Ele acha que pode mandar me matar e depois ir jantar com a esposa como se nada tivesse acontecido?

— Ricardo, por favor! — A mãe de Emanuel, Helena, apareceu logo atrás dele, o rosto marcado pela angústia. — Você mal consegue caminhar sem sentir dor. Volte para a cama!

— Saia da frente, Helena! — Ricardo a afastou com um gesto impaciente. — Emanuel, se você não tem estômago para terminar o que ele começou, eu mesmo farei.

Emanuel sentiu a pressão subir. Ele era o controlador, o homem que planejava cada movimento, mas seu pai era uma força da natureza movida a rancor antigo. Antes que Emanuel pudesse impedi-lo, Ricardo já mancava em direção às escadas, ignorando os protestos da esposa.

***

Enquanto isso, do outro lado da cidade, Eduarda caminhava apressada pela calçada arborizada perto de sua casa. O coração dela ainda palpitava toda vez que via um carro preto ou um homem alto de expressão fechada. Emanuel a assombrava. Ela sonhara com ele na noite anterior — um sonho confuso onde as mãos dele, grandes e marcadas por tatuagens, ora a apertavam com violência, ora a conduziam em um passo de dança suave.

Ela estava chegando perto do portão de sua casa quando viu o carro de seu pai, Lorenzo, estacionado. Ele e sua mãe haviam acabado de chegar da viagem. O alívio que ela sentiu foi momentâneo, pois, no segundo seguinte, o som de pneus cantando no asfalto a fez estacar.

Um sedã luxuoso parou bruscamente atrás do carro de Lorenzo. Ricardo desceu, cambaleante, mas com uma fúria que parecia lhe dar forças sobrenaturais.

— LORENZO! — gritou o velho, a voz ecoando pela rua silenciosa.

Lorenzo saiu do carro, a expressão mudando instantaneamente de cansaço para um ódio gélido. Ele viu o curativo no ombro de Ricardo e um sorriso de desdém surgiu em seus lábios.

— Você é mais duro de matar do que eu pensava, seu rato — disse Lorenzo, a voz baixa e perigosa.

Eduarda correu em direção a eles, o terror paralisando sua garganta.

— Pai! O que está acontecendo? — ela gritou, parando a poucos metros dos dois homens.

— Saia daqui, Eduarda! Vá para dentro agora! — ordenou Lorenzo, mas ele não tirava os olhos de Ricardo.

Nesse momento, Emanuel chegou, freando o carro logo atrás. Ele saltou do veículo, vendo a cena de pesadelo se desenrolar. Helena, sua mãe, saiu do banco do passageiro logo em seguida, chorando e implorando para que o marido parasse.

— Pai, chega! Vamos resolver isso de outra forma! — Emanuel tentou se aproximar, mas o cenário escalou rápido demais.

Ricardo, em um movimento rápido e desesperado, sacou uma arma da cintura. Lorenzo, prevendo o gesto, fez o mesmo. Em segundos, os dois inimigos mortais estavam apontando armas um para o outro, a poucos metros de distância.

— Você atirou em mim pelas costas, seu covarde! — gritou Ricardo, a mão tremendo levemente devido à fraqueza física.

— Eu não mandei ninguém atirar em você, Ricardo. Se eu quisesse você morto, eu mesmo teria feito o serviço e você não estaria aqui latindo! — rebateu Lorenzo, o dedo no gatilho.

— MENTIRA! — berrou Helena, desesperada, tentando se colocar entre eles, sendo segurada por Emanuel. — Parem com isso! Vocês vão se matar!

Eduarda estava em choque. Seus olhos grandes e úmidos saltavam de seu pai para o homem que a perseguia nos últimos dias. Ela viu o rosto de Emanuel — ele não parecia mais o predador calmo, mas um homem à beira de perder tudo o que tentava controlar.

— Por favor... — a voz de Eduarda saiu pequena, um fio de som que parecia cortar a tensão. — Pai, não faça isso. Senhor Ricardo, meu pai estava comigo, ele viajou... ele não fez nada...

— Cale a boca, menina! — Ricardo rosnou, a dor do ferimento nublando seu julgamento. — O sangue dos Lorenzo é todo podre!

