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O Despertar da Fragilidade e o Brilho das Fúrias

A manhã na mansão de Angra nasceu com um silêncio denso, quase palpável. O sol, agora mais alto, atravessava as frestas das cortinas de veludo, desenhando listras de luz sobre o tapete onde, horas antes, a fúria de Emanuel havia encontrado a entrega absoluta de Eduarda. No centro da cama monumental, Eduarda despertou com um gemido baixo, uma nota de dor que não era emocional, mas puramente física.

Ao tentar se mexer, sentiu um latejar incômodo e ardente entre as pernas. A intensidade da noite anterior, o resgate no mar e a necessidade possessiva de Emanuel de marcar seu território haviam deixado rastros. Ele fora um amante voraz, impulsionado pelo medo e pela adrenalina, e a delicadeza de Eduarda, embora resistente, tinha seus limites físicos.

Emanuel não estava na cama. O lado dele estava frio, indicando que ele já estava de pé, provavelmente lidando com alguma crise em seus estúdios ou simplesmente vigiando o perímetro da casa, como o guardião incansável que era.

Eduarda afastou o lençol e, com dificuldade, sentou-se na beira da cama. Ela olhou para baixo e viu a vermelhidão, o leve inchaço na mucosa sensível que Emanuel tanto adorava venerar. Uma lágrima de manha escorreu por seu rosto. Ela não estava brava; ela amava a forma como ele a dominava, mas a sensação de estar "machucada" a deixava vulnerável, despertando seu lado mais carente.

— Manu... — ela chamou baixinho, a voz rouca.

A porta do banheiro se abriu e Emanuel saiu de lá, já vestido com uma calça escura e uma camiseta que delineava seus ombros largos. Ao ver a expressão de Eduarda e a forma como ela tentava se cobrir, seu semblante mudou instantaneamente. A rigidez do homem de negócios desapareceu, substituída pela preocupação quase obsessiva do protetor.

Ele atravessou o quarto em dois passos e se ajoelhou entre as pernas dela, afastando gentilmente as mãos da morena.

— Deixe-me ver, pequena — a voz dele era um comando suave.

Eduarda abriu as pernas timidamente, o rosto corando enquanto Emanuel examinava o dano que ele mesmo causara. Ele soltou um suspiro pesado, uma mistura de culpa e autopunição.

— Eu te machuquei — constatou ele, os dedos roçando a coxa dela com uma leveza que contrastava com a força da noite anterior. — Eu perdi a mão, Duda. O medo de te perder naquele mar... eu não deveria ter sido tão bruto.

— Eu gostei, Manu... — ela sussurrou, acariciando o cabelo curto dele. — Só que agora está ardendo. Dói para andar.

— Você não vai andar — Emanuel decretou, levantando-se. — Você vai ficar nesta cama. Vou pedir para a governanta preparar um banho de assento com camomila e vou aplicar a pomada que o médico receitou para sensibilidade.

— Mas a Sara disse que as amigas dela vêm hoje — Eduarda lembrou, fazendo um biquinho. — Eu queria ver as roupas que elas trouxeram.

— As amigas da Sara são um bando de hienas barulhentas — Emanuel resmungou, pegando o celular. — E você está em repouso. Se alguma daquelas mulheres loiras e siliconadas chegar perto de você com esse perfume barato, eu as expulso daqui.

Enquanto Emanuel cuidava de Eduarda com uma dedicação quase religiosa, no andar de baixo, a mansão começava a ser invadida. Sara, radiante em um vestido justo que exibia sua barriga de seis meses e seu decote generoso, recebia suas convidadas. Eram três mulheres que pareciam saídas de um catálogo de moda de luxo: loiras, bronzeadas, com lábios preenchidos e risadas estridentes.

— Sara, querida! — exclamou Paola, a mais alta do grupo, abraçando a amiga com cuidado para não amassar o próprio vestido. — Você está enorme! Mas continua divina. Como você aguenta esse isolamento com o Emanuel? Ele é um deus, mas deve ser um carcereiro.

— Ele é o meu carcereiro favorito, Paola — Sara riu, conduzindo-as para a área da piscina. — E não é isolamento, é preservação. Ele está paranoico com a Valentina e com os gêmeos da Duda.

— Ah, a pequena bailarina — comentou outra amiga, Viviane, com um tom levemente ácido. — Ela ainda está aqui? Achei que o Emanuel fosse se cansar dessa fase "doce e pura" rapidinho. Homens como ele gostam de carne, Sara. Gostam de fogo.

Sara parou de caminhar e encarou Viviane. O olhar da loira era frio, a ironia afiada como uma lâmina.

— A Duda não é uma fase, Vivi. Ela é a outra metade desta família. E se você quiser continuar bebendo o meu champanhe, sugiro que guarde seu veneno para as suas rivais de academia. Aqui, nós protegemos o que é nosso.

