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O Caderno das Sombras e o Eco da Inocência

O apartamento de Emanuel no vigésimo andar era um monumento ao minimalismo e ao luxo funcional. Paredes de concreto aparente, móveis de couro italiano e uma iluminação indireta que destacava as obras de arte contemporânea espalhadas pelas salas. No entanto, o silêncio habitual do lugar fora substituído pelo som vibrante de uma discussão que ecoava pelo corredor de mármore.

Emanuel estava parado no centro da sala de estar, os braços cruzados sobre o peito largo, a mandíbula tão tensa que os músculos de seu rosto pareciam esculpidos em pedra. À sua frente, Sara, em toda a sua glória loira e desafiadora, usava um vestido de vinil preto curtíssimo e saltos agulha que Emanuel havia expressamente proibido naquela manhã.

— Eu disse que você não deveria ir a esse evento da marca, Sara. O médico recomendou repouso total esta semana por causa da oscilação da sua pressão — a voz de Emanuel era um trovão contido, carregada de uma autoridade que raramente era questionada em seus estúdios de tatuagem, mas que Sara parecia ignorar por esporte.

— E eu disse que o evento é da minha loja, Emanuel! — Sara rebateu, ajeitando o decote que realçava o silicone impecável. Ela exalava um perfume doce e caro que preenchia o ambiente. — Eu sou a cara da marca. Não vou ficar trancada aqui como uma prisioneira grávida só porque você decidiu que é um obstetra agora.

— Eu não decidi nada, eu estou protegendo você e o meu filho! — Emanuel deu um passo à frente, sua presença física tornando-se opressiva. — Você é impulsiva, Sara. Você não mede as consequências. Se você passar mal naquele coquetel cheio de gente...

— Se eu passar mal, eu sei ligar para uma ambulância! — ela interrompeu, pegando a bolsa de grife sobre a mesa de centro. — Eu vou, Emanuel. E não tente me trancar, porque você sabe que eu sou capaz de quebrar essa porta de vidro só para te irritar.

Emanuel fechou os olhos, respirando fundo para não explodir. A dinâmica com Sara era sempre um campo de batalha de vontades. Ele a amava justamente por essa força, mas a gravidez havia transformado sua preocupação em algo quase paranoico.

Enquanto a tempestade rugia entre os dois, Eduarda estava sentada em um canto do sofá, encolhida como um passarinho tentando passar despercebido. Ela vestia um pijama de seda rosa pálido e segurava uma xícara de chá morno entre as mãos pequenas. Seus olhos castanhos oscilavam entre Emanuel e Sara, cheios de uma apreensão silenciosa. Ela não disse uma palavra. Sabia que, se abrisse a boca, a fúria protetora de Emanuel poderia se voltar para ela, questionando por que ela não estava descansando ou se já tinha tomado suas vitaminas.

— Duda, diga a ela que isso é loucura — Emanuel exigiu, buscando um aliado.

Eduarda apenas encolheu os ombros, dando um gole minúsculo no chá e desviando o olhar para o tapete felpudo. Ela era manhosa e sabia exatamente quando a discrição era sua melhor defesa.

— Não meta a pequena nisso, Emanuel. Ela tem juízo suficiente para saber que eu sou dona do meu nariz — Sara disparou, lançando um beijo no ar para Eduarda antes de caminhar em direção à porta. — Volto tarde. Não me espere acordado, ou melhor, espere, assim você tem tempo de pensar em como pedir desculpas por ser um ditador.

A porta bateu com um estrondo seco. Emanuel ficou parado por longos segundos, o peito subindo e descendo com força. Ele se virou para Eduarda, que imediatamente se encolheu um pouco mais no sofá, puxando as pernas para junto do corpo.

— E você? Não tem nada a dizer? — ele perguntou, a voz ainda ríspida pela adrenalina.

— Eu... eu só acho que a Sara é muito decidida, Manu — murmurou Eduarda, a voz doce e vacilante. — Você sabe que ela não gosta que mandem nela.

— Eu não mando, Eduarda. Eu cuido! — ele exclamou, passando a mão pelo cabelo curto, visivelmente exausto. — Às vezes parece que vocês duas se esforçam para me deixar louco. Uma me desafia abertamente e a outra se esconde no silêncio.

Eduarda fez um biquinho, os olhos começando a marejar. A sensibilidade dela era o seu escudo e sua arma.

— Desculpa... eu não queria te irritar.

Emanuel suspirou, o gelo em seu coração derretendo instantaneamente diante da fragilidade dela. Ele caminhou até o sofá e sentou-se ao seu lado, puxando-a para o seu colo. Eduarda se acomodou ali com naturalidade, escondendo o rosto na curva do pescoço dele, aspirando o cheiro de tinta e sabonete caro.

— Tudo bem, pequena. Eu só estou estressado — ele sussurrou, beijando o topo da cabeça dela. — Vá para o quarto. Eu vou organizar umas pastas do escritório e já vou deitar com você. Preciso de silêncio para não sair atrás daquela loira teimosa e arrastá-la de volta pelos cabelos.

