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O Sangue das Bailarinas e a Força do Aço

O hospital tinha aquele cheiro estéril de antisséptico e silêncio forçado que Eduarda detestava. Para ela, que vivia entre o aroma de resina das sapatilhas, o suor do esforço físico e a música clássica vibrando nas paredes do estúdio, aquele quarto branco era uma prisão de luxo. Ela estava pálida, as olheiras contrastando com a pele alva, e uma veia azulada saltava em sua mão onde o soro estava conectado. O diagnóstico era simples, mas punitivo: anemia profunda, agravada pelo estresse das últimas semanas e pela rotina exaustiva de ensaios e faculdade.

— Eu não posso ficar aqui! — Eduarda exclamou, sua voz saindo mais fina e manhosa do que ela pretendia. — O quebra-nozes é daqui a três semanas. Se eu perder o ensaio geral de amanhã, a diretora vai dar o meu solo para a Patrícia. Vocês não entendem!

Ela tentou se sentar na cama, mas uma tontura súbita a fez recuar contra os travesseiros. Lorenzo, seu pai, que não saía do lado dela desde o incidente com Ricardo, suspirou pesadamente, passando a mão pelo rosto cansado.

— Filha, você desmaiou no meio da sala de aula. O médico disse que seu ferro está no chão. Se você tentar fazer um grand plié agora, vai acabar no chão de novo, e talvez não acorde tão cedo — disse Lorenzo, tentando manter a voz firme apesar da preocupação que o corroía.

— Eu estou bem! Foi só um mal-estar — ela insistiu, cruzando os braços e fazendo um bico que, em qualquer outra situação, seria adorável. — Eu quero ir embora. Agora!

— Eduarda, chega de pirraça — interveio seu irmão mais velho, que estava encostado na porta. — O papai está certo. E com a guerra que o Emanuel e o velho dele declararam contra nós, o hospital é o lugar mais seguro para você. Aqui tem segurança na porta.

Eduarda bufou, virando o rosto para a janela. Ela sentia falta do movimento, do ar, da sensação de controle sobre seu próprio corpo. Mas, acima de tudo, ela sentia uma inquietação que não sabia explicar. Desde o confronto na frente de sua casa, o rosto de Emanuel não saía de sua mente. O modo como ele a olhou — uma mistura de possessividade e uma proteção quase violenta — a deixava confusa.

Enquanto isso, no corredor do hospital, a atmosfera mudou. O som de passos firmes e o tilintar de joias caras anunciaram a chegada de alguém que definitivamente não pertencia àquela ala pediátrica e de repouso.

Emanuel caminhava com uma expressão gélida, ignorando os olhares dos enfermeiros. Ao seu lado, Sara exalava uma confiança vulgar e magnética. Ela vestia um conjunto de alfaiataria rosa choque, extremamente justo, que realçava seus seios siliconados e a barriga de grávida que começava a dar contornos novos ao seu corpo.

— Tem certeza que quer fazer isso aqui, querido? — Sara perguntou, ajeitando o cabelo loiro platinado. — O pai dela provavelmente vai tentar te dar um tiro no meio da recepção.

— Ele não vai ousar — respondeu Emanuel, a voz rouca de tensão. — Eu soube que ela desmaiou. Ela é frágil demais para esse mundo, Sara. E a culpa é da negligência daquela família.

Eles pararam em frente ao quarto 302. Dois seguranças de Lorenzo barraram o caminho, mas Emanuel apenas arqueou uma sobrancelha, sua presença emanando uma ameaça silenciosa que fez os homens hesitarem.

— Digam ao Lorenzo que Emanuel e Sara estão aqui. E que não viemos para brigar. Viemos ver a Eduarda — ordenou Emanuel.

A porta se abriu e Lorenzo saiu, o rosto vermelho de raiva contida.

— O que você está fazendo aqui, canalha? Já não bastou o show que seu pai deu na minha porta? — Lorenzo rosnou, fechando a porta atrás de si para que Eduarda não visse a cena.

— Viemos trazer um presente para a menina — disse Sara, dando um passo à frente e exibindo um sorriso irônico, balançando uma sacola de uma grife caríssima. — Soubemos que ela está com anemia. Coitadinha... tão novinha e já tão desbotada. Emanuel ficou preocupado.