O clima pesou por um segundo, mas logo as risadas voltaram quando as malas de roupas começaram a ser abertas sobre as espreguiçadeiras. Era um desfile de futilidades caras, exatamente o que Sara precisava para se distrair do enjoo e do peso da barriga.

Lá em cima, Emanuel terminava de aplicar a pomada em Eduarda. O toque dele era clínico, mas carregado de uma ternura possessiva. Ele a vestiu com uma camisola de seda solta e a cobriu com o edredom.

— Fique aqui. Vou buscar algo para você comer. Se precisar de qualquer coisa, aperte o interfone. Não saia dessa cama, Eduarda. É uma ordem.

— Sim, senhor — ela brincou, sentindo-se protegida pelo zelo dele.

Emanuel desceu as escadas com a expressão fechada. Ao passar pela sala e ouvir o alvoroço vindo da piscina, ele parou na porta de vidro. Seu olhar varreu as amigas de Sara com um desprezo mal disfarçado.

— Sara — ele chamou, a voz grave cortando a conversa das mulheres.

— Diga, meu amor — Sara respondeu, levantando-se com dificuldade.

— A Eduarda está indisposta. Ela vai ficar no quarto e não quer visitas. Mantenham o volume dessas risadas em um nível aceitável. Esta é uma casa de repouso, não um clube de strip-tease.

— Credo, Emanuel! — Paola exclamou, fazendo um sinal de cruz com os dedos. — A gente só está comemorando a gravidez da Sara.

— Comemorem em silêncio — Emanuel rebateu, virando as costas e indo em direção à cozinha.

Sara revirou os olhos e sentou-se novamente.

— Ele está com os nervos à flor da pele. A Duda deu um susto nele hoje cedo e agora ele está no modo "cão de guarda".

— O que ela fez? — perguntou Viviane, curiosa.

— Decidiu nadar pelada no mar às seis da manhã — Sara contou, rindo. — O Emanuel quase teve um infarto. Ele a buscou no fundo do oceano e, pelo que ouvi dos gritos lá em cima, a punição foi... intensa.

— Invejável — murmurou Paola, suspirando. — Quem me dera um homem que ficasse louco assim só porque eu nadei um pouco.

Enquanto as mulheres fofocavam, Emanuel preparava uma bandeja para Eduarda. Ele colocou frutas cortadas, iogurte grego e um copo de água gelada. Ele sabia que Sara estava se divertindo, e ele permitia, pois sabia que a loira precisava de sua própria válvula de escape. Mas Eduarda... Eduarda era o seu ponto fraco, a criatura que ele precisava manter sob constante vigilância.

Ao voltar para o quarto, encontrou Eduarda sentada, tentando alcançar um livro na mesa de cabeceira.

— Eu disse para não se mexer! — ele ralhou, colocando a bandeja sobre o colo dela.

— Manu, eu só ia pegar o livro... — ela fez um beicinho, os olhos começando a brilhar. — Você está sendo muito bravo hoje.

Emanuel suspirou, sentando-se na beira da cama e puxando-a para um abraço.

— Eu não estou bravo com você, pequena. Estou bravo comigo mesmo por ter te machucado. E estou estressado com aquelas mulheres lá embaixo. Elas são barulhentas e superficiais.

— A Sara gosta delas — Eduarda defendeu, encostando a cabeça no ombro dele. — Elas trazem notícias do mundo lá fora. A Sara sente falta da loja, Manu. Ela finge que não, mas ela gosta de ser notada.

— Eu noto ela — Emanuel disse, a voz firme. — Eu noto vocês duas o tempo todo. Às vezes, até demais.

Ele a ajudou a comer, um pedaço de fruta por vez. O cuidado dele era quase sufocante, mas para Eduarda, era o oxigênio que ela precisava.

Lá embaixo, Viviane, movida por uma mistura de tédio e malícia, levantou-se.

— Vou ao banheiro, Sara. Já volto.

— Use o do corredor, Vivi. O de hóspedes está em reforma — avisou Sara, distraída com um par de sapatinhos de bebê feitos de cristais.

Viviane, no entanto, não foi ao banheiro. Sua curiosidade sobre a "bailarina protegida" era maior que sua educação. Ela subiu as escadas silenciosamente, o carpete abafando seus passos de salto alto. Ela sabia qual era o quarto principal. Ao chegar à porta entreaberta, ela espiou.

A cena que viu a deixou paralisada. Emanuel, o homem que todos conheciam como o frio e implacável tatuador das estrelas, estava limpando o canto da boca de Eduarda com um guardanapo, falando com ela em um tom de voz tão doce que parecia outra pessoa.

— Dói muito ainda, meu anjo? — ele perguntava, a mão acariciando a barriga dela.

— Só um pouquinho, Manu. Se você me der mais um beijo, passa — Eduarda respondeu, com aquela manha que só ela tinha.

Emanuel inclinou-se e a beijou com uma devoção que fez Viviane sentir uma pontada aguda de inveja. Ela nunca tivera um homem que a olhasse daquela forma.

