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O Labirinto de Sapatilhas e Tatuagens
A mansão de Emanuel, antes um monumento ao luxo minimalista e à ordem controlada, agora parecia o cenário de uma invasão bárbara em tons de pastel. O sol das dez da manhã entrava pelas janelas de vidro do chão ao teto, iluminando o que Emanuel chamava internamente de "campo de batalha". Havia blocos de montar espalhados pelo tapete persa, uma sapatilha de ballet minúscula boiando misteriosamente dentro de um vaso decorativo e o eco constante de risadas agudas que faziam as paredes tremerem.
Emanuel estava parado no centro da sala, os braços cruzados sobre o peito tatuado, observando o caos com uma mistura de exaustão e adoração. Aos vinte e sete anos, ele era o patriarca de uma dinastia que ninguém ousaria prever. Mas, naquele momento, ele não se sentia como o magnata das tatuagens ou o herdeiro temido; ele se sentia apenas como um homem que estava perdendo a disputa pela atenção de sua mulher.
— Arthur! Benício! Desçam desse sofá agora! — O comando de Emanuel soou firme, mas os gêmeos de dois anos, cópias fiéis de seus traços fortes, apenas gargalharam e saltaram mais alto nas almofadas de veludo.
— Eles não vão te ouvir, querido — disse Sara, descendo as escadas com a elegância de quem desfilava em Milão, apesar de estar apenas carregando uma xícara de café. — Eles sentem o seu cheiro de derrota.
Sara estava impecável, como sempre. O cabelo loiro platinado estava preso em um rabo de cavalo alto e perfeito, e o robe de seda vermelha realçava suas curvas que o tempo e a maternidade só pareceram esculpir com mais precisão. Ela parou ao lado de Emanuel, depositando um beijo rápido em seu rosto e observando Ágata, sua filha de três anos, que tentava seriamente ensinar a gata da família a fazer um *grand plié*.
— Onde está a Duda? — Emanuel perguntou, a voz carregada de uma carência que ele raramente admitia.
— No estúdio, tentando acalmar as meninas — respondeu Sara, dando um gole no café. — Amélie e Maya acordaram decididas a não deixar ninguém em paz hoje.
Emanuel caminhou em direção à ala leste da casa, onde o estúdio de ballet fora ampliado para acomodar a nova vida de Eduarda. Ao abrir a porta, o som das risadas dos meninos foi substituído por uma música clássica suave e o aroma doce de talco e lavanda.
Eduarda estava sentada no chão de linóleo, as costas apoiadas na barra de madeira. Ela parecia um anjo exausto. O cabelo castanho estava preso em um coque frouxo, e o rosto limpo de maquiagem revelava as olheiras leves que eram o preço de cuidar de quadrigêmeos. Em seu colo, Amélie e Maya, as outras duas partes do quarteto, estavam aninhadas, choramingando baixinho.
— Elas deram trégua? — perguntou Emanuel, aproximando-se com passos silenciosos para não quebrar o feitiço.
— Maya teve um pesadelo e Amélie só quer o meu contato físico — sussurrou Eduarda, abrindo um sorriso doce que desarmou instantaneamente a irritação de Emanuel. — Os meninos estão dando muito trabalho lá fora?
— Arthur tentou escalar a estante de livros e Benício acha que o gato é um cavalo de guerra — Emanuel sentou-se ao lado dela, sentindo a necessidade física de tocá-la. — Duda, eu não te vi o café da manhã inteiro. Eu mal falei com você ontem à noite.
Eduarda suspirou, encostando a cabeça no ombro dele enquanto tentava equilibrar as duas bebês.
— Eu sei, Emanuel. Mas eles não me dão descanso. Parece que, no momento em que eu sento, um deles decide que o mundo vai acabar se eu não os segurar.
Emanuel passou a mão pelo rosto dela, mas, antes que pudesse dizer qualquer coisa romântica, a porta do estúdio foi escancarada. Arthur e Benício invadiram o recinto como dois pequenos furacões, seguidos por uma Ágata que parecia a supervisora do caos.
— Mamãe! — gritaram os meninos em uníssono, jogando-se sobre as pernas de Eduarda, ignorando completamente o pai.
— Ei, devagar! — Emanuel tentou intervir, pegando Arthur pelo colarinho da camiseta. — Vocês vão machucar as irmãs e a mãe de vocês.
— Queremos o peito! — Benício anunciou com a honestidade brutal de uma criança pequena, puxando a alça da blusa de Eduarda.
Eduarda corou, olhando para Emanuel com um pedido implícito de desculpas. O desmame estava sendo uma batalha perdida; para os meninos, o colo de Eduarda era o centro do universo, o único lugar onde o fogo interno que possuíam se transformava em brasa calma.
— Só um pouco, Benício — cedeu ela, ajeitando as meninas para abrir espaço para os meninos.
Emanuel levantou-se, sentindo uma pontada de frustração. Ele amava seus filhos, mas sentia que Eduarda estava sendo consumida por eles. Ela não era mais apenas a bailarina que o encantava com sua leveza; ela era uma fonte inesgotável de nutrição e conforto que todos, inclusive ele, tentavam drenar ao máximo.
— Sara! — Emanuel chamou, vendo a loira aparecer na porta com um sorriso provocador. — Precisamos de um plano de extração. Agora.
— Eu já chamei os reforços, querido — disse Sara, cruzando os braços. — Os "vovôs" estão no portão.
