D
O Caos em Tons de Rosa e Tatuagens
A mansão de Emanuel nunca mais conheceu o silêncio, e ele, o homem que um dia acreditou que o controle absoluto era a chave para a existência, havia aprendido a amar a desordem. Aos vinte e sete anos, ele era o patriarca de uma dinastia improvável, um império construído sobre a rivalidade de dois clãs e o amor compartilhado por duas mulheres opostas.
O sol da manhã entrava pelas enormes janelas de vidro da sala de estar, iluminando o que parecia um campo de batalha de brinquedos educativos e sapatilhas de ballet em miniatura.
— Arthur! Benício! Desçam desse sofá agora! — O comando de Emanuel soou firme, mas havia um cansaço resignado em sua voz.
Os gêmeos de dois anos, cópias fiéis de Emanuel nos traços fortes, mas com a energia caótica dos Lorenzo, ignoraram o pai. Eles saltavam nas almofadas de veludo como se fossem trampolins, soltando gargalhadas que ecoavam pelo pé-direito alto.
— Eles não vão te ouvir, querido — disse Sara, descendo as escadas com a elegância de quem desfilava em uma passarela, apesar da hora matinal. — Eles sabem que você é todo latido e nenhuma mordida com eles.
Sara estava impecável. O cabelo loiro platinado estava preso em um rabo de cavalo alto e perfeito, e o robe de seda vermelha realçava suas curvas que o tempo e a maternidade só pareceram aprimorar. Atrás dela, caminhava Ágata, agora com quase três anos. A menina era a miniatura da mãe: o mesmo queixo erguido, o mesmo olhar de quem sabia que o mundo lhe pertencia.
— Papai, o Arthur pegou minha boneca de novo — reclamou Ágata, cruzando os braços e fazendo um bico soberbo. — Diga a ele que é minha. Ele é um bebê bobo.
— Eu não sou bobo! — gritou Benício, parando de pular apenas para mostrar a língua para a irmã mais velha.
Emanuel suspirou, massageando as têmporas. Ele amava Ágata, mas a personalidade forte da menina, herdada de Sara, exigia uma paciência que ele muitas vezes não tinha. Ela já demonstrava um senso de superioridade que fazia os avós, Ricardo e Lorenzo, babarem de orgulho e preocupação ao mesmo tempo.
— Onde está a Duda? — perguntou Emanuel, buscando o seu porto seguro.
— No estúdio, como sempre — respondeu Sara, servindo-se de um café preto. — Amélie e Maya acordaram manhosas hoje. Acho que sentiram o cheiro da chuva que vem por aí.
Emanuel caminhou em direção à ala leste da casa, onde o estúdio de ballet fora ampliado. Ao abrir a porta, o caos da sala de estar foi substituído por uma música clássica suave e o cheiro doce de talco e lavanda.
Eduarda estava sentada no chão de linóleo, as costas apoiadas na barra de madeira. Ela parecia mais jovem do que seus vinte e dois anos, com o cabelo castanho preso em um coque frouxo e o rosto limpo de qualquer maquiagem. Em seu colo, Amélie e Maya, as outras duas partes dos quadrigêmeos, estavam aninhadas. Ambas eram a imagem da mãe: traços finos, pele de porcelana e uma timidez que as fazia buscar o refúgio do corpo de Eduarda ao menor sinal de estranhos.
— Eles deram trégua? — perguntou Emanuel em voz baixa, aproximando-se com cuidado para não assustar as meninas.
— Maya teve um pesadelo e Amélie só queria o meu colo — sussurrou Eduarda, abrindo um sorriso doce que desarmou instantaneamente a tensão nos ombros de Emanuel. — Os meninos estão dando muito trabalho?
— Arthur tentou escalar a estante de livros e Benício acha que o gato é uma montaria — Emanuel sentou-se ao lado dela, passando o braço pelos seus ombros. — Às vezes eu me pergunto como você consegue ser tão calma com quatro deles de uma vez.
— Eu sou a professora de ballet, lembra? — brincou ela, encostando a cabeça no ombro dele. — Paciência é a primeira lição. Mas confesso que sinto falta de quando eles só dormiam.
O momento de paz foi interrompido pelo som de pés rápidos correndo pelo corredor. A porta do estúdio foi escancarada e os dois "furacões" invadiram o santuário. Arthur e Benício, ao verem Eduarda, ignoraram os brinquedos e as barras de dança.
