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O Silêncio de Vidro e o Som do Berço
A mansão de Emanuel sempre fora um monumento à sua disciplina e ao seu sucesso. Mas, nos últimos quatro meses, o mármore e o couro deram lugar a um tipo diferente de ordem: a proteção absoluta. Ágata havia nascido em uma manhã chuvosa, pequena, mas com os pulmões fortes de quem herdara a vitalidade de Sara. Desde então, Emanuel havia erguido muros invisíveis. Ninguém, além dos funcionários de extrema confiança e dos médicos, cruzara o portão. Ele justificava com a imunidade da bebê, com a necessidade de Sara se recuperar, com a privacidade. Mas a verdade era que ele queria aquele núcleo intocado, um santuário onde ele pudesse exercer seu controle total e seu amor possessivo.
Agora, com Ágata completando quatro meses, as comportas finalmente se abriram. O grupo de amigos, ávido por conhecer a herdeira do império das tatuagens, começou a desfilar pela sala de estar. Sara, já ostentando seu corpo escultural recuperado com a ajuda de procedimentos estéticos caros e uma genética privilegiada, recebia a todos com seu sarcasmo habitual, agora suavizado por uma aura de triunfo materno.
— Ela é a minha cara, admitam — dizia Sara, ajeitando o laço rosa gigante na cabeça da bebê, enquanto servia champagne para os amigos. — Puxou a beleza da mãe e, graças a Deus, a conta bancária do pai.
Emanuel, no entanto, não estava prestando atenção nos elogios ou nas risadas. Ele estava encostado no batente da porta, os braços cruzados sobre o peito largo, os olhos escuros varrendo a sala repetidamente. Ele contou os rostos. Um, dois, cinco, oito amigos. Faltava um.
Faltava a presença suave que ele esperava ver desde que o primeiro convite fora enviado.
— Onde ela está, Sara? — perguntou ele, a voz baixa, aproximando-se da mulher quando houve uma brecha entre as visitas.
Sara nem precisou perguntar de quem ele falava. Ela conhecia a obsessão silenciosa do marido.
— A Duda? Não sei, Manu. Ela visualizou a mensagem, disse que tentaria vir, mas sumiu. Deve estar atolada com as provas da faculdade ou algum ensaio de ballet — Sara deu de ombros, sem se abalar. — Você conhece a menina, ela se perde nos próprios pensamentos.
— Quatro meses, Sara — Emanuel rosnou, a mandíbula tensa. — Eu proibi todo mundo, mas ela sabe que para ela as portas estavam abertas. Eu mandei o motorista buscá-la duas vezes na semana passada e ela recusou.
— Talvez ela esteja intimidada — sugeriu Sara, tocando o braço dele com as unhas perfeitamente feitas. — Você sabe que ela é toda delicada. Ver a gente assim, com a bebê, a casa cheia... talvez ela sinta que não pertence. Vai atrás dela depois, se isso está te matando. Eu não me importo.
Emanuel não respondeu. A irritação crescia dentro dele como uma tempestade. Ele cuidava de Eduarda à distância, monitorava suas redes sociais, garantia que ela tivesse os melhores materiais para suas aulas de história da arte, mas o silêncio dela nas últimas semanas era algo que ele não conseguia controlar. E Emanuel odiava perder o controle.
***
Do outro lado da cidade, em um bairro residencial tranquilo onde as árvores faziam sombra sobre casas de classe média alta, o cenário era de puro desespero silencioso.
Eduarda estava sentada no chão da sala, o cabelo castanho preso em um coque desfeito, olheiras profundas marcando seu rosto geralmente angelical. Em seus braços, uma pequena criatura de quatro meses chorava baixinho, um choro de cansaço. Maya.
A prima de Eduarda, uma mulher volúvel e perdida em vícios que a família tentava ignorar, havia aparecido na porta de Eduarda há três semanas com uma bolsa de fraldas e um olhar vazio. "Só por uns dias, Duda. Eu não aguento mais, eu vou fazer uma besteira", ela dissera. E desaparecera no mundo, deixando para trás um bebê que mal conhecia o cheiro da própria mãe.
Eduarda, em sua natureza infinitamente carinhosa e incapaz de dizer não ao sofrimento alheio, assumiu o fardo. Seus pais, modernos e compreensivos, ajudaram-na no início, mas naquela semana eles haviam viajado para um congresso no exterior, acreditando que a prima voltaria a qualquer momento. Eduarda estava sozinha.
— Shhh, Maya... a tia está aqui — sussurrou ela, balançando a bebê. — Vai ficar tudo bem.
Ela olhou para o celular em cima da mesa. Havia dez chamadas perdidas de Emanuel. Várias mensagens de Sara. Ela queria ir. Deus, como ela queria ver Emanuel. Sentir a proteção dele, ouvir sua voz firme dizendo que tudo ficaria bem. Mas como explicaria Maya? Ela tinha medo de que Emanuel a julgasse, ou pior, que ele tirasse Maya dela para entregá-la ao conselho tutelar, algo que sua intuição dizia que seria o fim daquela bebê. Eduarda era sensível demais; ela sentia a dor de Maya como se fosse sua.