— Saiam daqui antes que eu chame a polícia — ameaçou Lorenzo.

— Chame — desafiou Emanuel, aproximando-se do inimigo de seu pai. — Mas antes, saiba que eu trouxe os melhores hematologistas do país. Eles estão no andar de baixo esperando minha autorização. Se você ama sua filha, vai deixar que profissionais de verdade cuidem dela, e não esses clínicos de plantão.

Dentro do quarto, Eduarda ouviu o alvoroço. Ela reconheceria aquela voz em qualquer lugar. O tom grave de Emanuel agia sobre seus nervos como uma corda de violino sendo esticada. Ignorando a tontura, ela se arrastou para fora da cama, segurando o suporte do soro como se fosse uma bengala.

— Pai? — ela chamou, abrindo a porta lentamente.

A cena que encontrou a fez parar. Emanuel estava cara a cara com seu pai, uma disputa de testosterona e ódio ancestral. Mas, ao lado dele, estava a mulher loira mais chamativa que Eduarda já vira.

Emanuel virou o rosto no instante em que ouviu a voz dela. Seus olhos percorreram a figura pequena de Eduarda: a camisola de hospital grande demais para seu corpo esguio, o cabelo castanho bagunçado, a palidez doentia. Um instinto de proteção tão forte que beirava a dor física o atingiu.

— Você deveria estar na cama, Eduarda — disse Emanuel, sua voz suavizando instantaneamente, o que fez Lorenzo rosnar de frustração.

— O que você está fazendo aqui? — ela perguntou, a voz trêmula.

— Viemos ver você, querida! — Sara se adiantou, passando por Lorenzo como se ele fosse um móvel invisível. Ela tocou o rosto de Eduarda com unhas longas e perfeitamente pintadas. — Nossa, você é mesmo uma bonequinha de porcelana, não é? Emanuel não exagerou.

Eduarda recuou, confusa com a proximidade daquela mulher que exalava um perfume doce e caro.

— Quem é você?

— Eu sou a Sara. A mulher do Emanuel — ela sorriu, e por um momento, Eduarda viu algo genuíno naquele olhar, uma espécie de simpatia predatória. — E essa aqui na minha barriga é a Ágata. Viemos garantir que você não morra de teimosia.

— Eu não vou morrer! Eu só quero ir para o ensaio! — Eduarda voltou a fazer pirraça, as lágrimas de frustração começando a surgir. — Pai, manda eles irem embora e me tira daqui!

Emanuel deu um passo à frente, ignorando o braço de Lorenzo que tentava detê-lo. Ele parou diante de Eduarda, sua estatura alta fazendo-a ter que olhar muito para cima. Ele estendeu a mão e tocou a testa dela, verificando a temperatura.

— Você não vai a ensaio nenhum — ele decretou, o tom de controle voltando com força. — Você vai ficar aqui, vai tomar o que os médicos mandarem e vai se recuperar. Se você der mais um passo em direção àquela porta, eu compro o seu estúdio de ballet e o fecho apenas para garantir que você descanse.

Eduarda arregalou os olhos, chocada com a audácia.

— Você não pode fazer isso! Você é um... um bruto!

— Eu sou o homem que vai garantir que você não caia no palco e quebre esse seu pescoço delicado — rebateu ele. — Lorenzo, se você tiver um pingo de juízo, vai aceitar os médicos que eu trouxe. Não faça sua filha sofrer por causa da nossa briga.

Lorenzo olhou para a filha, depois para Emanuel. O ódio era palpável, mas o amor pela filha era maior. Ele sabia que os recursos de Emanuel eram infinitos.

— Se eles fizerem qualquer coisa que a deixe desconfortável, eu mato você, Emanuel — Lorenzo cedeu, a voz carregada de derrota.

Emanuel assentiu e, antes de sair, inclinou-se para o ouvido de Eduarda, ignorando os protestos silenciosos de sua família.

— Coma tudo o que trouxerem. Eu vou saber se você desobedecer.

Ele se afastou, e Sara, com um piscar de olhos cúmplice para Eduarda, seguiu o marido.

— Viu só, Emanuel? — Sara disse enquanto caminhavam pelo corredor. — Ela é uma gracinha. Tão teimosa quanto você. Acho que vamos nos divertir muito com ela quando essa poeira baixar.