— Mamãe! — gritaram em uníssono.
Eles se jogaram sobre ela, atropelando as irmãs tímidas. Amélie começou a chorar baixinho, escondendo o rosto no pescoço de Eduarda, enquanto Maya se encolhia.
— Ei, devagar! — Emanuel tentou intervir, pegando Arthur pelo colarinho da camiseta. — Vocês vão machucar as irmãs.
— Queremos o peito! — Benício anunciou com a honestidade brutal de uma criança de dois anos, tentando puxar a alça da blusa de Eduarda.
Eduarda corou levemente, olhando para Emanuel. O desmame estava sendo uma batalha perdida. Os meninos eram possessivos; para eles, o colo de Eduarda era o centro do universo, o único lugar onde o fogo interno que possuíam se transformava em brasa calma.
— Só um pouco, Benício — cedeu Eduarda, ajeitando as meninas para abrir espaço para os meninos.
Emanuel observava a cena com uma mistura de adoração e ciúme protetor. Ele via Eduarda cercada pelos quatro, uma deusa da fertilidade e da paciência, enquanto Sara aparecia na porta, observando tudo com um meio sorriso irônico, segurando a mão de uma Ágata que olhava para os irmãos com desdém.
— É uma cena e tanto, não é? — comentou Sara, encostando-se no batente da porta. — O tatuador mais temido da cidade e a bailarina prodígio, reduzidos a servos de cinco tiranos de fraldas.
— Você não está ajudando, Sara — disse Emanuel, embora houvesse um brilho de riso em seus olhos.
— Eu vim avisar que os "vovôs" estão no portão — Sara revirou os olhos. — Ricardo trouxe um pônei. De novo. E Lorenzo trouxe um conjunto de joias minúsculas para as meninas. Eles não aprendem.
Emanuel levantou-se, bufando.
— Um pônei? No jardim da frente? Eu vou acabar com o meu pai.
— Deixe-os, Emanuel — pediu Eduarda, enquanto Arthur finalmente sossegava em seu colo, sugando com determinação enquanto enrolava uma mecha do cabelo da mãe nos dedos. — É a única forma que eles encontraram de não se matarem. Competir para ver quem mima mais os netos é melhor do que competir para ver quem tem mais armas.
Emanuel saiu para enfrentar os sogros e o pai, deixando as duas mulheres sozinhas por um momento. Sara entrou no estúdio e sentou-se em um banco próximo, observando Eduarda com os quatro bebês.
— Você está exausta, Duda — notou Sara, sua voz perdendo a ironia e assumindo um tom de preocupação genuína. — Suas olheiras estão aparecendo.
— É só uma fase, Sara. Eles estão crescendo rápido demais.
— Amanhã eu vou levar os cinco para a minha loja — decretou Sara. — Vou colocar as meninas para serem minhas modelos de vitrine e os meninos... bem, os meninos eu deixo no depósito com o segurança. Você vai tirar o dia para dormir ou ir ao spa. É uma ordem.
Eduarda sorriu, grata. A dinâmica entre elas era o que mantinha a sanidade de todos. Sara era a força externa, a que lidava com o mundo, com os negócios e com a imagem da família. Eduarda era o coração, a que mantinha o calor e a ternura dentro daquelas paredes de mármore.
— Obrigada, Sara. Eu acho que aceito.
Lá fora, a voz de Ricardo ecoava pelo jardim.
— Lorenzo, seu idiota! Esse colar é pequeno demais, a menina vai engolir! O pônei é um presente muito mais educativo!
— Educativo para quem, Ricardo? Para um estábulo? Minhas netas são delicadas, precisam de ouro, não de estrume! — rebateu Lorenzo.
Emanuel estava entre eles, os braços cruzados sobre o peito tatuado, parecendo pronto para cometer um crime.
— Se esse pônei cagar na minha entrada, eu vou fazer você limpar com a sua gravata de seda, pai — ameaçou Emanuel.
— Ora, deixe de ser rabugento! — Ricardo deu um tapa no ombro do filho. — Cadê a Ágata? Vovô trouxe algo especial para a rainha da casa.
Ágata saiu correndo para o jardim, ignorando as poças de água da chuva que começava a cair. Ela parou diante do pônei, avaliou o animal com um olhar crítico e depois olhou para o avô.