— O que você pensa que está fazendo aqui? — A voz de Sara soou logo atrás de Viviane, fria como gelo.

Viviane deu um pulo, virando-se para encontrar Sara parada no corredor, os braços cruzados sobre a barriga, os olhos loiros faiscando de fúria.

— Eu... eu me perdi, Sara. A casa é enorme... — Viviane tentou se justificar, mas a mentira era óbvia.

Emanuel ouviu as vozes e levantou-se da cama em um movimento fluido e predatório. Ele abriu a porta completamente, sua presença preenchendo o corredor de forma esmagadora.

— Eu dei uma ordem, não dei? — Emanuel perguntou, a voz baixa e perigosa. — Eu disse que ninguém deveria subir aqui.

— Emanuel, a Vivi só se enganou... — começou Sara, tentando apaziguar, mas ela mesma estava irritada com a intrusão.

— Ela não se enganou — Emanuel disse, dando um passo à frente, fazendo Viviane recuar. — Ela veio bisbilhotar. Ela veio ver a mulher que eu amo em um momento de fragilidade.

— Manu, está tudo bem... — Eduarda chamou de dentro do quarto, a voz trêmula.

— Não está tudo bem, Duda — Emanuel rebateu, sem tirar os olhos de Viviane. — Sara, leve suas amigas embora. Agora. A visita acabou.

— Mas Emanuel, a gente acabou de abrir o champanhe! — Paola gritou lá de baixo, ouvindo a confusão.

— O champanhe acabou — Emanuel rugiu. — Saiam da minha casa antes que eu perca a pouca paciência que me resta. Sara, resolva isso.

Sara suspirou, mas não discutiu. Ela conhecia aquele tom. Ela pegou Viviane pelo braço, apertando com força.

— Vamos, Viviane. Você passou dos limites. Eu te avisei para não mexer com o que é meu.

Sara conduziu as amigas para fora com uma eficiência brutal. Ela não se importava com as aparências; sua lealdade era para com Emanuel e Eduarda. Após as portas se fecharem e o som dos carros se afastar, o silêncio retornou à mansão.

Sara subiu as escadas novamente e entrou no quarto. Emanuel estava sentado na cama, abraçado a Eduarda, que chorava baixinho pelo susto da discussão.

— Elas já foram — Sara anunciou, sentando-se aos pés da cama. — Desculpe por isso, Duda. A Viviane sempre foi uma cobra, eu deveria saber.

— Eu não gosto quando o Manu grita — Eduarda soluçou, escondendo o rosto no peito de Emanuel.

— Eu grito para proteger você, pequena — Emanuel disse, beijando o topo da cabeça dela. — Aquela mulher não tinha o direito de te olhar assim.

— Ela estava com inveja, Duda — Sara disse, com um sorriso triste. — Inveja de que você tem o homem mais protetor do mundo cuidando das suas feridas. Inveja de que nós três somos uma família, algo que elas nunca vão entender.

Emanuel estendeu a mão para Sara, puxando-a para o abraço também. Ali, no meio da tarde, os três se uniram em um casulo de afeto e posse.

— Como está a "ferida de guerra"? — perguntou Sara, tentando aliviar o clima, olhando para a região coberta pelo edredom.

— O Manu passou pomada — Eduarda respondeu, corando. — Mas ele disse que eu não posso andar até amanhã.

— Ele é um exagerado — Sara riu. — Mas, por via das dúvidas, eu vou trazer o jantar para cá. Vamos fazer um piquenique na cama. Valentina, Amélie e Benício merecem uma noite tranquila depois de tanto drama.

Emanuel relaxou os ombros. Ele olhou para as duas mulheres — a loira que desafiava o mundo e a morena que o suavizava. Ele sabia que sua possessividade era seu maior defeito e sua maior virtude. Ele as machucava com seu fogo e as curava com seu gelo.

— Eu amo vocês — Emanuel confessou, uma declaração rara e pesada.

— Nós sabemos, Manu — disse Eduarda, aninhando-se mais.

— Sabemos — confirmou Sara, beijando a mão dele. — Agora, tente não algemar ninguém ou expulsar mais ninguém até o café da manhã, tudo bem? Meu coração de grávida precisa de um pouco de paz.

Emanuel sorriu, um gesto genuíno que iluminou seu rosto cansado. O caos das amigas de Sara havia passado, a dor de Eduarda estava sendo mitigada pelo cuidado, e o futuro, com três bebês a caminho, parecia um desafio que ele estava mais do que pronto para enfrentar. Pois, no fim das contas, não importava quantas armas ele tivesse no arsenal ou quantos segredos guardasse; sua verdadeira força residia naquelas duas vidas que dependiam do seu fôlego para respirar. E ele nunca, jamais, deixaria que o mundo lá fora quebrasse a harmonia perfeita da sua pequena e complicada dinastia.

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