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A Rebeldia das Ondas e o Fogo do Possessivo

O sol ainda não havia rompido totalmente a linha do horizonte, mas o céu de Angra dos Reis já estava tingido por um degradê de lavanda e ouro pálido. O ar matinal era fresco, carregado com o cheiro úmido da mata atlântica e o salitre do oceano. Dentro da mansão, o silêncio era absoluto, interrompido apenas pelo tique-taque ritmado do relógio de pêndulo na sala de jantar.

Eduarda despertou com uma sensação de leveza atípica. Ao seu lado, Emanuel dormia profundamente, um braço pesado jogado sobre o abdômen, a expressão severa de sempre suavizada pelo repouso. Do outro lado da imensa cama, Sara estava enrodilhada em um edredom de seda, a respiração pesada de quem carregava o peso de uma gestação avançada.

A morena sentiu um ímpeto de liberdade. Seus gêmeos, Amélie e Benício, pareciam flutuar tranquilamente dentro dela, dando apenas leves sinais de presença. Com movimentos de bailarina, ela escorregou para fora dos lençóis, evitando qualquer ruído que pudesse alertar o instinto de vigilância de Emanuel, que parecia ter um radar para seus movimentos mesmo durante o sono.

Ela vestiu um biquíni de crochê branco, simples e delicado, que contrastava com sua pele alva e o volume arredondado da barriga de cinco meses. Sem olhar para trás, desceu as escadas de mármore e atravessou o gramado orvalhado até a pequena praia particular. A areia estava fria sob seus pés. O mar, calmo e de um azul profundo, parecia um convite irrecusável.

Eduarda entrou na água devagar. O choque térmico inicial a fez prender o fôlego, mas logo a sensação de flutuar substituiu o peso da gravidade. Ela começou a nadar, afastando-se da margem com braçadas lentas e graciosas, sentindo-se, pela primeira vez em meses, dona do próprio corpo, longe das regras, das vitaminas e da superproteção sufocante de Emanuel.

Lá do alto da varanda do quarto principal, uma silhueta se materializou. Emanuel havia acordado no instante em que o calor do corpo de Eduarda deixou o colchão. Ele saiu para a sacada, ainda de calça de pijama, o peito nu exibindo as tatuagens complexas que contavam a história de sua ascensão. Quando seus olhos encontraram o ponto branco movendo-se no mar, seu sangue ferveu.

— Eduarda! — O grito dele cortou a bruma da manhã como um chicote.

Ela parou de nadar e virou-se, boiando sobre as ondas. Ele parecia um deus enfurecido lá em cima, as mãos apertando o parapeito de pedra com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos.

— Volta agora para a areia! — ordenou ele, a voz carregada daquela autoridade inquestionável que costumava fazer seus subordinados tremerem. — Você perdeu o juízo? A água está fria, você está sozinha e grávida! Volta já!

Eduarda sentiu uma onda de pirraça subir pelo peito. Ela estava cansada de ser tratada como uma boneca de porcelana que poderia quebrar a qualquer momento. Ela queria o mar. Ela queria o risco.

— Não! — gritou ela de volta, a voz doce, mas carregada de uma teimosia que Emanuel raramente via. — A água está maravilhosa, Manu! Deixa de ser chato!

— Eu não estou brincando, Eduarda! — Ele começou a descer as escadas externas da varanda em passos largos e predatórios. — Se você não sair desse mar em trinta segundos, eu vou aí te buscar e você não vai gostar das consequências!

Eduarda riu, um som cristalino que o vento levou até ele. Em vez de nadar para a margem, ela deu um impulso e nadou ainda mais fundo, ultrapassando a linha das boias de segurança da propriedade.

Emanuel chegou à beira da água, os pés afundando na areia úmida. Ele estava possesso. A visão dela se afastando, vulnerável à imensidão do oceano, disparava todos os seus gatilhos de trauma e proteção.

— Eduarda, eu estou te avisando! — Ele rosnou, a voz agora mais baixa, porém muito mais perigosa. — Se eu tiver que entrar aí para te tirar, eu juro por tudo o que é mais sagrado que você não vai conseguir sentar por uma semana. Eu não vou ter pena dessa sua buceta quando chegarmos naquele quarto. Você está me desafiando na frente dos meus filhos?