O som de um motor potente estacionando em frente à casa fez seu coração disparar. Ela conhecia aquele som. Era o Porsche preto de Emanuel.
— Não, agora não... — murmurou ela, entrando em pânico.
Ela tentou levantar-se para esconder a bebê no quarto, mas Maya, sentindo a agitação da tia, começou a chorar mais alto. A campainha tocou uma, duas, três vezes. Depois, o som da chave reserva — que Emanuel possuía por insistência dos pais de Eduarda para "emergências" — girando na fechadura.
Emanuel entrou na casa como um furacão contido. Ele estava com a mesma roupa da festa, a camisa social com os primeiros botões abertos, exalando poder e uma fúria fria.
— Eduarda, que diabos está acontecendo? Você não atende a...
Ele travou no meio da sala. Seus olhos, acostumados a observar detalhes mínimos em tatuagens complexas, focaram na cena diante dele. Eduarda, pálida e trêmula, segurando um bebê que claramente não era um boneco de ensaio de ballet.
O silêncio que se seguiu foi denso, carregado de uma eletricidade perigosa.
— De quem é essa criança? — a voz de Emanuel saiu como um chicote, baixa e perigosa.
— Emanuel, eu... eu posso explicar — Eduarda começou, as lágrimas inundando seus olhos expressivos. — Por favor, não grita, ela acabou de dormir... quer dizer, ela está tentando dormir.
Emanuel ignorou o pedido. Ele caminhou até ela em passos largos, reduzindo a distância entre eles até que Eduarda pudesse sentir o calor dele e o cheiro de perfume misturado ao estresse.
— De quem é esse bebê, Eduarda? E por que você está escondida aqui há semanas cuidando de uma criança que não é sua enquanto eu estou feito um idiota esperando você visitar a minha filha?
— É a Maya — soluçou ela, apertando a bebê contra o peito esguio. — A minha prima... ela a deixou comigo. Ela sumiu, Emanuel. Eu não podia deixar a bebê sozinha. Meus pais estavam ajudando, mas eles viajaram e eu não quis preocupar ninguém.
Emanuel sentiu uma veia pulsar em sua têmpora. A lógica racional que ele tanto prezava estava sendo estilhaçada pela visão de Eduarda — sua Duda, a criatura que ele queria colocar em uma redoma de vidro — agindo como uma mãe exausta para o filho de uma desconhecida irresponsável.
— Você enlouqueceu? — ele rugiu, embora tenha baixado o tom ao ver Maya se mexer. — Você está negligenciando sua faculdade, sua vida, por causa de uma mulher que te usou? Você não é mãe, Eduarda! Você é uma menina de vinte anos que mal sabe cuidar de si mesma!
— Eu sei cuidar dela! — Eduarda rebateu, uma faísca de resistência surgindo em sua timidez. — Ela precisa de mim. Ninguém mais a quer.
Emanuel passou as mãos pelo cabelo, frustrado. Ele queria sacudi-la e, ao mesmo tempo, pegá-la no colo e levá-la para longe dali. A visão de Eduarda naquele estado — manhosamente cansada, mas ferozmente protetora — despertou nele um instinto de posse que ele mal conseguia conter.
— Você vem comigo — declarou ele, em um tom que não admitia discussões.
— O quê? Não, Emanuel, eu não posso...
— Você vem comigo agora. Pegue as coisas dessa criança. Vocês vão para a minha casa.
— Mas e a Sara? E a Ágata? — Eduarda arregalou os olhos. — Eu não posso simplesmente levar um bebê estranho para a sua casa perfeita.
Emanuel soltou uma risada seca, sem humor.
— A Sara já sabe que eu sou louco por você, Eduarda. Ela não liga. E a minha casa é grande o suficiente para dez bebês se for preciso. O que eu não vou permitir é que você fique aqui, definhando nesse martírio, sem dormir e sem comer direito, por causa de um erro da sua prima.
Ele se aproximou mais, sua mão grande e calejada segurando o queixo de Eduarda, forçando-a a olhar para ele.
— Eu sou o homem que resolve as coisas, esqueceu? Se você quer cuidar dessa criança, você vai fazer isso sob a minha supervisão. Onde eu possa ver você. Onde eu possa garantir que você também seja cuidada.
— Emanuel... — ela sussurrou, a resistência desaparecendo enquanto ela se apoiava na força dele, como sempre fazia. — Eu estou tão cansada.
— Eu sei, pequena. Eu sei.
Ele pegou a bebê dos braços dela com uma facilidade surpreendente. Maya, sentindo a firmeza e a segurança daquele homem desconhecido, parou de chorar e apenas o encarou com olhos curiosos. Emanuel olhou para a pequena intrusa com um desdém protetor.
— Vamos. Agora.