Emanuel não respondeu, mas sua mente já trabalhava. Ele queria Eduarda. Queria a pureza dela para contrastar com a sua escuridão e a vivacidade de Sara. Ele queria as duas, e a ideia de Sara aceitar aquilo com tanta naturalidade apenas confirmava que ele tinha a parceira perfeita para construir o império de possessão que desejava.

Dentro do quarto, Eduarda voltou para a cama, o coração acelerado. Ela odiava Emanuel. Tinha certeza disso. Mas, enquanto fechava os olhos, a sensação da mão dele em sua testa parecia ser a única coisa que a mantinha ancorada à realidade, impedindo-a de flutuar na fraqueza da anemia.

— Ele é louco — sussurrou ela para si mesma.

— Ele é perigoso, Eduarda — corrigiu seu irmão, fechando a porta. — Fique longe dele.

Mas Eduarda sabia, no fundo de sua alma sensível, que o perigo era justamente o que a estava fazendo sentir-se mais viva do que nunca.

Nos dias que se seguiram, a pirraça de Eduarda diminuiu, substituída por uma melancolia silenciosa. Ela recebia flores todos os dias — lírios brancos de seu pai e rosas vermelhas, sem cartão, que ela sabia pertencerem a Emanuel.

Sara também apareceu uma vez, sem Emanuel, trazendo roupas de seda de sua loja.

— Hospital é um lugar horrível para se vestir — disse Sara, jogando um robe de seda champagne sobre a cama de Eduarda. — Use isso. Vai fazer você se sentir menos como uma paciente e mais como a mulher que está tirando o sono do meu marido.

Eduarda corou violentamente.

— Eu não quero tirar o sono de ninguém. Eu só quero voltar para a minha vida.

— Sua vida antiga acabou no momento em que Emanuel pôs os olhos em você, querida — Sara disse, sentando-se na beira da cama e pegando a mão de Eduarda. — Não tenha medo de nós. Emanuel pode ser um bruto, mas ele protege o que é dele com a própria vida. E eu... bem, eu gosto de coisas bonitas. E você é a coisa mais bonita que eu vi em muito tempo.

— Por que você não se importa? — Eduarda perguntou, a voz quase um sussurro. — Ele é seu marido. Você está grávida.

Sara soltou uma gargalhada genuína, o som preenchendo o quarto estéril.

— Porque eu sou a rainha, Eduarda. E uma rainha não se sente ameaçada por uma princesa. Eu quero que o Emanuel seja feliz, e se a felicidade dele inclui ter você por perto para ele cuidar e proteger, quem sou eu para negar? Além disso, eu acho que você precisa de nós tanto quanto ele precisa de você. Olhe para essa família... todos em guerra, todos querendo te trancar em uma redoma. Conosco, você terá o mundo.

Eduarda ficou em silêncio, processando as palavras de Sara. Era uma lógica distorcida, vulgar e fascinante.

Quando recebeu alta, uma semana depois, Eduarda não foi para casa no carro do pai. Lorenzo teve que ceder quando Emanuel apareceu com uma limusine blindada e uma equipe médica particular para escoltá-la.

— Eu levo ela, Lorenzo. Ela precisa de conforto que seu SUV não oferece — disse Emanuel, irredutível.

Eduarda entrou no carro, sentindo o estofado de couro macio. Emanuel sentou-se ao lado dela, mantendo uma distância respeitosa, mas sua presença preenchia todo o espaço.

— Vou poder voltar para o ballet? — ela perguntou, olhando para as próprias mãos.

— Em duas semanas. Se os exames estiverem perfeitos — ele respondeu, sem olhar para ela. — E eu vou assistir ao seu ensaio.

— Meu pai vai te matar se você aparecer lá.

Emanuel finalmente olhou para ela, um meio sorriso surgindo em seus lábios severos.

— Deixe ele tentar.

Eduarda sentiu um arrepio. Ela sabia que estava entrando em um jogo onde as regras eram escritas por Emanuel e Sara. Ela era a bailarina, e o palco agora era muito maior e mais perigoso do que qualquer teatro que ela já tivesse pisado. A anemia estava curada, mas uma nova forma de tontura, uma causada pela presença avassaladora do homem ao seu lado, estava apenas começando a dominá-la.

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