— Ele é marrom, vovô. Eu queria um branco. Como o da Barbie.
Sara, que aparecera na varanda, soltou uma gargalhada alta.
— Viu só, Ricardo? Ela é minha filha. Melhore o estoque na próxima vez.
O almoço de domingo foi, como sempre, um exercício de diplomacia armada. Ricardo e Lorenzo sentaram-se em lados opostos, mas as crianças serviam como mensageiros da paz. Amélie e Maya, tímidas, ficaram no colo de Eduarda o tempo todo, escondendo-se dos barulhos altos dos avós. Já Arthur e Benício transformaram a sala de jantar em uma pista de corrida, sendo perseguidos por Emanuel.
— Eu nunca pensei que veria isso — comentou Helena, a mãe de Emanuel, sentada ao lado da mãe de Eduarda. — Nossos maridos dividindo a mesma mesa sem puxarem uma faca.
— O amor pelos netos é um milagre, Helena — respondeu a outra, sorrindo enquanto limpava o rosto de Maya.
Após o almoço, quando a chuva finalmente caiu com força, a casa mergulhou em uma calmaria rara. Os bebês haviam finalmente dormido, espalhados pelo berçário gigante. Ágata estava no quarto de Sara, assistindo a desenhos em um tablet de última geração.
Emanuel e Eduarda estavam no estúdio de ballet, o único lugar onde o silêncio era absoluto. Ela estava sentada entre as pernas dele, e ele massageava seus pés cansados.
— Você sente falta? — perguntou Emanuel, a voz baixa.
— De quê?
— Da vida antes disso tudo. De quando você só precisava se preocupar com a faculdade e com suas apresentações. De quando não havia pôneis no jardim e quatro bebês pendurados em você.
Eduarda virou-se para olhá-lo. Seus olhos castanhos brilhavam com uma sinceridade que sempre desarmava a racionalidade dele.
— Às vezes eu sinto falta do silêncio — admitiu ela. — Mas aí eu lembro daquela noite no hospital, de quando eu achei que nunca mais veria o seu rosto ou o da Sara. E percebo que eu não trocaria esse barulho por nada no mundo.
Emanuel puxou-a para um beijo lento, um beijo que carregava toda a possessividade que ele sentia por ela, mas também uma gratidão profunda.
— Eu ainda quero as duas — sussurrou ele contra os lábios dela. — Todos os dias.
— E você tem as duas — respondeu Eduarda.
A porta do estúdio se abriu silenciosamente e Sara entrou, carregando duas taças de vinho. Ela sentou-se no chão ao lado deles, entregando uma taça para Emanuel e outra para Eduarda.
— Ágata dormiu. Os furacões também — disse Sara, dando um gole em seu vinho. — Por quanto tempo acham que temos paz?
— Dez minutos? — arriscou Emanuel.
— Eu dou cinco — riu Eduarda.
Eles ficaram ali, os três, unidos por um pacto que ninguém fora daquela casa poderia compreender. Emanuel, o homem que um dia odiara o pai de Eduarda, agora era o guardião da felicidade dela. Sara, a mulher que poderia ter sido destruída pelo ciúme, tornara-se a rocha que sustentava a estrutura familiar. E Eduarda, a bailarina frágil, era a alma que transformara dois clãs inimigos em uma linhagem única.
De repente, um choro alto veio do andar de cima. Era Benício. Segundos depois, o grito de Ágata reclamando que o irmão a acordara.
Emanuel suspirou, levantando-se e estendendo as mãos para as suas duas mulheres.
— O tempo acabou. Vamos voltar para a guerra?
— Com você? — Sara sorriu, aceitando a mão dele e puxando Eduarda junto. — Sempre.
Eles saíram do estúdio, deixando para trás a música clássica e o silêncio. À frente deles, o som do choro, das risadas e da vida real os esperava. E Emanuel, o homem que um dia acreditou ter o controle de tudo, percebeu que a verdadeira felicidade não estava em dominar o caos, mas em ser parte dele, contanto que estivesse cercado pelo loiro platinado de Sara e pela doçura castanha de Eduarda.
A mansão dos Lorenzo-Ricardo estava viva. E, pela primeira vez em gerações, o sangue que corria naqueles corredores não era de ódio, mas de uma promessa de futuro que nenhum tiro ou rivalidade poderia apagar.