***
A chegada na mansão foi um evento à parte. Sara estava na cozinha, tomando um suco verde, quando Emanuel entrou carregando um bebê desconhecido, seguido por uma Eduarda que parecia um fantasma de si mesma.
— Mas o que é isso? — Sara perguntou, arqueando uma sobrancelha loira. — Manu, eu disse para você trazer a Duda, não para sequestrar uma creche.
— A prima dela a abandonou com essa criança — Emanuel disse, passando direto para o andar de cima. — Ela vai ficar no quarto de hóspedes ao lado do berçário. Sara, ligue para a Dra. Helena. Quero que ela examine esse bebê ainda hoje. E chame a babá da Ágata para ajudar a Eduarda.
Sara olhou para Eduarda, que estava parada na entrada, encolhida em seu cardigã bege. A loira caminhou até ela e, para surpresa de Eduarda, não houve julgamento ou deboche. Sara apenas colocou a mão em seu ombro.
— Você é um coração mole mesmo, não é, Duda? — Sara sorriu, um sorriso genuíno que mostrava que ela estava no controle da situação. — Relaxa. O Emanuel está furioso porque ele odeia não ter sido o primeiro a saber. Ele quer ser o seu herói, e você deu o papel para um bebê de fraldas.
— Me desculpa, Sara... eu não queria causar problemas.
— Problema seria você ficar lá sozinha e ter um colapso. O Manu cuidaria de você, mas ele provavelmente mataria a sua prima depois. Vem, vamos subir. Você precisa de um banho e de comida de verdade.
Nas horas seguintes, a mansão de Emanuel transformou-se em um centro de operações. Enquanto a babá cuidava de Maya sob o olhar atento e ainda desconfiado de Emanuel, Sara levou Eduarda para um banho relaxante e deu a ela um de seus robes de seda — que ficava absurdamente grande e sensual na figura esguia da bailarina.
Mais tarde, quando a casa finalmente silenciou e as duas bebês dormiam em seus respectivos berços, Emanuel encontrou Eduarda na varanda do quarto de hóspedes. Ela olhava para o jardim iluminado, parecendo mais calma, mas ainda frágil.
Ele se aproximou por trás, envolvendo a cintura dela com os braços. Eduarda estremeceu, mas não se afastou. Ela se inclinou para trás, encaixando-se perfeitamente no corpo dele.
— Você nunca mais faça isso — ele murmurou contra o cabelo dela. — Nunca mais se esconda de mim quando as coisas ficarem difíceis.
— Eu tive medo, Emanuel. Você tem uma vida perfeita agora. A Sara, a Ágata... eu não queria ser um peso.
Emanuel virou-a de frente para ele, prendendo-a entre seus braços e o parapeito. A luz da lua destacava a doçura do rosto dela, e a tensão acumulada nos últimos quatro meses explodiu nele.
— Você nunca será um peso, Eduarda. Você é a parte da minha vida que me mantém humano. A Sara entende isso. Ela sabe que eu a amo, mas ela também sabe que eu não estou completo sem você.
Eduarda olhou para ele, os olhos arregalados pela confissão direta.
— O que você está dizendo?
— Estou dizendo que agora que você está sob o meu teto, eu não vou deixar você sair. Eu quero você aqui. Quero cuidar da Ágata, da Maya, da Sara e de você. Eu sou um homem ambicioso, Duda. Eu nunca me contento com metade do que eu desejo.
Ele inclinou o rosto, a respiração quente misturando-se à dela.
— E eu desejo você desde o primeiro momento em que te vi em cima de um palco de ballet, parecendo um anjo que não pertencia a este mundo sujo.
Eduarda sentiu o coração martelar contra as costelas. Era errado, era confuso, era demais para sua sensibilidade. Mas, ao olhar para os olhos de Emanuel, ela viu uma promessa de segurança que ela nunca encontraria em outro lugar.
— E a Sara? — ela perguntou em um fio de voz.
— A Sara deu a ideia de eu falar com você — Emanuel sorriu, um sorriso predatório e ao mesmo tempo terno. — Ela quer que sejamos felizes. E a minha felicidade exige você ao lado dela.
Ele não esperou por mais perguntas. Emanuel selou os lábios nos dela, um beijo que começou com a autoridade de quem reivindica um território e terminou com a suavidade de quem protege um tesouro. Eduarda soltou um suspiro de alívio e entrega, suas mãos subindo para os ombros fortes dele, aceitando finalmente que seu lugar não era na solidão de sua casa, mas naquele arranjo complexo e intenso que Emanuel havia desenhado para todos eles.
Abaixo, na sala de estar, Sara observava a babá eletrônica que mostrava os dois berços. Ela tomou um gole de vinho, sentindo uma satisfação profunda. O império de Emanuel estava completo. E ela seria a rainha que coordenaria cada peça daquele tabuleiro, garantindo que o amor dele transbordasse para todas as direções, contanto que ela fosse sempre o alicerce.
— Bem-vinda à família, Duda — sussurrou Sara para o vazio da sala, com um sorriso vitorioso nos lábios siliconados.