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D

Vertigem, Renda e a Fúria de um Protetor

O sol da tarde filtrava-se pelas janelas do estúdio de ensaios, iluminando as partículas de poeira que dançavam no ar ao som de um piano suave. O retorno da fazenda havia sido, em teoria, para descanso, mas Emanuel parecia mais tenso do que nunca. A gravidez de Sara, agora entrando na sexta semana, havia ativado nele um instinto de vigilância que beirava o obsessivo.

No sofá de couro da recepção do teatro, Sara estava acomodada entre almofadas que Emanuel fizera questão de trazer do carro. Ela usava um conjunto de malha canelada bege, extremamente justo, que evidenciava cada curva de seu corpo siliconado, e seus cabelos loiros estavam presos em um rabo de cavalo alto e impecável.

— Emanuel, pelo amor de Deus, eu só pedi um suco, não um banquete de nutrientes — reclamou Sara, embora houvesse um sorriso enviesado em seus lábios enquanto ele lhe entregava um copo térmico e um pote com castanhas orgânicas.

— O médico disse que você precisa de magnésio e hidratação constante, Sara. E pare de cruzar as pernas desse jeito, pode prejudicar a circulação — Emanuel respondeu, o tom de voz firme, mas as mãos acariciando o ombro dela com uma ternura que ele só reservava às suas duas mulheres.

— Você está insuportável desde que voltamos do interior — ela provocou, pegando uma castanha e apontando para o palco. — Devia estar preocupado com a sua "outra" ali. Ela está ensaiando aquela cena final há horas.

Emanuel desviou o olhar para o palco. Eduarda estava lá, pequena e etérea em um collant azul-claro e uma saia de ensaio de tule fino. Ela parecia flutuar, os movimentos fluidos e precisos de quem respira a dança desde a infância. Ele sentiu o peito aquecer. Duda era o seu contraponto de paz, a doçura que equilibrava a intensidade vulcânica de Sara.

— Ela está segura no palco — murmurou Emanuel, mais para si mesmo do que para Sara. — O chão é estável.

— Veremos — disse Sara, com um brilho enigmático nos olhos. Ela sabia de algo que ele não sabia.

Emanuel caminhou até a lateral do palco para observar mais de perto. Ele gostava de ver o foco de Eduarda, a forma como a timidez dela desaparecia quando a música começava. Mas, de repente, o piano parou. O diretor do espetáculo, um homem magro e gesticulador chamado Ricardo, subiu ao palco.

— Certo, Eduarda! — gritou Ricardo. — Vamos testar o mecanismo de içamento para o ato da ascensão. Equipe de apoio, preparem os cabos!

Emanuel franziu o cenho.

— Içamento? — ele perguntou em voz alta, a voz cortando o silêncio do teatro.

Eduarda, que estava concentrada, deu um pulinho de susto ao ouvir a voz dele. Ela olhou para a lateral e viu Emanuel parado ali, com os braços cruzados e uma expressão que ela conhecia bem: o prelúdio de uma tempestade.

— Manu! Você ainda está aí? — ela perguntou, a voz doce e levemente trêmula.

— O que ele quis dizer com cabos, Eduarda? — Emanuel deu dois passos para cima do palco, ignorando o olhar de reprovação do diretor.

— É a parte mais linda do espetáculo, Manu! — Eduarda explicou, aproximando-se dele com passos curtos de bailarina. — Eu sou levada para o alto, como se estivesse virando um espírito. É pura arte.

Dois técnicos se aproximaram com cintos de segurança reforçados e cabos de aço finos, quase invisíveis sob a luz do teatro. Emanuel sentiu o sangue ferver. A ideia de Eduarda, sua frágil e delicada Eduarda, pendurada a metros do chão por fios de aço, disparou todos os seus alarmes de proteção.

— Nem pensar — disse Emanuel, a voz baixa e perigosa. — Ricardo, não é? O ensaio acabou para ela.

O diretor piscou, confuso.

