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O Pacto de Sangue e Herança
O ar na biblioteca da mansão dos Lorenzo estava tão denso que poderia ser cortado com uma faca. O cheiro de tabaco antigo e madeira de carvalho, que costumava trazer conforto a Lorenzo, agora parecia sufocante. Sentado atrás de sua escrivaninha maciça, ele encarava o homem à sua frente com um ódio que fervilhava sob a superfície de uma civilidade forçada.
Emanuel não se movia. Ele estava sentado de forma ereta, as mãos tatuadas descansando sobre os joelhos, a expressão tão ilegível quanto o mármore. Ele não viera com armas, mas sua presença ali, no coração do território inimigo, era a maior declaração de guerra — ou de rendição — que Lorenzo já vira.
— Você tem exatamente cinco minutos antes que eu decida que sua presença aqui é uma violação do nosso acordo de não agressão e chame meus homens — rosnou Lorenzo, a voz rouca.
Emanuel inclinou a cabeça levemente, um gesto de respeito pragmático.
— Eu não vim aqui para falar de territórios, Lorenzo. Nem para discutir o tiro que meu pai levou ou as retaliações que ambos sabemos que estão paradas por um fio. Eu vim falar sobre Eduarda.
Lorenzo levantou-se abruptamente, as mãos espalmadas sobre a mesa.
— Não ouse dizer o nome da minha filha! Você a perseguiu, a cercou no hospital, permitiu que aquela sua mulher entrasse na cabeça dela com conversas distorcidas. O que você quer? Dinheiro? Chantagem?
— Eu quero a Eduarda — disse Emanuel, a voz baixa, firme e desprovida de qualquer hesitação. — E eu não a quero como um troféu de guerra. Eu a quero como minha. Assim como Sara é minha.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Lorenzo piscou, processando a audácia daquela confissão.
— Você está louco. Você tem uma mulher, uma loira que exibe o seu filho na barriga para quem quiser ver. E agora vem à minha casa pedir minha filha? Você quer fazer da Eduarda o quê? Uma amante? Uma distração para quando estiver entediado com a outra?
— Nunca — Emanuel levantou-se também, diminuindo a distância entre eles. — Sara sabe. Sara aceita. Não existem segredos entre nós. Eu amo a Sara, ela é a minha base, a mãe da minha Ágata. Mas Eduarda... Eduarda é a paz que eu não sabia que precisava. Ela é a luz que equilibra a minha escuridão. Eu não vou escondê-la. Ela terá o meu nome, a minha proteção e a minha fortuna, tanto quanto Sara.
Lorenzo soltou uma risada amarga, desprovida de humor.
— Você quer que eu entregue minha filha, uma bailarina, uma estudante de história da arte, para um ninho de cobras? Para viver sob o mesmo teto que a sua mulher siliconada e vulgar? Você acha que eu sou o quê, Emanuel?
— Eu acho que você é um homem prático — respondeu Emanuel, estreitando os olhos. — Você sabe que a nossa guerra está destruindo os negócios. Você sabe que, enquanto estivermos tentando nos matar, outros grupos estão crescendo. A união das nossas famílias através de Eduarda selaria a paz definitiva. Ninguém ousaria tocar nos Lorenzo se soubesse que os filhos de Ricardo estão protegendo o sangue deles.
Lorenzo caminhou até a janela, observando o jardim onde, anos atrás, Eduarda brincava sem preocupações. Ele sabia que Emanuel tinha razão sobre os negócios, mas o preço era a alma de sua filha caçula. No entanto, ele conhecia o brilho nos olhos de Eduarda ultimamente. Ele vira as rosas vermelhas no quarto dela. Vira como ela ficava silenciosa e distraída sempre que o nome de Emanuel era mencionado.
— A Eduarda é ingênua — disse Lorenzo, de costas para Emanuel. — Ela é manhosa, é sensível. Ela não sobreviveria a ser apenas um "estepe" na sua vida. Se a sua Sara se cansar dela, ou se você se cansar da novidade, ela será descartada. E eu não vou permitir que minha filha seja um brinquedo.
Emanuel deu um passo à frente, a intensidade de sua aura quase fazendo Lorenzo se virar.
— Eu não descarto o que é meu.
Lorenzo virou-se lentamente. Ele estudou o rosto de Emanuel, procurando por qualquer sinal de fraqueza ou mentira. O que encontrou foi uma determinação férrea. Um plano começou a se formar na mente do velho patriarca — um teste de fogo, uma garantia que ligaria Emanuel à sua filha de uma forma que nem mesmo a morte poderia separar.