— Se você encostar um dedo nela, Ricardo, eu te mando para o inferno antes mesmo de você puxar esse gatilho! — Lorenzo avançou um passo, a arma firme.

Emanuel percebeu que a situação estava a um milímetro da tragédia. Ele soltou a mãe e caminhou lentamente para o centro do conflito, as mãos levantadas, tentando ser a voz da razão que seu pai ignorava.

— Abaixem as armas. Agora! — a voz de Emanuel soou como um trovão, autoritária e gélida. — Pai, você está sangrando. O curativo abriu. Se você atirar, ele atira de volta e ninguém sai vivo daqui. Lorenzo, se você ama sua filha, abaixe essa arma. Olhe para ela!

Lorenzo desviou o olhar por uma fração de segundo para Eduarda. Ela estava pálida, tremendo visivelmente, as mãos cobrindo a boca para abafar os soluços. A fragilidade dela era um contraste violento com o aço das armas e o asfalto quente.

— Emanuel, tire seu pai daqui — disse Lorenzo, os dentes cerrados. — Antes que eu mude de ideia.

— Eu não vou a lugar nenhum! — Ricardo tentou dar um passo à frente, mas a dor o traiu. Ele vacilou, a arma pendendo perigosamente.

Emanuel foi mais rápido. Ele envolveu o pai pelos ombros, desarmando-o com uma técnica que mostrava que ele não era apenas um empresário rico, mas alguém treinado para a violência.

— Acabou, pai. Vamos embora — Emanuel disse, a voz firme, embora seus olhos estivessem fixos em Eduarda.

Helena correu para o lado do marido, ajudando Emanuel a levá-lo para o carro. O silêncio que se seguiu foi pesado, quebrado apenas pelos soluços baixos de Eduarda e pela respiração pesada de Lorenzo, que ainda mantinha a arma em punho até que o carro de Emanuel desse a partida.

***

Mais tarde, naquela mesma noite, a mansão de Emanuel estava envolta em uma tensão sombria. Ricardo fora medicado e estava sedado no quarto de hóspedes, sob a vigilância constante de Helena.

Sara estava na sala, bebendo um suco de frutas, observando Emanuel andar de um lado para o outro. Ele parecia um animal enjaulado.

— Foi um desastre, não foi? — comentou Sara, a voz calma, quase desprendida.

— Por pouco eu não perdi meu pai. Ou vi o pai dela morrer na frente dela — Emanuel parou, socando a palma da mão. — Ela estava aterrorizada, Sara. O jeito que ela olhou para mim... como se eu fosse um monstro.

Sara levantou-se e caminhou até ele, envolvendo sua cintura com os braços, ignorando a tensão nos músculos dele.

— Você não é um monstro, Emanuel. Você é o homem que segurou o caos. E agora, mais do que nunca, aquela menina sabe que o mundo dela é perigoso. Ela vai precisar de alguém que a proteja da própria família e da nossa.

— Ela me odeia agora — murmurou ele, fechando os olhos.

— O ódio é vizinho da obsessão, querido — Sara sussurrou no ouvido dele, um sorriso malicioso brincando em seus lábios loiros. — E ela está sozinha agora. O pai dela vai ser o alvo principal a partir de hoje. Se você quer a Eduarda, este é o momento de ser o salvador, não o agressor.

Emanuel abriu os olhos. A lógica de Sara, embora cruel e vulgar aos olhos de outros, fazia todo o sentido para ele. Ele a beijou com força, uma mistura de alívio e desejo renovado.

— Eu vou buscá-la, Sara. Não importa o quanto ela fuja.

— Eu sei que vai — disse ela, acariciando a própria barriga. — E quando ela chegar, eu estarei aqui para recebê-la. Afinal, uma família precisa estar unida, não é?

Enquanto isso, em seu quarto, Eduarda abraçava os joelhos, sentada no chão. A imagem de Emanuel desarmando o pai, a força e o controle que ele demonstrou, não saíam de sua mente. Ela o temia, sim. Mas, no fundo de seu coração sensível e confuso, uma centelha de algo perigoso começava a queimar. Ela sentia que a guerra entre as famílias havia acabado de se tornar pessoal. E que, de alguma forma, o destino dela estava agora irremediavelmente traçado pelas mãos tatuadas do homem que deveria ser seu maior inimigo.

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