Eduarda parou. Ela estava longe o suficiente para que ele não pudesse alcançá-la em segundos, mas perto o bastante para ver a chama de desejo e fúria nos olhos dele. A ameaça de Emanuel, em vez de assustá-la, acendeu um fogo diferente em seu ventre. Ela sabia o quanto ele era possessivo, o quanto ele gostava de dominá-la, e ela amava a forma como ele perdia o controle quando ela se tornava manhosa e rebelde.

Lentamente, mantendo o contato visual com ele, Eduarda levou as mãos às laterais do biquíni. Sob a água cristalina, ela desamarrou os laços da calcinha. Com um movimento deliberado e provocante, ela ergueu a peça branca acima da cabeça, balançando-a como uma bandeira de rendição falsa, antes de soltá-la para que o mar a levasse.

— Vem buscar, Manu — desafiou ela, com um sorriso travesso.

Sem esperar resposta, ela mergulhou, nadando ainda mais para o fundo, sentindo a água acariciar sua intimidade nua, uma sensação de liberdade absoluta e perigosa.

Emanuel sentiu o impacto daquela provocação como um soco no estômago. O desrespeito à sua ordem, misturado com a exibição daquela nudez que ele considerava sua propriedade exclusiva, levou-o ao limite. Ele não hesitou. Chutou as calças de pijama para o lado e mergulhou na água fria, nadando com uma força bruta e eficiente.

Eduarda ouviu o som das braçadas poderosas dele se aproximando. Ela tentou nadar mais rápido, mas o corpo de Emanuel, treinado e impulsionado pela adrenalina da fúria, era muito superior. Em poucos minutos, ela sentiu uma mão forte e grande fechar-se em torno de seu tornozelo sob a água.

Ela soltou um gritinho de surpresa e prazer quando foi puxada para trás. Emanuel emergiu logo atrás dela, o rosto molhado, os cabelos grudados na testa e os olhos brilhando com uma intensidade predatória. Ele a envolveu pela cintura, puxando o corpo dela contra o seu com uma possessividade violenta.

— Você acha que isso é um jogo? — sussurrou ele contra o ouvido dela, a voz rouca, a respiração quente contrastando com a água fria. — Você acha que pode me desobedecer, se expor desse jeito e sair ilesa?

— Manu... você está me apertando — ela murmurou, a manha voltando com força total enquanto ela se encolhia nos braços dele, sentindo a rigidez do corpo dele contra suas costas nuas.

— Eu vou fazer muito mais do que te apertar, sua pirracenta — disse ele, virando-a de frente para si. — Você não tem noção do perigo que correu. E agora, você é minha. Aqui no mar, em casa, em qualquer lugar.

Ele a pegou no colo, os braços musculosos sustentando o peso dela e dos bebês com facilidade. Emanuel caminhou de volta para a areia, ignorando o frio, ignorando tudo o que não fosse a mulher nua e trêmula em seus braços.

Ao chegarem na areia, ele não a soltou. Caminhou direto para a casa, subindo as escadas com passos pesados. Sara estava na porta da cozinha, tomando um copo de leite, e observou a cena com um sorriso irônico e cúmplice.

— Pelo visto, a sereia foi capturada pelo pirata — comentou Sara, sem se abalar com a nudez de Eduarda ou a fúria de Emanuel. — Cuidado com o tapete, Emanuel, vocês estão pingando.

— Vá para o quarto, Sara — Emanuel ordenou, sem sequer olhar para ela. — Não quero interrupções.

— Divirtam-se — respondeu a loira, piscando para Eduarda, que apenas escondeu o rosto no pescoço de Emanuel, sentindo o cheiro de mar e o calor da pele dele.

Dentro do quarto, Emanuel chutou a porta para fechá-la e colocou Eduarda de pé no centro do tapete felpudo. A água escorria de ambos, criando uma poça, mas ninguém se importava. Ele a encarou, as mãos nos quadris, a respiração ainda desregulada.

— Tira o resto — comandou ele.

Eduarda obedeceu, desamarrando o sutiã do biquíni e deixando-o cair. Ela ficou ali, completamente nua, com a barriga de cinco meses exibindo a vida que ele plantara nela, os cabelos castanhos grudados nos ombros. Ela parecia uma ninfa, frágil e ao mesmo tempo poderosa em sua capacidade de desarmá-lo.