Emanuel gemeu. "Os vovôs" significava Ricardo e Lorenzo, que agora competiam para ver quem era o avô mais generoso, transformando cada visita em um festival de mimos e discussões sobre quem tinha o sangue mais forte naquelas crianças.
Minutos depois, a sala de estar estava preenchida pelas vozes grossas dos dois patriarcas. Ricardo trouxera um conjunto de carrinhos elétricos que pareciam pequenos Ferraris, enquanto Lorenzo, fiel à sua obsessão pela delicadeza de Eduarda, trouxera vestidos de seda francesa para as meninas e um conjunto de joias minúsculas para Ágata.
— Lorenzo, seu idiota! — gritou Ricardo, já com um copo de uísque na mão. — As meninas precisam de movimento, não de pedras preciosas! Olhe para esses carros, eles têm motores de verdade!
— Meus netos não são pilotos de fuga, Ricardo! — rebateu Lorenzo, ajeitando o terno impecável. — Eles precisam de classe. Algo que o seu lado da família claramente desconhece.
Emanuel estava entre eles, os braços cruzados, parecendo pronto para cometer um crime.
— Se um desses carros bater na minha mesa de centro de mármore, eu vou fazer vocês dois limparem o chão com as gravatas — ameaçou Emanuel.
A confusão dos avós serviu para distrair os quadrigêmeos por tempo suficiente. Sara, com a precisão de um general, organizou as babás para levarem as crianças para o jardim, onde o pônei (outro presente de Ricardo) os esperava.
Emanuel aproveitou a brecha. Ele voltou ao estúdio, onde Eduarda estava finalmente sozinha, tentando alongar os músculos das costas.
— Finalmente — disse ele, fechando a porta e trancando-a.
Eduarda olhou para ele, surpresa.
— Emanuel? O que você está fazendo? Se os meninos perceberem que a porta está trancada, eles vão derrubá-la.
— Deixe que derrubem — disse ele, aproximando-se e puxando-a para cima. — Eu sinto que estou perdendo você para aquele pequeno exército. Eu sou o seu homem, Duda. Eu também preciso de você.
Ele a prensou suavemente contra a barra de ballet, as mãos tatuadas segurando a cintura fina dela com uma possessividade que a fazia estremecer.
— Emanuel, eu estou exausta... — ela começou, mas o beijo dele interrompeu a frase.
Era um beijo faminto, carregado da frustração de dias sendo ignorado em favor de fraldas e mamadeiras. Eduarda, apesar do cansaço, sentiu a centelha de desejo que Emanuel sempre conseguia despertar nela. Suas mãos subiram para o pescoço dele, sentindo a pele quente e marcada.
— Eu te amo — ele sussurrou contra os lábios dela. — Mas eu odeio compartilhar você o tempo todo.
— Eles são seus filhos também — lembrou ela, a voz manhosamente doce.
— Eu sei. E eu vou protegê-los com a minha vida. Mas agora, eu quero a minha bailarina de volta. Só por alguns minutos.
O momento de intimidade foi interrompido por um estrondo na porta.
— PAPAI! MAMÃE! — Era a voz de Arthur, seguida por batidas rítmicas de mãos pequenas na madeira. — O vovô caiu do cavalo!
Emanuel soltou um palavrão baixo, encostando a testa na de Eduarda.
— Eu não tenho um minuto de paz nesta casa.
— É o caos que nós construímos, Emanuel — disse ela, rindo baixinho e ajeitando o coque. — E você sabe que não trocaria isso por nada.
Eles abriram a porta e encontraram a cena digna de uma comédia: Ricardo estava sentado na grama do jardim, rindo enquanto o pônei mastigava a borda de seu paletó caro, enquanto Lorenzo tentava tirar fotos para provar a humilhação do rival. Sara estava na varanda, filmando tudo e gritando instruções para Ágata sobre como montar com postura.
Emanuel olhou para Eduarda, que já corria para acudir o sogro e pegar Maya, que começara a chorar com a confusão. Ele percebeu que a atenção de Eduarda nunca seria exclusiva novamente; ela era o sol daquele sistema solar caótico, e todos eles — os filhos, os pais inimigos, a amante tornada rainha e ele mesmo — orbitavam ao redor dela em busca de luz.
Ele caminhou até a varanda e parou ao lado de Sara.
— Você está feliz, não está? — perguntou Sara, sem tirar os olhos da cena. — Ter esse circo todo sob o seu comando.
— Eu só queria que eles dormissem doze horas seguidas uma vez na vida — admitiu Emanuel, passando o braço pelos ombros de Sara.
— Eles não vão — Sara sorriu, encostando a cabeça no ombro dele. — Eles têm o seu sangue e o fogo dos Lorenzo. Prepare-se, Emanuel. A guerra entre as nossas famílias acabou, mas a guerra pela atenção da Duda está apenas começando.
Emanuel olhou para o jardim, vendo Eduarda rir enquanto Benício tentava colocar uma sapatilha de ballet no pônei. Ele sentiu uma satisfação profunda. O ódio que um dia sentira pelo pai dela parecia uma memória de outra vida. Ali, entre o silicone vulgar de Sara e a doçura de seda de Eduarda, Emanuel encontrara seu império.
— Que venha a guerra, então — murmurou ele, observando sua bailarina brilhar no centro do caos. — Eu não pretendo me render tão cedo.