Eduarda assentiu, deu um beijo carinhoso na bochecha dele e se levantou, caminhando com leveza até o quarto principal.

Emanuel, buscando distrair a mente da imagem de Sara em uma festa barulhenta, decidiu organizar a estante de livros de arte e as pastas de documentos que haviam sido trazidas da fazenda. Ele começou a mover os volumes pesados de História da Arte de Eduarda quando, por trás de um tratado sobre o Renascimento, um pequeno caderno de capa de couro desgastado caiu no chão.

Ele franziu o cenho. Não reconheceu o objeto. Ao pegá-lo, percebeu que era um diário ou um caderno de anotações pessoal. A curiosidade, impulsionada pelo seu instinto de saber tudo sobre as vidas delas, falou mais alto que sua ética.

Ao abrir as primeiras páginas, viu a caligrafia redonda e delicada de Eduarda. Eram pensamentos sobre ballet, poesias curtas e medos bobos de adolescente. Ele sorriu, sentindo uma onda de afeto. Mas, ao virar mais algumas páginas, o sorriso desapareceu.

Havia uma lista. No topo da página, escrito com uma caneta gel brilhante, estava o título: "Candidatos".

Emanuel sentiu o sangue gelar. Abaixo do título, nomes de homens que ele não conhecia, ou conhecia vagamente dos tempos de faculdade dela. Ao lado de cada nome, anotações detalhadas e perturbadoras para o seu senso de posse.

"Felipe (Monitor de História): Gentil, mãos bonitas. Talvez seja paciente o suficiente para a primeira vez." "Gustavo (Irmão da Marina): Experiente. Dizem que ele é cuidadoso. Seria menos doloroso?" "Professor Leandro: Inteligente. A conversa me atrai, mas ele é velho demais?"

O caderno tremeu nas mãos de Emanuel. O conteúdo era claro: Eduarda, sua doce, tímida e "pura" Eduarda, havia feito um levantamento metódico de com quem ela deveria perder a virgindade. Ele leu as descrições de como ela imaginava o ato, as dúvidas sobre a dor, as ponderações sobre o caráter de cada um daqueles homens.

A fúria que ele sentira por Sara não era nada comparada à queimação gélida que subia por sua espinha agora. Era uma mistura de ciúme retrospectivo e uma sensação de que a imagem de "boneca de porcelana" de Eduarda tinha camadas que ele nunca acessara. Mesmo sabendo que o caderno era antigo — as datas eram de dois anos atrás, antes de ele entrar na vida dela de forma definitiva —, a ideia de que ela havia cogitado outros homens para algo tão íntimo o deixava possesso.

Ele fechou o caderno com força, o som ecoando como um tiro no apartamento silencioso. Levantou-se e caminhou em direção ao quarto, os passos pesados.

Eduarda estava deitada, lendo um livro sob a luz do abajur. Quando viu Emanuel entrar, seu sorriso murchou ao notar a expressão dele. Ele não parecia apenas irritado; parecia ferido e perigoso.

— Manu? O que houve? A Sara ligou? — ela perguntou, sentando-se rapidamente.

Emanuel não disse nada. Apenas jogou o caderno de couro sobre a colcha de seda, bem na frente dela.

Eduarda olhou para o objeto e empalideceu instantaneamente. Suas mãos subiram para a boca, e os olhos se arregalaram em puro terror.

— Onde... onde você achou isso? — a voz dela era um fio, quase inaudível.

— Estava escondido atrás dos seus livros, Eduarda — Emanuel disse, a voz baixa e carregada de uma tensão vibrante. — "Candidatos"? É assim que você via os homens? Como uma lista de compras para a sua entrega?

— Manu, isso é velho! Eu tinha dezoito anos, eu estava com medo, eu não sabia nada sobre a vida! — ela começou a justificar, as lágrimas já transbordando. — Foi antes de você! Muito antes!

— Não importa o tempo, Eduarda! — ele explodiu, aproximando-se da cama e apoiando as mãos no colchão, cercando-a. — A ideia de que você passou noites planejando... avaliando o toque desses sujeitos... pensando se o "Professor Leandro" seria melhor que eu...

— Eu não conhecia você! — ela gritou, sua forma de defesa sendo a entrega total ao choro. — Eu era insegura, Emanuel! Eu achava que precisava planejar tudo para não sofrer. Mas eu não fiz nada com nenhum deles! Você sabe disso! Você foi o único!

Emanuel respirou fundo, o rosto a centímetros do dela. O cheiro de baunilha dela o atingia, desarmando-o, mas a imagem da lista ainda queimava em sua retina.

— Eu sei que fui o único — ele disse, a voz agora rouca, possessiva. — Mas o fato de esses nomes terem passado pela sua cabeça, de você ter permitido que eles fizessem parte dos seus desejos, mesmo que platônicos... isso me deixa doente.

Eduarda soluçou, escondendo o rosto nas mãos.