— Você foi muito, muito malcriada hoje, Duda — disse ele, aproximando-se lentamente. — Você sabe o que eu faço com quem me desobedece desse jeito?

— Você me protege, Manu — ela sussurrou, dando um passo à frente e encostando o peito no dele, os olhos grandes e úmidos buscando os dele. — Você cuida de mim.

— Eu vou cuidar de você — prometeu ele, a mão descendo para as nádegas dela e apertando-as com força, arrancando-lhe um gemido. — Mas primeiro, eu vou te lembrar a quem você pertence. Eu vou marcar cada centímetro desse seu corpo de novo, para que você nunca mais pense que pode nadar para longe de mim.

Ele a pegou novamente e a jogou na cama, cobrindo o corpo dela com o seu. O encontro foi uma mistura de punição e adoração. Emanuel era possessivo, suas mãos reivindicavam cada curva, cada marca da gravidez, enquanto Eduarda se entregava com uma manha que apenas alimentava o fogo dele.

— Diga — ordenou ele, enquanto seus lábios trilhavam um caminho de beijos ardentes pelo pescoço dela. — Diga que você nunca mais vai fazer isso. Diga que você é minha.

— Eu sou sua, Manu... — ela arqueou o corpo, os dedos cravando-se nos ombros tatuados dele. — Só sua. Sempre sua.

— E dos bebês — ele acrescentou, a voz suavizando-se por um breve segundo ao tocar a barriga dela, antes de voltar a ser o amante exigente. — E ai de você se tentar fugir de novo. Eu vou te buscar no inferno se for preciso, Eduarda.

Horas depois, quando o sol já estava alto no céu, o quarto estava mergulhado em uma penumbra preguiçosa. Emanuel estava sentado na cabeceira da cama, as costas apoiadas no travesseiro, enquanto Eduarda dormia profundamente, aninhada em seu peito, exausta e satisfeita.

A porta se abriu silenciosamente e Sara entrou, trazendo uma bandeja com frutas e suco. Ela sentou-se na beira da cama, observando a cena com uma expressão de paz.

— Ela deu muito trabalho? — perguntou a loira, pegando um pedaço de melão.

— Ela é uma pirracenta — Emanuel respondeu, mas sua mão não parava de acariciar os cabelos de Eduarda. — Mas ela é a minha pirracenta.

— Ela precisava disso — Sara disse, olhando para a morena. — Ela precisava sentir que ainda tem fogo, que não é só uma incubadora. E você... você precisava lembrar que não tem controle total sobre nada, Emanuel. Nem sobre o mar, nem sobre ela.

Emanuel olhou para Sara, a mulher que entendia suas sombras melhor do que ninguém, e depois para Eduarda, a mulher que trazia a luz para sua vida.

— Eu tenho tudo o que preciso aqui — disse ele, a voz firme. — E se eu tiver que lutar contra o mar todos os dias para mantê-las seguras, eu lutarei.

Sara sorriu e inclinou-se para beijar o ombro de Emanuel.

— Eu sei que sim. Agora, coma algo. Você vai precisar de energia. A Valentina acordou e está chutando como uma jogadora de futebol, e eu quero uma massagem nas costas antes do almoço.

Emanuel soltou um suspiro, mas havia um brilho de contentamento em seus olhos.

— Duas grávidas... — murmurou ele. — Eu devo ter feito algo muito bom ou muito ruim na outra vida para merecer esse caos.

— Você fez o que era necessário, Manu — disse Eduarda, abrindo os olhos lentamente e sorrindo para os dois. — Você nos amou.

Ela se esticou e pegou uma cereja da bandeja de Sara, levando-a à boca com a mesma manha que iniciara toda a confusão naquela manhã. Emanuel observou o movimento, sentindo a possessividade borbulhar novamente, mas desta vez, era uma chama calma, constante.

Naquela casa de praia, entre as armas escondidas do passado e as promessas do futuro, Emanuel, Sara e Eduarda haviam construído um mundo próprio. Um mundo onde a fúria era apenas outra forma de cuidado, onde a manha era uma arma de sedução e onde o amor, em toda a sua complexidade possessiva, era a única lei que realmente importava. E enquanto as ondas continuavam a bater contra as rochas lá fora, dentro daquelas paredes, o mar estava, finalmente, em paz.

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