— Você diz que a quer como sua. Que ela terá o seu nome e sua proteção — começou Lorenzo, a voz agora calculista. — Mas palavras são vazias no nosso mundo. Se você quer a Eduarda com a minha bênção, se você quer que eu entregue a joia da minha família para esse seu arranjo doentio, eu exijo uma garantia de sangue.
Emanuel franziu a testa.
— Que tipo de garantia?
— Um filho — declarou Lorenzo, e o impacto da palavra pareceu vibrar nas paredes. — Eu quero que você dê um filho à Eduarda. E quero que seja logo.
Emanuel permaneceu imóvel, mas seus olhos brilharam com uma compreensão imediata.
— Um herdeiro Lorenzo-Ricardo — murmurou Emanuel.
— Exatamente — confirmou Lorenzo, aproximando-se e apontando o dedo para o peito de Emanuel. — Se ela carregar um filho seu, ela não será apenas uma mulher na sua casa. Ela será a mãe de um herdeiro. Isso garante que você nunca poderá abandoná-la. Isso garante que a sua Sara, por mais "compreensiva" que diga ser, terá que respeitar o lugar da minha filha para sempre. Se você quer a Eduarda, Emanuel, você vai plantar a sua semente nela. E esse neto será a ponte sobre o abismo que nos separa.
Emanuel processou a exigência. Era racional. Era prático. Era exatamente o tipo de controle que ele mesmo exerceria se estivesse no lugar de Lorenzo. A ideia de Eduarda, com sua fragilidade e doçura, carregando um filho seu — um contraste perfeito com a Ágata que Sara carregava — trouxe uma onda de calor possessivo ao seu peito.
— Aceito — disse Emanuel, sem hesitar. — Eduarda terá um filho meu. E ele será criado com todo o luxo e poder que o meu nome pode oferecer.
— Então temos um acordo — Lorenzo estendeu a mão, um gesto que selava o destino de sua filha. — Mas saiba de uma coisa: se você falhar com ela, se ela derramar uma lágrima de tristeza por ser negligenciada em favor da outra, eu mesmo termino o que meu pai não conseguiu fazer com o seu.
Emanuel apertou a mão de Lorenzo. O aperto foi forte, um pacto de ferro.
— Ela não terá motivos para chorar.
***
Enquanto o pacto era selado na biblioteca, no andar de cima, Eduarda estava sentada em sua cama, cercada por livros de História da Arte. Ela tentava se concentrar na Renascença Italiana, mas as imagens de Da Vinci e Michelangelo eram constantemente substituídas pela lembrança do toque de Emanuel no hospital.
Ela ouviu o som de um carro saindo e, pouco depois, seu pai entrou no quarto. Lorenzo parecia ter envelhecido dez anos em uma hora, mas havia uma resignação estranha em seus olhos.
— Eduarda, minha pequena... — ele sentou-se ao lado dela, pegando suas mãos delicadas. — O Emanuel esteve aqui.
O coração de Eduarda saltou, uma batida errática que a deixou sem fôlego.
— O que ele queria, papai? Ele... ele veio brigar de novo?
— Não. Ele veio pedir você.
Eduarda sentiu o mundo girar.
— Como assim, me pedir? Ele tem a Sara. Ela está grávida!
— Ele quer as duas, Eduarda. Ele diz que ama as duas de formas diferentes. E a Sara... ela concorda com isso — Lorenzo suspirou, acariciando o cabelo da filha. — Eu resisti. Eu odiei a ideia. Mas eu vi como você olha para as flores que ele manda. Eu vi como você mudou desde que ele invadiu esta casa. Diga-me a verdade, minha filha... você sente algo por ele?
Eduarda baixou o olhar, as bochechas corando em um tom vivo de rosa. Ela era tímida, manhosa, e a verdade era um peso que ela mal conseguia carregar.
— Eu tenho medo dele, papai. Ele é violento, ele é grosso às vezes... mas quando ele me olha, eu sinto que sou a única pessoa no mundo. E a Sara... ela foi tão gentil comigo no hospital. Ela disse que eu seria bem-vinda.
Lorenzo fechou os olhos por um momento. A inocência da filha era sua maior beleza e sua maior fraqueza.
— Eu aceitei, Eduarda. Mas com uma condição. Você vai morar com eles, mas você terá o seu lugar garantido. Você terá um filho dele. Um neto para mim. Você entende o que isso significa?
Eduarda arregalou os olhos, o choque paralisando seus lábios.
— Um bebê? Mas eu... eu ainda estou na faculdade, eu tenho o ballet...