— Perdão? Quem é você? Estamos no meio de uma marcação técnica crucial.

— Eu sou o homem que decide se ela coloca a integridade física em risco ou não — Emanuel retrucou, aproximando-se do diretor com uma postura intimidadora. — Ela não vai subir nesses fios.

— Manu, para com isso! — Eduarda interveio, ficando entre ele e o diretor. Ela fez um biquinho, os olhos grandes começando a brilhar com a teimosia que só ele conseguia despertar. — Eu ensaiei meses para isso. É seguro!

— Seguro? — Emanuel apontou para o teto, onde as roldanas esperavam. — Você pesa quarenta e poucos quilos, Eduarda. Um vento, um erro humano, e você cai. Eu não vou permitir. Desça do palco agora.

— Não! — Eduarda bateu o pé, uma pirraça clara. — Eu não sou um dos seus tatuadores que você manda e desmanda. Eu sou a solista!

Sara, que havia se levantado e caminhado até a beira do palco, assistia a tudo com um sorriso divertido, bebendo seu suco.

— Deixa ela voar, Emanuel! — gritou Sara da plateia. — Se ela cair, você pega! Você é grande o suficiente para isso!

— Sara, não ajude! — Emanuel rugiu, sem desviar os olhos de Eduarda. — Duda, eu estou falando sério. Se você não descer, eu mesmo tiro você daí e te levo para casa agora.

Eduarda sentiu a insegurança típica tentar dominá-la, mas a paixão pelo ballet falou mais alto. Ela sabia que Emanuel a amava, mas aquele controle estava sufocando sua arte. Em um movimento rápido e inesperado, ela se virou para os técnicos.

— Prendam logo! — ordenou ela.

— Eduarda! — Emanuel tentou segurá-la pelo braço, mas ela se esquivou com a agilidade de uma bailarina, deslizando para o centro do palco.

Os técnicos, intimidados pela autoridade de Eduarda no teatro, mas nervosos com o olhar assassino de Emanuel, prenderam os ganchos no cinto escondido sob o collant dela. Antes que Emanuel pudesse reagir, o motor elétrico zumbiu e Eduarda começou a subir.

— Eduarda, desça já daí! É uma ordem! — Emanuel estava na beira do fosso da orquestra, as mãos cerradas em punhos. Ele estava furioso, o rosto vermelho de tensão.

Lá de cima, a cerca de quatro metros de altura, Eduarda sentiu-se poderosa. O medo que ela costumava sentir em terra firme desapareceu no ar. Ela olhou para baixo e viu o homem que amava, o seu protetor, parecendo tão pequeno em sua raiva irracional.

— Ricardo! — Eduarda gritou para o diretor. — Pode subir mais! Mais alto!

— Eduarda, você enlouqueceu? — Emanuel gritou, sua voz ecoando por todo o teatro vazio. — Você está se balançando! Para com isso!

Eduarda ignorou-o. Com um sorriso travesso, ela começou a usar o peso do próprio corpo para impulsionar o cabo. Ela se balançava de um lado para o outro, como se estivesse em um balanço invisível, e então, para o horror absoluto de Emanuel, ela executou uma pirueta no ar, os braços abertos em um arco perfeito, o corpo girando graciosamente enquanto pendia apenas pelos fios.

— Olhe, Manu! Eu estou voando! — ela exclamou, a voz cheia de uma alegria infantil e manhosa. — Eu sou um anjo!

Emanuel sentiu o coração falhar uma batida. Ele não via arte; ele via perigo. Ele via a possibilidade de perder a doçura que mantinha sua sanidade.

— Se você não descer agora, Eduarda, eu juro que subo aí e te tiro eu mesmo! — ele ameaçou, embora soubesse que não tinha como fazer isso.

— Você não alcança! — ela provocou, fazendo uma pose de "arabesque" no ar, mantendo o equilíbrio com uma facilidade irritante. — Sara, olhe como eu estou alta!