— Você é tão injusto... você tem a Sara, você tem o seu passado... eu nunca tive ninguém e você me julga por um caderno de sonhos bobos?

Emanuel sentiu a pontada de culpa. Ele era um homem de vinte e cinco anos, com uma bagagem vasta, vivendo um relacionamento complexo com duas mulheres. Eduarda era a sua âncora de pureza. Ver aquela lista era como ver uma mancha em um cristal que ele jurou proteger.

— Eu não estou te julgando pela ação, Eduarda. Estou te julgando por ter me escondido que sua mente não era tão inocente quanto você finge ser — ele sentou-se na beira da cama, o peso de seu corpo afundando o colchão. — Eu cuido de você. Eu te dou tudo. E descobrir que você olhava para esses caras e imaginava...

— Eu não imaginava nada de bom! — ela se jogou nos braços dele, abraçando-o com força, o corpo tremendo contra o dele. — Eu só tinha medo de ficar sozinha! Quando eu te conheci, aquele caderno morreu. Eu esqueci que ele existia. Por favor, Manu... não fica bravo comigo. Eu sou sua. Só sua.

Emanuel fechou os olhos, os braços envolvendo-a automaticamente. O instinto protetor vencendo, mais uma vez, a fúria do ego. Ele a apertou contra o peito, sentindo a fragilidade dos ossos dela, a maciez de sua pele.

— Eu vou queimar esse caderno, Eduarda — ele sentenciou, a voz sombria. — E se eu algum dia ouvir o nome de qualquer um desses "candidatos" saindo da sua boca, ou se eu cruzar com algum deles na faculdade... eu não vou responder por mim.

— Pode queimar... pode fazer o que quiser — ela soluçou contra o peito dele, sentindo-se protegida e, ao mesmo tempo, completamente dominada. — Eu só quero você.

— É bom que queira — ele murmurou, afastando-a um pouco para olhar em seus olhos vermelhos. — Porque agora que eu sei o que se passa nessa sua cabecinha, eu vou ter que redobrar a vigilância. Você é muito mais perigosa do que a Sara, pequena. Ela ataca de frente, mas você... você se infiltra nos pensamentos.

Eduarda baixou o olhar, um traço de sua timidez habitual retornando, mas no fundo, havia um alívio. O segredo fora exposto, e Emanuel, em sua fúria possessiva, apenas a amarrara ainda mais a ele.

Nesse momento, o som da porta da frente se abrindo e o barulho de saltos altos no mármore anunciaram o retorno de Sara.

— Cheguei, família! — a voz dela ecoou, levemente alterada pelo champanhe. — E antes que o dinossauro comece a rugir, eu trouxe comida tailandesa!

Emanuel olhou para a porta e depois para Eduarda. Ele pegou o caderno da colcha e o guardou no bolso da calça.

— Não conte nada a ela — ele ordenou. — Sara não precisa de mais motivos para zombar da sua "inocência". Isso é entre nós dois.

Eduarda assentiu, limpando as lágrimas com as costas das mãos.

— Vai lá falar com ela, Manu. Ela parece feliz.

Emanuel levantou-se, sentindo o peso das suas responsabilidades. Ele tinha uma mulher grávida e rebelde na sala e uma bailarina cheia de segredos no quarto. Sua vida era um caos de emoções, mas, enquanto caminhava para a sala para confrontar Sara e seu vestido provocante, ele sabia que não saberia viver de outra forma.

Ele era o senhor daquele império, o protetor daquelas duas vidas tão distintas e tão entrelaçadas. E, embora o caderno de Eduarda ainda queimasse em seu bolso, o calor de tê-las sob seu teto era a única coisa que realmente importava.

— Sara! — ele gritou ao entrar na sala, vendo-a jogada no sofá, tirando os saltos com um suspiro de alívio. — Se você derramou molho de curry nesse sofá, eu juro que te mando dormir na banheira!

— Ah, cale a boca e venha comer, Emanuel — Sara respondeu com um sorriso radiante. — O bebê quer camarão, e eu quero que você pare de franzir a testa. Duda! Vem comer, pequena!

Eduarda apareceu na porta do quarto, ainda com os olhos levemente inchados, mas com um sorriso doce no rosto. Ela caminhou até o sofá e sentou-se ao lado de Sara, que imediatamente passou o braço pelos ombros da mais nova.

— Por que você está com cara de quem chorou? O ogro te deu bronca? — Sara perguntou, olhando de soslaio para Emanuel.

— Só um pouquinho — Eduarda mentiu com perfeição, encostando a cabeça no ombro de Sara. — Mas já passou.

Emanuel observou as duas. A loira vulgar e magnífica, a castanha tímida e misteriosa. Ele sentou-se na poltrona à frente delas, abrindo as embalagens de comida. O perigo, o ciúme e a teimosia eram apenas temperos em uma vida que ele não trocaria por nada. Ele era o centro delas, e elas eram o seu mundo. E, por aquela noite, o fogo do fogão e o brilho dos olhos delas seriam as únicas chamas permitidas naquele lar.

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