— Você continuará com tudo isso. Emanuel garantiu. Mas o bebê é a sua segurança. É o que impedirá que aquela família te descarte. Se você aceitar ir, se você quiser esse homem, saiba que será para sempre.
Eduarda ficou em silêncio por um longo tempo. Ela pensou na solidão de seus ensaios, na pressão da faculdade e na guerra constante entre as famílias. E depois, pensou nos braços fortes de Emanuel e no sorriso provocador de Sara, que parecia prometer uma liberdade que ela nunca conhecera.
— Eu aceito, papai — sussurrou ela, abraçando o pai.
***
Dois dias depois, a mudança de Eduarda para a mansão de Emanuel foi feita de forma discreta, mas opulenta. Emanuel fizera questão de preparar uma ala inteira para ela, decorada com tons pastéis, um piano de cauda e uma pequena sala de ensaio com espelhos do chão ao teto.
Quando Eduarda chegou, Sara a esperava na entrada, usando um vestido de seda azul marinho que marcava sua barriga agora mais proeminente. Ela sorriu e abriu os braços, envolvendo a bailarina em um abraço perfumado.
— Bem-vinda ao seu novo lar, bonequinha — disse Sara, com uma piscadela. — Emanuel está lá em cima, terminando algumas ligações, mas ele está ansioso. Vamos, vou te mostrar o seu quarto. Temos muito o que conversar sobre a decoração da loja, e eu quero que você me ajude a escolher o enxoval da Ágata.
Eduarda sentiu-se estranhamente acolhida. A vulgaridade de Sara era honesta, desprovida de segundas intenções ocultas. Ela realmente parecia feliz em ter Eduarda ali.
À noite, após um jantar onde a tensão e a curiosidade se misturavam, Sara retirou-se cedo, alegando o cansaço da gravidez, mas deixando um olhar significativo para Emanuel antes de sair da sala.
Emanuel e Eduarda ficaram sozinhos na sala de estar, iluminada apenas pelas chamas da lareira. Ele se aproximou dela, que estava sentada no sofá, encolhida como um pássaro assustado.
— Você está confortável aqui? — perguntou ele, a voz rouca, sentando-se ao lado dela.
— É tudo muito lindo, Emanuel. Mas eu... eu ainda não entendo por que você me quer aqui.
Emanuel estendeu a mão, acariciando o rosto dela com as costas dos dedos. O toque era leve, mas carregado de uma eletricidade que fazia Eduarda tremer.
— Porque você é o que faltava, Eduarda. Eu tenho a força e a inteligência da Sara ao meu lado, mas eu precisava da sua doçura. Eu precisava de algo para proteger, algo que não fosse feito de aço e ambição.
Ele a puxou para perto, e Eduarda não resistiu. Ela encostou a cabeça no peito dele, ouvindo o coração firme de Emanuel bater contra seu ouvido.
— Meu pai me contou sobre o acordo — sussurrou ela, a voz manhosamente tímida. — Sobre o bebê.
Emanuel parou o movimento de sua mão no cabelo dela. Ele a afastou apenas o suficiente para olhar em seus olhos.
— Eu não faria nada que você não quisesse, Eduarda. O acordo com o seu pai é uma formalidade política. Mas, para mim... ter um filho com você seria o selo final da minha posse. Eu quero ver você carregar a minha marca, assim como a Sara carrega.
Eduarda sentiu um calafrio de desejo e medo. Ela olhou para o homem à sua frente — controlador, reservado, mas cujos olhos queimavam com uma necessidade que ela nunca vira em ninguém.
— Eu quero — disse ela, quase num suspiro. — Eu quero ser sua, Emanuel.
Emanuel não esperou mais. Ele a beijou com uma fome que fora contida por meses. O beijo era uma promessa de possessão, de uma vida onde Eduarda seria cuidada e amada, mas também mantida sob o olhar atento de um homem que não aceitava nada menos que a entrega total.
Naquela noite, sob o mesmo teto onde Sara dormia o sono tranquilo da rainha absoluta, Emanuel começou a escrever o novo capítulo da história das famílias Lorenzo e Ricardo. Não com sangue de batalhas, mas com o início de uma nova vida. Eduarda, a bailarina tímida, estava agora no centro de um turbilhão de luxo e desejo, e enquanto Emanuel a tomava em seus braços, ela percebeu que, embora o mundo lá fora continuasse em guerra, dentro daquelas paredes, ela encontrara o seu lugar — entre o aço de Emanuel e o veludo de Sara, no coração de uma dinastia que estava apenas começando.