— Está linda, Duda! — Sara gritou de volta, rindo da cara de desespero de Emanuel. — Parece uma bonequinha de luxo! Emanuel, fecha a boca, vai entrar mosca.

Emanuel virou-se para Sara, incrédulo.

— Você está incentivando isso? Ela pode se machucar, Sara! E você, nesse estado, devia estar preocupada com o estresse que isso me causa!

— Ah, pare de ser dramático — Sara disse, caminhando até ele e colocando a mão em seu peito, sentindo o coração dele galopar. — Ela está feliz. E eu estou bem. O bebê gosta de emoção, não é, pequeno? — Ela acariciou a própria barriga, lançando um olhar de cumplicidade para Eduarda lá no alto.

Emanuel bufou, sentindo-se traído pelas duas. Ele voltou a olhar para cima. Eduarda agora fazia movimentos lentos com as pernas, como se caminhasse no vácuo.

— Eduarda, por favor — a voz dele suavizou, mudando da fúria para um apelo carregado de ansiedade. — Minha pequena, desce. Eu não aguento te ver aí em cima. Meu peito dói só de imaginar algo dando errado.

Eduarda parou de se balançar. A vulnerabilidade na voz de Emanuel sempre a atingia em cheio. Ela amava o lado protetor dele, mesmo quando era excessivo. Ela sinalizou para o diretor, e lentamente, o mecanismo começou a baixá-la.

Assim que os pés de Eduarda tocaram o solo de madeira do palco, Emanuel saltou para cima e a envolveu em um abraço tão apertado que ela quase perdeu o fôlego. Ele enterrou o rosto no pescoço dela, tremendo levemente.

— Nunca mais — ele sussurrou contra a pele dela. — Nunca mais faça isso comigo.

— Manu... eu estava segura — ela murmurou, retribuindo o abraço e se apoiando nele, voltando a ser a Eduarda manhosa de sempre. — Eu queria que você visse como eu sou forte também.

— Você é forte no chão, Duda. No ar, você é um alvo para o desastre — ele se afastou apenas o suficiente para olhar nos olhos dela, a expressão séria. — Se você quer fazer esse número, eu vou contratar uma equipe de engenharia independente para revisar cada parafuso desse teatro. Ou você não sobe no dia da estreia.

Eduarda suspirou, sabendo que aquele era o máximo de concessão que conseguiria dele. Ela olhou para Sara, que subia ao palco com passos lentos e calculados.

— Ele é um chato, não é? — Sara disse, abraçando Eduarda de lado e dando um beijo em sua bochecha. — Mas ele tem razão em uma coisa: você parecia um anjo. Um anjo bem teimoso.

— Eu só quero que vocês estejam bem — Emanuel disse, puxando Sara para perto também, mantendo as duas presas em seu abraço protetor. — Sara com o nosso filho, e você com a sua dança. Mas sob meus olhos. Sempre sob meus olhos.

— A gente sabe, Manu — disse Eduarda, escondendo o rosto no peito dele.

— Agora — Emanuel disse, recuperando o tom de comando —, chega de ensaio por hoje. Sara precisa comer algo sólido e você, Eduarda, precisa de um banho quente e descanso. Eu reservei um jantar para nós três.

— Comida? Finalmente algo útil saindo dessa boca — brincou Sara, dando um tapinha no braço dele.

Enquanto caminhavam para fora do palco, Emanuel mantinha uma mão na cintura de Sara e a outra segurando firmemente a mão de Eduarda. Ele ainda sentia a adrenalina do susto, o resquício da fúria que a teimosia de Duda havia provocado, mas, ao sentir o calor das duas ao seu lado, o controle voltava a se estabilizar.

Ele era o porto, e elas eram os barcos que, por mais que tentassem navegar para longe, sempre retornariam para a segurança de seus braços. E, enquanto estivessem juntos, Emanuel garantiria que nenhum mal, seja do chão ou das alturas, ousasse tocá-las.

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